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	<title>Infância Roubada &#187; Nascimento</title>
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		<title>&#8220;Los niños nacen para ser felices&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 20:31:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Nascimento]]></category>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>Quero agradecer a todos os que me encorajaram a escrever minha história, ou melhor, nossa história. Muito do que contarei aqui talvez não fosse necessário para uma narrativa formal do que se passou. Só os documentos públicos seriam suficientes para mostrar as atrocidades que nós passamos, provando que até as crianças perderam sua cidadania durante a ditadura militar. Mas não foi só isso que perdemos e me estendo um pouco mais para que fiquem registrados os sentimentos, os desdobramentos, as consequências e os pontos de vista das crianças que passaram por situações adversas, inclusive até os dias de hoje. E assim possamos lutar por um futuro onde possamos dizer: “Los niños nacen para ser felices” – José Martí.</p>
<p>Meu pai iniciou sua militância no ano de 1959 com apenas 16 anos, sempre incentivado pela minha avó Tercina Dias de Oliveira. Atuou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi eleito na chapa do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco em 1962, onde militou até ser cassado pela ditadura em 1964. Continuou sua luta clandestina organizando os trabalhadores através das comissões de fábrica, o que lhe rendeu oito passagens pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) até 1967, quando elegeram José Ibrahin presidente do sindicato. Meu pai não compôs a chapa dessa vez para que não fosse impugnada, já que toda chapa precisava ser aprovada previamente pelo DOPS, mas fez questão de comparecer ao DOPS junto com Ibrahin e outros companheiros para negar que era comunista e solicitar a aprovação da chapa.</p>
<p>No 1º de maio de 1968, conduziu os trabalhadores metalúrgicos de Osasco junto com Zequinha Barreto, outro grande companheiro de luta, até a Praça da Sé, onde houve o primeiro confronto com as forças de repressão do Estado, que estavam disfarçadas de civis. Tal ato foi o ensaio para a grande greve dos metalúrgicos de Osasco, ocorrida em junho de 1968, em que os trabalhadores foram duramente reprimidos pelos militares, inclusive com tiros. Com sua prisão decretada, teve que ir para a clandestinidade, passando a atuar na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), junto com o Capitão Carlos Lamarca, minha avó Tercina Dias de Oliveira, minha mãe Jovelina Tonello Mantovani do Nascimento e outros companheiros. Nessa época vivi esse ambiente, mas era ainda uma criança muito pequena.</p>
<p>No dia 18 de maio de 1970 fui preso em São Paulo, com minha mãe. Eu tinha apenas 2 anos de idade. Fomos levados para a Oban, onde meu pai foi torturado na minha frente. Passei ainda pelos cárceres do DOPS, Presídio Tiradentes e DOI-CODI/SP. Depois de um tempo, me separaram da minha mãe e fui para um local incerto, talvez para o Juizado de Menores1. Minha mãe solicitou aos militares que me entregassem para minha madrinha, tia Bê, mas nunca o fizeram ou entraram em contato com essa tia. Fui mantido lá como qualquer outro preso político e me levaram diversas vezes às seções de tortura para ver meu pai preso no pau de arara. Para o fazerem falar, simulavam me torturar com uma corda, na sala ao lado, separados apenas por um biombo. </p>
<p>Eu tinha 2 anos e 3 meses e fui tratado como “Elemento Menor Subversivo”, terrorista e fui banido do país por decreto presidencial, conforme consta nos documentos no arquivo do Estado de São Paulo. Fiquei preso até 16 de junho de 1970, quando fomos libertados no resgate feito pelo Capitão Carlos Lamarca na troca de 442 presos políticos pelo embaixador Alemão Ehrenfried von Holleben. </p>
<p>Fui banido juntamente com minha avó Tercina Dias de Oliveira, mais conhecida como “A Tia”, que sabendo estar eu preso com meus pais, informada pelos companheiros de presídio e confirmado pelo seu interrogador, disse: “Entrei com três netos, mas só saio com quatro”. Meus pais continuaram presos.</p>
<p>Além de mim, também foram banidos meus primos-irmãos: Samuel Dias de Oliveira, filho adotivo da minha avó (9 anos de idade quando da prisão);  Luis Carlos Max do Nascimento, filho do primeiro filho adotivo de minha avó (6 anos de idade quando da prisão); e Zuleide Aparecida do Nascimento (4 anos de idade quando da prisão), irmã de sangue do Luis Carlos. Como esclarece minha avó Tercina em seu depoimento à Delegacia Especializada de Ordem Social, quando da sua prisão. Assim, minha avó só aceitou ser banida se pudesse levar consigo as quatro crianças, as três que tinham sido presas com ela e eu. Minha avó sempre contou que um sargento ou capitão, que a interrogou e não teve coragem de torturá-la fisicamente3, ajudou-a e insistiu muito para que conseguisse me levar.</p>
<p>O Decreto presidencial de 15 de junho de 1970 lista os opositores políticos presos que seriam e foram trocados pelo Embaixador da Alemanha, sequestrado pela VPR e aliados.<br />
Chegamos à Argélia em 16 de junho 1970, e em 27 de julho de 1970 desembarcávamos em Havana, Cuba, onde vivi até 7 de janeiro de 1986. Lá, passei os anos mais importantes da vida de um cidadão para sua educação e formação do caráter.</p>
<p>Os primeiros anos que tenho lembranças em minha vida (após um ano em Havana, entre 3 a 4 anos de idade) foram marcados por pavor de policiais de farda, de grupos com mais de quatro pessoas e quando meus pais chegavam do exterior4. Nessas situações eu entrava em pânico, chorava, me escondia debaixo da cama, dentro de armário, mordia quem tentava me pegar, urinava nas calças.</p>
<p>Com 4 para 5 anos de idade, toda vez que via um policial de moto, gritava “Olha meu amigo ali!”. Eu ficava horas na varanda de nossa casa na Quinta Avenida no bairro de Miramar vendo eles passarem e achava que era sempre o mesmo que passava e enchia o saco de todos com meus gritos, “Olha meu amigo ali!”. Quando cresci, e superei esse trauma, minha avó me contou que a Tia Damaris5 teve esta ideia: fomos comprar brinquedos em Los dias de Reyes e, sem eu perceber, ela pediu para um policial me dar um brinquedo de presente. Ele me colocou até em cima da moto, uma clássica Harley Davidson, e só percebi que estava fardado na hora que ele partiu. “Tia Damaris olha&#8230; ele é meu amigo!”</p>
<p>Minha mãe sofreu muito e com certeza eu sofria com ela. Nas entrevistas e depoimentos feitos a jornalistas, minha mãe conta que entrou em todo esse processo de luta armada por amor ao meu pai, e não foi uma história inventada para suportar a dor da tortura, de fato ela tinha uma paixão que, mesmo passando muitas dificuldades durante décadas e hoje serem divorciados, ela ainda fala de meu pai com brilho nos olhos.</p>
<p>Essa paixão acesa no primeiro olhar no refeitório do Frigorífico Bordon (fábrica onde os dois se conheceram), fez que ela o seguisse sem vacilar. Meu pai, já engajado na luta, tinha temor de ter um filho nesses anos de chumbo, mas eu cheguei quando minha mãe completava 30 anos, idade que geralmente mulher não esperava mais ter um filho. Nos dois anos e três meses seguinte, eu não desgrudo da minha mãe, que me amamentou até ser arrancado de seus braços na cadeia.</p>
<p>No meu regresso ao Brasil, em 1986, uma companheira de cela da minha mãe, a Encarnação (Encarnación Lopes Peres, in memoriam) me conta:<br />
Ernesto, sua mãe sofreu muito. Um dia os milicos entraram em nossa cela e fizeram a gente tirar toda a roupa. Eu me despi com raiva e cheia de ódio no meu olhar, não sabia o que nos esperava, mas fomos tão violentadas que nada mais fazia diferença, e eles ficaram gritando com sua mãe para ela se apressar, ela envergonhada começou a tirar a roupa atrás de mim, eu vi aquela cena e me comovi muito, ela era aquela moça com a pureza do interior que sofreu mais com a vergonha de ficar nua na frente desses milicos do que com os choques elétricos que tomou&#8230; é linda a paixão que ela tem pelo seu pai.</p>
<p>Minha mãe sempre me contou de sua aflição durante a clandestinidade, das dificuldades financeiras que passou, muitas vezes só tinha o peito para me dar, e como meu pai era procurado e eles participavam, principalmente, na mobilização da resistência armada na cidade, ele ficava escondido em casa e ela tinha que ir à feira sozinha comigo no colo, ou dirigir com ele escondido no carro. Como minha mãe não era procurada oficialmente (seu nome e foto não tinham sido publicados nos jornais), ela servia de motorista e, em um dos reencontros após o exílio com amigos sobreviventes, me contaram o apuro que todos eles passaram quando foram resgatados e trasladados de um “aparelho” para outro pela minha mãe em uma Rural, eu ao lado dela no banco do passageiro e vários companheiros, inclusive meu pai, deitados no chão atentos com metralhadoras na mão e cobertos por uma lona. No caminho passaram por uma barreira policial, mas o disfarce dela dirigindo sozinha comigo ao seu lado funcionou.  Mas ela ficou tão nervosa que ao chegar à casa-aparelho passou por cima do portão, todos saltaram com arma na mão e por pouco não saíram atirando. Ela ficou com fama de má motorista e até hoje eles riem desse momento quase trágico.</p>
<p>Nesse período eu tinha muitos pesadelos e nas noites de pesadelos sempre fazia minhas necessidades involuntariamente. Quando tinha febre os pesadelos aconteciam até acordado. Lembro uma vez que as tias da creche ficaram tão preocupadas que ligaram pra minha avó ir me buscar e ela mandou meus irmãos. Eles ficaram um pouco comigo para me acalmar, mas a diretora não deixou que me levassem e hoje eu entendo o porquê. O mais velho deles, o Samuel, só tinha 11 ou 12 anos e a creche ficava longe de casa. A última vez que mijei nas calças tive vergonha de falar, eu já estava com 11 anos e dormia no meio da minha mãe e do meu pai depois de eles voltarem de mais uma concentração para irem a outra guerrilha, isso foi em 1979 quando se ofereceram voluntariamente para lutar na revolução da Nicarágua.</p>
<p>Meu pesadelo mais comum era com um asno, uma corda e uma agulha. O asno usava um boné militar, a agulha tinha olhos arregalados e uma risada aguda sarcástica e corria atrás de mim, eu apavorado tentava fugir. O asno me cercava, me dava coices ou chutava coisas sobre mim. A corda parecia boazinha, disfarçada de linha se estendia até mim, mas quando eu a segurava ela machucava minhas mãos e me deixava cair em um abismo.</p>
<p>Devido a toda sua história de luta, meu pai apanhou muito dos militares e sempre se manteve reservado ao falar do tempo que ficou no presídio – nunca conversou comigo sobre nossa passagem pelos presídios. Neste ano, 2013, o repórter Luiz Carlos Azenha fez uma série de reportagens sobre “Crianças e a Tortura”. Em um capítulo dedicado à minha história, ele me entrevistou, depois meu pai e por último minha mãe, separados e em locais diferentes. Meu pai conta para o Azenha que fui levado muitas vezes às seções onde ele era torturado e lá faziam “simulação” de espancamento em mim usando uma corda. </p>
<p>Eu comecei a entender tudo o que as tias e os coleguinhas da creche falavam, mas não me comunicava, ficava sempre nos cantos, atrás de colunas ou de árvores. Lembro de uma tia nova me dando instruções para lavar as mãos e ir para o refeitório quando outra tia lhe disse, “El es brasileño y no entiende, tienes que acerle gestos”. Dei risada e saí correndo. Essa tia nova começou a falar comigo sem fazer gestos e eu sempre a atendia, aí comecei a segui-la. Eu via que ela, à tarde, chamava os meninos maiores e entrava em uma sala e passei a espiar pela porta entreaberta, assim comecei a assistir suas aulinhas de pré-escola. Dessa forma, ela foi me deixando adquirir confiança, até que um dia percebi que estava deitado no meio da sala e na lousa de feltro tinha uma equação matemática simbolizada com patinhos colados. Ela perguntou olhando pra mim: “¿Tres paticos mas dos paticos es igual a&#8230;?” Respondi na hora: “Cinco paticos”. Ela me convidou para sentar na cadeira com os outros e eu respondi “No puedo, yo soy mas chico”. “No importa, ven”. Depois vi seu entusiasmo contando para superiora, “No les dije que el entendia todo y que es muy inteligente”.  </p>
<p>Alguns meses depois, a tia Damaris me colocou na marra na primeira série na escola que a Zuleide e a Telma Lucena estudavam. Não queriam me aceitar porque eu tinha apenas 5 anos, mas a tia Damaris me levou quase que arrastado pelo braço (ela andava muito rápido) um dia depois que começaram as aulas e me enfiou na fila “del Matutino”, foi até a frente da diretora, que ia começar o matutino, e apontando o dedo no nariz dela falou-lhe rápido em português alguma coisa que nem eu entendi e foi embora. Eu estava matriculado.<br />
Mas nunca me esqueci da Inhai [Ñasaindy Barrett]que ficou para trás, que era exatamente um ano e dois meses mais nova do que eu, “¿Y que le pasó a Ñasaindy solita ayá en el circulo?”.</p>
<p>Nesse período, meus pais chegaram definitivamente em Cuba e ficaram preocupados comigo porque, apesar do meu prematuro bom desempenho na escola, eu não mantinha convívio social e ficava distante no “meu mundo”.  Levaram-me ao pediatra para descobrir minhas sequelas. Ele orientou meus pais a buscar um psicólogo, dizendo que eu tinha traços e atitudes de um menino autista, o que não se confirmou. Eram bloqueios, mecanismos de defesa por ter sido separado abruptamente dos pais e pelos abusos que eu passei.</p>
<p>Quando voltei ao Brasil, meus parentes (tios, primos, madrinha etc.) sempre diziam que eu era muito vivo, esperto e falante, além de reconhecer os parentes, comecei a falar muito cedo e com pouco mais de um ano já conhecia as marcas de todos os carros. Fica clara minha mudança radical de comportamento após passar pela prisão.</p>
<p>Durante minha alfabetização, em Cuba, na primeira série, tive muita dificuldade em pronunciar o “rr” , mas um ano depois eu fui condecorado no Teatro Lazaro Penha junto com  os melhores mestres e doutores do país por ter tirado média máxima (dez) na primeira série do primário. No Teatro tive que ficar sozinho, no andar debaixo só podiam ficar os homenageados, a Zuleide viu sua professora que também estava sendo homenageada e pediu para que cuidasse de mim. Sentei no cantinho “de su butaca”, a Zu e meus pais, que estavam há pouco tempo em Cuba de forma definitiva, foram para o andar de cima. Quando me chamaram, foi um suspense. Primeiro o mestre de cerimônia errou meu gigante nome “ahora llamamos Ernesto Carlos Diaz do&#8230; doooo Nasc&#8230;  Nasc&#8230; del Nacimiento, por haber logrado el promédio máximo em todo el año escolar en la Escuela básica Viet-Nam Heroico”. Quando o homenageado se levantava todos aplaudiam, mas como ninguém me via caminhando em direção ao palco, ficou um silêncio total e fui chamado mais duas vezes, quando comecei a subir as escadas meio que engatinhando.  Começaram risos e aplausos progressivamente até o teatro explodir de vibração com todos aplaudindo em pé. Fiz exatamente o que os outros homenageados faziam, debrucei-me sobre a mesa para cumprimentar os integrantes da mesa e peguei meu canudo das mãos da Ministra da Educação Vilma Espin, que teve dificuldades em colocar o broche de condecoração no meu peito debruçada sobre a mesa. No dia seguinte, essa cena comigo foi reprisada na TV no Noticiero Nacional. A Telma gritou “Corre, Chesinho, corre, vem ver você na televisão”.</p>
<p>Nota dez na primeira série, nota cem no Projeto de Graduação, sempre tirei média acima de 9 e no Projeto de Graduação do Centro Tecnológico Amistad Cubano Soviético consegui a nota máxima no teórico e na defesa oral, um feito inédito na história do Instituto, defendendo o projeto perante uma banca de professores. A última pergunta foi: Professor, “Ernesto, sabemos que asi que termines la graduación regresaras a tu país Brasil que sigue las normas Norte-americanas y aqui seguimos las normas internacionales pero el acero y todos los metales que usaste en el proyecto estan codificados por las normas Russas ¿Como haras los proyetos?” Sem hesitar respondí “Sé que Brasil tiene grandes indústrias y puede ser que tengan sus próprias nomenclaturas, pero es sensiyo, lo sabré por la composición química de cada metal encontraré su similar en las normas brasileñas o norteamericanas”. Professor interrompeu, –“Eso dá trabajo tendras que memorizar muchas composiciones”. Respondi,  “Si lo sé, pero vea, por ejemplo, em la matriz de este proyecto uso acero-herramienta ruso YA12C8N6 que tiene 1,2 % de carbono, 0,08 de cromo e 0,06 de niquel temperado a 55 Hrc – Dureza Rockwel una medida internacional, en la guia uso acero-aleado con 0,08% de carbono cementado e temperado  a 1,2 mm de profundidad consiguiendo una alta dureza superficial sin perder la tenacidad, en la base acero de construción com 0,45% de carbono&#8230;”. O professor me interrompe “Disculpeme Ernesto&#8230;”, e olhando para os outros sabatinadores fala “Señores, para mi basta”. Todos concordaram e me dispensaram. </p>
<p>Ficou um suspense danado e eu com um pouco de temor, foram muitas perguntas e apesar da parte teórica do projeto ser feita em grupo, eu fiz tudo sozinho porque os colegas que estagiavam na fábrica comigo não quiseram arriscar e pegaram projetos mais simples. Passei várias noites acordado fazendo o projeto ao lado de minha avó, minha sempre guardiã e companhia nas madrugadas. Todos ficaram aguardando o resultado dos avaliados naquele dia pela banca examinadora até começar um murmúrio geral na escola e  fazerem uma roda sobre mim e todos que chegavam falavam praticamente a mesma frase: “Cooonñó ERNESTO SACASTE 100”, eu respondia “Gracias a mi abuela”.</p>
<p>Cuba é reconhecida mundialmente e até pelos opositores políticos como uma potência na Saúde e Educação, então quem se destaca lá deve ser bom. Pressupondo isso, assim como eu, modéstia à parte, várias crianças brasileiras exiladas em Cuba foram brilhantes. Destaco alguns e me perdoem os outros: a Telma, autodidata, que além de ter sido avaliada durante vários anos na escola como a melhor aluna, aprendeu a falar russo sozinha falando com seus vizinhos no bairro de Alamar, seu irmão Kito que foi campeão de xadrez várias vezes em Cuba – a Ilha também terra de grandes mestres enxadristas –, não pôde participar de competições internacionais porque ele “Não tinha pátria” (não era cubano e era banido do Brasil),  o César Lamarca já desenhava navios no ginásio na escola especial Los Camilitos. Mas o que aconteceu com essas pessoas brilhantes na volta ao Brasil após a Anistia?</p>
<p>Nosso brilhantismo teve que enfrentar o preconceito político-social imposto pela mídia reacionária, a falta de reconhecimento e legalização de nossos estudos e diplomas adquiridos em Cuba por parte das autoridades. A Anistia foi só para os carrascos torturadores, eu só tive meu diploma reconhecido pela Comissão da Anistia do Ministério da Justiça em junho de 2012.</p>
<p>Meus pais chegaram definitivamente em Cuba em abril de 1974, após conseguirem escapar do golpista assassino Pinochet. Eu já tinha 6 anos e estava terminando a primeira série. Dessa vez não entrei em crise no reencontro, eu sabia que eles estavam para chegar e quando os vi entrando na minha sala de aula, reagi com muita tranquilidade, fui até a mesa da professora e pedi licença para ver meus pais, ela com empolgação pediu para eu correr para os braços deles.</p>
<p>A convivência com eles trouxe uma estabilidade e segurança a todos as crianças da casa. A figura e o carinho do meu pai nos proporcionou muita felicidade e, apesar de ser o filho único deles, seus carinhos faziam esquecer que eram praticamente todos órfãos. O Samuka [Samuel] foi adotado pela minha avó, a Zuleide e o Carlinhos são filhos do primeiro filho adotivo da Tia, mas desde muito pequenos foram criados pela nossa avó, os filhos da Damaris tiveram seu pai assassinado e a Ñasaindy perdeu o pai, José Maria Ferreira de Araújo e a mãe, Soledad Barrett Viedma, para os torturadores que nem a lembrança lhe foi preservada. Eu de fato fui privilegiado por ter recuperado meus pais aos 6 anos de idade.</p>
<p>Os cubanos nos deram muito afeto, e todos os cuidados necessários para nosso bem. Minha avó recebia além da casa toda mobiliada, também serviços como troca de gás, conserto de aparelhos domésticos. Tínhamos direito a fazer compras em lojas especiais para técnicos estrangeiros em que era possível encontrar até produtos importados. Com a chegada dos meus pais, eles quiseram viver como os cubanos e nos mudamos para uma casa em La Lisa, um município a oeste de Havana, e passamos a fazer compras nas bodegas que tinham de tudo, claro, menos as guloseimas importadas.</p>
<p>Essa casa com três quartos, dois banheiros e belo quintal, tornou-se a porta de entrada dos brasileiros que chegavam do exílio, que ficavam meses morando com a gente. Alguns se casaram em nossa casa, fizeram aniversários e festa de 15 anos, além dos tradicionais festivais brasileiros de fim de semana. E assim nossa família começou a crescer, com muitos tios carinhosos e que se divertiam conosco como se fosse “seu último dia”&#8230; e foi para alguns. </p>
<p>A cada seis meses recebíamos jornais brasileiros, Jornal do Brasil, Estadão e O Globo. Eu e meu irmão, Carlinhos, gostávamos de histórias em quadrinhos e éramos os primeiros a pegar os pacotes de jornais para cortar as “tirinhas” e colar em um caderno, criando um gibi. Numa dessas vezes vi a foto de seis “tios” que foram mortos na fronteira do Uruguai pelo exército brasileiro entrando clandestinamente no Brasil. Foi um choque. Foi assim também que descobri que eu era classificado como terrorista no rodapé de nossa foto publicada nos jornais quando fomos banidos e até hoje usada para relembrar os terroristas trocados pelo embaixador alemão. Lembro-me ainda que ao ver tal foto, perguntei a minha avó: “Vó! Vó! O que é terrorista?”, “São gente ruim que matam outras pessoas”, “Então eu sou ruim?”, “Claro que não, filho! De onde você tirou isso?”, “Aqui no jornal diz que nós somos terroristas&#8230;”. Não sei se entendi a explicação dela.</p>
<p>Era uma numerosa e esquisita família. Sim, esquisita porque meu pai e minha mãe são tios de meus irmãos que são órfãos e eu não; temos um monte de tios, mas ninguém é irmão; um monte de primos brasileiros que só conhecemos em Cuba. Foram 16 anos em Cuba contando nossa história mais de uma vez por dia.<br />
Mas esta numerosa família foi esmaecendo. Quando a Tia Damaris mudou-se para um apartamento do outro lado de Havana perdi quatro irmãos e ganhei quatro primos, creio que tinha 8 anos. Duro foi perder o contato com a Telma e a Inhai que mudaram de escola e eu fiquei no internato sozinho. A Zuleide também saiu porque foi para o ginásio. Passamos a nos ver praticamente uma vez por ano quando passávamos as férias um na casa do outro.</p>
<p>Muitos tios voltaram clandestinos, José Ibrahin, José Dirceu e outros, não sei se todos vivem hoje. Meu filho mais velho se chama Átila em homenagem a um desses grandes tios dos anos de exílio e que faleceu no Brasil sem poder reencontrá-lo (Deputado Valnerí do Rio Grande do Sul). Átila era seu apelido pelo seu tamanho e bravura. Com as crianças era muito carinhoso, pegava quatro de nós em cada braço e ele virava uma gangorra humana.</p>
<p>Depois da Lei da Anistia em 1979, quase todos se foram. Em março de 1980 meus pais regressaram, a Tia Damaris, meus primos-irmãos Kito, Denise, Telma e Ñasaindy, também.  Tia Isaura, Suely e Célia Coqueiro, Darcy, Rosa Darcisinho e Dorinha com os quais muito convivi antes da chegada dos meus pais em 1974. Miriam (Marília Carvalho Guimarães) e seus filhos da minha idade Marcelo e Eduardo, César e Claudia Lamarca, Tia Clara Charf (em Cuba só a chamávamos de Clara Marighella). Alguns que eu tinha muito apego já se haviam ido, como Tio Gregório (Ubiratã), Mazine, Cassiana, o Tio do Berço (nos primeiros anos de exílio o Tio Rogério deitava em nosso berço para contar historinhas e acabava dormindo). Em 1981 meu irmão mais velho Samuel volta para o Brasil e, em 1982, é a vez do meu irmão Carlinhos. Da casa que abrigou dezenas de “Tios, primos e irmãos” só restou eu, minha avó e minha irmã Zuleide.</p>
<p>Chegou minha adolescência e minha avó me educou do mesmo jeito que educou mais de quarenta crianças que passaram pelas suas mãos, sempre incentivando a encarar os desafios e assumindo responsabilidades. Eu, como todos, aprendi desde cedo a lavar minhas roupas, a pregar um botão ou fazer pequenos remendos no meu uniforme, a cozinhar e saber tomar decisões quando se faz necessário, não importa o tamanho da responsabilidade.</p>
<p>Escolhi fazer um curso tecnológico para voltar ao Brasil com uma profissão para encarar melhor este desafio. Meu pai por carta insistiu que eu continuasse e terminasse a Engenharia na Universidade, mas as saudades da minha mãe e meu anseio em conhecer minha pátria nativa pesaram na minha decisão de regressar em 1986.</p>
<p>Quando meus pais voltaram para o Brasil em 1980, saíram de Cuba em março, mas ficaram um mês no Panamá tentando tirar passaporte e visto de retorno junto a outros brasileiros. Ao chegarem, em abril, ainda ficaram 24 horas no aeroporto de São Paulo sendo interrogados (dessa vez sem agressão física). Confiscaram todos os livros que eles levavam, tanto os de conteúdos técnicos quanto os de políticos. Eu fiquei até 1986 concluindo meus estudos e o sonho de conhecer o Brasil foi crescendo proporcionalmente às saudades que sentia pelos meus pais nesses seis anos de adolescência.</p>
<p>Depois de passar cinco dias no Panamá para tentar tirar passaporte e visto (entramos com salvo conduto, só deram passaporte para o filho da Zuleide que nasceu em Cuba) chegamos ao Brasil em 12 de janeiro de 1986. Até que, enfim, vim a conhecer a minha pátria nativa. Realmente o Brasil é lindo e ser turista aqui é maravilhoso, mas depois de três meses a minha vida de turista acabou, começou a realidade. Foram dois anos de angústia, sofrimento, confronto e cadeia no serviço militar.</p>
<p>Meu pai voltou para Cuba no final de 1985 para nos ajudar nos preparativos para o nosso regresso (foi um reencontro de estranhos). Como ele e minha mãe tiveram dificuldades e não revalidaram seus diplomas, (minha mãe se formou Enfermeira Geral, mas só consegui o registro do COREM de Auxiliar de Enfermagem em 1998; meu pai nunca revalidou seus diplomas, nem voltou a trabalhar na sua profissão), ele pediu pra refazerem todo meu histórico escolar, pediu para retirarem do meu currículo todas as matérias relacionadas a política que fazem parte do ensino fundamental cubano e tivemos que ir a todos os órgãos para validar os documentos que foram certificados pela Embaixada Suíça, representante oficial dos interesses do Brasil em Cuba. Matérias excluídas: Fundamento de los conocimientos Políticos, Geografia Política Econômica, Marx, El Capital 1, El Capital 2, El Capital 3, Marx e Engels, Marxismo Leninismo e Táticas Militares e outras.</p>
<p>Toda essa trabalheira não adiantou de nada, nunca consegui revalidar meu diploma, tendo que trabalhar em serviços inferiores à minha formação. E a discriminação pelo fato de ter vivido em Cuba se manifesta em todas as instituições e esferas sociais.</p>
<p>Como pode ser constatado em uma série de documentos que estão comigo, meu pai fez todos os trâmites para revalidar meu diploma: primeiro, a tradução oficial que lhe custou dois meses de salário; depois, entramos com processo na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo que encaminhou para a Fundação Paula Souza-Fatec. Depois de dois anos devolveram o processo dizendo que não tinham cursos similares no Brasil, sendo meu curso muito superior em matéria e carga horária que um curso técnico e até maior que um similar superior, mas que não poderiam revalidá-lo porque, conforme está escrito em meu histórico, meu curso é “Médio-Superior”. Em 1991, cinco anos após voltar para o Brasil, consegui a equiparação de ensino médio para prosseguir no estudo superior.</p>
<p>Em Cuba revivíamos nossa dramática história contando-a quase todos os dias, mas as reações das pessoas eram de solidariedade e admiração. Aqui no Brasil fui até apedrejado quando debatia politicamente com um professor em uma escola para esclarecer que eu não era terrorista e que em Cuba não existe ditadura militar. Fui preso também duas vezes no Serviço Militar Obrigatório por insubordinação, mas, como suportar calado me chamarem de terrorista, assassino, ateu-satanás e outras injúrias?<br />
Pior é ter que viver uma vida de mentiras, ocultar meu passado, mentir no meu currículo que, em vez de ter me formado no El Centro Tecnológico Amistad Cubano Soviética, me formei no Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernambuco, assim sugerido por colegas, para que eu pudesse arrumar emprego. E não é que funcionou? Claro, mentira tem perna curta e meus empregos em grandes empresas também.</p>
<p>Com muito orgulho dei aulas técnicas (voluntário com pequena ajuda de custo) e fui um dos fundadores de uma escola profissionalizante criada pelo Movimento de Oposição Metalúrgica de São Paulo nos anos 1990, sendo reconhecida pelo MEC como a primeira escola com Supletivo Profissionalizante no Brasil.</p>
<p>Em uma escola profissionalizante renomada de São Paulo, curiosamente fundada em 1964 que só contrata Engenheiros para dar aulas, nunca consegui preencher ficha de solicitação de emprego. Um dia me passei por aluno e consegui chegar na sala do diretor, em uma conversa de quinze minutos já estava contratado, mesmo sem possuir nenhum diploma.</p>
<p>Teve uma empresa que não me discriminou porque um dos diretores era um chileno fugitivo do Pinochet e me contratou como desenhista. Cinco anos depois, com 25 anos eu era diretor técnico desta empresa que trabalhava com tecnologia avançada, automação, robótica etc., com mais de cem funcionários, mas a empresa passou por dificuldades financeiras, nas recessões dos anos 1990 e fiquei novamente trabalhando na informalidade, como empreendedor e ativista no setor de TI e, como voluntário, presido e milito em associações de inclusão social.</p>
<div style="background-color:#d39a41; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Ernesto Carlos Dias do Nascimento</strong>, brasileiro, natural de São Paulo, Capital, nascido em 4 de fevereiro de 1968, casado, quatro filhos e uma neta, filho de Manoel Dias do Nascimento e Jovelina Tonello Mantovani do Nascimento, avó paterna Tercina Dias de Oliveira (A Tia), Formado em Tecnologia de Projetos de Máquinas e Ferramentas, especializado em Tecnologia da Informação e Automação Industrial. Atualmente é Coordenador Governança de TI e Tecnologia Cidadã na Prefeitura de Guarulhos – SP.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#e4dcd0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Tercina Dias de Oliveira</strong> nasceu em 2 de novembro de 1913. Faleceu em 2004, aos 90 anos de idade. Ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Durante o período em que viveu na clandestinidade, Tercina era chamada de “Tia”, apelido dado por Carlos Lamarca. Figura lendária da esquerda brasileira, teve quatro filhos de quatro relacionamentos diferentes e criou outras duas crianças que adotou. Foi Manoel Dias do Nascimento, um dos filhos, que a levou para a militância.<br />
Juntamente com os netos, viveu no sítio em que Lamarca realizava treinamentos militares, no Vale do Ribeira, em São Paulo. Uma de suas missões era fazer a casa principal parecer levar uma vida “normal”. A outra era costurar os uniformes usados nos treinamentos.<br />
Tercina foi presa em Jacupiranga, interior do estado, com três das quatro crianças. Em 1979, foi uma dos 40 militantes trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Hollenben, sequestrados em junho de 1970.<br />
Banida, Tercina seguiu da Argélia para Cuba com três netos e um dos filhos de criação: Samuel Dias de Oliveira, Luis Carlos Max do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.  Retorna ao Brasil em 1986 com Zuleide, Luis Carlos e Ernesto. Samuel voltou em 1982.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#c9b17a; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Manoel Dias do Nascimento</strong> e <strong>Jovelina Tonello M. do Nascimento</strong>  Foram militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca. Ele foi um de seus fundadores, enquanto ela iniciou a militância após a prisão e o exílio.<br />
Antes de ajudar a criar a VPR, Manoel era líder sindical filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Entrou na clandestinidade em 1968, após ter a prisão decretada. Incentivou a mãe, Tercina Dias de Oliveira, a também contribuir para a VPR. Sua tarefa era organizar a guerrilha em São Paulo (SP). Foi preso em maio de 1970, quando cobria um ponto para passar informações a companheiros. No mesmo dia, mais tarde, a companheira Jovelina e o filho Ernesto foram presos na casa da família no bairro de Vila Formosa.<br />
Jovelina trabalhava na prefeitura de Osasco (SP) e foi demitida durante a licença maternidade por causa da militância do marido. Depois de passar pela Operação Bandeirantes (OBAN) e pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi com o filho para a ala feminina do Presídio Tiradentes.<br />
Em fevereiro de 1971, Manoel e Jovelina foram dois dos 70 presos políticos que tiveram a liberdade trocada pela do embaixador suíço Giovanni Enrico Bücher, sequestrado por militantes de resistência à ditadura. Exilaram-se no Chile. Na ocasião, contaram o que tinha acontecido com eles para os cineastas estadunidenses Haskell Wexler e Saul Landau, cujo documentário Brasil, um relato da tortura tornou-se uma das primeiras denúncias internacionais dos abusos cometidos pelo regime.<br />
“Antes de eu descer do pau de arara, minha companheira chegou com meu filho. Este filho assistiu a parte da tortura. Em seguida, puseram minha companheira no pau de arara, tomando choque em todas as partes do corpo, inclusive nas partes íntimas. Na minha presença. Só para eu falar alguma coisa”, relatou Manoel. Chorando muito, Jovelina testemunhou: “Ele [o filho Ernesto] dizia: ‘Não pode bater no papai. Não pode’. Para mim foi muito duro. Batiam muito em mim, mas não me perguntavam nada porque sabiam que eu não tinha participação nenhuma”.<br />
Em 15 de agosto de 1971, o casal chegou a Cuba, onde reencontraram Ernesto. Jovelina, então, foi à Coreia do Norte fazer treinamento de técnicas de guerrilha. Em 1972, ela e Manoel voltam ao Chile para se prepararem a retomada das atividades guerrilheiras no Brasil.<br />
Em setembro de 1973, com o golpe contra Salvador Allende, os dois foram presos no Estádio Nacional. O casal conseguiu fugir e se abrigar num refúgio da ONU, de onde seguiram para Cuba novamente.<br />
Lá, Jovelina fez curso de enfermagem. Ela e o marido voltaram ao Brasil em 1985. Ernesto retorna com Tercina em 1986. </div>
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		<title>&#8220;Fomos levados ao DOPS. Até hojé é doloroso&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 20:13:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Nascimento]]></category>
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		<description><![CDATA[Meu nome é Luis Carlos Max. Sou um dos quatro netos da Tia Tercina [Dias de Oliveira]. Somos eu, minha irmã Zuleide, tem o Ernesto, e meu irmão de criação, que é o mais velho, o Samuel. Nós fomos criados com minha avó desde cedo. Depois que minha mãe adoeceu, nós fomos viver com a [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Meu nome é Luis Carlos Max. Sou um dos quatro netos da Tia Tercina [Dias de Oliveira]. Somos eu, minha irmã Zuleide, tem o Ernesto, e meu irmão de criação, que é o mais velho, o Samuel. Nós fomos criados com minha avó desde cedo. Depois que minha mãe adoeceu, nós fomos viver com a nossa avó.</p>
<p>Na época da greve de Osasco eu tinha 5 anos. Logo em seguida, minha avó teve que entrar na clandestinidade, junto com meu tio, que era sindicalista e foi cassado. Nessa época, a vó era do Partido Comunista – que foi cassado. </p>
<p>Ficamos indo de um aparelho para outro, fugindo da polícia, até que fomos para o Vale do Ribeira, no final de 1969. O Vale do Ribeira era um centro de treinamento de guerrilha, para preparar o pessoal para a luta armada. Quem chefiava era o Carlos Lamarca. Nós não morávamos na cidade nem no povoado, e sim no vale, dentro do mato. Ali não podia entrar ninguém, era escondido.</p>
<p>Lá, vivíamos minha avó e nós três – eu, Zuleide e o Samuel, irmão adotivo que minha avó criou desde pequeno. O Ernesto ainda não estava conosco. Estava em outro aparelho com o pai e a mãe. Só encontramos com ele quando fomos presos e levados ao Juizado de Menores. E tinha o Nicolas, que era o codinome do José Lavechia. Éramos uma família de camponeses de fachada. Ficamos lá mais ou menos três meses.  Nessa época, eu estava com 6 anos, a Zuleide com 4 e o Samuel com 9. </p>
<p>Lá, nós conhecemos o Carlos Lamarca, coisa de que tenho muito orgulho. Ele morava lá no meio do mato mesmo. A morte dele foi uma perda muito dolorosa. Da mesma forma que ele era rígido por ser um comandante de uma organização, era doce também. Ele nos deu uma grande formação. Ele nos ensinava muita coisa e o tenho como um pessoa muito querida. </p>
<p>Quando o Vale do Ribeira caiu e a polícia ficou sabendo da existência do local, a situação já não podia mais se sustentar, então tivemos que sair de lá e fomos para uma casa em Peruíbe. Desde criança nós tínhamos noção do perigo, éramos preparados para isso, vivíamos nessa tensão. Não éramos crianças comuns que podiam brincar na rua. </p>
<p>A gente ficava dentro de um aparelho. Era complicado. Não podia fazer barulho porque o vizinho de baixo sabia que tinha crianças. Volta e meia tínhamos que sair de uma casa para outra. Nós íamos dentro do carro sem poder olhar para a rua, tínhamos que fechar os olhos, abaixar a cabeça. Isso porque não podíamos reconhecer o lugar para onde estávamos indo.</p>
<p>Aí fomos para Peruíbe. E foi lá que fomos presos. A tensão maior foi quando de madrugada a polícia chegou em casa, foi em março ou abril de 1970. Estávamos eu, vó, Samuel e Zuleide. O Lavechia já não estava mais lá. Ali sim percebemos que a coisa era pesada mesmo. Vimos a brutalidade daquela invasão. A minha avó ficou muito tranquila. Ela sempre foi muito bem preparada para isso e sempre nos preparou. Era de madrugada quando nos acordou: “Olha, não está acontecendo nada, recolham as coisas, arrumem as roupas, nós vamos ter que sair”. E nós tranquilamente fizemos isso. Mas sentimos a invasão, a polícia chegando, entrando e revirando as nossas coisas todas. Foi pesado.</p>
<p>Depois disso, os militares e a polícia invadiram o Vale do Ribeira, teve tiroteios, bombardeios. Ficou uma linha de fogo mesmo. Se estivéssemos ali, não sei o que iria acontecer. </p>
<p>Mas o Lamarca nos tirou dali. Quando os militares estouraram a casa, foi muito sigiloso, não era todo mundo que sabia. A casa serviu de armadilha para outros companheiros que chegassem ali sem saber que havia sido invadida. Aí chegavam lá e já eram presos.</p>
<p>Fomos levados para São Paulo, para o DOPS. Até hoje, quando me lembro, é doloroso. Fomos colocados em uma sala e sabíamos o que estava acontecendo. A situação estava tensa. Hoje eu vejo meus filhos com 6, 7 anos&#8230; Eu não vejo neles o preparo psicológico que tínhamos. Aí falamos: “Mas com 6 anos você fazia isso, fazia aquilo, você sabia o que estava acontecendo?”  A gente vivia aquilo, tinha que saber. De uma forma ou de outra, os nossos companheiros também não deixavam que as dores maiores  chegassem até nós.</p>
<p>Minha avó nos orientava: “Olha, vocês não podem falar alto”, “Agora seu nome será X”.  Eu não podia mais chamar minha irmã de Zuleide, tinha que ser Zulmara. E ela não podia atender pelo nome de Zuleide. E eu passei a ser chamado de João Carlos. Essa era a preparação que tínhamos.  Acho que todas as crianças que estavam com seus parentes na clandestinidade também receberam esse preparo. A minha avó sempre passou segurança para nós, sempre foi dura, carinhosa na hora que era para dar carinho e dura  quando necessário. Pela vida que levávamos, a minha avó não podia ser mole conosco. Aliás, ninguém podia ser mole naquela época, então a minha avó sempre falou olhando nos nossos olhos e sempre falou sério quando era necessário. Ela era nossa referência de seriedade, de tudo. A melhor referência que tenho é a da minha avó, que no caso todo mundo chama de Tia.</p>
<p>No DOPS, foi uma crueldade quando nos colocaram em uma sala e nos separaram da vó. Eu, que sempre fui o mais rebelde dos irmãos, me agarrei muito na minha vó e comecei a chorar. Aí dois policiais pegaram a minha avó pelo braço e outro me desgarrou dela. Ela me disse: “Carlinhos, fique tranquilo que não vai acontecer nada, tá? Depois a gente se vê”. Mas eu fiquei muito mal, porque a partir dali eu não a vi mais. Ficamos horas e horas naquela sala.  E depois fomos levados para o Juizado de Menores. Eu fiquei muito mal, mas muito mal. Eu não queria me alimentar, não queria brincar com as outras crianças que estavam lá. Nunca tinha me separado dela. Lembro disso até hoje. </p>
<p>Eu e a Zuleide, como éramos menores, fomos levados ao Juizado. Não fomos maltratados lá. Mas o Samuel, como já tinha mais de 9 anos, foi levado para uma instituição de crianças infratoras, onde foi maltratado. Mas antes de nos levarem para o Juizado de Menores, nos levaram para uma casa muito grande. Não sei qual era a intenção de fazer isso, se era para depois alguém nos adotar. Ficamos ali uns três ou quatro dias. Era uma casa comum, muito chique, com móveis caros, de madeira, com tapetes. Não vimos ninguém além de uma senhora que cuidava de nós. Ela não nos maltratava, mas também não nos dava carinho nem nada. </p>
<p>Eu, por ser mais rebelde, saía do quarto correndo e ela dizia: “Não, não pode sair do quarto”. Ela levava comida para nós. Só saíamos de lá para ir ao banheiro. E dali nos levaram para o Juizado de Menores, onde ficamos uns dois meses mais ou menos.</p>
<p>Lá, praticamente só havia crianças, tinha até bebês. Então ficávamos brincando o dia todo. A única coisa com a qual me senti muito mal foi que tiraram os nossas pertences, cortaram o cabelo da Zuleide e tiraram o brinquinho de ouro dela, uma argolinha que minha avó havia dado a ela.<br />
Um belo dia chegaram e disseram: “Olha, vocês estão indo embora”. Foi uma alegria.  Nos levaram não sei para onde, não sei se foi de novo para o DOPS, mas reencontramos a nossa avó. Todo esse tempo ficamos sem saber nada dela. Quando nos reencontramos, a alegria foi imensa. E junto com ela estavam os companheiros, inclusive o Nicolas. </p>
<p>Nós fomos fichados, tiraram uma série de fotografias, tiraram as digitais. Depois ficamos sabendo que estávamos saindo do Brasil. A polícia não estava querendo liberar as crianças e minha avó disse: “Sem as crianças eu não vou”. Nós não tivemos passaporte. Quando você é banido, não tem passaporte, não tem documentação nenhuma. É expulso mesmo. Nós, por estarmos junto com nossos companheiros, fomos fichados como terroristas. Não somos nós que estamos dizendo isso. São os documentos do DOPS que diziam que éramos terroristas. </p>
<p>Tiraram nossas digitais para caso retornássemos ao Brasil, já saberiam. Se retornássemos para o Brasil é porque iríamos fazer guerrilha, como teve companheiros que voltaram e foram assassinados. Então fomos banidos mesmo, exilados.</p>
<p>Parece que essa noite nós dormimos no DOPS ou no aeroporto. Aí fomos para o Rio de Janeiro, onde chegamos à noite. Dormimos no saguão do aeroporto, em uma sala onde estavam todos os companheiros, os quarenta. Era uma sala imensa, com um montão de colchões no chão e dormimos ali. No dia seguinte de manhã, embarcamos para a Argélia. Antes de sairmos, tiraram aquela foto que todo mundo já conhece. Fomos num avião comum, da Varig, até hoje me lembro. </p>
<p>Na Argélia, também havia um problema político, então não podíamos estar muito expostos. Depois o Fidel Castro ficou sabendo da situação e disse: “Quero que essas crianças venham para Cuba. Eu me responsabilizo por elas, vou dar educação e saúde para elas”. Foi o próprio Fidel que nos fez esse convite.</p>
<p>Aí pegamos outro avião e fomos para Cuba, onde fomos acolhidos pelo governo e pelo povo cubano.  Praticamente toda a formação cultural e política que temos é cubana. Quando cheguei lá, em agosto de 1970, já tinha 7 anos. </p>
<p>Minha mãe não foi para Cuba. Me separei dela quando tinha 4 anos de idade. E como tínhamos entrado na clandestinidade, não soube mais dela. Eu vim a reencontrá-la, praticamente conhecê-la, quando eu tinha 42 anos de idade. Por conta desses problemas todos, não consegui conviver com ela. E o triste da história são as sequelas que ficam. </p>
<p>Quando voltamos para o Brasil, não foi de uma forma segura. Havia um medo muito grande. Sempre tivemos aquele temor da farda verde dos militares. Tínhamos temor até de guarda de banco, de arma. Era uma coisa tenebrosa, eu ficava com medo de ver polícia, de ver militar, achava que estava sendo vigiado. A minha irmã tremia quando via a polícia. Treme até hoje.</p>
<p>Eu voltei ao Brasil um pouco antes da Zuleide. Cheguei em 1982, tinha 18 para 19 anos. Nós tínhamos um problema de identidade muito grande. Fui saber meu nome verdadeiro quando o meu tio Neto voltou para o Brasil para preparar o campo para nosso retorno. Não tínhamos casa aqui, não tínhamos documento nenhum. Então enviaram para Cuba a nossa certidão de nascimento. Aí que eu fui ver realmente meu nome verdadeiro, porque até então não sabia.</p>
<p>Recebi a certidão de nascimento em 1980. Foi quando preparamos toda a documentação para retornar ao Brasil. Até então, eu tinha uma confusão de nomes. Eu não sabia mais qual era meu nome, se era João Carlos, se era João Carlos Dias, se era Luis Carlos Dias.</p>
<p>Em Cuba, nossa convivência com as crianças cubanas era normal, porque estudávamos praticamente numa escola interna. Tínhamos uma ligação também muito grande com as crianças brasileiras que moravam lá. Eram os filhos da Damaris Lucena, do Lamarca, que eram o Cesar e a Claudinha, os filhos do Darcy [Rodrigues] também estavam lá. A nossa casa era praticamente um território brasileiro, pois todos os brasileiros exilados em Cuba que moravam em Havana se reuniam na nossa casa, na casa da minha avó. No 7 de Setembro e no Carnaval fazíamos festas. Era um território onde não se podia falar espanhol, só português, para não perdermos o nosso idioma. </p>
<p>Tínhamos aulas de Português e História do Brasil, porque nossos pais sabiam que tínhamos que voltar para o Brasil e não perder essa identidade, eles se preocupavam com isso.  A influência cubana para nós foi muito grande, fomos muito novos para Cuba. Lá, havia preparação de guerrilha. Então, nós, os maiorzinhos, já estávamos sendo preparados também justamente para voltar para o Brasil e montar a nossa guerrilha. Tivemos aulas de guerrilha em Cuba, com armas, em locais estratégicos.</p>
<p>Nós fomos muito bem aceitos, mas não éramos cubanos, éramos brasileiros e estávamos com muita vontade de voltar para o Brasil e reencontrar as nossas identidades. Até hoje eu não achei minha identidade.</p>
<p>Moro no Rio de Janeiro e hoje vim especialmente para São Paulo. Meu filho mais velho, de 25 anos, me perguntou: “Pai, o que você vai fazer em São Paulo?” Eu respondi: “Meu filho, eu tenho que resgatar uma coisa do passado para todas aquelas pessoas que não conheceram o que aconteceu no Brasil, na época que todo mundo estava cego com futebol. Na década de 1970 teve a Copa do Mundo, nas ruas estava se comemorando o jogo do futebol. Nem sei se o Brasil foi campeão na época, mas a maioria dos brasileiros também não sabia que nos porões da ditadura pessoas eram assassinadas, até crianças foram torturadas na época”. Foi isso que falei para os meus filhos. </p>
<p>Porque nos livros, nas escolas, as crianças não sabem que isso aconteceu. Eu e minha irmã, assim como muitas outras crianças, somos a prova viva do que realmente aconteceu. </p>
<p>Fisicamente as coisas vão se apagando, como o companheiro Zé Ibrahin que morreu esta semana [José Ibrahin, líder sindical, faleceu em 2 de maio de 2013]. Mas temos que ir levando as memórias para o futuro. Da mesma forma que se guardou as histórias da Segunda Guerra Mundial, do Holocausto, também queremos falar sobre isso todos os dias para que isso nunca mais aconteça. </p>
<div style="background-color:#f9eac7; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Luis Carlos Max do Nascimento</strong> nasceu em Osasco (SP). Filho de Maria do Perpétuo Socorro do Nascimento e de Sebastião Rivom do Nascimento. Tem formação de  Técnico Industrial, trabalha em metalúrgica e mora no Rio de Janeiro.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#e4dcd0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Tercina Dias de Oliveira</strong> nasceu em 2 de novembro de 1913. Faleceu em 2004, aos 90 anos de idade. Ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Durante o período em que viveu na clandestinidade, Tercina era chamada de “Tia”, apelido dado por Carlos Lamarca. Figura lendária da esquerda brasileira, teve quatro filhos de quatro relacionamentos diferentes e criou outras duas crianças que adotou. Foi Manoel Dias do Nascimento, um dos filhos, que a levou para a militância.<br />
Juntamente com os netos, viveu no sítio em que Lamarca realizava treinamentos militares, no Vale do Ribeira, em São Paulo. Uma de suas missões era fazer a casa principal parecer levar uma vida “normal”. A outra era costurar os uniformes usados nos treinamentos.<br />
Tercina foi presa em Jacupiranga, interior do estado, com três das quatro crianças. Em 1979, foi uma dos 40 militantes trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Hollenben, sequestrados em junho de 1970.<br />
Banida, Tercina seguiu da Argélia para Cuba com três netos e um dos filhos de criação: Samuel Dias de Oliveira, Luis Carlos Max do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.  Retorna ao Brasil em 1986 com Zuleide, Luis Carlos e Ernesto. Samuel voltou em 1982.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#c9b17a; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Manoel Dias do Nascimento</strong> e <strong>Jovelina Tonello M. do Nascimento</strong>  Foram militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca. Ele foi um de seus fundadores, enquanto ela iniciou a militância após a prisão e o exílio.<br />
Antes de ajudar a criar a VPR, Manoel era líder sindical filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Entrou na clandestinidade em 1968, após ter a prisão decretada. Incentivou a mãe, Tercina Dias de Oliveira, a também contribuir para a VPR. Sua tarefa era organizar a guerrilha em São Paulo (SP). Foi preso em maio de 1970, quando cobria um ponto para passar informações a companheiros. No mesmo dia, mais tarde, a companheira Jovelina e o filho Ernesto foram presos na casa da família no bairro de Vila Formosa.<br />
Jovelina trabalhava na prefeitura de Osasco (SP) e foi demitida durante a licença maternidade por causa da militância do marido. Depois de passar pela Operação Bandeirantes (OBAN) e pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi com o filho para a ala feminina do Presídio Tiradentes.<br />
Em fevereiro de 1971, Manoel e Jovelina foram dois dos 70 presos políticos que tiveram a liberdade trocada pela do embaixador suíço Giovanni Enrico Bücher, sequestrado por militantes de resistência à ditadura. Exilaram-se no Chile. Na ocasião, contaram o que tinha acontecido com eles para os cineastas estadunidenses Haskell Wexler e Saul Landau, cujo documentário Brasil, um relato da tortura tornou-se uma das primeiras denúncias internacionais dos abusos cometidos pelo regime.<br />
“Antes de eu descer do pau de arara, minha companheira chegou com meu filho. Este filho assistiu a parte da tortura. Em seguida, puseram minha companheira no pau de arara, tomando choque em todas as partes do corpo, inclusive nas partes íntimas. Na minha presença. Só para eu falar alguma coisa”, relatou Manoel. Chorando muito, Jovelina testemunhou: “Ele [o filho Ernesto] dizia: ‘Não pode bater no papai. Não pode’. Para mim foi muito duro. Batiam muito em mim, mas não me perguntavam nada porque sabiam que eu não tinha participação nenhuma”.<br />
Em 15 de agosto de 1971, o casal chegou a Cuba, onde reencontraram Ernesto. Jovelina, então, foi à Coreia do Norte fazer treinamento de técnicas de guerrilha. Em 1972, ela e Manoel voltam ao Chile para se prepararem a retomada das atividades guerrilheiras no Brasil.<br />
Em setembro de 1973, com o golpe contra Salvador Allende, os dois foram presos no Estádio Nacional. O casal conseguiu fugir e se abrigar num refúgio da ONU, de onde seguiram para Cuba novamente.<br />
Lá, Jovelina fez curso de enfermagem. Ela e o marido voltaram ao Brasil em 1985. Ernesto retorna com Tercina em 1986. </div>
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		<title>“Você já foi presa? O tio já foi preso? A bisa já foi presa?”</title>
		<link>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=222</link>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 19:59:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quero contar um pouco a história do Samuel. Ele era do Rio de Janeiro, foi criado pela mãe, tinha irmãs mais velhas. A mãe saía para trabalhar, as irmãs também. Ele ficava sozinho, brincando pelo cemitério do bairro onde morava. Ficava na rua. Minha avó, que sempre criou várias crianças, foi passar um tempo lá [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>
Quero contar um pouco a história do Samuel. </p>
<p>Ele era do Rio de Janeiro, foi criado pela mãe, tinha irmãs mais velhas. A mãe saía para trabalhar, as irmãs também. Ele ficava sozinho, brincando pelo cemitério do bairro onde morava. Ficava na rua. Minha avó, que sempre criou várias crianças, foi passar um tempo lá no Rio de Janeiro e conheceu essa criança na rua. Ela foi à casa da mãe e pediu para cuidar dele. A mãe deixou. Aí quando a vó retornou para São Paulo trouxe o Samuel junto. </p>
<p>Ele passou por toda a nossa história, foi de aparelho em aparelho, foi para o Vale do Ribeira. Além da dor psicológica que a gente sofreu, ele passou por tortura física. Fomos para Cuba e quando o tio Neto voltou, resgatou a identidade do Samuel, que na volta, foi procurar a família biológica e começou a resgatar a história dele. Reencontrou a mãe e teve condições de ter o nome dela no registro. Quando saiu do Brasil, usava o nome da vó, Samuel Dias de Oliveira, até porque todo mundo saiu sem documento.Ele só teve condições de ter registro de nascimento quando voltou, porque foi com a mãe [biológica] ao cartório e se registrou. Hoje, ele se chama Samuel Ferreira, que é o sobrenome da mãe. Porque na época em que se registrou no Brasil, o pai já tinha falecido.</p>
<p>Em 2009, 2010, quando foi julgado o nosso processo em Brasília, fui defender o processo do Samuel que, quando entrou com um processo de anistia, apresentou o nome de Samuel Ferreira. E aí existia um conflito, porque todos os documentos que juntávamos era de Samuel Dias de Oliveira. </p>
<p>Eu costumo falar para o Samuel que tenho mais carinho e cuidado por ele do que tenho pelo meu próprio irmão de sangue. Ele me ligava e falava: “Você é a única irmã que eu tenho, a minha família de sangue aqui não quer saber de mim. Eles não me procuram, eu não tenho contato com eles”.Na semana passada eu falei com ele, para vir aqui dar depoimento, que para ele é importante falar. “Vai, vai ser bom, você fala muito poucas vezes sobre isso”. Dizem que quando a gente solta, vai tirando um pouco de cima. Eu, quando faço isso que estou fazendo hoje [testemunhando], o resto do dia fico como se tivesse passado um trator em cima de mim. Já o Ernesto dorme até três dias seguidos. </p>
<p>Mas realmente ele não quer falar. Ele disse: “Eu não quero, tenho que trabalhar. Aqui ninguém conhece a minha história, aqui eles não conhecem de onde eu vim, para onde eu fui, quem eu fui, quem eu sou, nada. E eu não quero que saibam, não quero, não quero”. Eu acho que ele não quer falar.</p>
<p>Hoje o Samuel é uma pessoa super retraída. Nós que somos irmãos dele, que nos criamos com ele, sentimos a diferença dele antes de Cuba e em Cuba. Lá foi o período em que ficou mais descontraído, mais à vontade. Depois que voltou, a gente percebe que ele tem um bloqueio muito grande.</p>
<p>Para mim, é muito doloroso contar e lembrar da minha história. Mas eu faço pela importância. Acho que esses fatos que aconteceram têm que ser revelados, falados. Quero parabenizar o trabalho da Comissão porque são coisas que precisam ser faladas, abertas, jogadas ao mundo.  </p>
<p>Eu me orgulho de ter esta história, de ter, de certa forma, participado de tudo isso. E também é a única história que eu conheço, o único jeito de vida que conheço. Para mim, é tão natural ter esta história e ter passado por tudo isso. Não é que eu goste de falar, há uma necessidade de se falar, a necessidade de gritar ao mundo. Aconteceu isso sim, aconteceram essas barbaridades sim, de matarem pai de família, de matarem mães de família, aconteceu de crianças realmente serem taxadas de terroristas, como se a gente fosse perigo para a sociedade. Crianças foram torturadas de fato, isso aconteceu no Brasil, na América Latina e não pode voltar a acontecer. </p>
<p>Nenhum ser humano tem o poder de torturar, de acabar com a vida de outro ser humano. Em nome de quê? Por isso que eu acho importante e por isso que eu vim hoje. Porque eu quero que amanhã meu filho saiba direito o que aconteceu. Ele tem 9 anos de idade. Quando as crianças são pequenas, o que ensinamos a elas? Que se você rouba, é preso. Se mata, é preso. Um dia, estávamos eu e o tio Manoel no carro, conversando e falando: “Sabe fulano, que esteve preso com cicrano, com a Vó, não sei o quê”?  Aí meu filho olhou para mim e perguntou: “Você já foi presa? O tio já foi preso? A bisa já foi presa?” O menino levou um susto. </p>
<p>Hoje em dia eu explico porque fomos presos. E ele fala: “Na época da guerra, né mãe?” Mas isso tem que ser corriqueiro nas escolas porque realmente essa é a história do Brasil, isso aconteceu de fato, é a história da gente. </p>
<p>Apesar de todo o sofrimento, dou graças a Deus de ter saído do Brasil na época, de ter sido banida do Brasil, ao invés de ter que ficar aqui como aconteceu com muitos, com pai preso, mãe presa, e eles nas escolas sofrendo o que hoje se chama bullying, sendo discriminados e sofrendo o que sofreram na escola. </p>
<p>Eu pelo menos não passei por isso. Fui para um país onde pude ter o resto da minha infância em paz e não ter essa vida massacrada e sendo seguida o tempo todo como aconteceu com várias crianças que ficaram aqui. </p>
<p>A vó faleceu há dez anos, em oito de  março de 2003. Ela tinha um registro de nascimento que constava como data de nascimento o dia 2 de novembro. Então eu costumo falar que minha vó nasceu no dia dos finados e faleceu no Dia Internacional da Mulher, oito de março. Ela teve câncer de útero. Acho que ela faleceu com 93 anos. Não temos certeza da idade, porque havia uma confusão de data.</p>
<div style="background-color:#b48824; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Zuleide Aparecida do Nascimento</strong> nasceu em 5 de agosto de 1965. Osaco (SP). Filha de Sebastião Rivom do Nascimento e Maria do Perpétuo Socorro do Nascimento, estudou em Cuba e trabalha como secretária.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#f6d78f; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Samuel Ferreira</strong> nasceu no bairro do Éden em São João do Meriti (RJ). Filho de criação de Tercina, era considerado neto da família instalada na entrada do sítio que servia de fachada para a área de treinamento de guerrilha. Tinha quase 9 anos quando foi banido e, sem documentos, ganhou o sobrenome de Tercina. Só conseguiu regularizar seus papéis em 1982.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#e4dcd0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Tercina Dias de Oliveira</strong> nasceu em 2 de novembro de 1913. Faleceu em 2004, aos 90 anos de idade. Ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Durante o período em que viveu na clandestinidade, Tercina era chamada de “Tia”, apelido dado por Carlos Lamarca. Figura lendária da esquerda brasileira, teve quatro filhos de quatro relacionamentos diferentes e criou outras duas crianças que adotou. Foi Manoel Dias do Nascimento, um dos filhos, que a levou para a militância.<br />
Juntamente com os netos, viveu no sítio em que Lamarca realizava treinamentos militares, no Vale do Ribeira, em São Paulo. Uma de suas missões era fazer a casa principal parecer levar uma vida “normal”. A outra era costurar os uniformes usados nos treinamentos.<br />
Tercina foi presa em Jacupiranga, interior do estado, com três das quatro crianças. Em 1979, foi uma dos 40 militantes trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Hollenben, sequestrados em junho de 1970.<br />
Banida, Tercina seguiu da Argélia para Cuba com três netos e um dos filhos de criação: Samuel Dias de Oliveira, Luis Carlos Max do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.  Retorna ao Brasil em 1986 com Zuleide, Luis Carlos e Ernesto. Samuel voltou em 1982.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#c9b17a; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Manoel Dias do Nascimento</strong> e <strong>Jovelina Tonello M. do Nascimento</strong>  Foram militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca. Ele foi um de seus fundadores, enquanto ela iniciou a militância após a prisão e o exílio.<br />
Antes de ajudar a criar a VPR, Manoel era líder sindical filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Entrou na clandestinidade em 1968, após ter a prisão decretada. Incentivou a mãe, Tercina Dias de Oliveira, a também contribuir para a VPR. Sua tarefa era organizar a guerrilha em São Paulo (SP). Foi preso em maio de 1970, quando cobria um ponto para passar informações a companheiros. No mesmo dia, mais tarde, a companheira Jovelina e o filho Ernesto foram presos na casa da família no bairro de Vila Formosa.<br />
Jovelina trabalhava na prefeitura de Osasco (SP) e foi demitida durante a licença maternidade por causa da militância do marido. Depois de passar pela Operação Bandeirantes (OBAN) e pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi com o filho para a ala feminina do Presídio Tiradentes.<br />
Em fevereiro de 1971, Manoel e Jovelina foram dois dos 70 presos políticos que tiveram a liberdade trocada pela do embaixador suíço Giovanni Enrico Bücher, sequestrado por militantes de resistência à ditadura. Exilaram-se no Chile. Na ocasião, contaram o que tinha acontecido com eles para os cineastas estadunidenses Haskell Wexler e Saul Landau, cujo documentário Brasil, um relato da tortura tornou-se uma das primeiras denúncias internacionais dos abusos cometidos pelo regime.<br />
“Antes de eu descer do pau de arara, minha companheira chegou com meu filho. Este filho assistiu a parte da tortura. Em seguida, puseram minha companheira no pau de arara, tomando choque em todas as partes do corpo, inclusive nas partes íntimas. Na minha presença. Só para eu falar alguma coisa”, relatou Manoel. Chorando muito, Jovelina testemunhou: “Ele [o filho Ernesto] dizia: ‘Não pode bater no papai. Não pode’. Para mim foi muito duro. Batiam muito em mim, mas não me perguntavam nada porque sabiam que eu não tinha participação nenhuma”.<br />
Em 15 de agosto de 1971, o casal chegou a Cuba, onde reencontraram Ernesto. Jovelina, então, foi à Coreia do Norte fazer treinamento de técnicas de guerrilha. Em 1972, ela e Manoel voltam ao Chile para se prepararem a retomada das atividades guerrilheiras no Brasil.<br />
Em setembro de 1973, com o golpe contra Salvador Allende, os dois foram presos no Estádio Nacional. O casal conseguiu fugir e se abrigar num refúgio da ONU, de onde seguiram para Cuba novamente.<br />
Lá, Jovelina fez curso de enfermagem. Ela e o marido voltaram ao Brasil em 1985. Ernesto retorna com Tercina em 1986. </div>
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		<title>&#8220;Até hoje sou uma pessoa completamente sem identidade&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 19:44:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Ferreira]]></category>
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		<description><![CDATA[Eu sou a Zuleide, uma das miniterroristas, que é a maneira como fomos taxados [pela ditadura]. Nascemos em Osasco, somos filhos de Sebastião Rivom do Nascimento, que é filho da tia Tercina e irmão do Manuel Dias do Nascimento. Minha mãe chamava Maria do Perpétuo Socorro do Nascimento, mas nós fomos criados pela vó, Tercina [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sou a Zuleide, uma das miniterroristas, que é a maneira como fomos taxados [pela ditadura]. Nascemos em Osasco, somos filhos de Sebastião Rivom do Nascimento, que é filho da tia Tercina e irmão do Manuel Dias do Nascimento. Minha mãe chamava Maria do Perpétuo Socorro do Nascimento, mas nós fomos criados pela vó, Tercina Dias de Oliveira, chamada de Tia, desde que éramos pequenos. </p>
<p>Na época da greve [de Osasco], eu tinha 3 anos de idade. Depois dessa greve, a família toda começou a ser perseguida porque o tio, o Manuel Dias de Oliveira, o Neto, foi um dos cabeças, um dos líderes da greve junto com o José Ibrahin.  Com muito orgulho eu falo que a greve de 1968 foi planejada na casa da minha avó, lá em Osasco. Ela dava todo apoio.<br />
O meu tio Manuel conheceu o Zequinha Barreto nas fábricas. Aí o Zequinha passou a militar na VPR e meu tio também. Depois ele também levou a minha avó para a organização. O tio Manuel se filiou ao sindicato com 15 anos de idade, por incentivo da minha avó, que tinha um espírito libertário. Quem teve a oportunidade de conhecê-la, sabe a figura que ela era, o espírito de luta que tinha.</p>
<p>Depois da greve, fomos morar no Vale do Ribeira. Lá, era a vó quem dava estrutura para o Capitão Lamarca. Quando as pessoas que sabiam da existência do aparelho do Vale começaram a ser presas, a organização fez por bem nos tirar de lá, porque sabia que a qualquer momento o aparelho poderia ser estourado. Quando saímos do Vale, o [José] Lavechia se separou de nós e entrou para as tropas do Lamarca, foi integrado à linha de frente da VPR. E nós fomos levados para um aparelho em Peruíbe. </p>
<p>A estratégia da ditadura, depois que ocuparam o Vale do Ribeira, foi manter a casa com a mesma rotina de quando estávamos lá. De manhã, colocavam as roupas das crianças no varal, davam comida para os bichos, abriam a casa e ficavam lá dentro. Isso servia de armadilha para outros companheiros que chegavam ao local pensando que estava tudo bem, que a Tia estava lá. Mas ao chegarem, eram presos. </p>
<p>Quando fomos sequestrados, fomos levados para uma casa que eu não lembro onde era. Lá, ficamos por cinco dias. Meu irmão Luis Carlos conta que era uma casa grande e bem mobiliada. Ficamos trancados num quarto de onde não podíamos sair. Depois, nos levaram para o Juizado de Menores. E o Samuel, que era nosso irmão de criação, foi levado para um local onde ficavam meninos infratores. Ele apanhou muito, foi torturado.</p>
<p>O Samuel ficou careca porque teve o cabelo raspado, foi tratado como menor infrator, apanhou. E além de ter sofrido a agressão psicológica que todos nós sofremos, ele ainda sofreu agressão física.</p>
<p>Do período que ficamos no Juizado, o que me lembro é que fizeram uma trança no meu cabelo. Eu tinha um cabelo de comprimento abaixo da cintura e ele foi cortado. Tinha uma pessoa cortando e outra do lado falando: “Me dá essa trança que eu quero fazer uma peruca”. Eu não lembro de muita coisa porque era pequena, mas desse fato eu lembro.<br />
Para mim, foi realmente uma grande violência. Eu era uma criança de 4 anos de idade. O que uma menina gosta? De ter cabelo comprido. Para mim, isso foi uma tortura. E foi também uma tortura terem me separado da minha avó, que era a única mãe que eu conhecia.</p>
<p>E eu tinha que ser forte. Minha avó olhava para mim e falava: “Seja forte, resista, não abaixe a cabeça”. E eu tendo que me segurar, tendo que segurar o tranco vendo minha avó partir. Para mostrar segurança, ela nem olhou para trás quando se separou de nós. </p>
<p>Só conseguimos sair do Brasil porque minha avó brigou muito para nos tirar, porque o caminho natural não seria esse. Nós seriamos adotados. Quando ela ficou sabendo que ia ser extraditada, que tinha que sair do Brasil, ia ser banida, disse: “Cadê meus netos?” E disseram que apenas ela iria embora. No período em que estávamos no Juizado de Menores, não me lembro bem como foi o fato, mas sei que de repente acordei e o Ernesto estava lá. Ele não tinha sido preso conosco e sim com o pai e a mãe dele. </p>
<p>Quando enfim resolveram nos liberar, disseram para minha avó: “Está bem, aqui estão seus três netos”. E ela: “Não, eu quero meus quatro netos. Estou sabendo que o Ernesto está lá dentro também, e ele é meu neto e vai comigo. Entrei aqui com três, mas eu vou sair daqui com quatro”. E assim foi. </p>
<p>Quando fomos libertados, a única coisa que me lembro é que me vi dentro de um helicóptero e lá na frente um monte de milicos armados. Foi quando foi feita a foto dos quarenta. [Em 15 de junho de 1970, quarenta militantes foram banidos do Brasil e enviados à Argélia em troca do embaixador alemão Ehrenfried Von Hollenben]. Aí nós fomos para a Argélia, onde ficamos um mês e pouquinho. Depois fomos para Cuba, que foi o país que nos acolheu. Ficamos lá durante dezesseis anos. Estudamos, terminei o segundo grau e depois voltei ao Brasil. </p>
<p>Havia muitas crianças que nasceram no Brasil, no Chile e que depois foram para Cuba. E a casa da vó, era a casa da avó de todos. As crianças iam passar as férias escolares lá na casa da vó, então, às vezes, tinham umas doze crianças lá. Os filhos do Virgílio [Gomes da Silva] foram criados juntos conosco. Ficávamos todos juntos.</p>
<p>Também tínhamos uma relação muito boa com as crianças cubanas. Na nossa casa, éramos em oito crianças. Todas as brincadeiras aconteciam lá. Os vizinhos cubanos vinham brincar com a gente e todos eles conheceram as nossas histórias.</p>
<p>Quando voltei ao Brasil, me engajei no movimento sindical. Trabalhei em muitos sindicatos, até porque também eu não tinha condições de procurar emprego em outro lugar. Quando tentei fazer ficha de emprego em muitos lugares, inventei que tinha estudado em uma escola em Pernambuco, mas que meus papéis tinham se queimado no barraco da favela onde eu morava. </p>
<p>Nesses meios também tive uma válvula de escape para o enfrentamento contra aqueles que me massacraram. Quando fui para o movimento sindical, fui participar de greve geral e acabei indo para o embate com a polícia. Fui para a linha de frente receber gás na cara. Enfrentá-los foi também uma forma que eu tive de falar: “Aqui estou eu, entenderam? O que fizeram, eu também estou enfrentando vocês, entenderam?”</p>
<p>Quando voltei ao Brasil, em 12 de janeiro de 1986, tinha 20, 21 anos. Meu irmão [Luis Carlos] voltou um pouco antes de mim. O Samuel voltou depois, em 1983. A vó e o Ernesto voltaram comigo. </p>
<p>O tio [Manoel Dias do Nascimento] já havia voltado ao Brasil assim que foi decretada a Anistia. Ele veio fazer o meio de campo para nós, foi atrás dos nossos documentos, porque quando saímos do país, não tínhamos nenhum documento. E então, quando meu tio mandou meu registro de nascimento lá para Cuba, foi impressionante. Só então descobri minha idade real. Quando eu cheguei em Cuba, colocaram como se eu tivesse nascido em 1966, quando na realidade eu nasci em 1965. </p>
<p>Eu não sabia minha data de nascimento, por exemplo, nem meu nome direito. Quando entrei na creche, usei o nome de Zuleide Lucena, que era o sobrenome da Damaris Lucena, viúva do [Antônio Raymundo] Lucena, que já estava lá com os filhos quando chegamos. O governo cubano nos colocou para morar na mesma casa que a Damaris porque ia ser mais fácil, inclusive para as crianças dela conviverem com outras crianças. Nós fomos criados como uma grande família. Na casa, morávamos a Damaris, a vó e as oito crianças. Era ela que cuidava de todos nós, e a Damaris que nos levava ao médico, à escola. Foi ela que me matriculou na escola e como não tinha documento, deu o nome de Zuleide Lucena. Assim fui chamada durante muito tempo. A questão do meu nome era uma confusão. Uma hora eu era Zulmara, outra vez Zuleide. Outra hora era Zuleide Lucena, outra ainda Zuleide Aparecida.</p>
<p>Essa identidade nós nunca achamos. Até hoje sou uma pessoa completamente sem identidade. Eu sei que sou brasileira, porque nasci brasileira. Mas não me sinto brasileira e sim cubana. Sei que não sou cubana, então é uma confusão muito grande. Aí eu costumo dizer que como tenho na veia a herança de militância, digo que sou latino-americana. Acho que fica muito mais fácil.</p>
<p>Cuba é o meu país e não tem como deixar de ser. Foi o país que nos acolheu. Foi pai e mãe para nós. Eu brinco que o Fidel Castro era o meu pai. Porque durante dezesseis anos nos apoiou e nos deu tudo, a formação que a gente tem hoje devemos a Cuba.</p>
<p>Chamarem a minha avó de Tia foi uma forma carinhosa criada pelos próprios companheiros. Eu imagino que como ela era a mais velha, a mais idosa, as pessoas carinhosamente a chamavam de tia. E pegou. Inclusive quando ela foi presa, os milicos a chamavam assim. E isso foi integrado ao nome dela: Tercina de Oliveira, a Tia. Ela era a cozinheira e costureira do Lamarca, no Vale do Ribeira.</p>
<p>Nós conhecemos o Lamarca, guardo bem isso na memória. Quando ele chegava do mato depois de quinze, vinte dias – porque havia um revezamento do pessoal que estava no mato, no treinamento e ele vinha buscar o outro pessoal que chegava e a casa servia de ponte – ele sentava no chão da cozinha lá de casa, tirava a bota e falava: “E aí Tia, você quer um toucinho aí para colocar no feijão para dar um gostinho?” Ele estava falando do próprio pé, que estava há vinte dias dentro de uma bota. Ele brincava com a vó. Eles tinham um relacionamento muito gostoso de mãe e filho. É uma figura que jamais esquecerei. Para mim, ele foi um pai. A gente sentava, ele brincava com a gente, lia histórias. Isso no pouco tempo que ficava ali com a gente.</p>
<p>Ele matava com a gente a saudade que tinha dos filhos, a Claudinha e o César. Ele nos ajudou a suprir um pouco a necessidade de pai e nós o ajudamos a suprir um pouco a necessidade dele de filhos. </p>
<p>Eu estava em Cuba quando ele foi morto [Lamarca foi assassinado em 17 de setembro de 1971]. Eu olhei para a minha avó e perguntei: “Vão fazer com ele que nem fizeram com o Che [Guevara]? Vão arrancar as mãos do Lamarca também?” O que soubemos foi que ele estava no sertão da Bahia com o Zequinha [Barreto], que foi perseguido lá, e que tinham conseguido encurralar e matar ele. </p>
<p>Quero contar um pouco a história do Samuel. </p>
<p>Ele era do Rio de Janeiro, foi criado pela mãe, tinha irmãs mais velhas. A mãe saía para trabalhar, as irmãs também. Ele ficava sozinho, brincando pelo cemitério do bairro onde morava. Ficava na rua. Minha avó, que sempre criou várias crianças, foi passar um tempo lá no Rio de Janeiro e conheceu essa criança na rua. Ela foi à casa da mãe e pediu para cuidar dele. A mãe deixou. Aí quando a vó retornou para São Paulo trouxe o Samuel junto. </p>
<p>Ele passou por toda a nossa história, foi de aparelho em aparelho, foi para o Vale do Ribeira. Além da dor psicológica que a gente sofreu, ele passou por tortura física. Fomos para Cuba e quando o tio Neto voltou, resgatou a identidade do Samuel, que na volta, foi procurar a família biológica e começou a resgatar a história dele. Reencontrou a mãe e teve condições de ter o nome dela no registro. Quando saiu do Brasil, usava o nome da vó, Samuel Dias de Oliveira, até porque todo mundo saiu sem documento.Ele só teve condições de ter registro de nascimento quando voltou, porque foi com a mãe [biológica] ao cartório e se registrou. Hoje, ele se chama Samuel Ferreira, que é o sobrenome da mãe. Porque na época em que se registrou no Brasil, o pai já tinha falecido.</p>
<p>Em 2009, 2010, quando foi julgado o nosso processo em Brasília, fui defender o processo do Samuel que, quando entrou com um processo de anistia, apresentou o nome de Samuel Ferreira. E aí existia um conflito, porque todos os documentos que juntávamos era de Samuel Dias de Oliveira. </p>
<p>Eu costumo falar para o Samuel que tenho mais carinho e cuidado por ele do que tenho pelo meu próprio irmão de sangue. Ele me ligava e falava: “Você é a única irmã que eu tenho, a minha família de sangue aqui não quer saber de mim. Eles não me procuram, eu não tenho contato com eles”.Na semana passada eu falei com ele, para vir aqui dar depoimento, que para ele é importante falar. “Vai, vai ser bom, você fala muito poucas vezes sobre isso”. Dizem que quando a gente solta, vai tirando um pouco de cima. Eu, quando faço isso que estou fazendo hoje [testemunhando], o resto do dia fico como se tivesse passado um trator em cima de mim. Já o Ernesto dorme até três dias seguidos. </p>
<p>Mas realmente ele não quer falar. Ele disse: “Eu não quero, tenho que trabalhar. Aqui ninguém conhece a minha história, aqui eles não conhecem de onde eu vim, para onde eu fui, quem eu fui, quem eu sou, nada. E eu não quero que saibam, não quero, não quero”. Eu acho que ele não quer falar.</p>
<p>Hoje o Samuel é uma pessoa super retraída. Nós que somos irmãos dele, que nos criamos com ele, sentimos a diferença dele antes de Cuba e em Cuba. Lá foi o período em que ficou mais descontraído, mais à vontade. Depois que voltou, a gente percebe que ele tem um bloqueio muito grande.</p>
<p>Para mim, é muito doloroso contar e lembrar da minha história. Mas eu faço pela importância. Acho que esses fatos que aconteceram têm que ser revelados, falados. Quero parabenizar o trabalho da Comissão porque são coisas que precisam ser faladas, abertas, jogadas ao mundo.  </p>
<p>Eu me orgulho de ter esta história, de ter, de certa forma, participado de tudo isso. E também é a única história que eu conheço, o único jeito de vida que conheço. Para mim, é tão natural ter esta história e ter passado por tudo isso. Não é que eu goste de falar, há uma necessidade de se falar, a necessidade de gritar ao mundo. Aconteceu isso sim, aconteceram essas barbaridades sim, de matarem pai de família, de matarem mães de família, aconteceu de crianças realmente serem taxadas de terroristas, como se a gente fosse perigo para a sociedade. Crianças foram torturadas de fato, isso aconteceu no Brasil, na América Latina e não pode voltar a acontecer. </p>
<p>Nenhum ser humano tem o poder de torturar, de acabar com a vida de outro ser humano. Em nome de quê? Por isso que eu acho importante e por isso que eu vim hoje. Porque eu quero que amanhã meu filho saiba direito o que aconteceu. Ele tem 9 anos de idade. Quando as crianças são pequenas, o que ensinamos a elas? Que se você rouba, é preso. Se mata, é preso. Um dia, estávamos eu e o tio Manoel no carro, conversando e falando: “Sabe fulano, que esteve preso com cicrano, com a Vó, não sei o quê”?  Aí meu filho olhou para mim e perguntou: “Você já foi presa? O tio já foi preso? A bisa já foi presa?” O menino levou um susto. </p>
<p>Hoje em dia eu explico porque fomos presos. E ele fala: “Na época da guerra, né mãe?” Mas isso tem que ser corriqueiro nas escolas porque realmente essa é a história do Brasil, isso aconteceu de fato, é a história da gente. </p>
<p>Apesar de todo o sofrimento, dou graças a Deus de ter saído do Brasil na época, de ter sido banida do Brasil, ao invés de ter que ficar aqui como aconteceu com muitos, com pai preso, mãe presa, e eles nas escolas sofrendo o que hoje se chama bullying, sendo discriminados e sofrendo o que sofreram na escola. </p>
<p>Eu pelo menos não passei por isso. Fui para um país onde pude ter o resto da minha infância em paz e não ter essa vida massacrada e sendo seguida o tempo todo como aconteceu com várias crianças que ficaram aqui. </p>
<p>A vó faleceu há dez anos, em oito de  março de 2003. Ela tinha um registro de nascimento que constava como data de nascimento o dia 2 de novembro. Então eu costumo falar que minha vó nasceu no dia dos finados e faleceu no Dia Internacional da Mulher, oito de março. Ela teve câncer de útero. Acho que ela faleceu com 93 anos. Não temos certeza da idade, porque havia uma confusão de data.</p>
<div style="background-color:#fce5c2; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Zuleide Aparecida do Nascimento </strong>nasceu em 5 de agosto de 1965. Osaco (SP). Filha de Sebastião Rivom do Nascimento e Maria do Perpétuo Socorro do Nascimento, estudou em Cuba e trabalha como secretária.</div>
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<div style="background-color:#d1973f; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Samuel Ferreira</strong> nasceu no bairro do Éden em São João do Meriti (RJ). Filho de criação de Tercina, era considerado neto da família instalada na entrada do sítio que servia de fachada para a área de treinamento de guerrilha. Tinha quase 9 anos quando foi banido e, sem documentos, ganhou o sobrenome de Tercina. Só conseguiu regularizar seus papéis em 1982.</div>
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<div style="background-color:#e4dcd0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Tercina Dias de Oliveira</strong> nasceu em 2 de novembro de 1913. Faleceu em 2004, aos 90 anos de idade. Ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Durante o período em que viveu na clandestinidade, Tercina era chamada de “Tia”, apelido dado por Carlos Lamarca. Figura lendária da esquerda brasileira, teve quatro filhos de quatro relacionamentos diferentes e criou outras duas crianças que adotou. Foi Manoel Dias do Nascimento, um dos filhos, que a levou para a militância.<br />
Juntamente com os netos, viveu no sítio em que Lamarca realizava treinamentos militares, no Vale do Ribeira, em São Paulo. Uma de suas missões era fazer a casa principal parecer levar uma vida “normal”. A outra era costurar os uniformes usados nos treinamentos.<br />
Tercina foi presa em Jacupiranga, interior do estado, com três das quatro crianças. Em 1979, foi uma dos 40 militantes trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Hollenben, sequestrados em junho de 1970.<br />
Banida, Tercina seguiu da Argélia para Cuba com três netos e um dos filhos de criação: Samuel Dias de Oliveira, Luis Carlos Max do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.  Retorna ao Brasil em 1986 com Zuleide, Luis Carlos e Ernesto. Samuel voltou em 1982.</div>
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<div style="background-color:#c9b17a; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Manoel Dias do Nascimento</strong> e <strong>Jovelina Tonello M. do Nascimento</strong>  Foram militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca. Ele foi um de seus fundadores, enquanto ela iniciou a militância após a prisão e o exílio.<br />
Antes de ajudar a criar a VPR, Manoel era líder sindical filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Entrou na clandestinidade em 1968, após ter a prisão decretada. Incentivou a mãe, Tercina Dias de Oliveira, a também contribuir para a VPR. Sua tarefa era organizar a guerrilha em São Paulo (SP). Foi preso em maio de 1970, quando cobria um ponto para passar informações a companheiros. No mesmo dia, mais tarde, a companheira Jovelina e o filho Ernesto foram presos na casa da família no bairro de Vila Formosa.<br />
Jovelina trabalhava na prefeitura de Osasco (SP) e foi demitida durante a licença maternidade por causa da militância do marido. Depois de passar pela Operação Bandeirantes (OBAN) e pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi com o filho para a ala feminina do Presídio Tiradentes.<br />
Em fevereiro de 1971, Manoel e Jovelina foram dois dos 70 presos políticos que tiveram a liberdade trocada pela do embaixador suíço Giovanni Enrico Bücher, sequestrado por militantes de resistência à ditadura. Exilaram-se no Chile. Na ocasião, contaram o que tinha acontecido com eles para os cineastas estadunidenses Haskell Wexler e Saul Landau, cujo documentário Brasil, um relato da tortura tornou-se uma das primeiras denúncias internacionais dos abusos cometidos pelo regime.<br />
“Antes de eu descer do pau de arara, minha companheira chegou com meu filho. Este filho assistiu a parte da tortura. Em seguida, puseram minha companheira no pau de arara, tomando choque em todas as partes do corpo, inclusive nas partes íntimas. Na minha presença. Só para eu falar alguma coisa”, relatou Manoel. Chorando muito, Jovelina testemunhou: “Ele [o filho Ernesto] dizia: ‘Não pode bater no papai. Não pode’. Para mim foi muito duro. Batiam muito em mim, mas não me perguntavam nada porque sabiam que eu não tinha participação nenhuma”.<br />
Em 15 de agosto de 1971, o casal chegou a Cuba, onde reencontraram Ernesto. Jovelina, então, foi à Coreia do Norte fazer treinamento de técnicas de guerrilha. Em 1972, ela e Manoel voltam ao Chile para se prepararem a retomada das atividades guerrilheiras no Brasil.<br />
Em setembro de 1973, com o golpe contra Salvador Allende, os dois foram presos no Estádio Nacional. O casal conseguiu fugir e se abrigar num refúgio da ONU, de onde seguiram para Cuba novamente.<br />
Lá, Jovelina fez curso de enfermagem. Ela e o marido voltaram ao Brasil em 1985. Ernesto retorna com Tercina em 1986. </div>
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