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INICIAL DO NOME:

NELSON DE SOUZA KOHL

OCORRÊNCIA

Desaparecido em 15 de setembro de 1973, no Chile

DADOS PESSOAIS
Filiação: Francisco Kohl e Rita de Souza Kohl
Data e local de nascimento: 25 de janeiro de 1940, em Marília (SP)
Profissão: Tradutor
Atuação política: Militante do Partido Operário Comunista (POC)
Data e local da morte/desaparecimento: Desaparecido em 15 de setembro de 1973, no Chile
Organização política: Partido Operário Comunista (POC) .

RELATO DO CASO

Nelson de Souza Kohl nasceu em 25 de janeiro de 1940, em Marília (SP). Filho de Francisco Kohl e Rita de Souza Kohl. 
Desaparecido em 15 de setembro de 1973, no Chile. Era militante do Partido Operário Comunista (POC).

Fez seus primeiros estudos no Colégio Canadá, em Santos (SP). Em 1966, inicia-se seu interesse pela política ao tomar contato com as lutas dos estivadores do porto de Santos e dos metalúrgicos da Cosipa, em Cubatão (SP). Mudou-se para São Paulo e entrou na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo), onde cursou até o 2° ano.

Teve ativa participação nas manifestações estudantis do período, tanto na universidade como nas passeatas de rua. Em razão de sua militância no Partido Operário Comunista, passou a ser perseguido pelos órgãos da repressão política. Apesar da sua atuação clandestina, sempre visitava os pais nos fins de semana.

Em 9 de abril de 1979, João Luiz Kohl Moreira, seu sobrinho, escreveu um testemunho sobre Nelson: “(...) Somente em 1971 pude conhecer mais de perto sua vida particular. Foi quando mudei para São  Paulo e fui residir em seu apartamento em Pinheiros (bairro da cidade de São Paulo). Aí travei a  primeira conversa séria com ele e me surpreendi com o seu aspecto sério (...) Foi quando ele me alertou para os problemas que eu poderia vir a ter morando e convivendo com ele. De sua militância, dos perigos da repressão, da instabilidade da vida que levava. Pude compreender bem o que ele queria dizer (...) Desde esse dia, começamos a conversar cada vez mais sobre os problemas da realidade, fazendo leituras em conjunto e discutindo questões do movimento estudantil. (…) Foi aí que eu conheci a verdadeira admiração e magnetismo que tinha por ele. Foi aí que conheci o Nelson maravilhoso, responsável e sério. Mas nem por isso deixava de ser divertido (...) Também era admirável o seu poder de persuasão. (...)  A vida conjugal de meu tio era a mais normal possível. Percebi que eles conversavam bastante, mas, certamente, o casamento era impregnado de uma fervorosa paixão. Ele sabia cativar o amor de Elaine com um comportamento que poderíamos descrever como alegre, brejeiro, voluntarioso e adoravelmente sério nas suas devidas horas. Nelson sempre cativou as pessoas (...) num domingo de abril de 1971 cheguei de Santos e encontrei o apartamento  vazio. (...) Logo depois, chega Nelson com uma cara séria e angustiada. (...) Contou que o partido caíra. (...) Duas semanas após, a família foi visitada pela última vez. Sem dizer nada, deixou transparecer uma despedida. Despedida que só foi percebida por alguns. Em todos os momentos que me lembrei dele até hoje, sempre me deu vontade de mandar-lhe um recado: ‘É isso mesmo, tio. Essa foi a opção mais acertada’”.

Sem alternativas, Nelson exilou-se na Argentina, onde ficou até novembro de 1972, indo, posteriormente, viver em Santiago, no Chile, onde trabalhou como tradutor no Instituto de Estudos Econômicos e Sociais.

Nessa mesma época, foi julgado à revelia pela 1ª Auditoria do Exército, em São Paulo, quando foi condenado a dois anos de prisão.O desaparecimento de Nelson deu-se após seu sequestro feito por 70 soldados da Força Aérea chilena, em 15 de setembro de 1973.
A família de Nelson, ao tentar apurar o seu desaparecimento, chegou a três versões: na primeira, teria sido preso pela polícia chilena e entregue a militares brasileiros, que agiram no Chile durante o golpe que depôs o presidente Salvador Allende. Mais tarde, teria sido confinado na ilha de Fernando de Noronha. A segunda informa que foi preso e levado para a Base Aérea de San Bernardo, em Paradero, 32, da Gran Avenida, em Santiago, Chile. E a terceira, a que a família julga ser a mais provável, que teria sido metralhado pelo próprio comando que o prendeu.

Na época, sua prisão foi denunciada pelo Comitê Nacional de Ajuda aos Refugiados da ONU, a Cruz Vermelha Internacional e a Cruz Vermelha Argentina.

A Comissão de Representação Externa sobre os Desaparecidos Políticos da Câmara Federal, buscando esclarecer os casos dos mortos e desaparecidos políticos brasileiros no Chile, viajou até aquele país, na década de 1990, onde encontrou o seu atestado de óbito. De acordo com esse documento, ele teria sido morto em confronto com a polícia, dois dias depois de sua prisão. Esse atestado foi assinado pelo médico Alfredo Vargas, diretor do Instituto Médico Legal de Santiago, o mesmo que atestou a morte de dezenas de pessoas após o golpe de Estado de 1973, entre eles a do presidente Allende.

A Comissão Estadual da Verdade do Estado de São Paulo realizou a 68ª audiência pública sobre o caso de Nelson de Souza Kohl, no dia 29/08/2013 (ver transcrição em anexo - 001-audiencia-29-08-2013-n68.pdf). Na referida audiência foi lida uma mensagem enviada por Eliane Beraldo, esposa de Nelson, cujo trecho transcreve-se a seguir: "Em minha mensagem endereçada à Comissão Nacional da Verdade em novembro do ano passado estão as perguntas que me fazem questionar esse período repressivo da nossa história (...)

Assim que as retomo, acrescentando dados pessoais sobre a nossa partida do Brasil, em agosto de 1971, e a prisão e desaparecimento de Nelson, em setembro de 1973, e posterior recuperação de seu atestado de óbito no Chile, Certificado de Defunción, em 1993 pela Comissão Externa para os Mortos e Desaparecidos Políticos (...) A confirmação de sua morte, em 1993, reabriu as feridas mal cicatrizadas e o desejo de saber enfim a verdade, sobre as causas e sobre os responsáveis desses traumatismos. Individualmente essa tarefa é impossível, porém as Comissões da Verdade Nacional e de São Paulo permitem que a esperança renasça de que justiça será feita. Meu muito obrigada a todos vocês. Elaine Beraldo, Orsay, França, 28 de agosto de 2013"

Fontes investigadas: 
Conclusões da CEMDP; Dossiê Ditadura – Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil – 1964-1985, IEVE. Contribuição da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo: 68ª audiência pública sobre o caso de Nelson de Souza Kohl, no dia 29/08/2013.

IDENTIFICAÇÃO DOS AUTORES DA MORTE\DESAPARECIMENTO

Órgão / Período

Nome

Função

conduta

Vivo/data do óbito

Observações

Presidência da República

Exército

Emílio Garrastazu Médici

General e Presidente da República

Mentor da Operação Condor, destinada ao assassinato dos militantes de esquerda

Morto

Segundo a reportagem da Revista IstoÉ (anexo 004-materia-istoe-24-03-2004-a-ordem-e-matar-nelson-de-souza-kohl.pdf), foi encontrado documento nos pertences do General Antônio Bandeira, que revelou uma reunião realizada entre os generais Ernesto e Orlando Geisel e o então presidente da República, general Emílio G. Médici, da qual Bandeira também participou, e na qual foram estabelecidas as diretrizes da repressão política, de assassinados, sem deixar vestígios, dos militantes de esquerda.

Exército

Antônio Bandeira

General

Mentor da Operação Condor, destinada ao assassinato dos militantes de esquerda

Morto

Participante da reunião que idealizou e organizou as diretrizes da repressão política, no sentido de exterminar os militantes de esquerda sem deixar vestígios.

Exército

Ernesto Geilsel

General

Mentor da Operação Condor, destinada ao assassinato dos militantes de esquerda

Morto

Participante da reunião que idealizou e organizou as diretrizes da repressão política, no sentido de exterminar os militantes de esquerda sem deixar vestígios.

Exército

Orlando Geisel

General

Mentor da Operação Condor, destinada ao assassinato dos militantes de esquerda

Morto

Participante da reunião que idealizou e organizou as diretrizes da repressão política, no sentido de exterminar os militantes de esquerda sem deixar vestígios.

Exército

José Brant Teixeira (Dr. César)

Coronel

Assassinato – responsável pela operacionalização da operação CONDOR

Vivo

Responsável pelas operações do CIE (Centro de Informações do Exército)

Exército

Paulo Malhães (Dr. Pablo)

Coronel

Assassinato – responsável pela operacionalização da operação CONDOR

Morto

Era ligado à polícia política chilena (DINA) e responsável pelas operações do CIE (Centro de Informações do Exército)

FONTES DA INVESTIGAÇÃO

1. Documentação principal

Identificação do documento

Órgão da repressão

Observações

Anexo

Foto de Nelson de Souza Kohl

 

Arquivo IEVE

002-foto-nelson-de-souza-kohl-vivo.pdf

Matéria da Revista Isto É titulada “Os matadores” escrita por Amaury Ribeiro Jr.

 

 

005-materia-istoe-24-03-2004-nelson-souza-kohl.pdf

Matéria da Revista Isto É titulada “A ordem é matar” escrita por Amaury Ribeiro Jr.

 

 

006-materia-istoe-24-03-2004-a-ordem-e-matar-nelson-de-souza-kohl.pdf

Documentos de perseguição política – ficha do DOPS/SP (Departamento de Ordem Política e Social)

 

 

003-ficha-cadastro-dopssp-nelson-de-souza-kohl1.pdf e 004-ficha-cadastro-dopssp-nelson-de-souza-kohl2.pdf

2. Prova pericial e documental (inclusive fotos e vídeos) sobre a morte/desaparecimento

 

Documento

 

fonte

Observação

Anexo

 

 

 

 

3. Testemunhos sobre a morte/desaparecimento

 

Nome

relação com o morto / desaparecido

Informação

fonte com referências

 

 

 

 

4. Depoimento de agentes da repressão sobre a morte/desaparecimento

 

Nome

Órgão / Função

Informação

fonte com referências

 

 

 

 

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES PARA O CASO

Conclusão: Nelson de Souza Kohl é considerado desaparecido político, por não ter sido entregue os restos mortais aos seus familiares, não permitindo o seu sepultamento até os dias de hoje. Conforme o exposto no parágrafo 103 da Sentença da Corte Interamericana no Caso Gomes Lund e outros: “adicionalmente, no Direito Internacional, a jurisprudência deste Tribunal foi precursora da consolidação de uma perspectiva abrangente da gravidade e do caráter continuado ou permanente da figura do desaparecimento forçado de pessoas, na qual o ato de desaparecimento e sua execução se iniciam com a privação da liberdade da pessoa e a subseqüente falta de informação sobre seu destino, e permanece enquanto não se conheça o paradeiro da pessoa desaparecida e se determine com certeza sua identidade (...)”. 

No parágrafo 110 do mesmo documento é mencionado que: “(...) pode-se concluir que os atos que constituem o desaparecimento forçado têm caráter permanente e que suas consequências acarretam uma pluriofensividade aos direitos das pessoas reconhecidos na Convenção Americana, enquanto não se conheça o paradeiro da vítima ou se encontrem seus restos, motivo pelo qual os Estados têm o dever correlato de investigar e, eventualmente, punir os responsáveis, conforme as obrigações decorrentes da Convenção Americana” (Sentença da Corte Interamericana, p. 38 e 41, publicação da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo).

Recomendações: Investigação das circunstâncias da prisão, morte e desaparecimento de Nelson de Souza Kohl; que o governo brasileiro reconheça oficialmente a morte deste, decorrente de perseguição política, bem como declare a condição de anistiado político, pedindo oficialmente perdão pelos atos de exceção e violações de direitos humanos que foram praticados contra ele; a localização dos seus restos mortais, a fim de possibilitar seu digno sepultamento e responsabilização dos agentes da repressão envolvidos no caso, conforme sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que obriga o Estado Brasileiro “a investigar os fatos, julgar e, se for o caso, punir os responsáveis e de determinar o paradeiro das vítimas”.

Partido Operário Comunista (POC) .

Veja Também:

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