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	<title>Infância Roubada &#187; Martinelli</title>
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		<title>“Os filhos sofrem, mas temos que dar continuidade à vida”</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 17:53:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Martinelli]]></category>

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		<description><![CDATA[Após o golpe de 31 de março, eu tive que ir para a clandestinidade. No dia do golpe, fiz um discurso na rádio para a minha área ferroviária. Se eu demorasse um pouco mais para ir embora, teria sido preso, porque os militares tomaram a rádio também. E eu cheguei a ser denunciado como espião [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Após o golpe de 31 de março, eu tive que ir para a clandestinidade. No dia do golpe, fiz um discurso na rádio para a minha área ferroviária. Se eu demorasse um pouco mais para ir embora, teria sido preso, porque os militares tomaram a rádio também. E eu cheguei a ser denunciado como espião russo pelo ministro do trabalho.</p>
<p>Mesmo na clandestinidade eu continuei morando no Rio de Janeiro. Nem pude ir mais para a minha casa, que ficou cercada o tempo todo. Eles estavam à minha espera, para me prender. Lá, moravam minha mulher e meus quatro filhos, sendo que a mais nova, a Rosa Maria, tinha um ano e pouco.</p>
<p>Resolvi voltar para São Paulo, apesar da pressão dos companheiros do comitê central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que me pressionavam, querendo que eu fosse para o Rio Grande do Sul. Eu disse que não ia a lugar nenhum. Eu queria ir para São Paulo, porque era a minha área, eu comandava a ferrovia Santos Jundiaí.</p>
<p>Enquanto eu estava na clandestinidade, no Rio, não conseguia encontrar a minha família. Montamos um esquema para levar todos para São Paulo. Com um caminhão de mudança, meu irmão levou todas as coisas da família para São Paulo.</p>
<p>Primeiro eles ficaram em Bragança, num sítio e depois foram para Jundiaí, onde morava a família da minha mulher. Depois que fiquei sabendo as dificuldades que eles passaram.</p>
<p>A minha família foi primeiro para São Paulo e depois fui eu, que fiquei em outra área clandestina. Fiz todo o esquema contrariando o partido e fui chamado de irresponsável. Vim para São Paulo por minha conta. Eu assumi essa responsabilidade. A minha opinião era que a direção do partido estava errando, que de 1955 para a frente, desde a morte do [Joseph] Stalin, não havia mais educação revolucionária.</p>
<p>Primeiro, fiz um esquema clandestino, sem contato com a minha família. E quando fiz contato com a minha mulher, fui encontrá-los e a minha menina não me reconheceu. Ela tinha um ano e pouco. Coitadinha, ela me olhou como quem diz “quem é esse cara?”. Foi um encontro clandestino, no bairro da Lapa. Nessa época, eles estavam morando em Jundiaí.</p>
<p>Depois fui ficar clandestinamente onde meu pai morava, no bairro da Lapa, em São Paulo. E meu filho Luiz Carlos ficava comigo. Combinamos que, por segurança, ele nunca me chamasse de pai. Convivi muito com ele. De vez em quando eu dava uma escapada em Jundiaí para ver a família.</p>
<p>Eu nunca parei. Eu e meu irmão compramos um Ford 29 e eu ia para as reuniões clandestinamente com aquele carro. Nosso partido tinha terminado com a educação revolucionária e eu viajava explicando que o partido tinha que ter organização revolucionária.</p>
<p>Nessa época, eu estava morando no fundo do quintal da casa do meu pai e meus filhos e mulher também vieram para cá. A repressão sabia onde eu estava e todo Primeiro de Maio eles iam me prender, me buscavam em casa e eu ia para a Polícia Federal. Minhas prisões eram só no Primeiro de Maio, mas eu nunca parei de atuar na organização. Havia vários companheiros que tinham as mesmas ideias, como o [Carlos] Marighella. Reunimos o comitê estadual e perguntamos “qual é a saída?”  “O comitê central não dá mais, a ditadura está aí”. Então criamos a Ação Libertadora Nacional, a ALN.</p>
<p>Na casa do meu pai, a família vivia modestamente. Criavam coelho, no quintal tinha cabra, galinha, tudo. E meus filhos frequentavam o grupo escolar.</p>
<p>As consequências foram mesmo quando eu fui preso em 1970, aí sim a família sofreu, passou dificuldade. Fui levado diretamente para a OBAN.</p>
<p>Eu fui preso onde trabalhava. De acordo com a nossa organização, mesmo fazendo organização revolucionária, se possível tinhamos que ter um emprego. E eu trabalhava na Cooperativa Habitacional União Sindical, que era dos ferroviários. Quando cheguei no trabalho, a OBAN já estava lá, com metralhadora e o diabo.  Fui preso porque um companheiro caiu e o outro conseguiu fugir. Ele pediu para outro companheiro me avisar. E ele avisou. Aí, depois de 24 horas esse que foi preso abriu o meu nome, como se fosse ter uma reunião comigo.</p>
<p>Quem estava lá era o [Benoni de Arruda] Albernaz que era um assassino e era difícil sair vivo. Mas sobrevivi porque eu entrei como alguém que tinha participado de reunião, de questão de cooperativa, sindicato. E eu no pau de arara, com o tira, fazendo esse jogo comigo. Aí chegou aquele da Ultragás, o [Henning Albert] Boilesen, eu vi ele. O cara disse: “Agora só falta pegar o Marighella”.</p>
<p>O companheiro que me abriu não aguentou e começou a abrir, abrir, e abriu o trem pagador. Eu estava arrebentado. Só abri o trem pagador quando me mostraram fotos de um cara morto. Quando vi  que todos os compas que participaram  estavam mortos, eu acabei abrindo. Eu só não fui morto porque nunca foi aberto que eu era dirigente da ALN.</p>
<p>E porque eu tinha uma cunhada, ela falava para burro. Ela conhecia um oficial e falou de mim:  “Poxa vida, ele é diretor do sindicato. Será que ele está preso, podia ver isso?”. </p>
<p>Aí o cara deu o serviço para ela: “Ele está na OBAN”. Aí ela foi me levar roupa na OBAN, para ficarem sabendo que ela sabia que eu estava preso lá.</p>
<p>Fiquei doze dias na OBAN. O  meu companheiro falou coisas graves de mim, e eu fui arrebentado. Uma noite, saí da cela forte e encontrei com ele. Usei aquela posição de dirigente comunista, disse que ele estava falando demais. Aí, nessa madrugada, mesmo eu estando arrebentado, eles me torturaram de novo. Não sei se foi ele que falou ou se tinha microfone.</p>
<p>Depois fui para o DOPS, onde sofri ainda mais. Apanhei muito mais do que na OBAN. O DOPS tinha minha vida todinha, viagem à URSS, cursos, Cuba, viagem, conferências. Se eu tinha apanhado na OBAN, me arrebentaram no DOPS. Costumo dizer que não é o pau de arara, e sim o que eles fazem em cima de nós, no pau de arara, e isso era diariamente.</p>
<p>Fiquei dezoito dias lá, mais doze na OBAN. Foram 30 no total. Minha última estada no DOPS foi quando arrebentaram o Olavo Hanssen. Depois, ele apareceu morto. Sempre elogiei a posição do Hanssen, a resistência dele. O DOPS era isso, uma máquina de matar.</p>
<p>No dia seguinte à morte dele, fui para o Tiradentes, era maio. Fui preso em abril de 1970. Lá, eu tive visita. Na visita, eu estava arrebentado, porque na OBAN levei um soco inglês nas costas. Fiquei com as costas arrebentadas. E na cela forte, sem assistência. No DOPS, levei pauladas na cabeça. O [Maurice] Politi me emprestou uma blusa de lã para eu me enfaixar com ela. Eu estava tão machucado que a minha família não podia me abraçar.</p>
<p>A família da gente sofre no lar, sofre na sociedade. Eu recusei sair no sequestro do embaixador suíço, e então minha fotografia saiu no jornal como terrorista. Aí ficam achando que a gente é terrorista mesmo e isso mexe com a família.</p>
<p>Com esse troço de terrorista, quem dava as aulas de educação moral e cívica nas escolas eram os capitões. E um capitão colocou meu filho Edson na frente e começou a arrebentar com os terroristas. E ai disse: “O Martinelli teve a coragem de dar o nome de Lenin para esse menino, vejam só”.</p>
<p>Mandei entregar um livro para meu filho, dizendo: “Leia Lenin e veja porque botei seu nome de Lenin, veja o bandido que ele é”. Ele tinha 7 anos, ele nasceu em 1953.</p>
<p>A família sofre muito com as consequências. Na cadeia, eu fazia cestas de vime, uma por dia, e eles vendiam para ajudar com as despesas da família.</p>
<p>Minha mulher, filha de portugueses, tinha os filhos sempre em primeiro lugar. Nesses três anos e meio, todos foram muito bons filhos.Tem uma carta do meu filho mais velho [Jaime] que é uma coisa espetacular. Ele escreveu para o Médici arrebentando e colocando o pai lá em cima: “Onde já se viu, esses homens que deviam estar governando o Brasil”. Esse meu  filho quase nunca ia me visitar, ele não aguentava. Ele não queria me ver preso. Os filhos sofrem, mas temos que dar continuidade à vida.</p>
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Raphael Martinelli</strong> nasceu em São Paulo (SP), em 16 de outubro de 1924. Filho de Maximino Martinelli e Yoli Pistorezzi Martinelli.<br />
Começou a trabalhar aos 12 anos numa empresa de anilina (Produtos Químicos Sucuri), depois numa vidraria (Santa Marina) e em seguida como ajudante de ferreiro, na empresa de produtos de aço Tupi.<br />
Em 1941, entrou para a Estrada de Ferro São Paulo Railway. Apaixonado por futebol e bom de bola, jogou em times da várzea paulistana até que a ferrovia e a militância ocuparam a maior parte de seu tempo. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde a adolescência, seguindo os passos de seu pai, filia-se ao sindicato dos ferroviários.<br />
Foi dirigente da Federação Nacional dos Ferroviários e um dos mais importantes líderes sindicais do Brasil até 1964. Quando houve o golpe, foi cassado por dez anos. Foi para a clandestinidade e entrou na luta armada.<br />
Junto com Carlos Marighella, foi um dos fundadores da Ação Libertadora Nacional (ALN). Preso em 1970 foi levado à Operação Bandeirantes (OBAN).<br />
Ficou preso durante três anos, três meses e 10 dias.<br />
Hoje é advogado e presidente fundador do Fórum dos Ex-Presos Políticos e Perseguidos de São Paulo. Tem quatro filhos, sete netos e quatro bisnetos. </p>
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		<title>Anos setenta</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 16:44:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Martinelli]]></category>

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		<description><![CDATA[Mãos firmes a revistavam&#8230;tinha apenas 9 anos. Pode abaixar as calças? Afasta as pernas! Muito bem! Levante os braços, abra a boca, cabelos&#8230;(tudo numa agilidade troglodita e sem pausa). Pode vestir&#8230; a saída é por ali&#8230; Por ali era um portão verde de ferro que dava para outro portão de grade, que dava para um [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Mãos firmes a revistavam&#8230;tinha apenas<br />
9 anos. Pode abaixar as calças? Afasta as pernas! Muito bem! Levante os braços, abra a boca, cabelos&#8230;(tudo numa agilidade troglodita e sem pausa).<br />
Pode vestir&#8230; a saída é por ali&#8230;<br />
Por ali era um portão verde de ferro que dava para outro portão de grade, que dava para um pátio enorme que tinha chão de concreto quebrado. Ia feliz, sem entender.<br />
Para o seu tamanho, aqueles dois pavilhões que rodeavam o pátio eram verdadeiros monumentos, cheios de janelinhas gradeadas e com mãos acenando.<br />
Quem seriam aqueles?<br />
Passeava num passo de dança&#8230; dois pra cá, dois pra lá&#8230; até chegar noutro portão onde a escuridão do lado de dentro lembrava os medos de dormir.<br />
Homens fardados barravam a entrada de um dos prédios grandes e curiosa que era se enfiava entre os vãos das pernas enormes&#8230; Posso ver? Perguntava.<br />
Lá vinha ele&#8230; um homem baixo, loiro, rosto bonito,músculos fortes&#8230; e com aquele sorriso&#8230; um sorriso conhecido e querido, olhos muito claros que a fitavam com saudades.<br />
O coração ia aos pulos, quase tropeçava entre aquelas fardas&#8230; tentando se aproximar. Mas, o que era aquilo? Porque ele tinha aquelas argolas rodeando seus punhos?<br />
Já muito próxima,  a menina atônita já não era feliz, por tentar entender.<br />
Pai!!!! Abraçava, pulava no colo, puxava sua mão&#8230; quase o amassava.<br />
– Pai, o que era aquilo? Porque aqueles homens prenderam seus braços?<br />
– São algemas e servem pra que a gente não tente fugir.<br />
– O senhor quer fugir?<br />
– Não. Mas eles pensam que sim.<br />
– Pai, aprendi um novo passo&#8230; quer ver? Aposto que não sabe fazer&#8230; quer tentar? Dança comigo?<br />
Imagem surreal de alegria, num retângulo de vidas cortadas.<br />
– Gostou?<br />
Nem percebeu que das janelas com mãos desconhecidas lhes jogavam colares, pulseiras&#8230; coisas bonitas.<br />
– É pra mim?<br />
– Claro que sim! Pode dançar mais pequena bailarina?<br />
Lá ia ela fazendo rodas, cantarolando, fazendo estrela e sendo a própria.<br />
–  Quem são eles pai?<br />
–  São presos “comuns”&#8230; é como são chamados.<br />
– O senhor também é um preso comum? Pois eu não acho&#8230; acho que é um preso importante, o mais importante de todos!<br />
–  Neste prédio que estou são só presos políticos&#8230; somos divididos.<br />
– Preso político? É alguma coisa ruim?<br />
– Não é não&#8230; e sorriu aquele sorriso calmante.<br />
– Mas pai, por que tá preso?<br />
– Ainda é pequena pra entender.<br />
– Mas não tô feliz agora&#8230; queria que voltasse pra casa.<br />
– Quando for embora, vai parar lá na Av.<br />
Tiradentes, sabe qual é?<br />
– Sei. Essa que fica em volta do prédio&#8230;<br />
– Então, vai contar três andares, de baixo para cima e olhar pra janelinha da direita. Vou acenar pra você, com uma toalha branca. Vai imaginar um pássaro, que vai voar até seus ombros&#8230; e o levará sempre junto pra onde quiser.<br />
– Puxa! Verdade?<br />
(silêncio)<br />
– Já sei porque tá aqui, pai, e nem preciso crescer tanto. Está preso porque sonha bonito. Eles quiseram trancar suas palavras assim. Mas isso não é roubo?<br />
&#8230;<br />
– Tenho um pai passarinho poeta preso – mas não conta pra ninguém.<br />
– O quê?<br />
– Que ele tem asas.<br />
“O portão do Tiradentes ainda existe, a menina também&#8230; e o pássaro continua voando&#8221;</p>
<div style="background-color:#de9d65; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Rosa Maria Martinelli</strong>, <strong>“Anos Setenta”</strong><em>, in: Entrelinhas: Antologia de Contos e Microcontos, Andross Editora, São Paulo, 2008, pp. 123-125.</div>
<p></p>
<hr />
<div style="background-color:#3e1e03; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Maria Augusta Martins Martinelli</strong>, caçula de seis irmãos, nasceu em Jundiaí (SP), em 1925. Filha de Amélia e João Martins, ambos portugueses. Casou-se com Raphael Martinelli em 1947.<br />
Faleceu em novembro de 2003, aos 78 anos, quando ia completar 56 anos de casamento com Martinelli. De acordo com Rosa, sua filha, era uma “cozinheira maravilhosa. Quem compartilhou da sua mesa, sabe. Fazia o melhor capeletti in brodo que se tem notícia. O fazia artesanalmente. Sua felicidade era nos ver repetir o prato. Todas as noites, até mesmo quando estava doente, esperava meu pai para colocar a conversa em dia. Ela nasceu para ser mãe, era muito presente e afetiva”. De acordo com Martinelli, a parceria da esposa “foi essencial para minha história como revolucionário”. </div>
<p></p>
<hr />
<div style="background-color:#c94438; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Raphael Martinelli</strong> nasceu em São Paulo (SP), em 16 de outubro de 1924. Filho de Maximino Martinelli e Yoli Pistorezzi Martinelli.<br />
Começou a trabalhar aos 12 anos numa empresa de anilina (Produtos Químicos Sucuri), depois numa vidraria (Santa Marina) e em seguida como ajudante de ferreiro, na empresa de produtos de aço Tupi.<br />
Em 1941, entrou para a Estrada de Ferro São Paulo Railway. Apaixonado por futebol e bom de bola, jogou em times da várzea paulistana até que a ferrovia e a militância ocuparam a maior parte de seu tempo. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde a adolescência, seguindo os passos de seu pai, filia-se ao sindicato dos ferroviários.<br />
Foi dirigente da Federação Nacional dos Ferroviários e um dos mais importantes líderes sindicais do Brasil até 1964. Quando houve o golpe, foi cassado por dez anos. Foi para a clandestinidade e entrou na luta armada.<br />
Junto com Carlos Marighella, foi um dos fundadores da Ação Libertadora Nacional (ALN). Preso em 1970 foi levado à Operação Bandeirantes (OBAN).<br />
Ficou preso durante três anos, três meses e 10 dias.<br />
Hoje é advogado e presidente fundador do Fórum dos Ex-Presos Políticos e Perseguidos de São Paulo. Tem quatro filhos, sete netos e quatro bisnetos. </div>
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		<title>Amor silenciado</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 16:35:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Martinelli]]></category>

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		<description><![CDATA[Na primeira vez que tivemos que fugir do Rio de Janeiro para São Paulo, eu tinha só 2 anos. Meu pai estava sempre viajando, e quando ele retornava, sempre tinha uma bonequinha, uma coisa assim. E da primeira vez, quando ele foi preso em 1970 eu vi que ele demorava a voltar, e eu sentia [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Na primeira vez que tivemos que fugir do Rio de Janeiro para São Paulo, eu tinha só 2 anos. Meu pai estava sempre viajando, e quando ele retornava, sempre tinha uma bonequinha, uma coisa assim. E da primeira vez, quando ele foi preso em 1970 eu vi que ele demorava a voltar, e eu sentia que as pessoas em volta, as pessoas próximas queriam me poupar de saber exatamente o que estava acontecendo com ele. Eu era muito menina e apegada a ele, sentia que as pessoas cochichavam e escondiam de mim. </p>
<p>Acho que se tem alguma coisa que aprendi quando eu era pequenininha, foi silenciar. Silenciar é a palavra que me vem imediato na cabeça. Era sempre “xiiiu, não pode falar”. Eu perguntava, e falavam “psiu”. Era sempre um silêncio e eu chorava muito porque sentia a falta dele. E lembro quando a minha tia, irmã do meu pai ficou sabendo que ele estava no DOPS. Eu nem sabia o que era DOPS, achava que ia visitá-lo em algum lugar, tinham encontrado meu pai. </p>
<p>Fui com minha tia. Ela me levou porque eu era uma criança que não estava mais dormindo à noite, e ela quis me aliviar. E eu me lembro que foi uma cena muito marcante nesse dia porque eu cheguei num lugar muito escuro, com paredes escuras. Cheguei muito feliz porque ia rever meu pai. Essa é uma cena muito marcante na minha memória, porque quando meu pai finalmente apareceu, dois homens o amparavam e ele estava irreconhecível. Eu não conseguia ver que aquele homem ali na minha frente era meu pai, ele era uma pessoa fisicamente diferente. </p>
<p>Ele chegou bem próximo de mim, colocou a mão na minha cabeça e foi nesse instante que eu vi que era ele. Eu não entendia nada, mas lembro de uma coisa que me chamou a atenção, quando eu fecho os olhos e lembro desse dia, era a camisa dele abotoada errada. E as mãos tremiam muito. E, novamente, eu caio naquela palavra silêncio porque na minha curiosidade infantil queria perguntar: “E aí, pai, o que está acontecendo? O que é aqui?” Me lembro da minha tia falando “xiu”, e então, foram duas coisas muito marcantes. </p>
<p>A segunda situação que eu lembro já foi no presídio Tiradentes, eu passava em revista junto com minha mãe. Numa das vezes, meu pai fazia aniversário e minha mãe quis fazer um bolo, passamos praticamente a sexta-feira inteira fazendo aquele bolo. Tínhamos pouco dinheiro e aquilo era um acontecimento. E o dia seguinte era um sábado, quando aconteciam as visitas. Fomos até lá, eu e minha mãe. E nos meus olhos infantis, era inconcebível ver aquela mulher [do presídio] cortando o bolo em pedaços. Ela praticamente destruiu o presente que a gente ia dar para o meu pai. E mais uma vez eu perguntei, “Mãe, porque ela está fazendo isso?” E minha mãe me mandou fazer silêncio de novo. </p>
<p>Eu passava na revista feminina e aquilo era para mim uma coisa absurda. Eu era criança, tinha que abrir a boca, tinha que abrir as pernas, eles vasculhavam meu corpo todo para poder entrar. Mas ali era sempre uma coisa boa para mim. Eu ficava feliz de ir até lá porque sabia que ia vê-lo e podia brincar. Era um pátio enorme, eu lembro dos dois pavilhões, onde, de um lado, ficavam os presos políticos e do outro, os presos comuns. E eu sempre estava perto dos presos comuns, porque eu fazia umas brincadeiras, eles me jogavam colares, jogavam pulseiras e eu ficava feliz. </p>
<p>Ali eu conheci outras pessoas como meu pai, mais jovens, com quem eu tinha afinidade por histórias. Sempre gostei de ouvir histórias, e recentemente eu tive a felicidade de reencontrar um senhor que esteve preso junto com o meu pai. Na época, ele era estudante, jovem. Eu pedia que deixassem ele andar comigo pelo pátio, porque ele era um grande contador de histórias. Eu tive a felicidade de reencontrá-lo e de promover também o encontro dele com o meu pai, o senhor Luis Paulino. Foi muito emocionante o encontro porque meu pai nunca nos fala sobre tortura. </p>
<p>Através desse senhor eu soube que eles se conheceram exatamente num dia em que meu pai estava indo para os porões, estavam entrando juntos para a tortura. Eles não se conheciam e ele, muito amedrontado, diz ao meu pai: “Puxa, eu tenho uma placa de metal na minha cabeça, eu fui operado. E eu tenho muito medo que eles me batam e eu possa morrer”. Ele mesmo me contou essa história. Meu pai tem uma grande dificuldade de falar nisso. Ele disse: “quando eu entrei, a primeira coisa que o seu pai fez foi falar: ‘não bata nele. Não bata na cabeça dele. Ele tem um problema assim, assim’”. E ele acha que ele foi salvo por conta de o meu pai ter dito isso. </p>
<p>O aniversário dele de 70 anos foi no ano passado e ele quis muito que meu pai fosse. Eu o levei, e ele colocou essa história publicamente. Eu achei muito bacana porque mostra bem a pessoa do meu pai, que é esse cara que sempre é pelos outros. Muitas vezes nós, filhos, ficamos muito a parte da vida dele, porque ele queria nos poupar de saber tudo que estava acontecendo. Eu, por muito tempo, não quis saber dessa história. </p>
<p>Por volta dos meus 30 anos, tive a curiosidade de recolher umas fitas cassete que meu pai deixava para alguns jornalistas na época. Eu praticamente roubei essas fitas para ouvir. Eram cinco. E na segunda eu já não conseguia mais parar de ouvir, ele falava muito da história dele e ali ele contava das torturas. Aquilo foi tão forte dentro de mim, aquele rombo de imaginar que um ser humano possa ser capaz de fazer isso com outro que eu tive uma catarse, eu queria entender como isso podia ter acontecido a ele. </p>
<p>Meu pai fala pouco a respeito disso, mas a marca que ficou foi muito grande em todos nós, os filhos. Porque você tem que recolher tudo isso para criar uma certa identidade, porque você veio dali. O que eu posso dizer é que nesse tempo todo eu vim perguntando a ele toda a história e fui sempre me interessando por tudo isso. Não só a história dele, mas a história da ditadura no Brasil ou em qualquer outro lugar, eu sempre tive um grande interesse, eu queria saber, esmiuçar, esmagar aquilo dentro de mim. Fiz terapia durante muitos anos e retomei porque eu tinha esse medo, medo da noite, medo deles irem embora, de pegarem meu pai, minha mãe, meus irmãos. Eu acho que eu convivi com esse medo. E acho que só conseguia colocar esse medo para fora quando escrevia. E aí eu comecei a escrever, muito. Escrevia compulsivamente. </p>
<p>Quando adoeci, em 2007, tive um câncer de mama e ganhei de presente do meu pai todas as nossas cartinhas. São quatro anos de cartas, que recebemos de meu pais e que enviamos para ele. Eu tinha 8, 9 anos. Ali pude ir formando o meu quebra cabeças. Fui lendo, relendo e sentindo o tamanho daquilo que era para mim naquela idade. E posso dizer que foi maravilhoso. Era um privilégio poder ver toda a história dos quatro anos que meu pai ficou no presídio. Meu pai, como todo revolucionário, tem essa veia poética. Ele não gosta que fale isso, mas ele tem. Ele foi o cara que através das cartas me empurrava a escrever, a fazer rimas. E todo sábado quando eu ia visitá-lo a gente trocava ideias sobre a leitura, sobre o que eu tinha escrito, aquele versinho, enfim. Eu acho que partiu dele isso. </p>
<p>Quando eu olho aquelas cartinhas, vejo a menina que eu era naquele período. Eu dizia: “eu te amo meu papai, papaizinho, você é meu galã, você é meu príncipe”, essas coisas que uma criança diz ao pai. Então, é como se eu tivesse feito isso naquele período, e de lá para cá eu não sei como se faz esse caminho. Eu não sei como se faz esse caminho com irmãos, com filho. Se tem algum lugar que a ditadura, a história me alterou, foi aí. Eu acho que foi no amor que eu não sei expressar. Eu não consigo nem com o amor maior do mundo que é amor de filho e ele sofre com isso também. Eu sei o quanto eu o amo, mas não consigo expressar. Eu tenho essa barreira. Eu acho que aí eu<br />
realmente tenho as sequelas desse período, não é só pelo distanciamento do meu pai e tudo mais. É como se eu não pudesse falar porque o silêncio era a coisa mais importante naquele período. Eu aprendi direitinho o silêncio, e eu queria me livrar dele. E é difícil conseguir. Até os 50 eu não consegui. </p>
<p>Quando tudo começou a vir à tona na Comissão da Verdade, pensei “puxa, que bacana. Esses caras vão pagar pelo que eles fizeram”. Esses caras sádicos, psicopatas, não sei nem que nome dar para isso. Finalmente eles vão lá sentar e ser julgados pelos crimes que cometeram, aí eu me desiludo. Esse assunto para mim é muito visceral. Eu me incomodo profundamente da Lei da Anistia ter perdoado esses monstros, gostaria que essa lei pudesse ser novamente revista. É olhar para os vizinhos, Argentina, Chile, eles julgaram seus atrozes, eles realmente julgaram. Por que o Brasil não revê isso? Famílias foram destroçadas, então, falar da gente aqui, falar da própria dor é sempre muito difícil. Mas eu consigo ver a amplitude disso. </p>
<p>Até o que ficou em relação ao meu pai é sempre assim, existe uma certa distância. Existe algum lugar que dá para chegar no meu pai, e em outros momentos, ele mantém uma distância que é própria dele, de não querer falar no assunto, não querer te machucar, mas de toda forma quem passou por uma tortura, parece que já passou pela pior coisa do mundo. Então, para nós que somos filhos, muitas vezes temos problemas, fica difícil chegar nele com aquele seu probleminha. Parece sempre pequenininho, porque diante do que ele passou, não existe coisa pior no mundo. Então, sempre colocamos essa distância em relação a ele. </p>
<p>Meu pai tem uma fragilidade emocional muito grande. Ele não quer falar no assunto, ele sai de cena. Hoje, com um pouco mais de idade ele está um pouco mais flexível, eu diria. Ele se preocupa mais, quer que a gente ligue, enfim. Então, esse movimento que a gente faz para se aproximar passa por esse traço que ficou, que é um traço pesado. Talvez a memória daquele período tenha um peso tão grande que nos dificulta esse acesso hoje. </p>
<p>Para se ter uma ideia de como eu sempre tive relacionamentos difíceis, casamentos difíceis, alguns terapeutas chegaram à conclusão de que quando eu amo, eu amo a distância, porque quando meu pai foi preso eu vivia em pleno Édipo. Toda menina é apaixonada pelo seu pai, e exatamente nesse momento ele saía de cena. Então, eles chegaram à conclusão de que eu amo o distante. Quando esse distante se aproxima de mim, eu não sei o que fazer. Até é engraçado porque nos meus relacionamentos eu ficava pensando: “puxa, esse cara tem o quê? Ele deve ter alguma coisa muito problemática para eu poder estar gostando dele”. Enfim, falar de mim é falar um pouco disso porque essa relação com o outro sempre foi difícil para mim, e para o outro, claro, também. </p>
<p>Claro que hoje aos 50 anos, eu trabalhei tudo isso e não estou curada, mas me sinto muito mais consciente de que isso veio daquela época, porque eu amei meu pai à distância. Para se ter uma ideia, eu nunca disse ao meu pai que eu o amava. Nunca. Não consigo. É como se falar de amor fosse falar de uma coisa muito frágil e que pudesse quebrar. A história dele é uma história toda de amor, pelo seu povo, pelo seu país, é um cara que teria dado a vida pelo Brasil.</p>
<p>A minha mãe faleceu em 2003. Ela era descendente de português e toda a família dela era de Jundiaí. Acho que minha mãe era a pessoa da família que mais expressava o amor. Era a que nos unia. Ela sempre deu a vida pelos filhos. Ela não queria saber onde estava o meu pai, ela não queria saber das coisas que meu pai fazia. Ela não queria saber. Então, o meu pai tinha uma vida completamente a parte. Quando ela perguntava, “onde você estava?”, ele respondia “É melhor não saber por que eu não quero que eles venham aqui, peguem vocês e vocês sob tortura, contem”.</p>
<p>Então, ele nunca falava para ela as coisas que fazia. E nós ficamos muito a parte. Minha mãe era quem trazia aquela coisa de família, do almoço de domingo, de reunir os filhos, de ligar para cada um. Depois, os meninos casaram, e ela sempre estava em constante contato querendo que eles passassem por lá. Ela tinha esse apego, esse amor. Eu não sei por que a gente não aprendeu com ela. </p>
<p>Ela era a expressão máxima da humildade, tanto que existe uma história que meu pai conta que, durante a tortura, em um dos momentos em que ele estava apanhando muito, os torturadores falaram: “Já foram lá? Já viram a mulher dele? Vamos trazer a sua esposa aqui”. E aí um dos torturadores disse: “Ela não vale a pena, é uma mulher que anda descalça, maltrapilha”. E minha mãe não era uma maltrapilha, mas andava descalça. Era uma mulher humilde, simples, sem atrativo, uma mulher sem vaidade. </p>
<p>E por conta desse silêncio verbal que toda a nossa família tinha que ter, eu posso dizer que eu me salvei através de tudo que eu escrevi. Para mim, é bastante difícil falar sobre isso. Eu gosto mais de escrever. Então, eu queria terminar o meu depoimento lendo um conto que foi o meu primeiro conto publicado. </p>
<p>Quando eu fiquei doente, escrever para mim foi muito importante. E no meu primeiro conto, eu escrevia coisas para mim mesma. </p>
<p>Coisas que eu guardava. Até que um dia resolvi publicar e uma pessoa falou, “Rosa, deixa eu publicar seu conto”. E eu deixei. E esse conto expressa bem a minha visão de menina quando visitava meu pai no Tiradentes. O conto chama “Anos Setenta”. </p>
<div style="background-color:#c6c861; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Rosa Maria Martinelli</strong> nasceu em 16 de julho de 1962, em Jundiaí (SP). Filha de Raphael Martinelli e Maria Augusta Martins Martinelli (falecida em 2003) é formada em Educação Física e trabalha como personal trainer.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#a7a905; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Maria Augusta Martins Martinelli</strong>, caçula de seis irmãos, nasceu em Jundiaí (SP), em 1925. Filha de Amélia e João Martins, ambos portugueses. Casou-se com Raphael Martinelli em 1947.<br />
Faleceu em novembro de 2003, aos 78 anos, quando ia completar 56 anos de casamento com Martinelli. De acordo com Rosa, sua filha, era uma “cozinheira maravilhosa. Quem compartilhou da sua mesa, sabe. Fazia o melhor capeletti in brodo que se tem notícia. O fazia artesanalmente. Sua felicidade era nos ver repetir o prato. Todas as noites, até mesmo quando estava doente, esperava meu pai para colocar a conversa em dia. Ela nasceu para ser mãe, era muito presente e afetiva”. De acordo com Martinelli, a parceria da esposa “foi essencial para minha história como revolucionário”. </div>
<p></p>
<div style="background-color:#777832; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Raphael Martinelli</strong> nasceu em São Paulo (SP), em 16 de outubro de 1924. Filho de Maximino Martinelli e Yoli Pistorezzi Martinelli.<br />
Começou a trabalhar aos 12 anos numa empresa de anilina (Produtos Químicos Sucuri), depois numa vidraria (Santa Marina) e em seguida como ajudante de ferreiro, na empresa de produtos de aço Tupi.<br />
Em 1941, entrou para a Estrada de Ferro São Paulo Railway. Apaixonado por futebol e bom de bola, jogou em times da várzea paulistana até que a ferrovia e a militância ocuparam a maior parte de seu tempo. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde a adolescência, seguindo os passos de seu pai, filia-se ao sindicato dos ferroviários.<br />
Foi dirigente da Federação Nacional dos Ferroviários e um dos mais importantes líderes sindicais do Brasil até 1964. Quando houve o golpe, foi cassado por dez anos. Foi para a clandestinidade e entrou na luta armada.<br />
Junto com Carlos Marighella, foi um dos fundadores da Ação Libertadora Nacional (ALN). Preso em 1970 foi levado à Operação Bandeirantes (OBAN).<br />
Ficou preso durante três anos, três meses e 10 dias.<br />
Hoje é advogado e presidente fundador do Fórum dos Ex-Presos Políticos e Perseguidos de São Paulo. Tem quatro filhos, sete netos e quatro bisnetos. </p>
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		<title>Adolescência perdida</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 16:28:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tudo começou em Jundiaí (SP). Nós nascemos lá, meu pai era ferroviário, minha mãe, doméstica. Fomos crianças normais, brincamos na rua, em campos de malha. Enquanto isso, meu pai iniciava nas causas sindicais e socialistas. Fomos crianças que curtimos a mudança para o Rio de Janeiro e continuamos a brincar na rua e passear em [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo começou em Jundiaí (SP). Nós nascemos lá, meu pai era ferroviário, minha mãe, doméstica. Fomos crianças normais, brincamos na rua, em campos de malha. Enquanto isso, meu pai iniciava nas causas sindicais e socialistas. Fomos crianças que curtimos a mudança para o Rio de Janeiro e continuamos a brincar na rua e passear em Copacabana, para onde nossos pais nos levavam todos os domingos. Enquanto isso, meu pai se destacava na federação dos ferroviários e na greve da classe ferroviária.</p>
<p>Fomos crianças que viajamos pelas praias da Bahia, Pernambuco, ficamos hospedados em casa de frente para o mar enquanto meu pai era ovacionado nos palanques das ruas e praças. </p>
<p>Fomos crianças que vivenciamos o primeiro terror de ter que fugir na madrugada de março em 1964, enquanto meu pai fugia para outros destinos que não o nosso. </p>
<p>Fomos crianças instaladas em casas de estranhos em cidades desconhecidas ao fim da fuga. Fomos crianças separadas em casas de tios diferentes e deles dependentes. Fomos crianças com dificuldades em diferentes escolas naquele ano. Enquanto, por um ano, não conseguimos saber onde estava o nosso pai. E felizes por poder viver com ele novamente após essa ausência assustadora. </p>
<p>Fomos filhos que voltaram a brincar nas várzeas da Lapa de Baixo, mas fomos crianças que tiveram que justificar dezenas de vezes o porquê desses nomes e sobrenomes associados à esquerda. Enquanto meu pai continuava na luta da esquerda brasileira. Fomos pré-adolescentes assustados e horrorizados com a notícia da prisão por quatro anos e tortura de nosso pai. Fomos pré-adolescentes que tivemos que ir ao trabalho mais cedo para sustentar a nossa casa. Paramos de brincar e de viver o fogo da idade. Tivemos que nos policiar no trabalho para não sermos taxados como burgueses, também tinha essa dualidade. </p>
<p>Fomos adolescentes e parceiros do meu pai na formação e campanha do novo partido construído para nós, o PT. Fui namorado de uma única mulher, me apaixonei e com ela casei. </p>
<p>Enquanto meu pai levantava a bandeira do PT e por ela lutou até a posse do seu líder maior. </p>
<p>Fui eleitor do José Dirceu, José Genoino e Lula, enquanto meu pai não conseguiu nenhuma única função de liderança dentro do governo do PT. A vida foi acontecendo. Fui, acredito que sou um bom marido, bom pai e perdi minha mãe. Enquanto meu pai perdeu a esposa, perdeu a oportunidade de ajudar intensivamente o nosso Brasil por não governar, não deixarem ele participar do processo do PT. </p>
<p>Hoje sou um cidadão com 60 anos de idade, perdendo a esperança em ver o que sobrou do meu pai, e o que ele e eu sonhamos de alguma forma para essa vida. Perdi um pouco da infância, um pouco da adolescência, e um pouco da convivência do meu pai. Perdi um pouco de dinheiro que queria ter, um pouco da convivência com os meus irmãos, perdi e perdemos muito. Perdemos partido, perdemos vozes que nos dão a esperança em ação. Perdemos governantes no sentido eficiente da função. Perdemos opção de votos e perdemos os eleitos. </p>
<p>Perdemos o cumprimento das leis e suas punições. Perdemos saúde, gentileza, educação, decência e por aí afora. Mas ganhamos. Ganhei meus filhos, minha esposa, minha moradia,<br />
a vida longa do meu pai. Ganhei meus irmãos e amigos, ganhei consciência, dignidade e honestidade. </p>
<p>Ganho em viver e poder dizer agora que as perdas fazem parte da nossa vida e que futuras gerações de filhos e pais sindicalistas, políticos ou não, de alguma forma, contribuíram para a construção de uma vida melhor. Essa semente sob a forma de tortura, ideal, luta, ou por simplesmente educar seus filhos de forma amorosa foram plantadas por mim, minha esposa, meus irmãos, minha adorada mãe, meu querido pai. </p>
<p>Sou uma célula viva com capacidade de ajudar nas transformações para um mundo feliz.No nosso egoísmo a gente achava que esse amor do meu pai pela luta não vinha para nós, só para os outros. E a gente tinha raiva do meu pai por causa disso aí. Eu principalmente.</p>
<p>O sobrenome Lenin, por exemplo, hoje você vê a estátua do Lenin caída no chão. Que homenagem foi essa? Isso confunde até hoje. Por que derrubaram a estátua do Lenin? Ele merecia isso aí? E eu tive que ficar por vários anos escondendo esse Lenin no meu sobrenome. Eu tive um professor que era sargento que me olhava de uma forma estranha nas aulas de educação física. </p>
<p>Muita coisa se perde. Eu acho que a gente perdeu a adolescência, perdeu muita coisa. Mas a gente idolatra muito meu pai. Apesar de falhas como pai, porque nós somos órfãos com pai, porque o idealismo dele faz com que aconteça isso aí. Prejuízos, a gente teve alguns prejuízos. Trabalhar muito cedo, vida dura, deixar todo o dinheiro em casa até os 23 anos de idade. Você não viver mesmo o fogo da adolescência, a gente sofre um bocado, mas a coisa forte que fica é como eu coloquei. Fica a dignidade, a honestidade, é ter esse exemplo de pai que não tirou um tostão de ninguém. Hoje eu sou uma pessoa feliz. E feliz de estar do lado do velho até hoje, com 89 anos. Sofri mas sou feliz, como diz aquela música. </p>
<div style="background-color:#999b3b; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Edson Lenin Martinelli</strong> nasceu em 21 de agosto de 1953. Filho de Raphael Martinelli e Maria Augusta Martins Martinelli, formado em Administração de Empresas, trabalha como consultor em empresas.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#8b7659; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Maria Augusta Martins Martinelli</strong>, caçula de seis irmãos, nasceu em Jundiaí (SP), em 1925. Filha de Amélia e João Martins, ambos portugueses. Casou-se com Raphael Martinelli em 1947.<br />
Faleceu em novembro de 2003, aos 78 anos, quando ia completar 56 anos de casamento com Martinelli. De acordo com Rosa, sua filha, era uma “cozinheira maravilhosa. Quem compartilhou da sua mesa, sabe. Fazia o melhor capeletti in brodo que se tem notícia. O fazia artesanalmente. Sua felicidade era nos ver repetir o prato. Todas as noites, até mesmo quando estava doente, esperava meu pai para colocar a conversa em dia. Ela nasceu para ser mãe, era muito presente e afetiva”. De acordo com Martinelli, a parceria da esposa “foi essencial para minha história como revolucionário”. </div>
<p></p>
<div style="background-color:#dbb784; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Raphael Martinelli</strong> nasceu em São Paulo (SP), em 16 de outubro de 1924. Filho de Maximino Martinelli e Yoli Pistorezzi Martinelli.<br />
Começou a trabalhar aos 12 anos numa empresa de anilina (Produtos Químicos Sucuri), depois numa vidraria (Santa Marina) e em seguida como ajudante de ferreiro, na empresa de produtos de aço Tupi.<br />
Em 1941, entrou para a Estrada de Ferro São Paulo Railway. Apaixonado por futebol e bom de bola, jogou em times da várzea paulistana até que a ferrovia e a militância ocuparam a maior parte de seu tempo. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde a adolescência, seguindo os passos de seu pai, filia-se ao sindicato dos ferroviários.<br />
Foi dirigente da Federação Nacional dos Ferroviários e um dos mais importantes líderes sindicais do Brasil até 1964. Quando houve o golpe, foi cassado por dez anos. Foi para a clandestinidade e entrou na luta armada.<br />
Junto com Carlos Marighella, foi um dos fundadores da Ação Libertadora Nacional (ALN). Preso em 1970 foi levado à Operação Bandeirantes (OBAN).<br />
Ficou preso durante três anos, três meses e 10 dias.<br />
Hoje é advogado e presidente fundador do Fórum dos Ex-Presos Políticos e Perseguidos de São Paulo. Tem quatro filhos, sete netos e quatro bisnetos. </p>
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		<title>O novo arrimo de família</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 16:14:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu sou o mais velho dos irmãos, portanto o que não sofreu o que eles sofreram. Eu fui mais cobrador do meu pai, tinha 15 anos em 1964. Depois do golpe, fomos distribuídos na casa de estranhos, depois parentes ficaram com cada um dos irmãos, até que meu avô nos reuniu numa casa de aluguel. [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sou o mais velho dos irmãos, portanto o que não sofreu o que eles sofreram. Eu fui mais cobrador do meu pai, tinha 15 anos em 1964. Depois do golpe, fomos distribuídos na casa de estranhos, depois parentes ficaram com cada um dos irmãos, até que meu avô nos reuniu numa casa de aluguel. E só quando ele [o pai, Raphael Martinelli] apareceu voltamos a conviver.</p>
<p>Ele era um líder sindical conhecido nacionalmente. Eu, na época, era só o colecionador de fotos da revista O Cruzeiro, do homem que parava o Brasil com um telefonema. E não tinha noção do tamanho da grandeza do meu pai. Logo nós percebemos que eu tinha que arrumar meu primeiro emprego. E assim aconteceu. Ele, por ser uma pessoa que sempre lutou contra a ditadura foi preso na sede do Inocoop. E eu já estava trabalhando.</p>
<p>Ele não foi preso e localizado, ele foi preso e sumido. A história é meio longa, mas foi através de uma tia que conhecia uma pessoa de alta patente do Exército que morava na rua que ela morava que conseguimos localizar onde ele estava. Ela pediu para a família ir até a porta da OBAN levando roupa, para ficarem sabendo que  o tínhamos localizado. E assim a vida foi, para mim, um pouco difícil porque eu passei a ser arrimo de família e comecei a controlar os meus irmãos, que em seguida foram tendo funções também na empresa que eles começaram a trabalhar. E aquela velha história de pegar os envelopes de pagamento, põe tudo aqui na mesa, passei a ser o pai deles.</p>
<p>A gente tem um rompimento de amor por causa dessas coisas de inversão de papeis. Tem uma carta, inclusive, que a Rosa me passou, há pouco tempo, que eu escrevi ao meu pai dizendo isso, que ele precisava, na visita que o Edson fizesse lá, conversar com ele e dizer que não fosse rebelde, porque eu controlava o dinheiro. [Ele] tinha uma namorada, que é a esposa dele hoje, mas o dinheiro, quem separava para ele ir ao cinema era eu, o Jaime. Era eu que fazia as funções ruins da família.</p>
<p>E comecei a ser um questionador do meu pai. Eu ia visitá-lo, mas não tantas vezes. Comecei a ter revolta pelo fato de ele ter sido líder político, cassado, procurado. E passada aquela fase, ele se envolveu com a luta armada e acho que ele não pensou tanto na família. Nós não sabíamos o que ele fazia. Eu não sei se isso foi uma defesa para a família. Se nós tivéssemos sido pegos, torturados, não teríamos o que falar do meu pai. Nem a mãe e nenhum dos filhos sabíamos o que ele estava fazendo.</p>
<p>Fomos descobrindo tudo com o processo, sobre as torturas, eu questionava muito que ele não devia ter se metido novamente naquilo. Eu acho que um idealista não devia ser pai. Mas como ser humano, como alguém que o conheça, que conversa, vira fã do velho. Ele é uma pessoa rara que passou por altos cargos e não teve um tostão na vida. A casa que ele teve foi graças aos filhos pagarem as mensalidades do Inocoop, ele iniciou, mas nós que pagamos o carnezinho. Imagine, uma pessoa que foi amigo do Presidente da República, amigo do João Goulart, nessa situação.</p>
<p>Ele nunca quis nada para ele, sempre lutou pelo bem do povo brasileiro e hoje isso parece uma utopia. Hoje, a gente vê tudo que acontece aí, uma pessoa que nem o próprio Lula, que sai de uma condição de nada e hoje é um milionário. Não que a gente quisesse isso para nós, mas meu pai merecia um reconhecimento, meu pai merecia.<br />
E o que eu acho é que é uma pessoa que graças a Deus temos tempo para consertar todos esses erros de não entendê-lo. Nós passávamos Natais com todos os irmãos dele, aquela farra de família italiana, que ele adorava e nós não conseguimos ter essa união pela falta dele.</p>
<p>Eu tive sorte que meu nome não tem a ver com a política dele ainda, pois os outros todos tiveram. O meu irmão é Edson Lenin Martinelli e carregou isso na escola. Eu acho que meu pai deveria ter tirado esse carimbo dos filhos. A gente não merecia isso, mas ele era um idealista, e paciência. E comigo e meus irmão ele teve, o que adora, que são os netos. Junto dos netos a gente vê isso. Ele é um moleque junto dos netos, tem uma saúde de ferro para brincar, e eu passei por isso como filho.</p>
<p>Fui filho único por quatro anos e pouco e depois ele já [estava] metido em política. Meus outros irmãos sofreram, não conheceram esse pai que eu conheci. Eu tenho certeza que o maior cobrador dele de tudo, fui eu. Hoje nós já tiramos algumas barreiras da frente, mas ele sabe que eu fui o filho mais incompreensível.</p>
<p>Uma coisa que eu queria deixar claro, e eu acho que a Comissão da Verdade está batendo muito nessa tecla, é Tortura Nunca Mais. Meu pai foi torturado de maneira bárbara. Ele era treinado para isso também, não podemos dizer que era nenhum bobinho. Ele foi treinado para tudo isso, mas ele esteve em um programa agora, recentemente, do Antônio Abujamra, </p>
<p>Provocações, onde falou uma coisa que eu ouvi pela primeira vez e que marcou muito. Foi perguntado por que ele era da linha stalinista, que para mim sempre foi um criminoso dos maiores que teve nessa humanidade. Ele foi questionado pelo Abujamra: “Mas, stalinista?” E ele falou: “Sim, porque Stalin matava, mas não torturava”. Tortura é a coisa mais absurda que existe no mundo. E eu acredito que só quem tenha passado, e ele passou, pode dizer isso com todas as letras.  É muito mais fácil matar do que torturar. Então, essa coisa horrível que algumas pessoas estão passando aqui pela Comissão da Verdade tentando se defender, as pessoas não podem ser humanas fazendo torturas com seres humanos.</p>
<p>Não pode ter uma inteligência, por exemplo, de uma ditadura colocada naquele momento que tenha que se fazer dessa coisa absurda, dessa coisa abominável para que se possa vencer uma mentalidade contra o atual regime da época. Então, é isso que eu queria deixar gravado. A Comissão da Verdade eu tenho acompanhado e espero que tenha bastante frutos. Tem algumas pessoas aí com a idade do meu pai, que podem dar depoimentos e dizer quem realmente são torturadores, quem realmente fizeram essas coisas horríveis.</p>
<p>Acho que a nossa [vida] ainda foi privilegiada. A nossa não teve nascimento em cela de tortura, mães dando a luz em cárceres, a nossa ainda foi privilegiada. Graças a Deus estamos todos com saúde, com netos, e aí tocando a vida.</p>
<p>Espero maior sucesso para a Comissão da Verdade e que realmente vocês prestem atenção, esse homem não vai estar mais muito tempo entre nós, apesar de ter uma saúde melhor que a minha, mas é uma figura rara, na política brasileira é uma figura rara.</p>
<p>O meu compadre, que nas ausências dos meus irmãos é um irmão também, falou uma coisa sobre a minha mãe, uma coisa que me marcou pelo resto da minha vida. Ele diz que ela tinha que ser canonizada viva. Ele conheceu ela como frequentador da nossa casa, e ela não era uma pessoa que por ser apolítica, não era sem vida. Eu tenho certeza absoluta que ela era uma mãe galinha.</p>
<p>Tanto é que dois de nós, três se divorciaram, voltaram para casa adulto, pai de filhos. E a maior alegria dela foi nos receber, as ex-noras ficaram horrorizadas ao verem que ela podia cuidar de nós de novo. Que foi o que ela soube fazer a vida inteira. Ela não queria nenhuma outra coisa que não cuidar dos filhos. Sobre nós, os quatro irmãos se formaram, trabalhando e pagando seus cursos superiores. E pudemos fazer o inverso com os nossos filhos, graças a Deus.</p>
<p>Sobre o meu pai, ele deve ser uma pessoa muito decepcionada com amizades, o que criou para mim um problema seríssimo. Eu tenho um amigo só, que é meu compadre. Não tenho mais porque hoje em dia é uma dificuldade ter amigos. Eu lembro do meu pai falando bem de Lula em casa, quando era líder sindical e estava viajando o mundo, sendo acusado por isso. E meu pai defendendo, dizendo que ele tinha feito a mesma coisa para os filhos lá em casa. “Eu fiz a mesma coisa (quando líder sindical), conheci o mundo sendo convidado sem ter um dinheiro no bolso, sendo chamado, e o Lula está fazendo a mesma coisa”. E não era.</p>
<p>Eu fico imaginando a decepção dele com o José Dirceu, com o Genoíno, com o Luiz Eduardo Greenhalgh. Quando eu estava divorciado, [morando] na minha mãe, atendia telefonema dessas pessoas procurando pelo meu pai. Devem ter usado todo o conhecimento que ele teve como líder sindical, como tudo que ele conhecia de ferrovia e conhece até hoje, e está sempre atualizado. E essas pessoas estão usando isso até hoje.</p>
<p>Ele, como idealista, uma pessoa com capacidade enorme sem ter feito nenhuma fortuna alheia, não pegando nada que não era do nosso país, e esses sem vergonha dessa bandidagem toda que ele considerava como pessoas dignas, e esse papelão. Então, imagine meu pai, nunca perguntei isso para ele porque a gente não tem essa liberdade, mas a decepção que ele tem com pessoas que ele confiava. É uma coisa terrível.</p>
<p>Eu comprovei que o João Goulart era amigo do meu pai, porque quando ele esteve na lista para ser trocado pelo cônsul, ele se recusou a ir porque queria cumprir o que devesse e ele devia mesmo, porque na ocasião ele lutava contra a ditadura. Então ele quis pagar no Brasil o que estava fazendo de errado, quis cumprir a pena dele aqui como cumpriu. A gente estava naquela situação muito ruim na Lapa de Baixo [Em São Paulo], morando de aluguel, sendo ajudado por parentes. E aí um amigo do João Goulart veio em casa conversar com minha mãe para falar que o João Goulart estava chamando para a gente viver no Uruguai, ter emprego para o meu pai lá, para a gente largar tudo e ir embora. E ele logicamente como é, não aceitou. Mas, teve esse único amigo que reconheceu mesmo e sabia que meu pai estava passando as necessidades. E essa pessoa subiu na Lapa de Cima, porque viu a situação que a gente vivia, que não tinha nada, comprou uma máquina de lavar e mandou entregar em casa.</p>
<p>Nós nos amamos, mas temos problemas entre irmãos. Hoje contei para o Edson uma passagem de como a gente saiu do Rio de Janeiro e ele não lembrava, porque era bem menor que eu. </p>
<p>Então, tem algumas coisas que eu conheço e eles não conhecem. É falta da convivência de irmãos. Mas o que eu queria dizer é isso, que tenho dificuldades para amizades.</p>
<p>Outra coisa que meus irmãos talvez não saibam é do meu pensamento. Com dificuldades eu trabalhei em multinacionais, vivi, cresci, comprei minha casa própria, meu carro, eduquei meus filhos, tudo, e a gente assistiu que esse mundo não é para pessoas que nem meu pai, honesto. A gente teve na nossa frente um monte de caminhos errados para seguir para ficar muito bem de vida. Eu recusei todos. E tenho certeza que por algumas conversas que eu tive com o Edson, ele igualmente. Nós tivemos esse problema de não triar, se for em benefício próprio, fazer alguma coisa contrária à lei, conforme a honestidade que meu pai nos criou é uma herança fantástica para nós, a gente não triou. Não lamento nem um pouco isso e graças a deus estou como o Edson falou, estou feliz com a minha vida. Podendo abraçar meu pai, tendo tempo de falar aqui, eu te amo, pai. Ainda está em tempo de falarmos isso.</p>
<div style="background-color:#c5a374; padding: 30px; color: #fff;">Jaime Martinelli nasceu em 15 de março de 1949. Filho de Raphael Martinelli e Maria Augusta Martins Martinelli, é economista aposentado.</div>
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<div style="background-color:#f8d5a4; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Maria Augusta Martins Martinelli</strong>, caçula de seis irmãos, nasceu em Jundiaí (SP), em 1925. Filha de Amélia e João Martins, ambos portugueses. Casou-se com Raphael Martinelli em 1947.<br />
Faleceu em novembro de 2003, aos 78 anos, quando ia completar 56 anos de casamento com Martinelli. De acordo com Rosa, sua filha, era uma “cozinheira maravilhosa. Quem compartilhou da sua mesa, sabe. Fazia o melhor capeletti in brodo que se tem notícia. O fazia artesanalmente. Sua felicidade era nos ver repetir o prato. Todas as noites, até mesmo quando estava doente, esperava meu pai para colocar a conversa em dia. Ela nasceu para ser mãe, era muito presente e afetiva”. De acordo com Martinelli, a parceria da esposa “foi essencial para minha história como revolucionário”. </div>
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<div style="background-color:#dbb784; padding: 30px; color: #fff;"><strong>Raphael Martinelli</strong> nasceu em São Paulo (SP), em 16 de outubro de 1924. Filho de Maximino Martinelli e Yoli Pistorezzi Martinelli.<br />
Começou a trabalhar aos 12 anos numa empresa de anilina (Produtos Químicos Sucuri), depois numa vidraria (Santa Marina) e em seguida como ajudante de ferreiro, na empresa de produtos de aço Tupi.<br />
Em 1941, entrou para a Estrada de Ferro São Paulo Railway. Apaixonado por futebol e bom de bola, jogou em times da várzea paulistana até que a ferrovia e a militância ocuparam a maior parte de seu tempo. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde a adolescência, seguindo os passos de seu pai, filia-se ao sindicato dos ferroviários.<br />
Foi dirigente da Federação Nacional dos Ferroviários e um dos mais importantes líderes sindicais do Brasil até 1964. Quando houve o golpe, foi cassado por dez anos. Foi para a clandestinidade e entrou na luta armada.<br />
Junto com Carlos Marighella, foi um dos fundadores da Ação Libertadora Nacional (ALN). Preso em 1970 foi levado à Operação Bandeirantes (OBAN).<br />
Ficou preso durante três anos, três meses e 10 dias.<br />
Hoje é advogado e presidente fundador do Fórum dos Ex-Presos Políticos e Perseguidos de São Paulo. Tem quatro filhos, sete netos e quatro bisnetos. </p>
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