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	<title>Infância Roubada &#187; Coqueiro</title>
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		<title>&#8220;Faria tudo igual a ele&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 03:36:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Coqueiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu nome é Célia Silva Coqueiro, sou filha de Isaura Silva Coqueiro e Aderval Alves Coqueiro. Meu pai era militante. Primeiro ele foi do Partido Comunista, fez um trabalho de base com os metalúrgicos do ABC, participou da Fundação do Sindicato dos Metalúrgicos e com o avanço do golpe ele acabou caindo na clandestinidade e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Meu nome é Célia Silva Coqueiro, sou filha de Isaura Silva Coqueiro e Aderval Alves Coqueiro. Meu pai era militante. Primeiro ele foi do Partido Comunista, fez um trabalho de base com os metalúrgicos do ABC, participou da Fundação do Sindicato dos Metalúrgicos e com o avanço do golpe ele acabou caindo na clandestinidade e participando das organizações armadas. Então foi para a Ala Vermelha do PCdoB, e depois, numa divergência, fundou com o Devanir de Carvalho o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), que foi a última organização na qual meu pai militou. Ele foi preso em maio de 1969, quando eu ainda não tinha 4 anos completos. Foi preso pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, levado ao DOPS/SP e torturado. Ficou três meses incomunicável, sendo torturado, e depois foi levado para o presídio Tiradentes, onde ficou mais uns sete meses.</p>
<p class="p1">No total, ele ficou preso um ano e só saiu trocado pelo Embaixador alemão. O rapto do embaixador alemão ocorreu em junho de 1970, um ano depois da prisão de meu pai. O nome dele foi um dos que foi solicitado entre quarenta presos políticos trocados pelo embaixador. Banido, foi para a Argélia e de lá para Cuba, fazer treinamento de guerrilha porque a ideia dele era retornar ao Brasil para continuar a luta.</p>
<p class="p1">Depois do treinamento em Cuba, ele retornou ao Brasil num esquema da VAR-Palmares, que foi comandado pelo James Allen. Foi morto fuzilado em 6 de fevereiro, seis dias depois de sua entrada no Brasil, em 30 de janeiro. Na verdade, o aparelho onde ele estava no Rio de Janeiro foi entregue por um dos companheiros com quem treinou em Cuba e que retornou antes ao Brasil. E, naquele momento, trabalhava para a repressão.</p>
<p class="p1">Quando eu nasci, em julho de 1965, meu pai militava tanto no sindicalismo como na Ala Vermelha do PCdoB. Ele era muito ativo dentro das atividades políticas e, portanto, muito visado pelas forças de direita, pela polícia política. Lembro-me muito pouco disso porque era muito pequena. Minha irmã, que é cinco anos mais velha, deve se lembrar de muito mais coisas do que eu.</p>
<p class="p1">Acho que o nosso psicológico é muito estranho. Às vezes apagamos coisas que não queremos lembrar e lembramos de coisas que queremos. As pessoas me perguntam muito se me lembro do meu pai e o que eu posso dizer é que me recordo de uma visita que fiz a ele quando foi preso. Eu fui ao presídio Tiradentes, onde era proibido receber cigarros e o meu pai fumava muito.</p>
<p class="p1">Eu tinha só 3 anos e meio, mas me lembro de uma cena muito clara. Minha mãe me conta que isso realmente aconteceu. Estávamos muito próximas do presídio, já quase entrando. Minha mãe me vestia com aquelas calcinhas cheias de renda e ela enfiou os maços de cigarro na calcinha para poder dar ao meu pai.</p>
<p class="p1">Também me recordo que, enquanto meu pai estava preso, minha mãe tinha pontos com os companheiros de organização de meu pai, como o Devanir. Ele pedia para a minha mãe passar informações para o meu pai. E, numa determinada época, ele passou um bilhete todo enroladinho. Minha mãe costurou esse bilhete na barra da saia dela para poder<br />
levar essa informação, que nem ela podia ler, para o meu pai.</p>
<p class="p1">Eu não me recordo da fase em que meu pai saiu banido, em junho de 1970, trocado pelo Embaixador alemão. Mas minha mãe conta que nós não fomos ao aeroporto. As notícias saíam no jornal, e meu pai escrevia muito para nós da Argélia. Eu tenho todas as cartas, que anexei junto ao processo de Anistia dele. Tem uma das cartas, inclusive, que ele manda para os companheiros do presídio</p>
<p class="p1">Tiradentes. Eu as guardo com muito cuidado, já estão todas amarelinhas, se desfazendo.<br />
Ele sentia muitas saudades, e as cartas erammuito íntimas. Ele sabia que todas as cartas seriam interceptadas, e por isso não falava além do que tinha que falar, de saudades da família, das filhas.</p>
<p class="p1">Num dos meus aniversários ele me mandou um cartão com um cachorrinho. Eu tive um cachorrinho dado por ele e que se chamava Brinquedo, mas, sem querer, meu pai acabou o matando atropelado. Tenho esse cartão até hoje. Tenho todas as coisas, como uma caneta que ele fez para nós no Presídio Tiradentes. São coisas que a gente guarda com muito carinho. Na verdade, é um tesouro familiar. Papai sabia que as cartas estavam sendo interceptadas. Ele mandou uma para os companheiros do presídio Tiradentes, principalmente direcionada aos Carvalhos, com quem tínhamos uma relação muito especial. Éramos como uma família, da mesma organização política e tínhamos um vínculo muito forte de amizade. Meu pai mandou cartas para minha mãe mesmo sabendo que seriam interceptadas. Ele enviava as cartas de Cuba para Argélia e de lá um companheiro mandava com endereço da Argélia para a minha mãe. Então ela achava que ele, de fato, estava na Argélia. Nós nunca imaginamos que eles estivessem em Cuba treinando. Ele ficou pouco tempo na Argélia. Foi para lá em julho e no final do mesmo mês, começo de agosto, já tem registro dele em Cuba, visitando a Damaris, a tia Tercina. Ele ficou uns três, quatro meses em treinamento em Cuba. Foi um treinamento meio relâmpago e então ele pediu para o James fazer um esquema de retorno ao Brasil.</p>
<p class="p1">Recebíamos essas cartas e realmente achávamos que meu pai estava na Argélia, até porque dizia que estava preparando a nossa ida para lá: “Sinto muitas saudades, mas estou me estabilizando para poder trazê-los, uma vez que estou banido”. Ele sabia que a repressão lia essas cartas e as escrevia de propósito.</p>
<p class="p1">Minha mãe recebia cartas do meu pai semanalmente e por isso estranhou quando ficou quinze, vinte dias sem notícias, nem carta, nem cartão. Ela pensou que talvez ele estivesse viajando pelo interior da Argélia. E, então, ficou sabendo da morte dele por uma vizinha, que viu no noticiário, e foi até a casa da minha mãe e disse “Isaura, o seu marido é Aderval Alves Coqueiro? Acabaram de matar ele no Rio de Janeiro, num tiroteio”. O Vitor Papa Andreu, que foi a pessoa que entregou ele, sabia desse esquema.<br />
Inclusive o próprio companheiro de organização, o Devanir que também estava clandestino aqui no Brasil, não sabia que meu pai estava retornando. A Pedrina, viúva do Devanir, conta que quando ele soube a notícia no aparelho e ele levou um susto tão grande quanto a minha mãe. Ele ficou enlouquecido quando viu a notícia no jornal. Ele jogou o jornal em cima da mesinha de centro e começou a chorar. Essa foi a reação que ele teve.</p>
<p class="p1">E a minha mãe leva um susto tal que a primeira reação dela foi ligar para a Dra. Nina, advogada que dava apoio à Ala Vermelha, MRT. Ela falou “Isaura, pegue as meninas, o seu sogro, vá ao Rio de Janeiro e peça o corpo dele. Você é a esposa dele”. E minha mãe fez exatamente isso. Lembro-me que foi uma Kombi que nos levou até a rodoviária para embarcarmos para o Rio de Janeiro. A única coisa que eu me recordo desse dia é a minha mãe chorando. Quando a vizinha foi avisá-la, ela abaixou a cabeça e eu deitei no colo dela para ver porque ela chorava. Eu não sabia que o meu pai estava morto, a minha mãe não falou.</p>
<p class="p1">Minha mãe é uma pessoa muito forte, raramente chora. Então eu acho que essa minha reação de deitar no colo dela e olhar é porque eu queria ter certeza que ela estava chorando. Só fiquei sabendo da morte quando chegamos no Rio. Foi uma viagem muito longa, nós fomos de ônibus, chegamos de madrugada. Logo cedo fomos procurar pelo corpo do meu pai. Era semana de Carnaval, dia seis, sete de fevereiro e me lembro que chegamos e tivemos de retornar para São Paulo sem ver meu pai. Chegando lá, minha mãe falou: “Mataram o pai de vocês. Ele voltou [para o Brasil] e fuzilaram ele e nós estamos aqui para poder enterrá-lo”. No Rio, disseram para minha mãe e para o meu avô, pai do meu pai, que não poderiam entregar o corpo, porque era Carnaval, feriado e eles estavam fechados.</p>
<p class="p1">Primeiro minha mãe foi ao DOPS, onde falaram: “Nós não sabemos, ele deve estar ali no IML em frente”. Ela foi ao IML e lá disseram que não iriam atender. “E quando vocês podem atender?”, minha mãe perguntou. “Nós podemos atender quando passar o Carnaval”, disseram. Retornamos a São Paulo, esperamos passar três, quatro dias e voltamos ao Rio no primeiro dia útil com o meu avô. Lá, falaram que era melhor o meu avó entrar para reconhecer o corpo, porque a minha mãe estava muito mal e o corpo estava muito machucado. Meu avô entrou. Acho que ele ficou com essa impressão na cabeça dele até os últimos dias de sua vida porque sempre que me via, falava: “Minha filha, quando puxaram a gaveta onde seu pai estava, tinha sangue embaixo, o sangue estava coalhado”. Porque passaram muitos dias e o corpo dele parecia uma renda.</p>
<p class="p1">Meu avô comparava o corpo do meu pai como uma renda. Foram mobilizados cinquenta homens para pegá-lo. Foi uma operação tão gigantesca, tão absurda para pegar um homem. E eles abriram fogo mesmo, como os vizinhos contam. Ano passado fui visitar o aparelho onde meu pai estava, e a companheira que levava alimentação no aparelho, contou que procurou os vizinhos, que contaram que ele tentou fugir, pulou o muro, correu e quando estava subindo, escalando o muro, que era muito alto, abriram um fogo assim sem tamanho e o fuzilaram. Então ele estava muito furado mesmo. Imagino que foi por isso que o meu avô ficou com essa impressão. Ele ficou falando isso até os últimos dias de vida. Toda vez que ia visitá-lo no aniversário ou no Natal ele falava isso. Morreu há cinco anos. Meu pai era o filho caçula. Eram duas meninas e um menino e nós, nem o meu avô, nem minha mãe, nunca mais fomos os mesmos depois desse fato.</p>
<p class="p1">Eu me lembro do meu pai no caixão e da minha mãe se debruçando, se jogando em cima e passando a mão na testa dele, onde havia um hematoma muito grande. Não sei se bateram nele depois dos tiros ou se o machucado foi porque ele caiu. Inclusive o meu avô disse que o corpo também estava muito machucado, tanto que a gente tinha dúvidas se não tinham levado ele vivo e o torturado. Depois é que ficamos sabendo que não, realmente ele morreu na hora. Lembro-me dela se debruçando em cima do caixão e me lembro muito claramente da cor dele, que era violeta escura.</p>
<p class="p1">E aí nós o enterramos, eu me lembro da caminhada dentro do cemitério, o caixão na frente. Retornamos naquela situação terrível. Também havia um monitoramento em cima da casa do meu avô. Nós morávamos com ele em Diadema e ele foi levado, inclusive, porque achavam que a minha mãe e o meu avô sabiam do retorno do meu pai. Quando levaram o meu avô para interrogatório, os companheiros começaram a ficar com medo de também levarem a minha mãe, que estava em frangalhos.<br />
Todos estávamos, mas ela nunca se recuperou, nunca conseguiu recompor a vida amorosa, nunca mais se casou. Ela ficou com<br />
um trauma muito violento. Guardou por muitos anos uma camisa do meu pai, a última camisa. Ela devia ter essa camisa guardada até pouco tempo. Temos também todos os documentos do meu pai (carteira de reservista, identidade, carteira de trabalho) até hoje guardados. Meu pai quando caiu na clandestinidade entregou para a minha mãe e disse à ela: “Isaura, esses documentos não me servem para mais nada, guarde que para você talvez algum dia sirvam”.</p>
<p class="p1">Então os companheiros acharam melhor começar a fazer a articulação da nossa saída para fora do Brasil. O viável seria o Chile, onde estava o Salvador Allende. O pessoal que corria perigo aqui no Brasil acabava indo para lá, que era um governo democrático, muito aberto e tal. Acabamos indo para lá. Meu pai foi morto em fevereiro de 1971 e nós saímos só em novembro desse mesmo ano, porque a minha mãe tinha muita resistência a sair do Brasil, ela não queria. Na verdade, ela queria ficar com o meu avô, mas os companheiros acharam que era melhor assim por uma questão de segurança. E fizeram muito bem, afinal depois ficamos sabendo que muitas viúvas acabaram sendo presas e até torturadas. E tudo porque achavam, embora não soubessem, que as esposas sabiam coisas. Tanto que a minha mãe conta que quando o meu pai foi preso, que ela ia ao DOPS pedir informações e falavam que ele não estava lá. E eles perguntavam para a minha mãe “Mas você sabia das ações do seu marido?” “Não sabia de nada”, ela dizia. Aí eles chegaram a falar assim: “Ela não sabe de nada agora, mas na hora que ela cair aqui dentro, fala tudo”.</p>
<p class="p1">Então existia essa ameaça em cima das esposas dos militantes, até dos próprios filhos. Ficávamos muito vulneráveis, porque não sabíamos o que podia acontecer conosco, existia um medo muito grande. Eu só consegui me sentir totalmente segura quando cheguei em Cuba. Nem no Chile me sentia totalmente segura. Sentia-me tão insegura nessa situação de ter que correr, porque a minha vida foi essa: nasci, logo depois o meu pai corria de aparelho para aparelho, porque estava clandestino e a polícia podia chegar a qualquer momento, toda vez que caía um companheiro preso, que sabia a localização do aparelho, a gente saía correndo, largava tudo, tinha que procurar outro espaço. A sensação de insegurança me acompanhou por muitos anos, inclusive no Chile, que era um lugar em que estava o Salvador Allende, e a gente podia se sentir segura. Mas só fui me sentir segura quando cheguei em Cuba, em 1973, por sorte cinco meses antes do golpe do Pinochet, e foram os cubanos, inclusive, que providenciaram nossa ida para lá.</p>
<p class="p1">Meu pai morreu muito cedo, com 33 anos, mas devo dizer que ele foi muito afortunado, porque teve os melhores amigos e companheiros que um homem poderia ter. Nós fomos muito, muito amparados pelos companheiros, foram a minha família. Eu digo que cresci no exílio, cresci em Cuba e as minhas tias são a minha família da Revolução, dos companheiros que foram presos com o meu pai, que foram torturados e que lutaram pela mesma causa, uma causa justa. Porque meu pai não era terrorrista, só queria a justiça social, acabar com a exploração, queria que todos pudessem ter uma vida digna, que, diga-se de passagem, naquela época os operários não tinham a vida que têm hoje, porque de lá para cá já tivemos muitas conquistas.</p>
<p class="p1">Eu perdi o meu pai, mas acho que não foi em vão ele ter lutado tanto. O preço foi alto, mas nós ganhamos a guerra moral. Perdemos a guerra bélica; mas ganhamos a guerra moral. Estamos aqui denunciando os assassinos, facínoras, torturadores, que não respeitaram nem crianças, porque até as crianças dos companheiros eram presas.</p>
<p class="p1">Falamos da família da Revolução porque crescemos juntos, foi essa família que eu conheci. Só fui conhecer a minha família de sangue com 14 anos, depois da Anistia. Eu não tenho vínculo muito forte com a minha própria família de sangue porque a ditadura me tirou isso. Claro que tenho o outro lado, a riqueza dos companheiros, como eu falei, o meu pai foi afortunadíssimo, porque teve companheiros que arriscaram as suas vidas para nos tirar dos aparelhos, quando o meu pai foi preso, como foi o caso do Roberto, do James Alley, que nos tirou do aparelho. E temos os companheiros que articularam a nossa saída do Brasil, os que nos receberam no Chile como o Rafael de Falco Neto, figura fantástica. Ele até aconselhou a minha mãe, que queria voltar do Chile para o Brasil: “Não, Isaura, vá para Cuba, lá as meninas vão poder estudar, vocês vão ter tranquilidade”.</p>
<p class="p1">Um ano, um ano e meio depois da morte do meu pai a minha mãe ainda estava totalmente desnorteada e ficou por muitos anos assim. Estou falando o nome de alguns companheiros, mas evidentemente temos inúmeros, inclusive os companheiros cubanos, que nos receberam com tanto amor e nos deram tudo.</p>
<p class="p1">Em agosto de 1979, retornei ao Brasil com a Anistia. Foi incrível, porque voltamos nos dia em que foi decretada a Anistia. O advogado Idibal Pivetta foi a Cuba justamente para poder formatar, estruturar o nosso retorno para o Brasil, porque como nós não tínhamos nem passaporte, precisávamos retornar com o salvo conduto da ONU. A Anistia estava para sair e o Idibal sabia disso. Ele alertou a minha mãe, mas ela não queria esperar, “Não, eu quero retornar”, já retornaram outros companheiros, faltavam cinco meses para a Anistia e a minha mãe falou “Não, pode fazer o meu retorno” e aí o Idibal começou a trabalhar nisso.</p>
<p class="p1">Quando saímos de Cuba, ficamos uma semana no Peru aguardando o salvo conduto da ONU, as passagens e tudo. E aí chegaram as passagens e, no dia que íamos embarcar, fomos ao centro de Lima, porque a minha mãe queria fazer umas compras. E quando retornamos, escutamos no rádio do táxi: “No Brasil acabou de ser decretada a Anistia ampla”. Ou seja, nós embarcamos meia-noite, chegamos cinco, seis horas da manhã e fomos os primeiros a pisar no solo brasileiro, já com a Anistia decretada. E o meu pai foi o primeiro banido a retornar morto.<br />
Aí fomos reestruturar toda a nossa vida no Brasil, que não foi fácil. No meu caso, conhecer a família de sangue, que eu não conhecia, porque saí muito pequena do Brasil. A família que conhecia era a dos companheiros de luta dos meus pais. Tivemos infância perdida e meia juventude perdida também, porque a gente leva sequelas, que não são poucas, são muitas.</p>
<p class="p1">Voltei de Cuba com 14 anos. Já estava terminando o ginásio, cheguei aqui e fui concluir o ginásio no Colégio Equipe. Depois continuei fazendo colegial, fui prestar vestibular, fui aprender o português, porque falava português com a minha mãe em casa, mas não sabia escrever, não tinha gramática. Fui alfabetizada em espanhol. Então, a minha primeira língua pode-se dizer que foi o espanhol. Dessa forma, cheguei no Brasil e fui aprender a escrever o português, eu fui aprender geografia, história brasileira. Até então eu sabia a história, geografia de Cuba, os heróis cubanos,<br />
Antonio Maceo, José Marti, mas não sabia quem era Tiradentes. Então, com 14 anos comecei a aprender o que era o meu país. Nos foi tirada muita coisa, sim.</p>
<p class="p1">A ditadura nos tirou a infância, nos tirou metade da juventude, nos deixou com sequelas. Nos tirou nossos pais guerreiros, militantes, tios. Paradoxalmente, nos deu uma bagagem de vida, que poucos têm, porque nós, hoje, temos maturidade. Nós, essas crianças, acabamos amadurecendo à força, a ferro e fogo. Com 13 anos, eu lia A Revolução dos Bichos e 1984. Porque o povo cubano é muito culto. Eles podem não ser ricos financeiramente, mas é um povo muito culto, porque se promove muito a leitura, o debate. Até nisso na escola, na volta ao Brasil, eu era muito mais madura que as minhas colegas. Foi muito difícil entender a linguagem, por exemplo, porque enquanto eu falava de militância política, elas falavam de outras coisas que para mim eram totalmente alheias ao meu conhecimento.</p>
<p class="p1">Isso é o que me lembro da minha infância. Foi uma infância dolorida. Tivemos uma perda grande. Não só a do meu pai mas a de outros companheiros. Eu cresci escutando histórias de companheiros que foram mortos, torturados (o meu pai, inclusive, porque as marcas das torturas eram evidentes quando íamos visitá-lo na prisão). Mas nunca se acostuma a escutar. Sempre que escutamos um novo relato é muito doído, dói demais. E é uma sequela que se leva, mas também levamos essa experiência, essa bagagem toda.</p>
<p class="p1">Postei a foto do meu pai uma vez, tirada no Presídio Tiradentes, e o Gregório, filho do Virgílio, que cresceu com a gente em Cuba, perguntou para mim “O que você diria para esse jovem, porque hoje você é mais velha do que ele?”. Porque meu pai era jovem, tinha 30 anos quando foi preso. Eu respondi: “Faria exatamente igual a ele, nem um milímetro diferente, nada”. Acho que ele foi um grande guerreiro. Eu o perdi, mas tenho certeza que até o momento do último suspiro ele não se arrependeu, porque estava lutando por aquilo que acreditava. Ele me deixou esse legado “Lute toda a sua vida por aquilo que você acredita, por aquilo que você acha justo. Mesmo que isso signifique a sua morte, nunca deixe de fazer isso”. É a entrega total de um ser humano para uma causa, isso não tem preço. É um orgulho total dele e dos companheiros dele. Faria tudo igual a ele, acho que ele fez tudo certinho.</p>
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<p><strong>Célia Silva Coqueiro</strong> nasceu em 25 de Julho de 1965 em São Bernardo do Campo (SP). Filha de Aderval Coqueiro e Isaura Silva Coqueiro, começou a estudar ballet clássico em Cuba e continuou no Brasil. Trabalhou na ASTC (Asociación Sandinista de Trabajadores de La Cultura) em Manágua/Nicarágua durante o processo da Revolução Sandinista (1987 a 1990). Trabalhou no Brasil implantando projetos de formação de técnicos na área cultural focado na dança para crianças carentes no Paraná e em São Paulo. Hoje faz faculdade de Gestão de Políticas Públicas e trabalha no Poder Público de São Paulo.</p>
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		<title>&#8220;O exílio de meu pai foi a nossa despedida&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 03:05:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sou filha de Aderval Alves Coqueiro, assassinado pela ditadura em 1971 e o primeiro preso político banido – enviado à Argélia – a retornar ao Brasil após o seu exílio. Ele foi um dos quarenta presos políticos trocados pelo embaixador alemão Von Holleben, em junho de 1970. Essa é a primeira vez que nós filhos [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p class="p1">Sou filha de Aderval Alves Coqueiro, assassinado pela ditadura em 1971 e o primeiro preso político banido – enviado à Argélia – a retornar ao Brasil após o seu exílio. Ele foi um dos<br />
quarenta presos políticos trocados pelo embaixador alemão Von Holleben, em junho de 1970.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Essa é a primeira vez que nós filhos somos ouvidos. É a primeira vez que temos a oportunidade de abrir o coração e falar sobre essas mazelas e sobre um momento histórico que para nós, crianças naquela época, foi muito difícil. </span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Nós, como crianças, não tínhamos capacidade de compreender tudo. Isso é um pouco problemático, e o momento histórico era aterrorizante.</span></p>
<p class="p1">A importância deste momento é conseguirmos relembrar e falar pela primeira vez sobre os efeitos daqueles momentos difíceis nas nossas vidas. Eu nasci em 1960, tinha 4 anos quando se deu o golpe.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Na época, acho que ainda estávamos em Brasília, porque meu pai era baiano e migrou para Brasília quando eu era muito pequena. Foi candango lá e viemos para São Paulo quando eu ainda era muito pequena. Em São Paulo, começou a trabalhar como operário, no ABC.</span></p>
<p class="p1">Lembro bem da nossa vida a partir do momento que moramos no ABCD, em Diadema. Ele já era integrado à luta, porque foi em Brasília que entrou no movimento. Minhas primeiras lembranças, apesar de vagas, são dos desaparecimentos, porque de vez em quando ele sumia por uns dias, não havia muita explicação para isso. E, por vezes, havia algumas reuniões lá em casa. E quando a situação foi ficando mais aguda e começaram as perseguições mesmo, aí começaram a se dispersar.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Foi nessa época que começamos a deixar um pouco de viver a vida familiar, porque cada vez menos dava para vivermos juntos. E comecei a ouvir que tínhamos que ter cuidado com o que falávamos na escola, não podíamos brincar com a amiguinha da vizinha, não podíamos ficar fora do portão na rua brincando. Era uma série de coisas que não conseguíamos entender na época. Eu tinha 7 anos e não conseguia entender o porquê daquela situação.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Comecei a perceber o que estava acontecendo quando tivemos que fugir para valer pela primeira vez, porque o meu pai já estava sendo procurado. E nós tínhamos que começar a viver nos chamados aparelhos, que eram casas<br />
e apartamentos clandestinos, considerados mais seguros. </span></p>
<p class="p1">Nós moramos no Mato Grosso, na Bahia, voltamos para São Paulo. Mudávamos constantemente, não podíamos ficar em uma mesma escola o tempo todo. Tínhamos muito medo, muita insegurança. Depois comecei a entender que eu podia perder o meu pai. Eu acho que foi aí que comecei a sentir mais medo. Quando meu pai teve que ir para a clandestinidade, a vida ficou complicada.</p>
<p class="p2"><span class="s1">Quando tivemos que nos mudar de Diadema, eu tinha 7 ou 8 anos. Nós fomos de Kombi para o Mato Grosso e ficamos na casa de um primo da minha mãe ou meu pai, que tinha um sítio, onde moramos por um tempo. Meu pai ficou um período curto conosco, logo depois voltou para São Paulo. Eu acho que a maior preocupação dele naquele momento era garantir a segurança da minha mãe e das filhas.</span></p>
<p class="p2"><span class="s1">No regresso a São Paulo, numa noite, foi alugada uma casa, em Santo Amaro. Lá não tinha fogão, camas, geladeira. Porque a gente simplesmente mudava de um minuto para o outro. Alugamos a casa num dia, e na manhã seguinte, num posto de gasolina, os companheiros foram avisar que meu pai tinha sido preso. Nós tivemos que sair novamente da casa por questões de segurança. </span></p>
<p class="p2"><span class="s1">Quando meu pai ainda estava preso, me magoou muito eu não poder vê-lo em todas as visitas na cadeia porque tinha que estudar. Eu tinha que avançar no estudo porque estava atrasada. </span></p>
<p class="p3"><span class="s1">Quando ele foi preso, passou-se um tempo sem que ninguém soubesse dele. Minha mãe </span>saía constantemente, de delegacia em delegacia, porque ela sabia que ele tinha sido preso, só que não sabia se estava vivo, morto, em que lugar ele estava. Lembro-me desta procura constante.</p>
<p class="p3">Foi um alívio quando ficamos sabendo que estava preso, foi a confirmação de que ainda estava vivo. Mas ele estava na condição de incomunicável, não podíamos ir visitá-lo.</p>
<p class="p3">Logo que começamos visitar o meu pai, ele tinha sido muito torturado.</p>
<p class="p3">As visitas continuaram por um tempo, e depois a troca dele pelo embaixador alemão, junto com outros companheiros, que foram para a Argélia. E veio o medo novamente, porque achávamos que como ele havia sido banido e desterrado, não fôssemos vê-lo nunca mais.</p>
<p class="p3">Além disso, naquela época, financeiramente, ao menos para nós, uma viagem, era algo inalcançável, não éramos de família rica ou de família de classe média, que tinha condições de pagar uma passagem internacional para visitar o pai no exterior.</p>
<p class="p3">Quando meu pai foi banido, a sensação foi de mistura de um sentimento de felicidade, porque ele não ia mais ser torturado, não ia ser mais magoado, não ia ser mais ferido, com uma sensação de perda, porque eu achei que não o veria nunca mais. Ou, talvez, que fosse vê-lo apenas quando fosse uma adulta e<br />
fosse visitá-lo, porque ele não poderia voltar nunca mais.</p>
<p class="p3">Para mim, o exílio do meu pai foi uma perda porque não havia possibilidade de vê-lo nunca mais. Como efetivamente não houve. Só tornei a vê-lo já no caixão para enterrar.</p>
<p class="p3">Então, para mim, o exílio do meu pai foi realmente a despedida.<span class="Apple-converted-space">  </span>Porque a segunda despedida foi a mais cruel, já no caixão, pois ele foi assassinado depois que retornou ao Brasil em 1971. O momento do enterro do meu pai foi muito complicado, porque deu-se a notícia nos meios de comunicação, com manchetes, como: “Terrorista banido volta ao Brasil e morre”.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Meu pai não era terrorista, para mim ele nunca foi terrorista. O choque foi enorme, porque para nós ele ainda estava no exterior. Nós não sabíamos que ele tinha voltado. Ele foi banido em 1970, e demorou coisa de um ano para voltar.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Nós recebíamos cartas, não com frequência. Eu tenho cópia de várias cartas que ele mandava para a minha mãe. Em todas, falava o tempo todo que morria de saudades de nós. Ele era uma pessoa muito ligada à família. E os companheiros que encontramos aqui e em Cuba falam que ele falava muito em nós, constantemente.</span></p>
<p class="p1">Tenho certeza que essa volta rápida para o Brasil ocorreu porque ele não conseguia viver longe de nós. Ele tinha uma dificuldade enorme com isso. Quando ele foi assassinado, no Rio de Janeiro, nós ficamos literalmente perdidos, perdemos o chão. A pessoa está no exterior e de repente você recebe a notícia que o ser que você ama tanto está morto e está no teu país e você sequer chegou a vê-lo novamente.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Meu avô, que na época não era perseguido, nos deu muita força. Ele falou para a minha mãe: “Nós vamos enterrar o meu filho”. Aí fomos para o Rio de Janeiro. Acho que por muitos anos fiz questão de não lembrar desta viagem.</span></p>
<p class="p1"><span class="s1">Quando chegamos ao Rio, era Carnaval. Ficamos num hotel pequeno e barato, numa rua movimentada cujo nome também não lembro. Meu avô foi ao IML para fazer o reconhecimento. Tudo aconteceu de forma muito rápida, não havia tempo para fazer o luto. Acho que nenhum de nós teve tempo de viver o luto na época.</span></p>
<p class="p1">Meu avô reconheceu o corpo, e na hora do enterro, abriram o caixão, a minha mãe beijoulhe a mão, eu olhei, fecharam o caixão, levaram, enterraram e nós voltamos para São Paulo. Foi uma coisa super rápida, sem tempo de assimilar, sem tempo de trabalhar na cabeça sem tempo de pensar.</p>
<p class="p4">Depois, em São Paulo, não demorou muito para nós recebermos a informação de que estavam procurando a minha mãe, pelo menos foi o que ouvimos na época. Nós não tínhamos estrutura psicológica, não tínhamos condições de continuar morando na cidade. Aí veio o processo de organização para nos levar ao Chile. Este processo também foi terrível. Não tivemos tempo de luto, de nada. Nem tempo de despedir da nossa família.</p>
<p class="p4">Nós sempre tivemos uma dificuldade enorme de relacionamento com a minha própria família biológica, como tias, tios, primas, primos porque não tivemos contato com eles.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Nossa viagem para o Chile foi de horror, parte de Kombi e outra de ônibus. E os companheiros que nos levaram eram clandestinos também. Para chegar ao Chile, passamos pela Argentina. Eu lembro do vento gelado das Cordilheiras dos Andes, até chegar em Santiago, isso tudo uma coisa atrás da outra. </span></p>
<p class="p1">Quando chegamos ao Chile, eu tinha 10 anos. Quando pensamos que teríamos um pouco de tranquilidade, veio a preparação do golpe militar. Chegamos lá um ano e pouco antes do golpe e ficamos por um ano. Também não tenho boas lembranças de quando comecei a estudar, e nem do país, por diversas razões, como essa vida de insegurança, ainda não tínhamos nem tempo de viver o luto e tivemos que chegar lá e continuar tocando a vida. Esta situação constante de estar de um lado para o outro mais as inseguranças e os medos, refletiram para o resto de minha vida.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Somos gratos ao Chile da época do presidente [Salvador] Allende, que foi o único país que naquele momento acolheu muitas pessoas, não só brasileiros. Mas a nossa experiência anterior aqui no Brasil tinha sido muito amarga. </span></p>
<p class="p1">Eu, na condição de criança, não estava preparada para nada naquele momento. Você não tem infância e o fato de não ter infância, é perder referências, não ter raízes verdadeiras. Quando criança, a gente precisa de uma referência de pessoas com quem se conversa, que vão guiar o teu caminho de certa forma.</p>
<p class="p1">E, como mudávamos muito, a gente não tinha isso. Porque lugares são referências. Eu fui entender muito tempo depois porque passei por isso, o quanto é importante para uma criança seguir o curso, ficar bastante tempo na mesma escola, com os mesmos amigos, com as mesmas relações. A cada mudança rápida na vida são referências que você vai perdendo e não recupera mais.</p>
<p class="p3">Depois, a situação no Chile, a sobrevivência, foi ficando muito crítica, porque começaram a faltar coisas no supermercado, porque a direita boicotava. Nessa época, os grandes empresários estavam junto com a direita, com o [Augusto] Pinochet. E quando se percebeu que no Chile estava havendo uma articulação de golpe, fomos para Cuba.</p>
<p class="p1">Um dia à noite chegaram em casa e disseram: “Vocês vão para Cuba”. Com 11 anos, o que significava ir para Cuba? Eu só sei que tudo aconteceu muito rápido. Mais uma vez saí da escola. Nós morávamos em uma casa junto com outra família de exilados, com a tia Ilda Gomes da Silva e moramos também com a tia Dina (Pedrina Carvalho) Aí, um dia nós pegamos a Cubana de Aviación em Santiago e no outro dia estávamos em Havana.</p>
<p class="p1">A chegada em Cuba foi na condição de criança que não sabe o que lhe espera, depois de tanta coisa que aconteceu. Mas foi a melhor coisa que aconteceu conosco. Lá nós fomos muito bem atendidos, recebidos, acolhidos.</p>
<p class="p1">Aí eu já estava com 11 para 12 anos. Acho que minha irmã tinha 5, 6 anos. Em Cuba, tinha os companheiros milicianos que usavam calça verde, camisa azul. Eu tinha medo de polícia aqui no Brasil, no Chile eu tinha medo de polícia e claro, quando eu cheguei em Cuba, eu tinha medo de polícia.</p>
<p class="p5"><span class="s1">Os companheiros brasileiros falavam, “Olha, desta polícia aqui você não precisa ter medo. A polícia aqui é amiga, eles não fazem nada, ao contrário. Mas eu lembro que a gente, eu acho que não fui só eu, mas na época a gente queria manter distância de polícia”. Com o tempo, nós fomos entendendo que em Cuba a polícia realmente representava a proteção e não agressão, não assassinato como acontecia no Brasil. Foi lá que realmente eu comecei a ter infância porque aqui não tinha, nós não tivemos infância.</span></p>
<p class="p4">Lá, eu comecei a estudar, a ter círculos de amigos pela primeira vez na vida. Amigos da minha idade, amigos que podia marcar para se encontrar embaixo do prédio onde morava, fazer grupinho de teatro juntos. Os sobrinhos do Guevara inclusive moravam no mesmo prédio que a gente e faziam parte do mesmo grupinho de teatro. E onde morávamos tinha muitos exilados da América Latina, os bolivianos, argentinos, tinha chilenos e mais os cubanos.</p>
<p class="p4">Começamos a ter uma vida normal, a aprender como é ter uma vida normal, a gente tinha liberdade de ser criança. Os nossos anos em Cuba foram maravilhosos. Lá tínhamos vários tios e primas, que a gente foi construindo com o tempo, porque eram pessoas que viviam as mesmas experiências, as mesmas dores, viviam nos mesmos lugares e com quem a gente tinha uma identificação muito grande, como a tia Ilda, a tia Dina a tia Cida, tem a tia Clara, mulher do Marighella, tia Damaris, enfim construímos laços.</p>
<p class="p4"><span class="s1">Nós nunca tivemos antes oportunidade de conversar sobre isso ou colocar para fora esta ferida que a gente carregou e estamos carregando há tantos anos. Porque foram momentos de terror e perda na vida da gente que nós carregamos a vida toda.</span></p>
<p class="p4">Nós não falamos sobre isso porque é um processo, quando se é uma criança, primeiro você quer esquecer. Quando você já passou por tanto terror, medo, perda, quando você chega num lugar onde encontra paz, você quer esquecer<br />
o que aconteceu, prefere não falar, prefere não tocar no assunto e quer desfrutar ao máximo esta paz e segurança que te é oferecida.</p>
<p class="p4">E foi o que todos nós encontramos em Cuba. Aí eu retorno para o Brasil, veio a Anis<span class="s1">tia, aí já não éramos mais crianças, já éramos todos jovens. Todo mundo tinha 18, 19, 20 anos, maiores. Aí vem a proposta do retorno ao Brasil.</span></p>
<p class="p6">A partir de 1979, 1980 começamos a voltar. Se tivessem me dado a possibilidade de escolha, eu não teria voltado, porque as lembranças de quando nós saímos daqui não eram boas. Acho que foram as piores experiências da vida de cada um de nós, e a volta sem perspectiva nenhuma, em mim, provocou medo.</p>
<p class="p6">Você volta sem família porque perdeu a sua família biológica, criou novas famílias no exterior, que são os companheiros exilados. E as crianças dos exilados que estão lá que são os teus primos, os adultos passam a ser seus tios, passam a ser suas tias. Você é livre, estuda, aprende, enfim, passa a ser gente, respeitado e de repente volta para o lugar que é teu país, mas é o lugar que te causou as maiores dores de sua vida. E esse processo de retorno é muito difícil, para mim foi extremamente difícil.</p>
<p class="p6">Depois do nosso retorno ao Brasil, essa moçada que foi criança para Cuba e voltaram jovens, parece que nos dispersamos de novo. Sempre digo que foi a segunda vez que perdemos a família. Porque a família que nós tínhamos feito lá se dispersa novamente no retorno. Aí é outra ruptura na sua vida.</p>
<p class="p6">Depois de alguns anos a gente começou a se procurar, porque cada um viveu as suas experiências, se refez de certa forma, trabalhou, fez família. Cada um criou as suas famílias, casou, separou. Mas todo mundo conseguiu, achou o seu caminho, mesmo com dificuldades. Estamos querendo criar uma espécie de grupo dos Pátrias, da turma que esteve em Cuba. Porque Cuba, sem dúvida, é o nosso país também.</p>
<p class="p6"><span class="s1">Em Cuba, a última escola que eu estudei foi a <i>Héroes de Varsovia</i>. E, antes eu estudei lá na Orestes Gutierrez que era do primário a secundário. A <i>Héroes de Varsovia</i> era uma escola onde eu ficava a semana toda. Só aos finais de semana eu ia para casa. E lá nós tínhamos trabalho voluntário, estudávamos, tinha atividades culturais, uma escola mesmo. Não era só tempo integral, mas era interna</span>.</p>
<p class="p3">E aos finais de semana quando a gente ia para casa de vez em quando tinha atividade, porque os companheiros brasileiros exilados organizavam atividades. Eu não achava nem muito agradável ir a essas atividades, ia mais por uma questão de compromisso político em relação aos companheiros, mas não porque eu gostava. Acho que trazia à tona muitos traumas e lembranças amargas.</p>
<p class="p6">Aí depois a gente passa para uma etapa que quer lembrar porque depois de adulto começo a tentar entender o que tinha acontecido realmente comigo. Com alguns medos e inseguranças que eu tenho até hoje, eu queria saber de onde eles tinham vindo. Aí você começa a perceber que são daquela época. Mas isso nunca foi ouvido por ninguém também.</p>
<p class="p6">Primeiro, foi a sensação de insegurança. No início, eu não conseguia me adaptar de todo aqui no Brasil. Eu tive um problema sério de adaptação. Mesmo depois que eu voltei de Cuba, eu morei muitos anos fora do Brasil. Fui para a Nicarágua, como Brigadista de Solidariedade à Nicarágua. Voltei para o Brasil e recebi uma proposta de voltar para lá e trabalhar com o Centro de Educación y Promoción Agrária. Aí trabalhei lá por dois anos que foi quando eu conheci o meu ex-marido. Depois fui para a Alemanha, trabalhei, estudei, morei lá, enfim, vários anos. Voltei definitivamente para o<br />
Brasil em 2006. Foi aí quando eu finalmente percebi que não tinha uma boa relação com o Brasil. Aí eu consegui entender isso, percebi porque comecei sentir uma necessidade de voltar para o Brasil.</p>
<p class="p6">Essa necessidade que eu senti de voltar para o Brasil não é porque eu consegui resolver todos os traumas do passado, porque eu acho que jamais ninguém de nós vai conseguir resolver completamente tudo o que aquela situação nos provocou, mas pelo menos você entende “Eu sou assim por conta de tal situação&#8230; a minha vida ficou muito mal resolvida de tal a tal época, por isso&#8230; eu nunca consegui resolver a minha vida naquela época por tal situação”. Ou seja, todas as experiências ruins que preferimos esquecer por anos e anos refletem-se na vida adulta, de alguma forma.</p>
<p class="p6">Eu acho que esse trabalho que está se fazendo hoje de nos ouvir, para mim especialmente, está sendo fundamental. Porque a gente consegue falar pela primeira vez com o coração, sobre isso&#8230; sobre aquela época.</p>
<p class="p5"><span class="s1">O meu avô foi um homem muito especial. Ele era um operário e apesar de não entender direito o que acontecia, ele dava apoio incondicional ao meu pai, ficamos muito tempo sem contato com ele. No que precisamos dele, ele esteve presente. Cheguei a vê-lo vivo depois que voltamos de Cuba. Ele ainda estava vivo e nós tivemos a felicidade de conviver um pouco com ele.</span></p>
<p class="p5">E como eu disse, foi uma pessoa muito importante na minha vida, que sempre nos apoiou muito. Inclusive, foram ele e uma prima minha que nos deram o maior apoio depois que nós voltamos de Cuba, porque nós não tínhamos para onde ir, não tínhamos casa. Você volta sem casa, sem família, sem raízes, é um horror. Até hoje eu sinto a sensação e sem dúvida nenhuma Cuba para mim representa o meu porto seguro. E eu me propus ir a Cuba todos os anos, se der.</p>
<p class="p5">Eu estive lá em novembro do ano passado e a primeira coisa que fiz foi ir em frente ao prédio que eu morava. Quando eu chego lá é assim: grito o nome de um ou de outro e o pessoal já sai dos apartamentos, vem, abraça, a gente morre de rir e relembra os velhos tempos. O mais impressionante para mim é que mesmo com os anos fora de Cuba, cada vez que a gente chega lá é como se tivesse continuado lá. Essa sensação é muito boa.</p>
<p class="p5">Se hoje eu pudesse fazer a escolha, eu moraria em Cuba, sem dúvida.<span class="Apple-converted-space">  </span>Tenho grandes amigas lá, amigos, e pessoas que são muito importantes para mim.</p>
<p class="p5"><span class="s1">Eu tenho uma filha, a Janaína, que está morando na Alemanha. Ela nasceu aqui mas cresceu lá e ficou difícil para ela voltar quando eu decidi retornar. Agora moro em Brasília e minha mãe em Campinas, no interior de São Paulo.</span></p>
<p class="p5">Acho que sem dúvida nenhuma, um dos pontos fundamentais que levaram à volta do meu pai ao Brasil foram as saudades que ele sentia. Há pouco tempo eu li um livro <i>Seu Amigo Esteve Aqui</i> –<i> A História do Desaparecido Político Carlos Alberto Soares de Freitas</i>, de Cristina Chacel, em que um dos companheiros que esteve com ele na época fala sobre isso. Ele conheceu bastante o meu pai e disse que duas coisas que fizeram meu pai retornar ao país foram: um era a saudade insuportável da família e a outra coisa era a necessidade de continuar a luta.<span class="Apple-converted-space">  </span>Eu jamais vou culpar o meu pai por causa disso. Ele fez o que achou certo e eu o respeito e admiro, mas logicamente se ele tivesse ficado no exterior e tivesse trabalhado um pouco mais este sentimento, talvez estivéssemos juntos hoje.</p>
<p class="p5">Eu não acho que o Brasil seja um país que proporciona segurança para ninguém. Eu nunca tive a sensação de acolhimento aqui. É uma coisa que eu tento entender até hoje, não conversei isso com o resto dos amigos, dos companheiros da minha geração que voltamos do exílio, mas tenho certeza de que cada um de nós tem esta sensação. Apesar de ter voltado, todos nós tivemos uma dificuldade muito grande de readaptação.</p>
<p class="p5">Primeira dificuldade que nós tivemos é que você sabe da história da colonização da América Latina pelos espanhóis, aprende história não com Pedro Álvares Cabral, mas com Cristóvão Colombo. Aprende literatura, mas estuda Rodolfo Becker, Cervantes (literatura espanhola). Nós saímos daqui daquela maneira como crianças, fomos exilados, de forma involuntária e quando você volta ao seu país, o seu próprio Estado, o Ministério da Educação olha para você diz: “Não, o que você estudou não serve, nós não vamos reconhecer”. Você se sente novamente rejeitado, se sente novamente não filho deste país. Se você se forma em Cuba, reconhecer o diploma aqui é uma dificuldade.</p>
<p class="p5">Uma coisa para mim foi crucial: a emoção que eu sinto cada vez que eu volto para o Brasil. Comecei a entender de forma mais profunda porque Cuba para mim é muito mais pátria que o Brasil. O meu sentimento com relação a Cuba cada vez que eu desembarco lá e o meu sentimento cada vez que eu desembarco no Brasil são diferentes, emoções diferentes. Porque lá eu fui acolhida, eu fui respeitada, aqui eu nunca fui realmente acolhida.</p>
<p class="p1"><span class="s1">Quero expressar a minha gratidão aos companheiros que ficaram no Brasil e continuaram a luta de resistência contra a ditadura, presos ou soltos e clandestinos, foram parte<span class="Apple-converted-space">  </span>fundamental para a redemocratização do nosso país.</span></p>
<div style="background-color: #8c182a; padding: 30px; color: #fff;">Suely Coqueiro nasceu em Prado (BA), em 29 de novembro de 1960. Atualmente mora e trabalha em Brasília (DF).</div>
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