<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Infância Roubada &#187; Arantes</title>
	<atom:link href="https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?feed=rss2&#038;tag=arantes" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada</link>
	<description>Só mais um site WordPress</description>
	<lastBuildDate>Tue, 31 Mar 2015 23:04:39 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=4.1.7</generator>
	<item>
		<title>Uma conversa escrita</title>
		<link>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=26</link>
		<comments>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=26#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 21:58:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[lucaspretti]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[Arantes]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=26</guid>
		<description><![CDATA[por Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes No início dos anos 1960 participei da fundação da organização política Ação Popular, de matriz católica, que ampliou suas posições no campo marxista-leninista e passou a ser denominada APML (Ação Popular Marxista-Leninista). Mais à frente, a Organização abraçou concepções maoístas que influenciaram política e ideologicamente seus militantes e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>por Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes</p>
<p>No início dos anos 1960 participei da fundação da organização política Ação Popular, de matriz católica, que ampliou suas posições no campo marxista-leninista e passou a ser denominada APML (Ação Popular Marxista-Leninista). Mais à frente, a Organização abraçou concepções maoístas que influenciaram política e ideologicamente seus militantes e suas práticas. Casei-me com Aldo Arantes, também fundador de AP, em dezembro de 1963 e recebemos convite para integrar o governo de João Goulart em Brasília. </p>
<p>Chegamos a Brasília em janeiro de 1964. No dia 1º de abril de 1964 ocorreu o golpe militar. Eu estava dentro da nossa casa em Brasília e, de repente, a casa começou a tremer, o chão do quintal tremia, vi ratos correndo na rua, para lá e para cá. Um barulho diferente e trepidante provocado por um desfile de tanques de guerra que seguia para a Esplanada dos Ministérios. A partir de então começaram a ser editados os primeiros Atos Institucionais. Aldo poderia ser cassado e preso. Saímos de Brasília imediatamente, deixei tudo na casa. Saímos de Brasília para uma longa noite que foi terminar somente quinze anos depois.  De 1964 até 1979, vivi entre o exílio, a prisão e a militância clandestina severa. Passei a usar nomes frios com identidades falsas. Nesse momento não tínhamos filhos e nossa primeira decisão foi ir para o exílio. Os exilados de primeira hora que tinham intenção de voltar imediatamente ao Brasil seguiram para o Uruguai, que era mais perto. Fiquei grávida do meu primeiro filho, o Andre, que nasceu em Montevidéu. Foi um dos primeiros filhos de exilados políticos brasileiros, nasceu em 13 de junho de 1965. Decidimos voltar logo para continuar no país, a luta de resistência. Já no Brasil, na cidade de São Paulo, em 1º de maio de 1966, nasceu nossa filha Priscila.</p>
<p>A situação política foi recrudescendo rapidamente e houve uma decisão da APML: os militantes e os dirigentes deveriam partir, como militantes clandestinos, para a integração na produção. Aldo e eu seguimos para a integração na produção no campo. Tomamos um ônibus na rodoviária em São Paulo e partimos para o interior do estado de Alagoas. O Andre tinha 3 anos, a Priscila tinha 2. Fomos para Água Branca. E de lá, para um subdistrito de Água Branca, Pariconha. Era uma região de camponeses pobres e meeiros que plantavam feijão. </p>
<p>Fomos morar com Gilberto, Rosa e a filha Rita, de 7 anos, que nos antecederam na integração nessa região. Tínhamos diferentes funções. Eu fui designada para ser professora de alfabetização de adultos na região. Era o ano de 1967. Atravessamos o ano e entramos em 1968.  Tínhamos o hábito de ouvir, todas as noites a Hora do Brasil. Anoitece cedo no campo, às 21 horas, já era noite alta no dia 13 de dezembro de 1968. Ouvimos passos no jardim e no quintal. Na varanda, vozes de homens. Rosa e eu nos levantamos. As três crianças dormiam. A porta da frente foi sacudida com violência. Abram a porta. Aqui é o Coronel. Tínhamos acabado de ouvir no rádio, o decreto do A1-5 e mal havíamos assimilado suas implicações, ao anotar apressadamente seus artigos. Não houve tempo. Conhecemos na prática seu significado. Não abriremos a porta, respondemos. Estamos sós com as crianças. Com os gritos e as violentas pancadas, na porta da frente, dos fundos e nas janelas, as crianças acordaram. A gritaria aumentou, e com nossos filhos nos braços, vimos a porta ser violentamente sacudida e finalmente arrombada, a pontapés e golpes de fuzis. Entraram vários homens, não sabíamos a princípio quantos. As lamparinas de querosene estavam apagadas. Percebemos que eram muitos. Nossa casa foi revirada. Colchões, armários prateleiras, tudo vasculhado. Perceberam que havia apenas roupas, mantimentos e brinquedos. Onde estão as armas? perguntavam aos berros. Disseram que iam nos levar para Água Branca e depois Maceió. Temos ordens. Agora tudo é permitido. Foi feito um decreto e tudo o que achamos suspeitos, vamos investigar. Gente suspeita, vamos prender. Vocês são professoras, seus maridos, gente de São Paulo. Vamos levar todo mundo. Resolveram que tínhamos que ir presas. Argumentamos sobre as crianças, que queriam que deixássemos para trás. Afinal, depois de muita conversa, decidiram que eu iria só com eles. Rosa ficaria com as três crianças. </p>
<p>Partimos para uma viagem que me parecia interminável. O tempo todo ouvi gracejos e perguntas. Não disse uma palavra. Chegamos a Maceió. Era dia 14 de dezembro de 1968. Fiquei dormindo no quarto dos investigadores. Estava exausta. Entravam e saiam o tempo todo, falavam alto, faziam comentários. Perguntavam por Aldo, quando voltaria de São Paulo. Fiquei quatro ou cinco dias em Maceió. Fui levada de volta para Pariconha. Um ou dois dias depois, Aldo chegou tarde da noite. Soube na estrada o que acontecera. </p>
<p>Nesta mesma noite, 22 de dezembro, fomos todos presos: Aldo, eu, Andre e Priscila, Gilberto, Rosa e Rita. Prenderam também toda a liderança camponesa militante. Passamos o Natal entre as cadeias de Água Branca e de Maceió. Começou uma noite longa, para nós, especialmente para os pequeninos presos. Ficamos todos, nos primeiros dias no DOPS de Maceió, as crianças e eu na mesma cama e no mesmo quarto dos investigadores. </p>
<p>Depois do Ano Novo, Andre, Priscila e eu, fomos deslocados para uma delegacia de bairro. Apesar de a cela ter uma das paredes totalmente de grade, ficávamos sufocados, trancados o dia todo, sem que qualquer brisa ou vento amenizasse o calor. Tivemos problemas gravíssimos de saúde. Todos os três desidratados tivemos estomatite e Priscila teve uma crise aguda de difteria. </p>
<p>Quase não conseguimos nos alimentar. Priscila ficou magrinha, só aceitava leite em pó, às colheradas. Os dois tiveram furunculose. Andre chegou a ter vinte furúnculos enormes e Priscila, outros tantos. Não tínhamos qualquer espécie de atendimento médico ou de saúde. Ficamos, literalmente depositados, sequestrados até o final de janeiro. </p>
<p>Depois fomos levados para a Escola de Aprendizes de Marinheiros nos arredores da cidade. Um lugar cheio de coqueiros à beira-mar. Alojaram-nos na ala dos oficiais. Na primeira noite almoçamos na sala dos oficiais, a contragosto. Em um desses dias, ao final da refeição, o oficial do dia aproximou-se de mim e disse: “Estive conversando com minha esposa e como não temos filhos, resolvi pedir que a senhora me dê seu filho. Podemos criá-lo muito bem. Olhe bem para a senhora. Que futuro a senhora tem? Seu marido está preso, a senhora está presa, ninguém da sua família apareceu, não vai ter condição nenhuma de educar esta criança”. Emudeci, não consegui responder, não gritei, não chorei, fiquei petrificada. Fui andando para trás, segurando o Andre, até sair da sala. Não voltamos a ver esse oficial, nunca mais entramos nessa sala. Pedimos para almoçar na cozinha com os marinheiros. O resto do dia ficávamos no quarto. Depois conseguimos circular pela escola quando já havia terminado o expediente. Estávamos profundamente debilitados. Nessa época, estávamos novamente com a Rosa e a Rita, duas mulheres e três crianças. Durou pouco a estadia aí. A Marinha não queria se envolver mais. </p>
<p>Resolveram então nos levar para o hospital da Polícia Militar, no centro de Maceió. Era um hospital antiquíssimo, cheio de torres, perto da cadeia pública conhecida como Presídio da Morte onde Aldo ficou preso com os demais companheiros. Fomos confinados num quarto, sobre o qual havia uma porção de histórias, era o quarto onde ficavam os desenganados. Um quarto grande, muito abafado, ao lado de um outro quarto menor, sem iluminação, sem janela, cuja porta dava para o quarto do capitão Fontes, que saía cedinho, voltava à noite. </p>
<p>Os dias pareciam intermináveis. Não sabíamos o que fazer com as crianças. Só podíamos sair do quarto por quinze minutos para as refeições. Conseguimos licença para um banho de sol, depois das 16 horas. Nesta hora, o pátio de descarte do hospital não recebia mais o sol, apenas um facho fugidio que caía sobre os degraus da escada, onde as crianças ficavam sentadinhas, vendo ratos enormes brincarem de entrar e sair pelos restos de pernas e braços de gesso, entre curativos usados, caixas vazias, bandagens, cacos de vidro, tudo jogado no meio de um mato que crescia. A gente dizia para as crianças que os ratos eram os primos do Jerry dos desenhos animados. Mesmo assim, com as energias recuperadas, não conseguimos cansá-los. </p>
<p>Dentro do quarto-cela, inventamos uma programação rígida de ginástica, brincar de roda, joguinhos. Depois vinham as atividades de contar as tampas de borracha coloridas dos vidros de antibióticos, empilhar caixas de remédio vazias, formar uma carreira com as serrinhas de seringas. Depois do almoço as crianças dormiam, e o que sobrava de tempo passavam dentro de uma banheirinha de plástico debaixo do chuveiro. Às quintas-feiras visitávamos o Aldo na cadeia. Depois de algum tempo apareceu uma advogada contratada pelos nossos companheiros. </p>
<p>Quando finalmente conseguimos ir à primeira audiência da Auditoria Militar de Recife, Andre e Priscila fizeram tanta bagunça na Audiência que o juiz, irritado, mandou que se retirassem da sala os três menores. Dra. Lygia lhes comunicou: “Excelência, estas crianças são presas. Foram presas em dezembro juntamente com suas mães”. Fomos dispensadas, os homens continuaram presos. Saímos da Auditoria, voltamos para Maceió e de lá para São Paulo. Aldo ficou preso ainda na delegacia de Maceió de onde fugiu juntamente com o Gilberto, em uma operação montada por APML. </p>
<p>Exatamente dez anos depois, em dezembro de 1976, Aldo foi preso na Lapa, em São Paulo, no episódio conhecido como Chacina da Lapa. Andre e Priscila, com 12 e 13 anos, passaram a frequentar novamente os presídios, agora como visitantes de seu pai, durante dois anos e seis meses até a Anistia de 1979. Eu me integrei de corpo e alma à construção da campanha pela Anistia ampla, geral e irrestrita.</p>
<p>Sobre minha prisão com meus dois filhos tenho hoje a clareza de que fomos sequestrados, não há qualquer notícia da prisão das crianças, não consta de nenhum documento. Consta meu julgamento e a absolvição. Sobre eles, nada.  Poderiam ter sido sumariamente sequestrados sem papéis que comprovassem sua presença no cativeiro. Depois que saímos da prisão e do Nordeste, voltamos para São Paulo, continuamos a militância clandestina, fomos morar nos bairros mais periféricos, no Morro Grande, Itaquera, Vila Formosa, e permanecemos clandestinos mais oito anos. As crianças foram para um parquinho da prefeitura e depois foram alfabetizadas em escola do estado e da prefeitura. Fizeram toda a escola com nomes frios: Andre e Priscila Guimarães Silva. Esse tempo teve fortíssimo impacto sobre eles, pois já estavam maiores e percebiam que havia muito segredo e muito não dito sobre as coisas e as situações que vivíamos. Somente saímos da clandestinidade quando o Aldo foi novamente preso no episódio conhecido como Chacina da Lapa que massacrou dirigentes do PCdoB então reunidos. </p>
<p>Sobre a vida clandestina, posso afirmar que foi uma experiência que até hoje reverbera na alma. Hoje percebo com mais clareza o quanto marcou o Andre e a Priscila e a mim mesma. Tanto é que, quando retornei à universidade, após a anistia de 1979, fiz minha dissertação sobre a experiência da clandestinidade política, através de uma abordagem psicanalítica. A incidência que teve sobre a vida dos meus filhos, somente agora, passados quase quarenta anos é que posso perceber melhor, a partir do que eles mesmos contam em seus testemunhos. Sempre nos surpreendemos negativamente com as reverberações que a ditadura civil-militar impôs a todos nós e que ainda continuam pulsantes. </p>
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Aldo Silva Arantes</h4>
<p>Nasceu no dia 20 de dezembro de 1938, em Anápolis (GO). Iniciou suas atividades políticas no movimento estudantil secundarista.</p>
<p>Estudante de direito da Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em julho de 1961. </p>
<p>Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes. Após o golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente Goulart, exilou-se em Montevidéu. </p>
<p>De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandestinidade. Em 1968, quando realizava trabalho político junto aos camponeses no sertão de Alagoas, foi preso. Após cinco meses e meio fugiu da prisão. </p>
<p>Em 1972, juntamente com a maior parte dos militantes da AP, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cujo comitê central passou a integrar. </p>
<p>Em dezembro de 1976 foi novamente preso quando participava de uma Reunião do Comitê Central do PCdoB, no bairro da Lapa, em São Paulo, episódio conhecido como Chacina da Lapa. </p>
<p>Em julho de 1977, foi condenado a cinco anos de prisão. Permaneceu preso até agosto de 1979, quando foi beneficiado pela anistia aprovada pelo Congresso.</p>
<p>Em 1979, filiou-se ao partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Exerceu o mandato de deputado federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988. </p>
<p>Autor dos livros : História de Ação Popular – da JUC ao PCdoB, co-autor, com Haroldo Lima (1984) ; O FMI e a Nova Dependência (2002); Meio Ambiente e Desenvolvimento &#8211; em busca de um compromisso (2010); Alma em Fogo – memórias de um militante político (2013).</p>
<p>[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]</p>
<h4>Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, a Dodora</h4>
<p>Nasceu em 5 de novembro de 1940, em Belo Horizonte (MG). Foi uma das fundadoras da organização Ação Popular (AP), na década de 1960. Em 1968 foi presa em Alagoas junto  com seus filhos Priscila e Andre. Após sair da prisão seguiu com a militância clandestina de combate à ditadura militar. </p>
<p>Foi uma ativa e importante militante da luta pela anistia no Brasil. Participou da fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo (CBA/SP) e foi dirigente dos Movimentos Nacionais pela Anistia (1978-1982). </p>
<p>Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Foi coordenadora Geral de Combate à Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (2009-2010). Foi membro das Comissões de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e do Conselho Federal de Psicologia ( 2004-2008 e 2011-2013). </p>
<p>Autora dos livros: Pacto Re-Velado: Psicanálise e Clandestinidade Política (1994) e Tortura (2013).
</p></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?feed=rss2&#038;p=26</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Identidade, nome e o paradoxo  da liberdade: carta aos meus pais</title>
		<link>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=20</link>
		<comments>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=20#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 21:51:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[lucaspretti]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[Arantes]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=20</guid>
		<description><![CDATA[por Priscila Almeida Cunha Arantes Antes de iniciar meu depoimento, gostaria de recorrer a um mito antigo que versa sobre a história de um sobrevivente. Refiro-me ao poeta Simônides, considerado o inventor da arte da memória na Grécia antiga. Diz o mito que o poeta teria estabelecido as bases da mnemotécnica – a arte da [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>por Priscila Almeida Cunha Arantes </p>
<p>Antes de iniciar meu depoimento, gostaria de recorrer a um mito antigo que versa sobre a história de um sobrevivente. Refiro-me ao poeta Simônides, considerado o inventor da arte da memória na Grécia antiga. Diz o mito que o poeta teria estabelecido as bases da mnemotécnica – a arte da memória – em função de um acidente vivido por ele próprio. Simônides foi o único sobrevivente do desabamento do teto do salão de um banquete onde se comemorava a vitória do pugilista grego Skopas. </p>
<p>O que importa nessa história é o que aconteceu após tal tragédia. Os parentes das vítimas, que queriam enterrar seus familiares, não conseguiam reconhecer os mortos que se encontravam totalmente desfigurados pelas ruínas. Recorreram, então, a Simônides, o único sobrevivente, que graças à sua memória conseguiu se recordar dos participantes do banquete, na medida em que se lembrou do local ocupado por cada um deles durante a comemoração.</p>
<p>Se a história de Simônides está muito distante do nosso tempo, por outro lado, ilustra bem o embate contra o esquecimento da história. </p>
<p>Aquele que testemunha, de certa forma sobreviveu a uma situação limite, traumática, no meu caso e de meus familiares: à época da ditadura militar no Brasil. Como filha de pais que foram presos, torturados, foragidos e clandestinos  – e eu mesma presa com minha mãe e meu irmão quando tinha 3 anos de idade, no sertão de Alagoas, apesar de não ter lembrança desse episódio – deixo aqui meu depoimento na esperança que possa contribuir não somente para a construção de uma memória coletiva mas que, de alguma forma, ele possa servir de dispositivo para que essa história não se repita nunca mais no nosso país.</p>
<p>Recentemente meu pai me pediu um depoimento sobre as memórias da minha infância. Gostaria então de compartilhar aqui alguns trechos desta carta que recebeu o título de Identidade, Nome e o Paradoxo da Liberdade: Carta aos meus Pais.</p>
<p>Talvez um dos dispositivos mais antigos da humanidade seja o de dar nome às coisas. Dar nome às coisas significa dar a elas vida, história, identidade. É assim que uma criança recebe um nome ao nascer, carregando-o para o resto da vida. Escolher, dar um nome a uma criança é fazer uma espécie de doação de uma história simbólica familiar. Doação que a insere na continuidade de uma filiação, a inscreve nas linhagens maternas e paternas: uma espécie de fio de Ariadne que lhe indica um caminho, sem traçá-lo de antemão.</p>
<p>Priscila Almeida Cunha Arantes. Foi este o nome que os meus pais me deram em 1º de maio de 1966 quando nasci, mas não foi este o nome que utilizei até meus 11 anos de idade, quando, então, meu pai foi preso e minha mãe ficou foragida, na época da ditadura militar em nosso país. </p>
<p>Até os meus 11 anos, sempre fui Priscila Guimarães Silva; uma criança feliz que vivia como muitas outras de minha idade na periferia de São Paulo com a família. </p>
<p>Existia, por vezes, uma sensação velada que talvez, pela minha idade na época, não conseguia entender. As janelas da casa na avenida Itaquera eram forradas de papel e sempre me davam a impressão que estávamos escondendo algo que eu não tinha muito claro o que era. Muitas vezes quando ouvia meu pai escutar a Internacional em seu rádio pequeno, em seu quarto, bem baixinho, ficava sempre uma pergunta no ar: por que ele tem de escutar o som tão baixo? Mas os natais eram sempre muito gordos ao meu olhar. Recebia sempre várias roupas que, apesar de serem usadas, vinham sempre envoltas em um lindo papel celofane vermelho, que somente a minha mãe sabia fazer. A casa da avenida Itaquera tinha um quintal grande que, apesar de receber, às vezes, a visita de alguns amigos indesejáveis, enormes ratos – só recentemente vim a saber que vivíamos nos fundos de um açougue –, brincava com minhas bonecas e com meu exército de formigas, minhas companheiras inseparáveis.</p>
<p>Certo dia, fomos tirados às pressas da avenida Itaquera e levados por meu tio Bruno, irmão da minha mãe, de carro, até  Belo Horizonte para a casa de minha avó materna. Não entendia ao certo porque estávamos indo para Belo Horizonte e muito menos o que de fato acontecera. Mas sabia que era algo muito grave, e alguma coisa acontecera ao meu pai. Ele e minha mãe tinham combinado de que se o meu pai não voltasse de uma viagem em uma determinada época  é porque alguma coisa tinha ocorrido. E de fato ocorreu. Meu pai fora capturado em plena estação Paraíso, do Metrô – nome engraçado! – pelos militares, em dezembro de 1976.</p>
<p>Não me lembro desse dia com detalhes. Mas me recordo do desespero de minha mãe, levando-nos às pressas, eu e Andre, à casa de tio Bruno. Na viagem a Belo Horizonte fomos parados por um policial. Acho que o tio Bruno dirigia muito rápido e senti um nervosismo grande no ar. Chegamos à casa da minha avó. A casa era muito grande, tinha quase quarenta cômodos, e fomos acolhidos em clima de festa e com muito carinho pela família de minha mãe, uma família que, no entanto, eu nunca tinha visto (a única exceção era a querida Tia Tei, que nos acompanhou por diversas vezes na época da clandestinidade). Eu e Andre moramos por lá até minha mãe poder viver em liberdade. </p>
<p>Encontramo-nos, acho, somente um ano depois, na casa da tia Diva. Minha mãe estava magra, pálida, fruto da dieta forçada em macrobiótica que teve de passar quando ficou escondida na casa de conhecidos no Rio de Janeiro. Seu corpo enfraquecido me chamou a atenção naquela época. Uma imagem que eu jamais esquecerei.</p>
<p>Foi em Belo Horizonte que pude de fato me tornar Priscila Almeida Cunha Arantes.  Anos antes, meu pai, quando ainda morávamos na avenida Itaquera, tinha comentado comigo e meu irmão que nosso sobrenome não era Guimarães Silva. Naquela época, apesar da surpresa, o comentário não teve significado nenhum para mim. Eu continuava sendo Priscila Guimarães Silva, vivendo com meus pais na avenida Itaquera. </p>
<p>Também foi em Belo Horizonte que uma nova realidade se abriu para mim. Talvez hoje, mais madura, eu possa reconhecer o paradoxo daquela sensação. Por um lado pude descobrir que tinha um nome de fato real, outro, este sim verdadeiro, que trazia consigo uma família, uma história; uma  outra identidade. Era um mundo completamente novo que se abria para mim.</p>
<p>Mas ao mesmo tempo, e talvez este fosse o fator que mais me assustou, assumir a minha verdadeira identidade e meu nome  trouxe a perda da convivência com meus pais. E mais do que isto: a consciência de que eles estavam em uma situação de perigo iminente. É exatamente no momento que nossos nomes podiam ser utilizados, que meu pai foi preso e minha mãe ficou foragida.  </p>
<p>Obviamente este paradoxo de identidade se tornou mais acentuado em um momento de adolescência quando essas questões já são colocadas à mesa. Para além de uma mera crise de identidade era uma real crise de identidade: seria melhor continuar sendo Priscila Guimarães Silva e poder viver clandestina com meus pais em liberdade? Ou seria melhor ser Priscila Almeida Cunha Arantes e poder viver em liberdade com os meus pais presos? Pois, para mim, os dois estavam presos. Só depois soube que minha mãe estava escondida no Rio de Janeiro. Independentemente da minha opção na época, eu não tinha escolha real a fazer.</p>
<p>Essa sensação paradoxal veio acompanhada por outra experiência que foi muito marcante na minha adolescência. Estávamos em Belo Horizonte quando dois ou três homens entraram na casa da vovó Isa dizendo que eram amigos de meus pais. Não me lembro exatamente quem foi me avisar das supostas visitas. Olhei à espreita por uma das portas da sala e tendo a nítida sensação de que aquela visita vinha carregada de alguma ameaça, me escondi debaixo de uma das mesas redondas que havia na sala de minha avó. Foi exatamente em volta dessa mesma mesa que minha avó, minha tia e os dois visitantes sentaram-se para conversar. Fiquei ali um bom tempo a escutar a conversa que não vou esquecer nunca mais: a conversa, em tom de ameaça – pois o que eles queriam saber era onde a mamãe estava – descrevia com minúcias e detalhes a tortura recebida pelo meu pai: espancamento, pau de arara, corpo inchado&#8230; quase morte. Anos depois vim saber que esses visitantes faziam parte da equipe de torturadores de meu pai.</p>
<p>Nessa época fui acometida por uma série de desmaios, pequenos lapsos de consciência, talvez um desejo real de esquecer, por um pequeno espaço de tempo, algo que me incomodava em profundidade. </p>
<p>Meu grande refúgio, no entanto, eram as aulas de pintura. Certa vez fomos à casa da tia Leda. Em uma das salas de sua casa, vislumbrei uma tela em branco presa num cavalete. Ao seu lado, um pequeno livro que continha, na sua capa, a imagem do carteiro de Van Gogh. Não tive dúvida: peguei um carvão e desenhei na tela em branco a imagem do pintor impressionista. A partir desse dia Tia Leda me matriculou em um curso de pintura. Esse contato com o mundo das artes, nessa época, talvez tenha sido uma das molas propulsoras de minha profissão atual e de meu interesse pelo mundo das artes. </p>
<p>Assim que voltamos de Belo Horizonte fomos morar na Bela Cintra. Nessa época eu, minha mãe e meu irmão íamos, com frequência, visitar o meu pai no presídio Barro Branco.  Lembro-me da ambrosia, dos desenhos em pirogravura, das conversas com o Ariston, das pinturas do Guerra, da revista da polícia, da greve de fome vivida pelo meu pai. </p>
<p>Mas, talvez, um dos dias mais marcantes de minha vida, foi o dia em que meu pai foi solto, o mesmo da aprovação da Lei da Anistia. Ele descia a rampa do presídio, com uma pequena mala na mão. Estávamos ali, novamente, a família reunida, fora do espaço confinado das quatro paredes da prisão.</p>
<p>Hoje, tenho 47 anos e com muito orgulho me chamo Priscila Almeida Cunha Arantes, filha do Aldo e da Dodora, irmã de Andre, casada com Wagner e mãe de Tiago e Carolina. </p>
<p>Para muitos, o nome é um bem. A continuidade do nome como referente da pessoa pode, em alguns casos, não se interromper com sua morte necessariamente. Alguns nomes permanecem vivos na memória de outros homens, principalmente quando se referem a nomes que contribuíram para a construção de uma história coletiva.</p>
<p>Trago comigo esta história marcada por um duplo nome: um nome clandestino e um nome verdadeiro. Sinto orgulho dos meus pais: pessoas, nomes, que lutaram e contribuíram para a construção de um mundo melhor e que possibilitaram a mim, Priscila Almeida Cunha Arantes, desfrutar da vida em liberdade! </p>
<p>Priscila Guimarães Silva: presente!  </p>
<div style="background-color:#a7b965; padding: 30px; color:#fff;">Priscila Arantes, formada em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é pós-doutora em Arte Contemporânea pela Penn State University (EUA). É professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e diretora  e curadora do Paço das Artes, Museu da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Entre suas publicações destaca-se  Arte @ Mídia: perspectivas da Estética Digital, finalista do 48 prêmio Jabuti, Arte: História, Crítica e Curadoria (org.). e Re/escrituras da Arte Contemporânea: História, Arquivo e Mídia (prelo).</div>
<p></p>
<hr />
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Aldo Silva Arantes</h4>
<p>Nasceu no dia 20 de dezembro de 1938, em Anápolis (GO). Iniciou suas atividades políticas no movimento estudantil secundarista.</p>
<p>Estudante de direito da Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em julho de 1961. </p>
<p>Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes. Após o golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente Goulart, exilou-se em Montevidéu. </p>
<p>De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandestinidade. Em 1968, quando realizava trabalho político junto aos camponeses no sertão de Alagoas, foi preso. Após cinco meses e meio fugiu da prisão. </p>
<p>Em 1972, juntamente com a maior parte dos militantes da AP, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cujo comitê central passou a integrar. </p>
<p>Em dezembro de 1976 foi novamente preso quando participava de uma Reunião do Comitê Central do PCdoB, no bairro da Lapa, em São Paulo, episódio conhecido como Chacina da Lapa. </p>
<p>Em julho de 1977, foi condenado a cinco anos de prisão. Permaneceu preso até agosto de 1979, quando foi beneficiado pela anistia aprovada pelo Congresso.</p>
<p>Em 1979, filiou-se ao partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Exerceu o mandato de deputado federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988. </p>
<p>Autor dos livros : História de Ação Popular – da JUC ao PCdoB, co-autor, com Haroldo Lima (1984) ; O FMI e a Nova Dependência (2002); Meio Ambiente e Desenvolvimento &#8211; em busca de um compromisso (2010); Alma em Fogo – memórias de um militante político (2013).</p>
<p>[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]</p>
<h4>Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, a Dodora</h4>
<p>Nasceu em 5 de novembro de 1940, em Belo Horizonte (MG). Foi uma das fundadoras da organização Ação Popular (AP), na década de 1960. Em 1968 foi presa em Alagoas junto  com seus filhos Priscila e Andre. Após sair da prisão seguiu com a militância clandestina de combate à ditadura militar. </p>
<p>Foi uma ativa e importante militante da luta pela anistia no Brasil. Participou da fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo (CBA/SP) e foi dirigente dos Movimentos Nacionais pela Anistia (1978-1982). </p>
<p>Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Foi coordenadora Geral de Combate à Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (2009-2010). Foi membro das Comissões de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e do Conselho Federal de Psicologia ( 2004-2008 e 2011-2013). </p>
<p>Autora dos livros: Pacto Re-Velado: Psicanálise e Clandestinidade Política (1994) e Tortura (2013).
</p></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?feed=rss2&#038;p=20</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Filho do Zorro</title>
		<link>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=16</link>
		<comments>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=16#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 21:41:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[lucaspretti]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[Arantes]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=16</guid>
		<description><![CDATA[por Andre Almeida Cunha Arantes Era 1965, meus pais Aldo e Maria Auxiliadora estavam curtindo o frio do inverno Sul-Americano na praia de Punta Gorda, em Montevidéu. Não foi uma escolha voluntária, até porque a melhor época para aproveitar as praias uruguaias é no verão, entre os meses de janeiro e fevereiro. Por outro lado, [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>por Andre Almeida Cunha Arantes </p>
<p>Era 1965, meus pais Aldo e Maria Auxiliadora estavam curtindo o frio do inverno Sul-Americano na praia de Punta Gorda, em Montevidéu. Não foi uma escolha voluntária, até porque  a melhor época para aproveitar as praias uruguaias é no verão, entre os meses de janeiro e fevereiro. Por outro lado, o melhor mesmo seria ter ido para Punta del Este que é a praia mais bonita e mais procurada desse pequeno país. Mas o motivo não era passar férias e sim uma imposição do momento político no Brasil, que acabava de mergulhar em um período de ditadura militar que duraria aproximadamente duas décadas.</p>
<p>Em 13 de junho de 1965, durante esse período de férias forçadas, no Sanatório Americano, minha mãe ficaria feliz de me ver chorar pela primeira vez. Moramos no Uruguai quase um ano. Depois voltamos para o Brasil e fomos morar em São Paulo. Mais tarde, dentro da política de integração na produção, fomos morar no Nordeste. </p>
<p>Tinha 3 anos e  lá estávamos em mais uma situação estranha. Durante a noite, uns “amigos” de meus pais vieram nos buscar em nossa pequena casa que ficava no interior de Alagoas, mais precisamente em Pariconha, distrito de Água Branca no alto sertão. Nos levaram de jipe para um castelo (Policlínica da PM  de Alagoas), em Maceió. Lembro que achei aquilo estranho. Como era noite, o castelo  pareceu meio sombrio. Acreditei que quando acordasse de manhã perceberia que o castelo era legal. Quando despertei no outro dia, estava em um quarto pequeno e cinza, cheio de grades.</p>
<p>Mudamos algumas vezes de “endereço”. Depois do “castelo” fomos para Escola de Aprendizes de Marinheiro de Alagoas. Uma vez por dia descíamos para brincar em um pátio, cheio de lixo e ratos, que minha mãe apelidou carinhosamente de Jerry. O Jerry era o ratinho esperto de um desenho animado da época que vivia fugindo de seu algoz, o gato Tom. Como era pequeno, não percebi, mas o “Tom” tinha nos pegado. Estávamos detidos em uma prisão da marinha. Comia no restaurante dos oficiais até o dia em que um oficial pediu que a minha mãe me deixasse com  ele e a esposa, já que ela não tinha futuro pra me oferecer. O que o oficial não sabia é que o mundo dá voltas. Mais do que depressa, minha mãe me pegou pela mão e saiu dali. No dia seguinte, já estávamos comendo no restaurante dos soldados e dias mais tarde fomos transferidos para outra prisão.</p>
<p> Eu, minha mãe e minha irmã ficamos quatro meses presos. Meu pai, que foi preso dias depois, ficou seis meses na prisão. No final desse período meus pais foram levados a julgamento, em Recife. Durante a sessão, eu e minha irmã, que nessa época tinha 2 anos, ficamos correndo por toda sala e fazendo uma bagunça danada. Vendo essa confusão, um militar do Conselho de Sentença procurou saber o que estávamos fazendo ali. O escrivão que já estava sensibilizado com a nossa situação disse que estávamos presos com nossos pais. Durante o julgamento não se tocou em nossa presença. Todavia, o mesmo militar questionou um coronel da PM de Alagoas por que minha mãe estava presa. Ele respondeu que em Alagoas quando não encontravam o marido prendiam a mulher. Com isso nossa advogada pediu a libertação de nossa mãe. Acatado o pedido, fomos os três libertados. Meu pai ficou preso mais algum tempo e depois fugiu da prisão durante um jogo de futebol entre os dois principais times de Alagoas.</p>
<p> Depois dessa aventura ficamos algum tempo em Goiás, na casa de  meus avós paternos. Assim que as coisas esfriaram fomos para São Paulo, onde um novo capítulo começava. Durante esses anos de ditadura, o contato com nossa família foi muito pequeno. Era uma questão de segurança. Conhecia apenas alguns poucos tios e um casal de primos que moravam em São Paulo, sendo que o contato era esporádico. Sempre passávamos as festas – aniversários, Natal e Réveillon – sozinhos, sem contato com outros familiares. Mesmo assim, o Natal era uma grande festa cercada de expectativas.</p>
<p>Lembro que recebia muitos presentes, mas nunca sabíamos direito quem os havia dado. Eram dos tios e tias, vários que não fazia a menor ideia que existiam. Mas não parava para pensar nisso, só queria curtir os presentes, era um momento mágico.</p>
<p>O tempo foi passando, fui crescendo e percebia que a gente mudava bastante de casa. Basicamente, por vários bairros da periferia na Grande São Paulo. Aquilo parecia normal, tinha uma família, estava na escola, fazia natação em um clube da prefeitura de São Paulo&#8230;  Tudo fluía bem até que dois acontecimentos me chamaram atenção.</p>
<p>O primeiro foi quando meus pais resolveram que eu e minha irmã tínhamos que conhecer os nossos primos e tios de Belo Horizonte. Anualmente, todo esse pessoal ia de trem para uma casa em Angra dos Reis. Era muita gente. Só de primos de primeiro grau devia ter mais de quinze na casa. Durante uma brincadeira em que cada um tinha de fazer sua apresentação, ocorreu um problema. Cada primo reunido ali na sala levantava e dizia o nome e o que gostava de fazer.  Quando chegou a minha vez, falei meu nome “frio”. Na verdade, o nome era Andre mesmo, mas o sobrenome era “frio” e bem diferente do dos primos. Quando eu acabei, um dos primos levantou e disse que eu falara meu sobrenome errado, pois não guardava relação com sobrenome de nossa família. Como sempre, onde há muitas crianças juntas, a história acabou em briga, pois me senti ofendido pelo fato de alguém dizer que eu mentia com relação ao meu sobrenome. Já de volta a São Paulo, relatei o ocorrido em casa. Meus pais não falaram nada, mas também nunca mais pusemos os pés em Angra dos Reis.</p>
<p>Já tinha em torno de 8 anos. Não queria pressionar meus pais, pois tinha muito carinho por eles, mas a certeza de que aquilo que meus primos falaram em Angra dos Reis a respeito do nome da nossa família fosse verdade  foi aumentando.</p>
<p>Mais ou menos nesse período, tive uma conversa franca com meu pai. No caminho da escola, ele sempre ia contando histórias sobre os três irmãos coelhos:  Zico, Zeca e o Zoca. Eram três coelhinhos espertos e de muito bom caráter. Eram corajosos e nunca mentiam. Eu me sentia o próprio “Zico”. Esses coelhos eram meus heróis. Então, em um determinado dia, meu pai insistiu que eu não deveria contar aos primos onde morávamos. Aí eu disse: “Pai, você ensina para a gente que não é para mentir e agora está me pedindo para mentir”.Meu pai arregalou os olhos, pensou um pouco e disse: “Olha, filho, você vê o seriado do Zorro, não vê?  Você acha que o Zorro pode sair contando para todo mundo  qual é a identidade verdadeira dele?”.  E eu, “Lógico que não, pai, só o Mudinho sabe disso. Se o Sargento Garcia souber a identidade do Zorro, vai prender ele”. “Pois é, filho, esta é nossa situação”, disse meu pai. “Já entendi, pai, pode deixar que eu vou guardar segredo”, disse. Acompanhado desse diálogo, veio a seguinte explicação: existiam os barrigudões (tipo Sargento Garcia) e o povo. Havia uma briga entre estes dois grupos, assim como no filme do Zorro, nós estávamos lutando do lado do povo contra os barrigudões. Bom, para mim a explicação estava mais do que boa. Vi que tinha desvendado o segredo da família e ainda por cima descobri que era “filho do Zorro”.</p>
<p>O segundo momento “estranho” foi quando meu avô paterno faleceu. Eu tinha quase 10 anos. Foi enviado para meu pai a caneta do meu avô que tinha seu nome inscrito na lateral. Um dia no quarto/escritório do meu pai, achei a caneta e li o sobrenome do meu avô. Percebi que o sobrenome dele não era parecido com o nosso. Aí disse: “Descobri, descobri que o sobrenome do vovô Galileu é Arantes. O nome de nossa família é Arantes”. Diante disso, meus pais contaram a razão de nosso sobrenome trocado. Naquele dia, fiquei sabendo que o nome de meu pai era Aldo e o de minha mãe era Maria Auxiliadora. Virei para o meu pai e disse: “Você não tem cara de Aldo e sim de Roberto”. Este era o nome frio do meu pai.</p>
<p>Entre 6 e 11 anos, moramos na Zona Leste de São Paulo. Vila Formosa, rua Itaquera, Mooca, Vila Manchester eram os lugares que frequentávamos. Nesse período, fiz natação no Clube da Vila Manchester. Era um clube da prefeitura de São Paulo, bem equipado com pista de atletismo, campo de futebol, quadras cobertas sala de ginástica e a piscina. Passava a tarde nadando. Fiz muitos amigos, treinei bastante e, como todos, tinha um sonho : treinar natação no melhor clube da cidade, o Corinthians. Sonho que não durou muito&#8230; explico.</p>
<p>Com essa história de ser “filho do Zorro” e ter que manter a identidade secreta da família, eu “entendi” que não poderia aparecer. Isto significava que se ficasse bom e fosse para o Corinthians, ia acabar entregando minha família. Então desenvolvi um certo sentimento de ir me distanciando deste desejo de melhorar e ir nadar no Corinthians.</p>
<p>No final do ano de 1976, bem perto do Natal, meu pai foi preso em um episódio chamado “Chacina da Lapa”. Fomos acordados bem cedo pela minha mãe, pegamos algumas coisas, colocamos na mochila e nos mandamos de táxi para casa de meu tio em Santo Amaro, um bairro de São Paulo. Era um tio que eu já conhecia, irmão da minha mãe. Ele e minha tia Tei, também irmã de minha mãe, eram praticamente os únicos parentes que víamos de vez em quando. Minha mãe não contou nada para a gente a respeito do ocorrido com meu pai. Ficamos alguns dias nessa casa imaginando que já estávamos saindo de “férias”. Certa manhã, minha mãe me chamou com uma revista na mão e pediu que eu lesse a matéria. Era uma matéria que trazia fotos de meu pai e alguns amigos que foram presos na mesma reunião. Ele estava com o rosto tão machucado que nem o estava reconhecendo.</p>
<p>A partir daí, tudo foi devidamente esclarecido. Dias depois, eu e minha irmã fomos levados pelo meu tio para Belo Horizonte, onde moraríamos por um ano com minha avó materna, enquanto meu pai seguia sendo torturado e minha mãe foragida da repressão, em algum lugar que não sabíamos.</p>
<p>O período em Belo Horizonte foi um momento de “transição”. Sem meus pais, mas conhecendo uma infinidade de tios e primos, que eu nunca soubera que existiam. Estranhei um pouco, pois além de estar sem meus pais, era tudo muito diferente. </p>
<p>Depois de um ano, as coisas se acalmaram e voltamos a nos encontrar com minha mãe. Retornamos todos para São Paulo. Mas agora o endereço era outro, já estávamos na Bela Cintra, uma das boas ruas da capital paulistana.</p>
<p>A rotina era estudar, treinar no Paulistano ou Pinheiros, sair com os amigos e no final de semana visitar meu pai na prisão. Percebi que apesar de estar em clubes bons, não tinha muito desejo de competir e vencer. Aos poucos, fui percebendo que me sentia fazendo parte do time dos que estavam sendo oprimidos, que perdiam. Os opressores eram os vencedores, aqueles que tinham torturado meu pai, nos prendido, separado a família. Tinha este sentimento dentro de mim. O desejo de vencer estava cada vez mais longe, como algo proibido.</p>
<p>Em agosto de 1979, foi aprovada e sancionada a Lei da Anistia. No mesmo dia da sua publicação, meu pai foi libertado do presídio de presos políticos em São Paulo, o Barro Branco. A família se encontrou novamente e passou a viver junto. Esse foi um momento muito bom. Meu pai foi eleito deputado federal por Goiás em 1982 e fomos todos morar em Brasília. Tudo diferente. Uma situação bem diferente.</p>
<p>Estava com 18 anos e já tinha parado de treinar natação e outros esportes também. Como todo adolescente nesta idade, não sabia muito bem o que queria. Sentia que as coisas tinham mudado, mas ainda não tinha entendido o que havia dentro de mim. Entrei na faculdade, primeiro em Economia, depois em História, mas nada me agradava. Revolvi mudar para São Paulo. De São Paulo, fui de bicicleta para o Rio de Janeiro pela recém-inaugurada Rio-Santos. Nessa viagem, senti gostos que já tinha esquecido. O gosto da liberdade, do esforço físico, do contato com a natureza. Acabei ficando no Rio de Janeiro e fui trabalhar com cinema, que era uma das paixões que eu tinha. Fiquei um ano no Rio de Janeiro e acabei voltando para Brasília.</p>
<p>Estávamos em meados de 1986. Meu pai fora reeleito deputado federal e morávamos em uma quadra só para deputados federais na Asa Norte. Isso tudo deixou bem claro que a situação mudara e havia se consolidado. Nós já não éramos do time dos perdedores. Estava liberado para vencer. Essa foi a senha para voltar para o esporte e tentar vencer. Já não tinha mais amarras, já não precisava mais me esconder, eu queria agora era aparecer. Foi um momento de mudança radical em minha vida. Sentia-me integrado, em casa. Tinha descoberto o que eu queria.  Queria vencer.</p>
<p>Resolvi fazer triathlon (natação, ciclismo e corrida). Treinei muito, consegui ganhar provas em Brasília, Goiás e Espírito Santo. Participei de campeonatos brasileiros, fui selecionado para fazer parte da Seleção Brasileira em campeonatos Sul-Americanos, Pan-Americanos e Mundiais. Estive na Argentina, Estados Unidos, Canadá, República Dominicana, México, Cuba, Ilhas Virgens, Espanha e Austrália competindo e representado nosso país. Sabia que podia, sempre soube, mas tinha que ser no momento em que não pusesse minha família em “perigo”.</p>
<p>Acabei entrando no curso de Educação Física em 1988 (D. Bosco), fiz especialização em Treinamento Esportivo em 2001, na Universidade de Brasília, Mestrado em Educação Física pela Universidade Católica de Brasília, em 2005, e hoje em dia faço Doutorado em Ciências do Desporto na Universidade do Porto em Portugal. De 2000 a 2005 fiz parte do JGSPINNING, maior programa em ciclismo de academia no mundo, convidado pelo próprio fundador do programa Johnny Goldberg. Estive representando o programa em vários países da América do Sul e em duas conferências mundiais nos Estados Unidos. Em 2003 fui convidado, pelo então Ministro de Esporte do Governo Lula, Agnelo Queiroz, para ser Secretário Nacional de Esportes de Alto Rendimento. Nesta função, estive em missão oficial nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingos na República Dominicana e nas Olimpíadas de Athenas, Grécia. Como Diretor da SNEAR, participei dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007. Hoje, sou Diretor da Secretaria Nacional de  Esporte de Alto Rendimento do Ministério do Esporte e dou aulas de Educação Física no Centro Universitário UniCEUB.</p>
<p>Olhando para trás, vejo como esporte e política estiveram entrelaçados em minha vida. Quando criança, minha leitura das questões sempre passou pelo corpo: alguém falava em superar obstáculos  e eu me imaginava saltando barreiras em uma pista de atletismo. Diziam que era preciso ser forte, e eu me imaginava levantando um grande peso; que era necessário ser resistente, e eu me imaginava em uma maratona. Enfim, era um jeito muito particular de sentir as coisas, como foi também relacionar a vitória à opressão e o perdedor aos oprimidos. Decidir não “aparecer” por medo que minha família fosse descoberta. Enfim, cabeça de criança fantasia muito e estas coisas ecoam na adolescência. Esta foi a minha história, com cicatrizes geradas pela ditadura e com oportunidades criadas pela democracia.</p>
<p>Acredito que no peito da minha mãe, lá no fundinho, ela tem vontade de encontrar com aquele oficial da marinha que disse que ela não teria  futuro para me dar  e dizer : “Tá vendo, eu tinha certeza que o futuro do meu filho seria melhor  comigo&#8230;”</p>
<div style="background-color:#a7b965; padding: 30px; color: #fff;">Andre Almeida Cunha Arantes nasceu em 13 de junho de 1965. É filho de Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes e Aldo Arantes. Ex-triatleta, doutorando em ciências do desporto, professor universitário e diretor de Esporte de Alto Rendimento do Ministério do Esporte.</div>
<p></p>
<hr />
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Aldo Silva Arantes</h4>
<p>Nasceu no dia 20 de dezembro de 1938, em Anápolis (GO). Iniciou suas atividades políticas no movimento estudantil secundarista.</p>
<p>Estudante de direito da Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em julho de 1961. </p>
<p>Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes. Após o golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente Goulart, exilou-se em Montevidéu. </p>
<p>De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandestinidade. Em 1968, quando realizava trabalho político junto aos camponeses no sertão de Alagoas, foi preso. Após cinco meses e meio fugiu da prisão. </p>
<p>Em 1972, juntamente com a maior parte dos militantes da AP, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cujo comitê central passou a integrar. </p>
<p>Em dezembro de 1976 foi novamente preso quando participava de uma Reunião do Comitê Central do PCdoB, no bairro da Lapa, em São Paulo, episódio conhecido como Chacina da Lapa. </p>
<p>Em julho de 1977, foi condenado a cinco anos de prisão. Permaneceu preso até agosto de 1979, quando foi beneficiado pela anistia aprovada pelo Congresso.</p>
<p>Em 1979, filiou-se ao partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Exerceu o mandato de deputado federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988. </p>
<p>Autor dos livros : História de Ação Popular – da JUC ao PCdoB, co-autor, com Haroldo Lima (1984) ; O FMI e a Nova Dependência (2002); Meio Ambiente e Desenvolvimento &#8211; em busca de um compromisso (2010); Alma em Fogo – memórias de um militante político (2013).</p>
<p>[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]</p>
<h4>Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, a Dodora</h4>
<p>Nasceu em 5 de novembro de 1940, em Belo Horizonte (MG). Foi uma das fundadoras da organização Ação Popular (AP), na década de 1960. Em 1968 foi presa em Alagoas junto  com seus filhos Priscila e Andre. Após sair da prisão seguiu com a militância clandestina de combate à ditadura militar. </p>
<p>Foi uma ativa e importante militante da luta pela anistia no Brasil. Participou da fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo (CBA/SP) e foi dirigente dos Movimentos Nacionais pela Anistia (1978-1982). </p>
<p>Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Foi coordenadora Geral de Combate à Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (2009-2010). Foi membro das Comissões de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e do Conselho Federal de Psicologia ( 2004-2008 e 2011-2013). </p>
<p>Autora dos livros: Pacto Re-Velado: Psicanálise e Clandestinidade Política (1994) e Tortura (2013).
</p></div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?feed=rss2&#038;p=16</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
