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	<title>Infância Roubada &#187; Lucena</title>
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		<title>Revolucionária, operária, mãe e companheira</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 13:12:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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		<description><![CDATA[Meus parentes por parte de pais são africanos. Meu bisavô foi vendido aqui no Brasil com toda a família. Só ficou um pequenininho com minha bisavó. Então eu sou de gente que não se conforma com injustiça. Fui crescendo sempre achando que as coisas não eram daquele jeito. Que era injustiça que se fazia. E [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Meus parentes por parte de pais são africanos. Meu bisavô foi vendido aqui no Brasil com toda a família. Só ficou um pequenininho com minha bisavó. Então eu sou de gente que não se conforma com injustiça. Fui crescendo sempre achando que as coisas não eram daquele jeito. Que era injustiça que se fazia. E me casei com um homem também que não gostava de injustiça. No fim, paramos em São Paulo. A minha história está aí, todo mundo sabe. E aí nos envolvemos com a luta armada e com a reforma deste país, deste grande Brasil, desta maravilha que é este país, cheio de riqueza, cheio de gente boa, cheio de cultura. Mas, infelizmente a riqueza deste país é mal dividida, a cultura é mal dividida, tudo é aqui é mal dividido. Mas nós vamos tocando. Quem sabe amanhã ou depois de amanhã isso será bem dividido.</p>
<p>Eu cheguei em São Paulo, me envolvi com os movimentos sindicais, fui para o Rio de Janeiro, e todo esse itinerário de vida aí no meio de todo mundo que lutava. Eu assisti à Segunda Guerra, achava aquilo terrível. Eu lia os jornais para meu pai. Quando a guerra começou, eu tinha 12 anos. Quando terminou, eu tinha 17.  </p>
<p>Sempre fui uma mulher lutadora contra a injustiça. E graças à minha disposição de luta, fui presa, fui torturada, mataram meu marido, maltrataram meus filhos, torturaram meu filho. As freiras “batiam cabeça”, não queriam nossos filhos, que eram os filhos terroristas. As freiras, imagine, as religiosas, as irmãs de caridade, tudo de chapeuzinho branco na cabeça, se benzendo toda hora. </p>
<p>E eu parei em Cuba, graças à Revolução Cubana. Estudei, botei meu pé dentro de uma faculdade, que para mim foi uma das coisas mais maravilhosas que eu já vi, entrar em uma faculdade. Uma faculdade Cubana. Estudei. Faltou só um aninho para eu me formar. Acho que eu ainda volto lá em Cuba para me formar. De forma que eu sempre fui uma mulher batalhadora. Procurei educar meus filhos não dizendo para eles serem comunistas, ou revolucionários.</p>
<p>Uma vez eu vi meu pai conversando com uma russa e ela falou para ele: “Senhor Manoel, os vermelhos tomaram o poder lá na Rússia”. Os vermelhos? Eu pensei: “Será que eles tinham a pele vermelha?” Eu tinha 7 anos quando saiu a Revolução Russa. </p>
<p>Eu vim escutar a palavra comunismo aqui em São Paulo, quando eu cheguei. Eu perguntei: “gente, o que é comunismo?”.  “Ah, companheira, comunismo é as pessoas que querem que as pessoas tenham escola, tenham alimento, hospital”. Ah bom, então eu pensei. “Eu sou comunista porque eu quero que tenha tudo isso para todo mundo”. Então, por isso eu me envolvi com a luta de beneficiar todo mundo.</p>
<p>E para nós foi muito duro. E no governo do Presidente João Goulart, todo mundo na rua lutando por reforma. Reforma agrária, reforma urbana, reforma educacional. Nem ninguém falava em comunismo, nem ninguém falava em religião. Se falava na reforma. Nosso entusiasmo era tão grande pela reforma, e ninguém queria criar partido, criar religião. Aí uma boa parte da igreja, com o senhor Lincoln Gordon, representante máximo daquela grande potência norte-americana aqui no Brasil, dono do mundo, dono da maior riqueza, que hoje estão pedindo esmola. E lá em Cuba não tem isso, graças à Revolução Cubana. Nós tínhamos tudo do bom e do melhor.</p>
<p>Então, foi uma coisa assim, deram um golpe brutal, mas brutal. Quando nós demos conta, a costa brasileira estava cheia de navio americano. Olha, o presidente se não tivesse ido embora ele tinha sido assassinado como assassinaram o [Salvador] Allende lá no Chile. </p>
<p>Quando chegamos no México, o Mário Japa, [codinome de] o Shizuo Osawa, foi ao consulado cubano e lá tinha uma carta do Comandante Fidel Castro oferecendo asilo para mim e as crianças. Que se eu quisesse, eu podia ir para Cuba. Quando ele me falou isso, foi uma das maiores satisfações da minha vida, receber um convite de um estadista. Eu, que era uma simples trabalhadora, semianalfabeta. Foi uma das maiores alegrias que eu tive na minha vida. </p>
<p>Houve coisas terríveis na minha vida: quando eu vi meu marido morto e eles com a arma em cima de mim, dizendo: “Mata ela! Mata os filhos dela!”. Outra vez quando tiraram meus filhos e disseram que iam nos matar. Foi muito triste, eu estava presa junto com a Drª Eliana Rollemberg, chegou a polícia com o Capitão Homero [César Machado] e não sei quem mais com os meus filhos. Eu estava em uma janela, e quando os vi, me deu uma crise tão grande que quase morro. Teve um momento que eu pensei que eu ia perder o juízo. Eu pensei: “Vieram torturar os meus filhos para eu ver, e falar onde estavam os meus companheiros”. Para mim foi uma das coisas mais tristes da minha vida. Eu pensei: “Se torturarem os meus filhos aqui, eu morro”. Eu falei para eles: “Olhem, me matem e matem os meus filhos. Está tudo terminado”. Para mim foi muito terrível. Foi um momento duro da minha vida. Eu procuro esquecer, mas, de vez em quando, eu lembro das barbaridades da ditadura. </p>
<div style="background-color:#938889; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Damaris Oliveira Lucena</strong> nasceu em 22 de agosto de 1925 em Codó, (MA). De família pobre, começou a trabalhar aos 7 anos. O trabalho no campo estendeu-se até os 16 anos. Durante cinco anos trabalhou como fiandeira e depois encarregada de compras na indústria manufatureira. Por conta dos baixos salários, decidiu mudar-se para São Paulo onde acreditava que as condições de trabalho seriam melhores. Chegou à cidade onde o marido Antônio Raymundo de Lucena já estava, em 1º de junho de 1950.Trabalhou na empresa de tecelagem Jafet por um ano e posteriormente foi transferida para a creche como cozinheira.<br />
Damaris filiou-se ao Sindicato dos Têxteis em 1950. Pela sua atuação junto aos trabalhadores recebeu o cargo de delegada sindical. Participou do Congresso de Mulheres Operárias realizado no Rio de Janeiro em 25 de maio de 1956. Na volta, foi demitida “por causar distúrbios na população fabril”. Passou a militar no Partido Comunista.Em 1958, no governo de Jânio Quadros, ajudou na organização da greve dos dez dias. Em 1967, pediu afastamento por tempo indeterminado do Partido Comunista. Tinha uma intensa militância mesmo sem estar vinculada a nenhum partido. No final de 1967 entrou para a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e logo seu marido entrou para a clandestinidade. Com a prisão de vários militantes no início de 1969, foram obrigados a entrar definitivamente para a clandestinidade.No dia do assassinato de seu marido, Damaris estava em casa com as crianças. Ela conta que Lucena, atingido, caíra ao lado do tanque, já fora da casa, quando um último tiro foi disparado em sua têmpora, na presença dela e dos filhos. Damaris foi barbaramente torturada na OBAN e seus filhos foram levados ao juizado de menores. Saíram da prisão por ocasião do sequestro do cônsul japonês na capital paulista, Nobuo Okuchi, em março de 1970. Assim foram banidos do território nacional: Chizuo Osava, Madre Maurina Borges da Silveira, Diógenes José de Carvalho de Oliveira, Otávio Ângelo e Damaris, que seguiu com os três filhos menores: Adilson Oliveira Lucena, 9 anos, Denise Oliveira Lucena, 9 anos, e Ângela Telma Oliveira Lucena, 3 anos e meio para o México, onde ficou por dezenove dias. Logo depois, recebeu o convite de Fidel Castro para viver em Cuba. Damaris chegou à Cuba e permaneceu internada por vários meses para se tratar das torturas sofridas nos cárceres brasileiros. Na Ilha viveu e criou seus filhos. Voltou ao Brasil em maio de 1980 onde seu filho Ariston tinha permanecido preso por 9 anos. </div>
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		<title>Condenado à morte</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 12:39:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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		<description><![CDATA[Meu nome é Ariston de Oliveira Lucena, nascido em 6 de outubro de 1951 em São Paulo. Sou filho de Damaris Oliveira Lucena e Antônio Raymundo de Lucena, ambos líderes sindicais desde a década de 1950 e ativistas políticos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Damaris foi têxtil e Antônio, metalúrgico. Comecei a minha militância muito [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Meu nome é Ariston de Oliveira Lucena, nascido em 6 de outubro de 1951 em São Paulo. Sou filho de Damaris Oliveira Lucena e Antônio Raymundo de Lucena, ambos líderes sindicais desde a década de 1950 e ativistas políticos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Damaris foi têxtil e Antônio, metalúrgico. Comecei a minha militância muito cedo, pois a minha casa era um local de reuniões da organização. Decidi sair de casa aos 17 anos para me juntar aos companheiros da VPR. Não sabia que o meu destino seria o Vale do Ribeira sob o comando do Capitão Lamarca. Os meus pais disseram que eu era muito jovem para assumir aquela luta. Respondi que esse era o meu desejo e que a minha ideologia tinha sido forjada com o exemplo deles dentro de casa. Fui para o Vale no dia 7 janeiro onde permaneci até 31 de maio de 1970. </p>
<p>Soube da morte do meu pai e da prisão da minha mãe pelo rádio. Fiquei transtornado e quis vir para São Paulo, mas Lamarca me conteve. Fiquei no treinamento de guerrilha por quatro meses no Vale. Escapamos de um cerco policial feito pelo coronel Erasmo Dias ao Vale do Ribeira. Saímos dirigindo um caminhão do Exército que nos trouxe para São Paulo onde nos dispersamos. Cada um tomou um rumo diferente e ignorado pelo outro. </p>
<p>Fui preso no dia 20 de agosto de 1970, em uma batida policial de rua no bairro da Vila Mariana. Levado para uma delegacia no mesmo bairro, fui espancado pelos policiais de serviço. Isso ocorreu em uma quinta-feira, permaneci na cela até segunda-feira pela manhã, quando fui transferido para DOPS. Lá chegando, fui encaminhado para uma sala de torturas, onde o escrivão Samuel Pereira Borba e outro policial que não sei identificar, começaram a me torturar com choques elétricos por todo o corpo. Eu estava pendurado no pau de arara. Fui torturado por algum tempo, mas não sei precisar a quantidade de horas. Quando me tiraram do pau de arara, não podia andar, contudo, mesmo assim saíram comigo em diligências por São Paulo, para cobrir pontos, com companheiros da minha organização. A polícia não conseguiu nada, pois eu já me encontrava preso fazia vários dias. Os meus companheiros já sabiam da minha prisão. Quero esclarecer, que, no dia em que fui preso, eu estava junto com um companheiro que conseguiu fugir.</p>
<p>Na quinta-feira, fui levado para a Operação Bandeirante pelo capitão do Exército, Maurício Lopes Lima. Fui direto para a sala de torturas e prontamente colocado na cadeira do dragão. Comecei a ser torturado novamente pelo Capitão Benoni de Arruda Albernaz e outros policiais da OBAN. Aos poucos, fui sendo destroçado pelas sevícias. Passei mais ou menos dois meses na Operação Bandeirante. Fui massacrado por várias equipes de policiais da OBAN. O comandante desse órgão era o Tenente-Coronel Valdir Coelho, que ordenava as torturas aos presos políticos.</p>
<p>Havia outros torturadores: o Capitão Homero César Machado, Pedro Mira Grancieri (também conhecido como “Tenente Ramiro”, que possuía uma âncora tatuada no braço) Dalmo Lucio Muniz Cirillo, entre muitos outros. </p>
<p>Certo dia, apareceu um homem me inquirindo. Disse-me que se fosse à auditoria para a audiência e se confessasse o que eu estava passando na Operação Bandeirante, pagaria as consequências. Eu disse que faria isso mesmo. Ele me ameaçou dizendo que eu iria “ver o que é bom”. Qual não foi a minha surpresa, quando fui prestar depoimento na auditoria. O referido senhor que havia me insultado era o procurador da Justiça Militar, Sr. Durval Ayrton Moura Araújo que funcionou como acusador dos militantes.</p>
<p>Em meados de outubro de 1970, fui levado de helicóptero para o Vale do Ribeira, pelo Coronel Antônio Erasmo Dias, para fazer a reconstituição de nossa fuga. Lá chegando, Erasmo ameaçou de me jogar do helicóptero se eu não contasse fatos que possibilitassem a prisão de outros companheiros meus. Colocou-me na cova onde havia sido executado o tenente da Polícia Militar Alberto Mendes Jr., em maio de 1970. Dias simulou um fuzilamento disparando rajadas de uma metralhadora Thompson ao redor do meu corpo para me intimidar. Aliás, o Coronel assumiu esse episódio em declarações feitas ao jornal Folha da Tarde.</p>
<p>Fui condenado a trinta anos de prisão, condenado também à pena de morte (posteriormente, transformada em prisão perpétua). Acumulei trinta anos e, por último, mais vinte pelas minhas atividades políticas. Saí em julho de 1979, portanto fiquei nove anos encarcerado.</p>
<p>Quero reafirmar que não me arrependo do que fiz. Sinto muito orgulho por ter pegado em armas para lutar contra a ditadura instaurada no Brasil. Essa consciência foi adquirida no convívio com meus pais Antônio Raymundo de Lucena e Damaris Oliveira Lucena. Meus velhos, apesar de terem baixo nível de escolarização, tinham uma profunda consciência de classe. </p>
<p>Conheciam muito bem as mazelas dessa sociedade, onde pobres, negros, e desvalidos, são as maiores vítimas do capitalismo nacional e internacional.</p>
<p>Minha família não possui riquezas materiais, mas, é detentora de um excelente capital intelectual que é a plena consciência dos problemas deste país. Fizemos a opção pelo povo e sabemos da necessidade de educar e conscientizar a massa para que possa lutar em prol dos seus direitos.</p>
<p>São Paulo, 9 de maio de 2013.</p>
<div style="background-color:#e8e7e7; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Ariston de Oliveira Lucena</strong> nasceu em São Paulo no dia 6 de outubro de 1951. Seu último trabalho foi técnico do INCRA. Aposentou-se por invalidez em 2012, pois era diabético, hipertenso e tinha sido submetido à uma angioplastia. Faleceu em 25 de maio de 2013 de infarto agudo do miocárdio. Suas cinzas repousam no assentamento onde residia, em Tremembé (SP).</div>
<p></p>
<div style="background-color:#c8c4c4; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Antônio Raymundo de Lucena</strong> nasceu em 11 de setembro de 1922, em Colina (MA), filho de José Lucena Sobrinho e Ângela Fernandes Lima Lucena. Morto em 20 de fevereiro de 1970. Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).<br />
Aos 12 anos de idade teve uma úlcera ocular que lhe ocasionou a perda da visão do olho direito. Nessa época, começou a ocupar-se de atividades de instalações elétricas, serviços de pedreiro e mecânica. Aos 17 anos, assumiu a função de mestre de oficina mecânica.  Apesar de não ter terminado os estudos, Antônio era uma pessoa bastante inteligente e habilidosa. Por conta disso, recebeu dos conhecidos a alcunha de “Doutor”. Ao casar-se com Damaris, Lucena começou a trabalhar como mestre de serraria e ela como fiandeira.<br />
Em março de 1950, embarcou em um caminhão pau de arara para a cidade de São Paulo. Ainda em 1953, o casal participou da campanha “O Petróleo é Nosso”. Nessa época, ele e sua esposa eram operários na Jafet, indústria têxtil localizada no bairro do Ipiranga. Em 1954, ingressou no Partido Comunista.<br />
Lucena aposentou-se em 1964 por invalidez. Como era cego de um olho, teve o direito a uma banca na feira isenta de impostos. Damaris tirou carta de motorista e logo adquiriu uma perua, para facilitar o transporte do material de trabalho.Em 1968, passaram a fazer parte da VPR, tendo Lucena participado de diversas ações armadas. Em 1969, o casal já vivia na clandestinidade com os filhos, em Atibaia (SP), e era responsável por guardar os fuzis FAL subtraídos por Lamarca quando fugiu do quartel de Quitaúna (SP), em janeiro de 1969.<br />
Seu filho mais velho, Ariston, também militante da VPR, foi preso em 1970, após ter escapado do cerco militar estabelecido na área de treinamento de guerrilha da VPR, no Vale do Ribeira (SP).Em 20 de fevereiro de 1970, por volta das 15 horas, a porta do sítio onde a família morava em Atibaia (SP) foi golpeada violentamente por militares. Lucena dormia. Começaram a atirar. Lucena tombou gravemente ferido e, logo em seguida, recebeu mais tiros. Foi assassinado, na presença de sua família.<br />
Lucena foi sepultado como indigente no Cemitério de Vila Formosa, em São Paulo.</div>
<p></p>
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		<title>Palavras presas</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 12:22:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Meu nome é Denise Oliveira Lucena. Eu sou gêmea de Adilson Oliveira Lucena. Minha mãe engravidou de mim e um mês depois engravidou dele. Nós nascemos no mesmo dia, na mesma hora, mas ele é mais novo que eu um mês. Acho que a maioria das coisas o meu irmão já falou. Mas foi realmente [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Meu nome é Denise Oliveira Lucena. Eu sou gêmea de Adilson Oliveira Lucena. Minha mãe engravidou de mim e um mês depois engravidou dele. Nós nascemos no mesmo dia, na mesma hora, mas ele é mais novo que eu um mês. </p>
<p>Acho que a maioria das coisas o meu irmão já falou. Mas foi realmente muito duro para nós sairmos daqui em 1970 da maneira que foi. Meu pai foi morto na nossa frente. Eu fiquei com muito medo. Na hora que eu saí de dentro de casa, ele estava caído no chão. Fiquei com muito medo. Foi uma situação muito difícil para nós porque a gente só tinha 9 anos. </p>
<p>A gente foi para o juizado de menores em São Paulo. Fomos muito maltratados. Sofremos muito, mas, hoje as coisas mudaram. Então eu acho que a gente tem que resgatar a história deste país e a gente também faz parte da história deste país.</p>
<p>Então é um momento que já passou. E eu não consigo falar mais.</p>
<div style="background-color:#cdcccb; padding: 5px 30px 30px 30px;">Denise Oliveira Lucena nasceu em São Paulo no dia 2 de outubro de 1960. É técnica de enfermagem e, no momento, está impossibilitada de trabalhar por uma questão de saúde.</p>
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		<title>Infância resgatada</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 12:11:19 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Eu acho que, de certa forma, esta infância roubada que nós tivemos, por conta da ditadura, nós começamos a recuperar em Cuba e, com a ajuda da Damaris, que foi esse muro poderoso, mesmo ela não estando muito bem de saúde na época em que saiu da cadeia. Ela nos ajudou muito a superar a [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Eu acho que, de certa forma, esta infância roubada que nós tivemos, por conta da ditadura, nós começamos a recuperar em Cuba e, com a ajuda da Damaris, que foi esse muro poderoso, mesmo ela não estando muito bem de saúde na época em que saiu da cadeia. Ela nos ajudou muito a superar a nossa infância roubada. E, principalmente, eu quero fazer um agradecimento à Revolução Cubana, que foi a pátria de muitos brasileiros e a casa de muitos brasileiros que lá estiveram.</p>
<p>A gente começa a relembrar das nossas fases em Cuba, e me lembro também que lá, inclusive, nós chegamos a instituir, com a ajuda dos cubanos, uma escolinha onde a gente aprendia Português, História do Brasil, Geografia. Acho que até conseguiram uns discos. A gente cantava o hino do Brasil e comemorávamos o 7 de Setembro no ICAP (Instituto Cubano de Amizade com os Povos). Os cubanos sempre lutaram para que os nossos pais não deixassem a gente esquecer o nosso idioma pátrio. E nunca faltavam comemorações pátrias nossas, quando nos reuníamos para cantar as nossas músicas.</p>
<p>Lembro-me que o grande herói da Revolução Cubana, das lutas pela independência, José Martí, dizia que ele queria colocar na Constituição de Cuba, quando triunfasse a luta contra o colonialismo espanhol, que a lei primeira da República fosse a dignidade do homem. E isso nós encontramos em Cuba. O eixo principal daquela sociedade é a dignidade plena do homem. </p>
<p>Então, todos nós que passamos por lá nos tornamos marxistas, porque Marx é uma ferramenta para a gente entender o que acontece nesta sociedade. Mas acho que, com certeza, nos tornamos martianos.</p>
<p>Quem aqui não escutou a Guantanamera com os versos de Martí?  Então, todos nós saímos de lá amantes do Martí. E aprendemos esse sentido da dignidade em Cuba, de valorizar o ser humano em primeiro lugar. A respeito da nossa vida, não guardo mágoas. Todos nós somos pessoas muito alegres. Atualmente, eu agradeço a Cuba porque sou professor de espanhol. Cuba também me deu um idioma, me deu a cultura. Agradecemos muito, aprendemos muito da cultura cubana, aprendemos muito do Brasil em Cuba. Os cubanos sempre tiveram essa preocupação.</p>
<p>E a respeito da nossa vida na clandestinidade, eu lembro das muitas mudanças de casa quando os meus pais entraram na clandestinidade. E sempre aquela agitação, muitas reuniões nas casas por onde a gente passou. Estivemos em Santos, em Embu Guaçu e outros lugares, até que a gente foi parar em Atibaia. E como não conseguíamos mais frequentar a escola por conta dessa clandestinidade, a Damaris estava nos alfabetizando no dia em que a casa foi cercada. Foi muito rápido. Muito nervosismo. Todo mundo sabe o que acontecia com os militantes quando caíam na mão da polícia. E o meu pai, de origem nordestina, dizia: “Nunca vou me deixar pegar vivo!”. E, de fato, foi o que aconteceu. Eles entraram e houve um tiroteio dentro de casa. Acho que eu fui o primeiro a sair quando cessou o tiroteio. E quando eu saí, ele estava sentado ao lado do tanque. Acho que ele já estava praticamente  morto. Estava sem camisa. Tinha tomado muitos tiros. E eu fiquei desesperado, enlouquecido. </p>
<p>A minha mãe saiu com a Telma no colo e depois atrás veio a Denise. Depois entramos de novo e aí se gerou aquele impasse dentro de casa porque eles nos encurralaram em um canto da cama. Uns achavam que deviam matar a gente ali mesmo. Outros, diziam: “Não, vamos esperar, vamos aguardar”, e ficava aquele impasse, aquela tortura em cima da gente com as armas apontadas. Talvez, pelo fato de quererem tirar informação do que estava acontecendo, naquele momento foi poupada a nossa vida.</p>
<p>Depois, quando nós saímos lá da casa, a região estava toda cercada de soldados do Exército. Eu nunca tinha visto tantos soldados em minha vida. Inclusive, no caminho que nos levava até a estrada principal, eles postaram soldados a cada dez metros. De lá, nós fomos levados para a delegacia de Atibaia. Parece-me que o fato se tornou público e, quando chegamos à delegacia, tinha milhares de pessoas na porta para ver a gente, como se fôssemos selenitas. Ficamos na delegacia até a noite. Até que nos tiraram de lá (primeiro fomos levados para o lar Mariquinha Lopes que era um orfanato em Atibaia). Posteriormente, ficamos sabendo que a Damaris começou a ser torturada ali mesmo na delegacia. E lá permanecemos uma etapa da nossa prisão. </p>
<p>E de vez em quando, acho que umas duas ou três vezes, a polícia veio me buscar para me levar na casa novamente. Aquilo era massacrante para mim. Eu tinha estado ali uma pequena parte da minha infância. Cheguei lá e vi toda a casa revirada. A poça de sangue do meu pai ainda estava ali. E eles queriam que eu desse conta de um buraco de lixo que nós tínhamos num canto da casa. Eles consideravam que talvez tivessem armas ali e eles me bateram com a bainha de facão do meu pai para eu contar o que tinha naquele buraco. Como eu não sabia, chorei e acho que, talvez, eles deixaram de lado porque pensaram que de fato não sabia se havia alguma arma naquele local. </p>
<p>Posteriormente, nós fomos tirados desse orfanato e levados para São Paulo. Lembro que percorremos várias instituições religiosas e eu via que as irmãs acenavam negativamente com a cabeça. Eles queriam nos deixar naquelas instituições e as irmãs não queriam aceitar. E eu escutava os comentários, que diziam que nós éramos filhos de terroristas.<br />
Então, em vários lugares, realmente, não fomos admitidos. </p>
<p>Até que nos levaram para um Juizado de Menores, em São Paulo. Tive muita má impressão porque quando chegamos lá de noite, dormiam três crianças em cada cama. E lá permanecemos durante toda a prisão, com castigos constantes. Às vezes, a gente ficava na sala de tevê, mas tínhamos que ficar com a cabeça para baixo sem poder assistir à TV. Imagine uma criança que gosta de ver TV não poder ver as coisas que gosta. Foi realmente muito massacrante. </p>
<p>Até que um belo dia, a Valquíria, que era a diretora da instituição, foi nos buscar, nos banhou, nos vestiu uma roupa mais ou menos e disse que a gente ia sair do país. E fomos em direção ao DOPS. Pela primeira vez em vinte e tantos dias de cativeiro, nós vimos a Damaris. Estava magra, a coitada. E macabra. Acho que a Telma nem a reconheceu de tão magra que ela estava. </p>
<p>Entramos no ônibus. Havia uma escolta muito grande. Estavam os companheiros que saíram naquele sequestro e fomos em direção do aeroporto. Acho que era Congonhas. Quando nós subimos no avião, estava lá o Mario Japa sentado. Anos depois ficamos sabendo que entraram escondido com ele por trás do avião porque ele não conseguia andar, tinha sido muito torturado. E aí tinha outros companheiros também – a Madre [Maurina Borges da Silveira], o Diógenes [Carvalho de Oliveira], o Otávio Ângelo.</p>
<p>E eu lembro que, também, no avião, foram dez policiais da Polícia Federal para o México. E eles queriam, inclusive, algemar Damaris e ela fez o maior escarcéu. E aí ela já brigou com eles dentro do avião e até que eles acabaram não algemando. Nós chegamos ao México. Lá, aquela movimentação da imprensa internacional e houve uma briga dos policiais brasileiros, inclusive uma pancadaria porque a gente queria descer do avião para falar com a imprensa e a Polícia Federal não queria. Até que acabamos descendo e fomos falar com<br />
a imprensa. </p>
<p>A Damaris deu as primeiras declarações que, aliás, foram muito importantes porque acabou salvando a vida da Eliana Rollemberg. Denunciou para a imprensa internacional que a companheira estava sendo muito torturada. De lá do aeroporto, nós fomos para o hotel. Lembro-me também como foi solidário aquele moço que cuidava da gente, o comandante. Ele encheu uma sacola.</p>
<p>[Neste momento, a mãe de Adilson, Damaris Lucena, o interrompe e complementa:]</p>
<p>Era o comandante do avião. Ele encheu uma cesta de frutas, de doces e disse: “A senhora leva porque não sabe onde vai parar com essas crianças pequenas. Leva isso aqui para eles e a senhora comerem”. Não sei se ele era de esquerda, sei que ele ficou muito penalizado. Ele ficou com a Telma no colo na hora de descer. Eu estava tão fraca que não aguentava segurar a menina. Aí ele pegou a menina no colo e me deu a cesta de lanche. Para mim, foi uma ação muito humana.<br />
E aí nós fomos para o hotel, onde estava toda aquela movimentação. E, de repente, a minha mãe falou: “Bom, agora estão convidando a gente para ir para Cuba”. Nós éramos pequenos, mas imagine o significado para ela, que lutou toda uma vida, ser convidada para ir para Cuba!</p>
<p>Eu acho importante a gente revelar a nossa dor às novas gerações, aos jovens, aos que não vivenciaram essa etapa a história do Brasil. Pobre do povo que deixa esquecer sua memória. Fiquei muito contente quando vi recentemente aquela juventude fazendo escrachos na porta dos torturadores porque a gente pensou: “A nossa causa está garantida, não vão deixar morrer nossa memória”. </p>
<p>O meu consolo é que a juventude está carregando essas bandeiras. E deixar aqui para as novas gerações a memória histórica do país. Até agora nós tínhamos a versão dos torturadores e estamos aqui para ter a versão do povo, contar a sua história e vamos deixar esta memória para as gerações futuras. </p>
<div style="background-color:#b9b8b9; padding: 5px 30px 30px 30px;">
Adilson Lucena nasceu em São Paulo no dia 2 de outubro de 1960. É Graduado em Letras com Habilitação em Português e Espanhol pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Trabalha como professor de espanhol. Dá aulas particulares e atua como professor voluntário em vários movimentos sociais. </p>
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		<title>A inocência perdida</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 12:01:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que a gente fala desses assuntos, as pessoas têm uma tendência a achar que filho de comunista é amargurado, mal-humorado, irritadiço. Somos seres humanos como todos os outros. Passamos por um processo difícil, sem dúvida nenhuma, mas isso não nos tornou monstros e nem insensíveis. Temos a nossa dor, claro. Todos nós temos. Até os filhos dos comunistas. Ao contrário do que dizem, que comunista não tem sentimento.</p>
<p>Sou Ângela Telma Oliveira Lucena. Sou filha do Doutor, que era o apelido do meu pai. Como ele era um cara de extrema inteligência, as pessoas o chamavam assim, apesar de ele ser analfabeto. Minha mãe, Damaris Oliveira Lucena, era operária e a nossa casa sempre foi um ponto de reunião dos companheiros e de muito movimento.<br />
Assim, eu poderia dizer que nós perdemos a inocência muito cedo. Porém, perder a inocência não significa que nós também não fôssemos crianças e tivéssemos momentos felizes. O que tínhamos era muita clareza sobre a atividade dos nossos pais. Sabíamos no que eles estavam envolvidos, embora não imaginássemos a magnitude e os desdobramentos que poderiam trazer. </p>
<p>Mas a nossa mãe sempre dizia: “Olha, não se afastem muito de casa, brinquem aqui perto, cuidado com o que vocês falam, não desapareçam. Porque se a polícia chegar a gente tem que sair correndo”. Parece maluco dizer isso para crianças. Mas quem é filho de nordestino entende. Nordestino fala claramente com os filhos. Nossos pais eram muito claros, muito objetivos quando conversavam com a gente. </p>
<p>Então, no momento em que ficamos clandestinos, para lá e para cá, aconteceu uma coisa muito curiosa. É uma lembrança muito boa que eu tenho, porque, na verdade, eu tive muitos pais. E tem um pai em especial que eu quero destacar aqui, que me tratou com muito carinho, com muito respeito, que era o Eduardo Leite Bacuri. Ele frequentava muito a nossa casa, tinha muita paciência, me pegava no colo, trocava minhas fraldas, me dava comida. Eu tive a possibilidade de contar isso para a Duda [Eduarda, filha de Bacuri]. E ela falou que tinha uma dor muito grande. E disse: “Eu queria que o meu pai tivesse feito isso para mim”. Nós fomos formando uma família. Não era uma família biológica, mas foi mais importante e mais significativa do que a nossa própria, com quem nós não convivemos. </p>
<p>Eu era perdidamente apaixonada pelo Bacuri, porque ele tinha olhos lindos. Ele me pegava no colo e eu ficava olhando para aquele homem. Acho que meu sonho era casar com um homem de olho claro por conta do Bacuri. Eu olhava para ele, aquele homem tão bonito. E falava para minha mãe: “Ele é tão bonito, não é?” Muitos anos depois, casei com um homem de olhos azuis. </p>
<p>Então, fomos tendo várias famílias, vários irmãos, primos, tios. Para falar a verdade, de muita gente eu vim a descobrir o nome recentemente. Eu não sabia como eles se chamavam. Essa convivência com os companheiros foi muito forte, muito marcante, porque eles faziam o papel dos pais que não estavam ali. Ficávamos nos aparelhos, dormíamos aqui e acordávamos ali. Um penteava o cabelo e o outro escovava os dentes. Você dormia com um companheiro de noite e quando acordava já era outro. </p>
<p>Tem algo que eu gostaria de destacar. As pessoas sempre colocam em dúvida se eu realmente consigo lembrar da morte do meu pai. Foi um fato para mim muito marcante. Eu tinha 3 anos e meio e as pessoas questionam e dizem: “Alguém com 3 anos e meio não pode lembrar disso”. Eu gostaria muito de poder apagar esse momento do assassinato do meu pai da minha vida. Mas eu não posso, eu não quero e eu não consigo. E eu não vou. Porque a única memória que tenho do meu pai é exatamente o momento da morte. Foi muito violento para mim. Foi muito triste. Eu tive, daquele momento em diante, fortes crises de enxaqueca. Eu sonhava todas as noites com uma coisa que não sabia exatamente o que era. Eu não conseguia ver filme de guerra, mas não deixava que minha mãe percebesse. Não queria que ela percebesse que a gente estava sofrendo. Porque sofrer também fazia parte da nossa história. Foi difícil? Foi. Foi duro? Foi. Mas eu não quero apagar. Eu lembro perfeitamente. Eu lembro como ele estava vestido. Eu lembro exatamente como tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava no colo da minha mãe, e quando fui crescendo, durante muitos anos ficava pensando se tinha sonhado aquilo ou se era realmente um fato que tinha ocorrido. </p>
<p>Eu vivia um conflito entre apagar, riscar aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sabia que se fizesse isso, estaria riscando a história da minha família. E eu não queria isso. </p>
<p>Quando nós saímos do Brasil, a minha mãe teve uma oferta do governo cubano para que fôssemos ao psicólogo. E minha mãe disse: “Meus filhos não precisam de psicólogo. Eles próprios vão administrar e eu vou ajudar os meus filhos a administrar a situação. Porque eu nunca menti para os meus filhos. Eu sempre disse para os meus filhos qual era a nossa atividade”. Isso não é uma crítica a quem vai ao psicólogo. De jeito nenhum. Mas eu consegui administrar a situação à minha maneira. Acho que meus irmãos também devem ter administrado da maneira deles. </p>
<p>A morte do meu pai mudou completamente a minha vida. A partir daquele momento sabia exatamente de quem eu era filha, como meu pai tinha morrido. Eu vi minha mãe muito torturada. Ela começou a apanhar no momento em que meu pai foi morto, ali na nossa frente. Me arrancaram dos braços dela. Eu lembro exatamente como aconteceu. Então, a nossa inocência, a minha, particularmente, foi perdida ali naquele momento. Mas isso não me transformou em uma pessoa amargurada, nem frustrada, nem triste. Talvez uma pessoa mais introspectiva, talvez uma pessoa com excesso de responsabilidade, talvez uma pessoa que, às vezes, raciocina muito porque sabe qual é o peso de levar o sobrenome Lucena. Não é fácil ser filha da Damaris e do Doutor. Não é fácil fazer parte de uma história de dois heróis da nação brasileira. De saber que para estar viva aqui, hoje, contando a nossa história, muita gente morreu. Quantas pessoas tiveram que dar a vida para que a gente tivesse esta democracia? Vivemos um conflito, mas é um conflito que tem um lado muito positivo. </p>
<p>Quando fomos presos, nos levaram para o juizado de menores e as pessoas falavam: “Poxa, mas ela é muito pequena, ela não lembra”. É lógico que lembro. As nossas camas eram molhadas. A gente dormia na cama molhada. Os filhos dos terroristas. Então a gente ficava ali, víamos que todas as crianças nos olhavam de uma forma estranha e nos sentíamos estranhos também. Eu pensava: “Puxa vida, eu estou vivendo isso aqui, que não vai acabar nunca”. Eu não tinha noção de tempo, mas tinha muito claro que tinha muito a ver com a atividade dos meus pais. </p>
<p>Eu não queria causar mais dor e sofrimento para minha mãe do que ela já tinha tido. Então não conversava sobre esse assunto com ela, que já tinha sua parcela de dor, de culpa, de responsabilidade. Por várias vezes ela disse para a gente que se sentia mal de ter colocado os filhos na luta. E um dia eu disse “Não se sinta mal. Nós somos produtos do meio e da luta que vocês tiveram e temos orgulho do que somos. Nós estamos com vocês. Nós temos orgulho do nome de vocês. Nós queremos levar a luta de vocês adiante. Vocês foram capazes de pegar em armas para defender os ideais de vocês. Vocês acreditaram naquilo. Isso para nós é a coisa mais importante. É o maior legado que alguém pode transmitir para os filhos”.</p>
<p>Quando ela diz que nunca disse para a gente, “ah, vocês precisam ser comunistas, ou revolucionários ou de esquerda”, é verdade. Ela nunca disse. O comportamento que ela tinha, a maneira como ela agia mostrava para a gente o que ela era, como ela acreditava. A vida inteira ela foi coerente com o que defendia. Minha mãe sempre foi uma pessoa que lutou, compartilhou, dividiu tudo o que ela tinha com as outras pessoas. E ela não poderia ter caído em um lugar melhor do que Cuba. </p>
<p>O meu pai, quando era vivo, viu o triunfo da Revolução Cubana. E ele dizia para minha mãe “O meu sonho é que os meus filhos estudem em Cuba”. Mal sabia ele que ia ter que dar a própria vida para que aquilo fosse possível. Então, para nós, é muito significativo. Dizem que os desejos, às vezes, se transformam em realidade. Eu acho que no fundo eles dois sabiam que, de certa maneira, o que eles estavam dando para a gente era uma nova possibilidade de vida. </p>
<p>Nós perdemos, de fato, a nossa inocência, perdemos o nosso pai. Fomos parar em Cuba. Eu cheguei com 3 anos e meio, fui para creche. Aprendi a falar espanhol, e acho que hoje falo melhor espanhol do que português porque fui alfabetizada em espanhol. Então a gente viu que aquele sonho de liberdade, de uma sociedade mais justa, era possível. Tudo o que o meu pai falava, “Existe um país que se chama Cuba, que fez uma revolução”, e aquilo era possível. E a gente via aquilo acontecendo. Então foi muito representativo. </p>
<p>A solidariedade do povo cubano, a importância que eles davam para o estudo, a importância que eles davam para que a gente mantivesse a nossa cultura, a nossa identidade. Nós nunca fomos tratados como coitadinhos, porque não somos. Somos pessoas que pagamos um preço pela escolha, pela ideologia dos nossos pais. Isso, de forma alguma é negativo. Ao contrário, eu vejo de uma maneira muito positiva. É evidente que, cada ser humano tem uma apreciação a respeito das coisas. </p>
<p>Mas eu lutei muito, tive alguns conflitos internos, e nós, entre os irmãos não falávamos disso. Eu acho que é a primeira vez que cada um de nós conta a sua experiência para o outro. No entanto, o que é importante para nós, primeiro, é a oportunidade de falar para as pessoas o que é que nós vivenciamos para que isso nunca mais aconteça. Para que não se repita. Para que as pessoas saibam que a única maneira da gente realmente modificar uma sociedade, transformar, é pela educação. A gente precisa ter consciência. E isso foi uma coisa que a Revolução Cubana permitiu que a gente tivesse. Consciência política. Nós temos muito claro o que nós queremos para o nosso país. </p>
<p>É evidente que temos alguns momentos de angústia, de dor. Todo mundo passa por isso. Isso é do ser humano. Mas eu queria deixar presente uma mensagem em meu nome e dos meus irmãos também. Quem deu um golpe, rasgou a Constituição depois de um presidente democraticamente eleito não fomos nós. Nós apenas nos defendemos. Em nenhum momento nós provocamos uma situação que justificasse a violência da qual nós fomos vítimas. Uma violência de Estado. Agora, quando a gente fala de vítima, infelizmente é uma coisa que se repete. Quando a gente vitimiza o ser humano é quando a gente não deixa que ele se expresse. </p>
<p>O Brasil fala que é uma democracia, no entanto, pessoas continuam sendo torturadas, os desaparecidos continuam desaparecidos, os arquivos continuam fechados. Nós não sabemos onde nossos familiares foram parar. Nós queremos, exigimos uma resposta para isso. Queremos enterrar os nossos mortos. É um direito que temos, como seres humanos. Falo aqui, eu acho, que em nome de todas as famílias que não tiveram a possibilidade de enterrar os seus mortos. Inclusive meu pai, que é desaparecido. Eu não quero mais que meu pai seja uma estatística como tantos outros pais que estão por aí. Nós queremos a abertura dos arquivos. Queremos saber de que forma, em que circunstâncias os nossos pais foram assassinados. </p>
<p>Nós temos esse direito. Qualquer nação séria vê dessa maneira. Então, quando nós dizemos aqui, viemos a público, todos os filhos, falar, o que nós queremos é uma coisa muito simples. Nós queremos saber aonde foram parar os nossos pais. É um direito que nós temos como seres humanos. Em qualquer cultura as pessoas têm o direito não somente de chorar pelos seus entes queridos, mas também a possibilidade de saber como aconteceu.<br />
Nós temos muitos desaparecidos neste país. Nós não queremos que eles continuem desaparecidos. Então, por favor, eu faço um apelo aqui, público, quem souber qualquer informação, quem souber qualquer dado que possa ajudar os familiares a descobrirem as circunstâncias da morte dos seus entes queridos, a gente pede, que mesmo de forma anônima, a pessoa mande esses dados para a gente. Nós queremos. Nós precisamos. Enquanto nós não soubermos como tudo aconteceu, enquanto os arquivos não forem abertos, enquanto a gente viver com essa dúvida, não podemos ter tranquilidade. É um fantasma que nos atormenta. </p>
<div style="background-color:#b0b0b0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Ângela Telma Oliveira Lucena</strong> nasceu em 10 de outubro de 1966. Filha de Antônio Raymundo de Lucena e de Damaris Oliveira Lucena. Mestre em Língua Portuguesa. Graduada em Letras com habilitação dupla Espanhol/Português pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Estudante de Direito. Trabalha como Jornalista e Tradutora freelance. </p>
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