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	<title>Infância Roubada &#187; Paulo Teixeira</title>
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		<title>&#8220;Cuide da mãe que um dia eu volto pra te buscar&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 23:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[da Silva]]></category>
		<category><![CDATA[Petit]]></category>

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		<description><![CDATA[Vou falar da minha adolescência, período em que vivenciei a atuação política dos meus irmãos, que se deu em São Paulo mais ou menos a partir de 1968. Nessa época, o Lúcio, que já tinha se formado na Faculdade de Engenharia e Eletrotécnica de Itajubá/MG, resolveu trazer a minha mãe para morar em São Paulo. [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Vou falar da minha adolescência, período em que vivenciei a atuação política dos meus irmãos, que se deu em São Paulo mais ou menos a partir de 1968. Nessa época, o Lúcio, que já tinha se formado na Faculdade de Engenharia e Eletrotécnica de Itajubá/MG, resolveu trazer a minha mãe para morar em São Paulo. A Maria Lúcia tinha prestado um concurso e estava trabalhando na cidade. A Laura também estava em São Paulo há muito tempo. Enfim, praticamente toda a família morava na cidade. </p>
<p>O ano de 1968 foi de muita agitação, porque foi o ano que mais preocupou a ditadura militar, culminando com a edição do AI-5.</p>
<p>Nessa época, eu estudava num colégio particular chamado Alfredo Pucca. Nós morávamos na Bela Vista, eu ia a pé para a escola. Na volta da escola, minha mãe se preocupava porque ficava sabendo pelos meus irmãos que haveria passeatas, coisa e tal. Às vezes eu me atrasava e já era motivo de preocupação para ela. Antes das passeatas, normalmente o Lúcio, o Jaime, Maria Lúcia, todos se reuniam em casa. Outros militantes do PCdoB também se reuniam e saíam dali já para as manifestações.</p>
<p>Fui tomando consciência política naquela época. Passava pela cidade e via escrito, “pelego”. Para uma criança de 12 anos de idade, o que significaria pelego? Ou mesmo, “abaixo o imperialismo”, “abaixo MEC-USAID”. Eram preocupações de uma criança de 12 anos que começava a querer saber o que aquilo representava. Com 12 anos comecei a aprender coisas que a população não sabia. Se pichava aquilo, mas talvez o povão não estivesse nem tendo a consciência do que estava escrito ali. Aquelas frases todas e tal. </p>
<p>Na escola, nós tínhamos aquelas aulas de Educação Moral e Cívica, que eram um horror. Para alguém que mesmo adolescente, mas que já tivesse uma certa consciência política, era insuportável assistir uma aula onde a professora dizia que não ter direito de votar para Presidente era certo. Que a Guerra do Vietnã, os Estados Unidos estavam lá só para ajudar. </p>
<p>Eu era muito contestador, me destacava em relação aos outros alunos. Lembro-me de uma vez que estava estudando lá no Liceu Noroeste, em Bauru, e foi um advogado mais um outro cara que eu não sei o que fazia lá, mas ele foi assim, entrou de sala em sala alertando contra o terrorismo, contra a subversão e coisa e tal. E senti aquilo como um certo alerta para mim porque eu batia de frente ali com alguns professores.</p>
<p>Lembro-me de ter feito algumas discussões com o Jaime sobre imperialismo. Foi um momento que me abriu bem a cabeça. Eles traziam da USP um livrinho que chamava Um dia na vida do Brasilino, que contava a história de como era a exploração das indústrias no país, como era a vida do Brasilino. E depois, mais à frente, voltamos para o interior. Morreu uma irmã da minha mãe e tinha uma avó que morava com essa irmã. Então minha mãe resolveu voltar para Bauru para ficar cuidando da minha avó. E logo em seguida, em 1970, meus irmãos já estavam se preparando para ir para Guerrilha do Araguaia. Teve também o momento da prisão do Jaime, em 1968. </p>
<p>Antes de voltarmos para Bauru, o Jaime participou do Congresso de Ibiúna e foi preso. Como tinha estudantes de diversas localidades do Brasil, muitas mães vieram para São Paulo e formaram um comitê visando a libertação dos presos políticos. Eu fui em duas ou três dessas reuniões. Eu estava sempre junto a minha mãe, e depois nós fomos até a porta do presídio Tiradentes para ver se tinha alguma novidade, se víamos o Jaime.</p>
<p>Dava para vê-los lá, bem de longe, o pessoal acenando com a mão,  por entre aquelas grades. Até que veio um sujeito, era um tira, veio lá querer conversar com a minha mãe, querer saber quem éramos. Eu puxei minha mãe pelo braço e disse: “Olha, não conversa com esse sujeito, não, que esse aí é da polícia”. E era mesmo. O sujeito era um araponga.</p>
<p>Quando o Jaime saiu do presídio Tiradentes, passou em casa e depois foi para Itajubá. Chegando lá, ficou sabendo pelos vizinhos que o Exército tinha estado na casa em que ele morava e vasculhado tudo. Estavam à procura dele. Já havia um mandado de segurança do Exército para que ele comparecesse lá e prestasse depoimentos. Mas ele não foi, porque naquela ocasião quem ia para esse tipo de interrogatório já era para ir para a tortura mesmo. Então o Jaime ficou escondido lá em Itajubá em um sítio do pai da Regilena, que era esposa dele. Fiquei com ele umas duas semanas mais ou menos. Até me lembro bem que teve uma noite que os cachorros latiram bastante. O Jaime pegou uma espingarda e já ficou meio de prontidão. Mas não era nada. </p>
<p>Depois, o Jaime passou a trabalhar como eletricista no norte de Goiás e de lá seguiu para São Paulo. Depois ele foi para o Araguaia, nós não tivemos mais contato com ele. O último que eu vi foi o Lúcio. Ele foi para Bauru em 1971 mais ou menos, e deixou comigo um livro de Lenin que chamava Cultura e Revolução Cultural, um livrinho do Manifesto Comunista e alguns exemplares do jornal A Classe Operária. Eu também tinha um pôster bem grande que era de um Vietcong com um fuzil nas costas. Eu acompanhei o Lúcio até a estação rodoviária. Me despedi dele e nunca mais o vi. Ele falou que voltaria para me buscar um dia. “Fica aí cuidando da mãe, mas um dia eu volto para te buscar”. Nessa época, eu já estava com uns 14 anos, mais ou menos.</p>
<p>Nós não sabíamos que eles estavam no Araguaia, não sabíamos onde eles estavam. Eles foram para lá entre 1970 e 1971, mais ou menos. E foi no começo da luta da Anistia, em 1977, que nós ficamos sabendo que a Maria Lúcia tinha morrido e que eles tinham ido para essa região. A Laura ficou sabendo antes, mas acho que guardou isso também para não causar um impacto muito forte na minha mãe, que tinha tido um pré-derrame, um AVC e ficado com uma paralisia facial. E acho que a Laura quis poupá-la. Ela já tinha uma preocupação, sabia que os filhos tinham ido embora, mas não sabia para onde e nem o que estava acontecendo. Foram praticamente seis anos sem notícia deles. Aí chegou um ponto que a Laura tinha que contar alguma coisa, porque os noticiários já iam começar a publicar e não ia mais ter como guardar esse segredo.</p>
<p>[Neste instante, a irmã, Laura Petit, interrompe e diz:]</p>
<p>Eu realmente não contei, primeiro por causa da saúde frágil da minha mãe e porque o Clóvis ainda era um adolescente. E eu fiquei temendo que em um ato de desespero a minha mãe saísse procurando, indo justamente nos locais em que não deveria ir. Ir em uma delegacia, querer saber dos filhos. </p>
<p>E por questão de segurança também. Eu acreditava que a ditadura ou o SNI ainda não tivesse os nomes de quem estaria na guerrilha, que se fôssemos procurá-los seria entregá-los para a polícia, para a ditadura. </p>
<p>Quando a Rede Globo, em 1996, publicou uma relação dos militantes que teriam ido ao Araguaia, na lista tinha até o vice-governador de São Paulo, o Aloysio Nunes. Então eles não sabiam exatamente quem estava no Araguaia. Apesar de ter sido muito duro para mim quando eu soube da morte da Maria Lúcia, eu não podia contar nem para minha mãe, nem para o meu irmão. </p>
<p>E foi muito difícil porque, já na época da anistia, quando o Clóvis ficou sabendo, ele era um adolescente, ficou muito revoltado e queria vingança sim. Dissemos para ele: “Não, você tem que se engajar em uma luta política”. E foi providencial estar surgindo o Comitê Brasileiro de Anistia, CBAs, os movimentos pela anistia. E toda essa raiva do Clóvis, essa revolta, foi direcionada para a anistia, para o movimento político. Porque a primeira coisa que ele falou foi “Vou vingar a morte da Maria Lúcia, vou por veneno na caixa d’água de um quartel, eu vou fazer isso, eu vou fazer aquilo”. Quando ele conta como adquiriu consciência aos 12 anos, fora o Lúcio, o Jaime, que já tinham militância política, a Maria Lúcia era quase uma segunda mãe para ele. Ela que via as lições dele, ela que explicava o que era o imperialismo, o que eram os royalties que o Brasiliano pagava etc.. E como foram os dois caçulas que ficaram com a minha mãe, a perda foi imensa para ele.</p>
<p>A Dodora [Maria Auxiliadora da Cunha Arantes] levou o comitê do CBA para Bauru. Fizeram até um dossiê dos perseguidos, dos ferroviários perseguidos da cidade de Bauru.<br />
Lá na Corte [Interamericana de Direitos Humanos da OEA] na Costa Rica, nós familiares também somos considerados vítimas porque tínhamos o direito a uma integridade pessoal, familiar, que foi duramente atingida. Nós nunca nos pensamos como vítima e nós sofremos. A nossa família se desintegrou. A minha mãe poderia ter tido muitos netos, pois teve cinco filhos. E os meus filhos perguntam coisas assim, “Por que é que eu não tenho tios, por que é que eu não tenho primos?”. </p>
<p>Tem uma coisa que eu acho que foi muito dura e eu só pude perceber mais tarde. Quando o Lúcio foi lá se despedir da minha mãe porque ia para Guerrilha e disse para o Clóvis: “Olha, você agora já está ficando mocinho, então você cuida da mãe”. Porque eu já era casada e estava em São Paulo. E quando a minha mãe faleceu, o Clóvis sentiu muito, como eu, a perda dela; e ele dizia assim: “Será que eu cuidei direito da minha mãe como o Lúcio me pediu?” Então também foi uma carga muito difícil para ele, porque foi o único que restou para dar suporte para ela na velhice, além de mim.</p>
<p>Como a Laura disse, quando eu fiquei sabendo da morte da Maria Lúcia, fiquei muito revoltado. Ainda passei por um período de esperança de que algum deles estivesse vivo, ou o Jaime, ou o Lúcio. Imaginávamos, “Eles podem ter fugido, podem estar em uma área mais reservada junto com alguma colônia de pescador”. Falava-se de um padre da época da guerrilha, que mora lá isolado com não sei quem. Quer dizer, a gente acabava nutrindo esse tipo de esperança. </p>
<p>Eu passei por esse momento de revolta e vou dizer que não acabou. Tenho revolta ainda hoje. E muita. Principalmente quando vemos como essa política está sendo desenvolvida, dissimulada, de não enfrentar a questão da punição aos torturadores, aos assassinos. Estão todos aí na máquina pública. Quando o poder atual diz “Isso é só questão da justiça”, estou esperando que o STF julgue a questão da anistia, que o Judiciário faça as punições e o Executivo fica aguardando, esperando que a justiça tome as suas providências. Não é bem assim. </p>
<p>A Constituição Federal é clara quando toca no princípio da moralidade pública. Então, esse Governo que está aí da Dilma Rousseff, hoje tenho críticas severas ao PT, ele decepcionou claramente na questão da política de direitos humanos no país.  O PT é um partido que eu também ajudei a fundar ali nos seus pilares. Lá em Bauru a gente estava fazendo a luta da anistia e eu ajudei a criar o PT, quando este ainda era Comissão provisória. </p>
<p>A moralidade pública, que é um princípio que está na Constituição Federal, ela diz que quando alguém passa em um concurso público, qualquer cidadão, para qualquer cargo, é feito uma checagem da vida pregressa dessa pessoa para saber se ele pode ser empossado ou não em um cargo público. Mas, no entanto, temos torturadores, assassinos, que cometeram crimes hediondos, massacraram, cometeram crimes de lesa-humanidade e estão na máquina pública, no poder, descumprindo esse princípio constitucional.  E na sentença da Corte Interamericana está dito claramente que esse governo deve excluir da máquina pública todas essas pessoas. Quer dizer, até hoje nem sequer esse probleminha, que seria um problema administrativo, um problema de moralidade, nem isso se cumpre, quanto mais a justiça. </p>
<p>Este governo que está aí já era para ter varrido essa camarilha de canalhas, de pessoas criminosas que estão sendo pagas com o dinheiro público. Eu fico revoltadíssimo com a impunidade, com a falta de decência, de respeito. Quando você entra com um processo na justiça, ele é negado. Quer dizer, precisa-se primeiro tentar mudar a Lei da Anistia. O parágrafo primeiro da Lei da Anistia fala dos crimes conexos, mas no direito, crime conexo não significa o que a parte contrária fez. Crime conexo é uma conexão de crimes. A pessoa para cometer um ato comete outro e outro. Existe uma conexão. Então deturparam e pegaram carona na Lei da Anistia. É uma coisa também imoral. É uma coisa que é um sarcasmo. Na Lei da Anistia não tem um artigo sequer que fale sobre torturador, sobre quem cometeu crime de tortura, de lesa-humanidade.  São artigos que foram feitos para resguardar direitos de pessoas que estavam vindo do exílio ou que estavam sendo tiradas das prisões e que não têm nada a ver com os torturadores. </p>
<p>[Neste instante, a irmã, Laura Petit, interrompe e diz:] </p>
<p>Eu só queria fazer uma observação. Essa tem sido uma luta solitária, porque, por exemplo, do Araguaia, os dois únicos desaparecidos encontrados foi através dos familiares que tiveram o apoio da Comissão de Justiça e Paz, a Comissão de familiares, que foram ao Araguaia em 1991 e em 1996 e encontraram [os restos mortais] da Maria Lúcia e do Bergson [Gurjão Farias]. E mesmo depois que nós tivemos na Justiça brasileira, transitado e julgado um processo que durou 25 anos, nós ganhamos a ação. A juíza foi favorável aos familiares, mas até hoje nós não tivemos a sentença cumprida dentro do país. Quer dizer, não se encontraram os corpos dos setenta militantes e camponeses do Araguaia. Não foram ouvidos os militares para esclarecer as circunstâncias de mortes. Quando a juíza chama, eles se negam a prestar as informações. Os arquivos continuam secretos tais quais os da Guerra do Paraguai e a gente não sabe quando essa verdade vai surgir. Nós recorremos ao direito internacional e fomos vitoriosos lá. Há dois anos, vamos completar já três, e até hoje a sentença não foi cumprida. Quando é que o Estado brasileiro vai, depois de tanta luta dos familiares, quando é que o Estado brasileiro vai nos devolver os corpos? Porque até hoje a gente está como lá em 1979, na anistia. Onde estão? Queremos saber os responsáveis. Queremos justiça.</p>
<p>Sobre o sentimento de não ter encontrado [os corpos dos irmãos], não tem nem o que falar. Isso é muito difícil. Minha mãe sempre teve essa esperança de encontrar os filhos. Ela conseguiu enterrar a Maria Lúcia e dizia que esperava até antes de morrer também enterrar o Lúcio, o Jaime. Ela tinha essa esperança de que ainda fosse conseguir isso. Mas ela se foi, talvez a gente se vá também. Quando comecei essa luta eu era adolescente e já estou de cabelo branco.  A gente vai envelhecendo, mas enquanto tiver uma bengalinha, se pudermos dar uma bengalada, daremos.</p>
<div style="background-color:#f7e9d5; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Clóvis Petit</strong> nasceu em Duartina (SP), aos 7 de março de 1956, formado em Direito, Diretor do Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios e Derivados de Petróleo de Presidente Prudente e Região.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#d7dec0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Maria Lúcia Petit da Silva</strong> nasceu em 20 de março de 1950, em Agudos (SP), filha de José Bernardino da Silva Júnior e de Julieta Petit da Silva. Desaparecida em 16 de junho de 1972.Militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), pertenceu ao Destacamento C da Guerrilha do Araguaia.Iniciou sua militância no movimento estudantil secundarista em São Paulo, onde foi professora primária municipal. No início de 1970, como militante do PCdoB, foi para o interior de Goiás e, logo após, para o Sudeste do Pará. Maria Lúcia dedicou-se ao magistério e ao trabalho na roça, conquistando grande simpatia dos moradores da redondeza. Em 1972, o Exército brasileiro cercou a região de atuação dos guerrilheiros do PCdoB, utilizando forte aparato militar, onde se encontrava Maria Lúcia.Segundo os depoimentos de sobreviventes, em 16 de junho de l972, ao se aproximar da casa de um camponês, Maria Lúcia foi fuzilada por tropas do Exército, sob o comando do general Antônio Bandeira.<br />
Em 1991, familiares de mortos e desaparecidos do Araguaia, com membros da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e a equipe de legistas da Unicamp, estiveram no cemitério da cidade de Xambioá, em Goiás (atual Tocantins), onde exumaram duas ossadas. Uma de um velho, negro, provavelmente Francisco Manoel Chaves (desaparecido na Guerrilha do Araguaia) e outra, de uma mulher jovem enrolada num pedaço de pára-quedas, que poderia ser Maria Lúcia. Esses restos mortais foram encaminhados à Unicamp.<br />
Em entrevista à imprensa, Badan Palhares, então Chefe do Departamento de Medicina Legal da Unicamp, afirmou que os restos mortais eram certamente de uma guerrilheira. Mas ao chegar a São Paulo mudou de ideia e passou a dizer que a ossada pertenceria à filha de um dentista que atuava na área, que teria sido morta por não atender à ordem de prisão de uma patrulha. Cinco anos depois, o mesmo legista foi obrigado, pelos fatos, a examinar e reconhecer essa ossada.<br />
Em 28 de abril de 1996, o jornal O Globo iniciou uma série de reportagens sobre a Guerrilha do Araguaia, quando publicou fotos de guerrilheiros presos e mortos entregues anonimamente ao jornal por um militar que participou da repressão política durante a ditadura. Entre as fotos, a família conseguiu identificar Maria Lúcia morta, embrulhada em um pedaço de pára-quedas e a cabeça envolta em plástico. A foto apresentava detalhes idênticos aos da ossada encontrada em Xambioá e foi encaminhada ao Departamento de Medicina Legal da Unicamp, em 30 de abril de 1996.O exame da arcada dentária feito pelos dentistas que a atenderam em 1967, além do depoimento descritivo das circunstâncias da morte feito por seus companheiros e a comparação da foto publicada com os despojos encontrados em 1991, possibilitaram a identificação de Maria Lúcia em 15 de maio de 1996.<br />
Em 15 de junho de 1996, houve um culto ecumênico e vigília em sua homenagem na Câmara Municipal de São Paulo. No dia seguinte, seus restos mortais foram traslados para o cemitério de Bauru (SP), com a presença de sua mãe, Julieta Petit da Silva. </div>
<p></p>
<div style="background-color:#bab886; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Jaime Petit da Silva</strong> nasceu em 18 de junho de 1945, em Iacanga (SP). Desaparecido em 28 ou 29 de novembro de 1973. Militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).<br />
Em 1965, ingressou no Instituto Eletrotécnico de Engenharia da Faculdade Federal de Itajubá e trabalhou como professor de Matemática e Física nos colégios de Itajubá e Brazópolis (MG). Em Itajubá se casou.Participava ativamente do movimento estudantil. Em 1968, foi eleito presidente do diretório acadêmico. Nesse mesmo ano, em outubro, participou do XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, quando foi preso.Condenado à revelia em 1969, foi obrigado a abandonar o curso de Engenharia e ir viver clandestinamente no interior. Posteriormente, mudou-se para a localidade de Caianos, no Sudeste do Pará, onde já residiam seus irmãos Lúcio e Maria Lúcia, também desaparecidos durante a guerrilha, integrando-se ao Destacamento B das Forças Guerrilheiras do Araguaia. Sobre Jaime, o relatório do Ministério do Exército, encaminhado ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, em 1993, diz que “[…] existe registro de sua morte em 22 de dezembro de 1973”, sem especificar as circunstâncias e o local de sepultamento. De acordo com o relatório do Ministério da Marinha, também de 1993, ele foi “[…] morto em 22 de dezembro de 1973”.</div>
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		<title>“Seu pai não era um ladrão,  era um herói”</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 22:39:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na infância, o que eu ouvia sobre meu pai era que ele era um ladrão, que eu era filho de um ladrão e que meu sangue não prestava. Essa história vinha à tona em brigas familiares que ocorriam em casa. Depois que meu pai morreu, minha mãe virou dependente do álcool e minha avó virou [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Na infância, o que eu ouvia sobre meu pai era que ele era um ladrão, que eu era filho de um ladrão e que meu sangue não prestava. Essa história vinha à tona em brigas familiares que ocorriam em casa. Depois que meu pai morreu, minha mãe virou dependente do álcool e minha avó virou a mantenedora da casa. E eu, pequeno, ouvia coisas como: “Você é um ladrão, você não presta”.</p>
<p>A história da minha família é essa: minha avó veio da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Minha mãe também nasceu na Alemanha. Logo depois do golpe de 1964, meu pai conseguiu fugir por ter sido condenado a cinco anos e oito meses de prisão. Ele seguiu para Guarulhos, cidade satélite ainda muito pequena, e conheceu minha mãe. Eles tiveram um romance, ficaram juntos e então eu nasci em 1968.</p>
<p>Eu tinha quatro anos quando ele morreu. A única lembrança que eu tenho até hoje é de uma casa onde morávamos eu, minha mãe e meu pai. E um dia, na frente da lareira dessa casa, ele me deu um brinquedo, passou a mão na minha cabeça e foi embora. O brinquedo era um carrinho tipo cegonheira. Mas eu não me lembro da fisionomia dele. Para mim, esse episódio do brinquedo foi como uma despedida, mas é a única lembrança que eu tenho dele. E a partir daí não tenho mais nenhuma lembrança. </p>
<p>Não lembro, por exemplo, da chegada da notícia da morte dele. As publicações da época divulgaram informações do sequestro do avião [que ele fez] e da morte. Até a minha foto, com o título “Naldinho, filho do sequestrador”, divulgaram na imprensa. Fiquei muito chocado quando descobri uma foto minha no jornal O Globo. Só fui descobrir isso depois, com 34, 35 anos de idade. </p>
<p>Durante a minha infância, sempre que se tocava no nome do meu pai era através de uma briga. Foi assim na infância, adolescência e começo da vida adulta. O que eu ouvia era sempre: “Você é filho de ladrão, você não presta, você não tem sangue bom”. Além de ladrão, a história era que depois do sequestro do avião, ele havia se suicidado.</p>
<p>Essas brigas envolviam a mim, minha mãe, avó e meu tio, irmão da minha mãe. Minha mãe tinha uma personalidade forte, assim como minha avó, que era alemã da gema e tinha tido uma educação muito rígida. Sempre que havia desentendimentos na minha família, isso era jogado na cara da minha mãe e consequentemente vinha para cima de mim também.</p>
<p>A maior vítima disso tudo foi a minha mãe. Imagine ela, uma mulher analfabeta, dona de casa, se vendo numa situação em que o marido diz que a comida não está boa e simplesmente vai embora? Imagine para ela, o marido se despedir assim e a notícia seguinte ser a do sequestro?</p>
<p>Hoje, fico imaginando como foi para ele ter que abandonar a esposa e um filho de 4 anos e ter que lutar pela sobrevivência. E como foi para a minha mãe, analfabeta, descobrir a morte dele dessa maneira, nessa situação, com todo mundo em cima dela. Foi muito para a cabeça dela. Eu acho que ela não sabia da militância do meu pai. </p>
<p>Quando tudo isso veio à tona, minha mãe mudou completamente a maneira dela de ser. Virou uma alcoólatra, dependente do cigarro. E eu só fui perceber isso aos 34 anos, idade em que comecei a juntar todas as peças. </p>
<p>Minha mãe nunca falou nada do meu pai. Sempre disse que ele tinha morrido num avião, só isso.  Ela bebia muito, ficava muito bêbada, a ponto de brigar e quebrar as coisas dentro de casa. Quando bebia, ela mudava totalmente, escutava umas músicas do Evaldo Braga, Aguinaldo Timóteo. Eu não conseguia perceber que minha mãe entrava literalmente na fossa. Ela acendia um cigarro, pegava um copo de conhaque que gostava muito e ficava escutando aquela música que colocava para dormir. </p>
<p>Nessa época, comecei a perceber as tristezas dela. Nós morávamos no terceiro andar de uma quitinete no centro de Guarulhos. Lá, quase não tinha água. Todos os dias tínhamos que ir buscar água para tomar banho no banheiro coletivo. Minha mãe ficava lá bebendo, tomando as dela e eu ficava deitado no sofá cama. </p>
<p>Depois que meu pai morreu, nosso padrão de vida mudou totalmente. A casa onde morávamos era muito boa, o local também era bom, um bairro de classe média operária. </p>
<p>Minha avó tinha uma casa no centro de Guarulhos. Era uma pensão que foi crescendo. Minha mãe trabalhava como empregada nessa casa, ajudando na limpeza. Por conta das divergências, por conta do álcool, minha avó e minha mãe se desentendiam bastante. E eu, com sete, 8 anos também não entendia minha mãe. Só fui entender depois, quando descobri toda a história.</p>
<p>Eu não perguntava sobre a morte do meu pai, era um assunto tabu. Porque eu fui criado pensando que era filho de ladrão. Não queria tocar nesse assunto, era muito complicado. Era um assunto que não podia ser falado.</p>
<p>Quando eu tinha 9 anos, minha mãe teve um AVC e perdeu todas faculdades mentais. Não andava mais, praticamente virou um bebê. E, para piorar, eu tinha um padrasto. Esse<br />
relacionamento dela foi uma das tentativas de mudar de vida. Nessa quitinete morávamos eu, minha mãe e padrasto. Ele descobriu toda a história do meu pai, porque também trabalhou na Camargo Corrêa, onde meu pai foi vigia por alguns anos. E a história que também chegou para ele era de que meu pai era ladrão, terrorista. E ele usava muito da força física contra mim, me chamando de filho de ladrão. Ele reforçava muito essa história. Ele batia na minha mãe, batia em mim. E quando minha mãe teve o AVC, ele segurou a onda por um tempo, mas quando viu que a mulher com quem ele vivia não ia mais voltar, foi embora. </p>
<p>Nós moramos nesse lugar até meus doze anos. Minha avó levava umas coisas para nós comermos ou eu ia até a casa dela buscar. Era eu quem cuidava da minha mãe, desde higiene pessoal, tudo. E quantas vezes eu também fugi para jogar bola, brincar. Aí ele dizia: “Você deixou sua mãe!”, e batia em mim. Ele achava que eu tinha a obrigação de estar lá a todo momento, resolver todos os problemas. Eu sempre fui um cara grande em comparação com a população da época. Mas o fato de eu ser grande não significava que eu tivesse que ter tanta responsabilidade. </p>
<p>Às vezes eu chegava em casa meia hora antes dele. Eu conhecia o barulho do ônibus da Zefir, empresa que a Camargo Corrêa usava. Ele entrava na avenida e desacelerava, fazia um barulho muito peculiar de ônibus antigo. Ele chegava por volta das 18 horas, então eu voltava vinte minutos antes, limpava a casa, fazia tudo correndo. Tinha que estar tudo limpo e ela de banho tomado. Se não, o couro comia.</p>
<p>Foi muito sofrimento para minha mãe. Toda a situação da morte, essa tentativa de ter uma pessoa, talvez para ocupar um espaço. E assim ele nos deixou de vez. Antes disso, eu apanhei muito, fui muito destratado. </p>
<p>Como todas as crianças, eu gostava de fazer traquinagens, jogar bola. Hoje, sou professor de educação física. Eu descia a rua, tinha umas quadras, a gente jogava, brincava. Até hoje me lembro o nome dele. Ele batia em mim e na minha mãe. É complicado porque depois de tudo isso comecei a entender a minha mãe. Quando meu pai nos abandonou, minha avó, muito dura, simplesmente jogava na minha cara: “Seu filho de ladrão”. E minha mãe, já mal daquele jeito, não reagia.</p>
<p>Minha mãe faleceu quando eu tinha 18 anos de idade. Depois que comecei entender a história do meu pai, quando eu tinha 34 anos, veio um monte de coisas na minha cabeça, para conseguir elaborar, fazer uma linha do tempo e conseguir desenvolver. Porque até então, como filho de ladrão eu nunca pensei em ir atrás de nada, porque essa era a minha história verdadeira e eu também não queria saber. Como era a história do ladrão? Eu era o filho de um ladrão, ele foi, roubou um avião e só, ponto.</p>
<p>Eu não indagava, simplesmente escutava e ficava quieto. A primeira vez que eu indaguei sobre isso, ainda pequeno, ela já tinha tido o AVC e não conseguia me falar nada. Conseguia falar, mas as ideias não batiam.</p>
<p>Quando eu indaguei minha avó, ela disse: “Ah, tinha uns jornais aí, mas sumiram”. Meu tio, que era seis anos mais velho que eu, começou a falar algumas coisas, mas também com hostilidade. Quando eu tinha 13 anos, meu tio, que para mim era como se fosse meu irmão mais velho, seguiu pelo caminho das drogas, ficava muito louco.</p>
<p>As pessoas que se relacionavam comigo, meus amigos que estão comigo até hoje não tocavam nesse assunto. Nem eu falava da minha vida nesse sentido, de chegar e falar: “Pô, meu pai é ladrão”. Eu não falava do meu pai nem da minha mãe. </p>
<p>Com 11 para 12 anos, saímos da quitinete e nos mudamos numa Kombi para a casa da minha avó. Eu e minha mãe com as sequelas todas dormíamos na sala da pensão e minha avó no quarto dela. </p>
<p>Minha avó, que há muitos anos era mascate, administrava tudo isso. De manhã ela ia trabalhar, mascateava, vendia coisas, panos, de cozinha. No período que vivíamos todos juntos na pensão, isso de filho de ladrão foi batido muito na minha cabeça, pelo meu tio e pela minha avó. Nessa época, meu tio virou usuário de drogas, dependente de álcool. Foi então que eu percebi que o homem que eu achava que era meu ídolo, meu irmão, virou praticamente um monstro. Tive essa decepção com quem eu achei que fosse “o cara”, mas não era nada. </p>
<p>Quando eu tinha 15 anos, minha avó faleceu dentro de casa, depois de uma briga que teve com meu tio. Eu e minha mãe ficamos morando lá na pensão com meu tio. Aí eu conheci quem ele era. Batia em mim e na minha mãe. Ele era usuário de cocaína, que colocava em cima da mesa e chamava os maloqueiros da rua. Ficavam lá, traficantes, tudo dentro da minha casa, cheirando, com minha mãe do lado, sem entender nada. Eu passava, olhava e nunca me ofereceram.</p>
<p>Eu era atleta, jogava bola, tive dois professores de educação física espetaculares, isso me ajudou muito. Participava das atividades de uma instituição que ajuda menores que precisam de apoio. Passei um bom tempo lá. Essa era minha fuga. Quando o bicho estava pegando, eu ia para lá. Meus amigos de infância também me ajudaram muito. Me chamavam para sair, para ir à praia.</p>
<p>Era muito complicado, porque eu era office boy, levantava cedo, ia trabalhar. E tinha vontade de fugir de tudo aquilo, mas minha mãe estava lá. Não se passava uma, duas semanas sem que houvesse a mesma explosão, a mesma briga, coisa, aquela coisa de fugir e voltar.</p>
<p>E a história do meu pai virou um tabu mesmo, eu fechei qualquer tipo de porta que pudesse trazer qualquer história dele à tona. Eu tinha medo de me decepcionar ainda mais. Assim, coloquei na minha cabeça que não era filho de ladrão e que se meu pai realmente tivesse sido um ladrão, não poderia fazer nada. Pensei: “sei que posso fazer minha vida ser diferente e ela vai ser diferente, não sei quando, mas vai, vou correr atrás da minha vida”.</p>
<p>Quem também me ajudou muito foi meu professor de educação física. Eu ia disputar jogos, treinava, competia. Eu jogava bem, no time da região. Aos domingos, tinha jogo às oito da manhã e à noite havia brigas. Parecia que era assim, passou a ser normal. Eu achava que no dia seguinte ia ser melhor. </p>
<p>Quando eu tinha 18 anos, minha mãe morreu. Numa das brigas com meu tio, ela apanhou. Eu intervi, ele saiu de casa e eu fiquei só com ela. Ela passou mal, desmaiou e eu a levei de táxi, sem um tostão, para o hospital.  Chegando lá, ela não tinha documento, porque numa briga de anos antes, ele tinha queimado todos os documentos dela. Depois de uns dias hospitalizada, ela morreu.</p>
<p>Eu me culpo um pouco com essa situação, porque eu pensei: “Minha mãe morreu, mas não foi ruim. É um pouco bom até”. E segui minha vida, ainda morando com meu tio. Parei de jogar, fui servir na Aeronáutica, de onde saí como soldado de primeira categoria, em 1987. </p>
<p>Eu não sabia nem o que foi a ditadura militar. Fui tolhido de qualquer informação na minha vida escolar. Na escola, tive OSPB, história, geografia, ciências e meus professores nunca abriram a boca, nunca falaram nada a respeito, até o terceiro ano de ensino médio. Não lembro de nada significativo que um professor tenha falado sobre a ditadura. Veja só o terror e lavagem cerebral em três, quatro, cinco gerações. Eu não tinha a menor ideia de nada. Achava que meu pai era um ladrão comum. Entrei na faculdade de esporte, aquela coisa toda que também tem uma doutrina.</p>
<p>Até eu descobrir a verdadeira história, eu tinha desencanado de saber mais. Mas alguma coisa me dizia que tinha algo a ver com a ditadura. Quando começou a haver uma abertura maior e a ditadura começou a aparecer mais eu falei: “Acho que meu pai tem a ver com essa coisa de ditadura”. Pensei em ir a um jornal pesquisar porque sabia que aqueles jornais antigos tinham sido rasgados. </p>
<p>A maneira por meio da qual eu descobri minha história foi muito linda. Foi através da jornalista Eliane Brum, que soube que meu pai não era ladrão. Em 2001, uma cunhada minha viu o nome do meu pai relacionado a uma história da ditadura. Ela ligou para minha mulher, Leila, que tinha recém operado o joelho. Ela estava em casa e recebeu a ligação da minha cunhada, que morava em São José dos Campos: “Vi uma revista na dentista e tinha uma matéria onde havia uma pessoa com o nome igual ao do Grenaldo, acho que é o pai dele. Veja lá na identidade dele. É Grenaldo Jesus da Silva?”. “Ah, acho que é, ele nunca fala do pai”, minha mulher respondeu. Aí ela foi pesquisar no computador e ligou de novo. “Leila, tem a foto do pai do Naldo, prepara ele”. Era a revista Época, que tinha acabado de ser lançada. </p>
<p>Quando eu cheguei em casa, a minha mulher me disse: “A Época está com umas histórias do seu pai..”.  Na hora, a primeira sensação é de medo. “Puxa, e agora, como é que vai ser?” Pensei, “vou ter que encarar”. E comecei a buscar na internet, falei com a minha cunhada, que disse: “A revista não está comigo, está lá na dentista”. </p>
<p>Na internet, achei o Dossiê de Mortos e Desaparecidos Políticos, e vi algumas informações concretas que indicavam que a morte do meu pai tinha sido em março de 1972. Não tive certeza de nada, minha cabeça estava fervendo. Eu tentava me segurar, mas não estava entendendo ainda, porque não tive educação, formação sobre o que foi ditadura. Não conseguia entender a dimensão da coisa. </p>
<p>Quando comecei a entender qual era o contexto histórico, tive medo pela minha filha, pela minha mulher. Contei a história para uma aluna minha de personal trainer que era professora de história. Ela sugeriu que fôssemos ao Arquivo do Estado de São Paulo. Fomos eu, ela e minha mulher. Tinha um monte de coisa, e quando abri nos jornais da época, O Globo, Folha de São Paulo, as revistas da época, todos diziam que ele era terrorista. Fiquei muito decepcionado, pensando. “Puxa, o que falaram do meu pai era verdade. Meu pai é um ladrão”. Fiquei muito arrasado. Vi a minha foto no jornal O Globo, a entrevista da minha mãe que estava ao lado. Tem outra parte que fala do enterro do meu pai. </p>
<p>Eu não entendia a manipulação que todos os canais de mídia faziam naquela época. Aí disse: “Quero conversar com essa mulher que fez essa revista”. Pesquisei o nome Eliane Brum e pedi para a minha aluna fazer a intermediação do contato. Ela ligou e a Eliane disse a ela: “Você conhece o Grenaldo? Eu estou procurando por ele”.</p>
<p>Aí marcamos o encontro numa pizzaria. Fomos eu, minha mulher e a minha aluna. Até então eu tive mais medo. Foi a Eliane que me aliviou. Meu peso era muito grande por conta da carga familiar e ainda mais por conta de tudo que vi nos jornais. Eu precisava liberar ou enterrar de vez aquela história. Ela já veio com livros Dos Filhos deste solo, Combate nas trevas, A Ditadura Escancarada, a Revolta dos Marinheiros.</p>
<p>Comentei algo sobre meu medo, minha situação, sentir esse fardo nas minhas costas, do ladrão, de tudo que vi. Ela colocou a mão em mim e disse. “Seu pai é um herói, não tenha vergonha dele, não. Não tenha medo da sua história. Leia isso, depois a gente conversa”. </p>
<p>No final, ela disse: “Tenho uma coisa para te contar. Tem uma pessoa que quer te conhecer. Posso marcar uma reunião para você conhecê-lo?” E na hora pensei: “É o cara que matou meu pai, meu Deus”. </p>
<p>Me preparei emocionalmente para o encontro, que foi na casa da Marisa. A Eliane perguntou se eu me incomodaria que ela levasse um fotógrafo. E eu com isso na cabeça, de que a pessoa que ela levaria seria o cara que tinha matado o meu pai. </p>
<p>No dia do encontro, o homem entrou, me deu um abraço, sentou e começou a contar a história dele: que ele era um controlador de voo, que era sargento da Aeronáutica [José Barazal Alvarez]. Disse que ele atendeu a uma ocorrência do meu pai, e quando percebeu que era um sequestro, começou a conversar com o meu pai e com o piloto. Ele me disse que percebeu que meu pai não era a pessoa que estavam falando. O avião estava indo para Curitiba e a intenção do meu pai era de ir ao Uruguai, onde, à época, não tinha ditadura. José disse que percebeu que havia alguma coisa diferente, que meu pai estava sozinho, numa situação de desespero total. </p>
<p>Ele foi o encarregado de fazer o inquérito, o Inquérito Policial Militar do caso. Ele conta que queria dar baixa, mas que não conseguia, muitos amigos haviam desaparecido e viveu sob medo por muito tempo, porque não estava de acordo com o que estava acontecendo.</p>
<p>Na hora de fazer o inquérito, o corpo do meu pai estava dentro de um carro. Ele mexeu no corpo e viu que havia uma perfuração na cabeça.<br />
Quando ele contava isso, olhou para mim e disse: “Seu pai não se suicidou, seu pai foi morto” e “Seu pai não era um ladrão. Seu pai era um herói”. Nessa hora eu ajoelhei, e comecei a orar: “Deus, muito obrigado, o Senhor está me libertando de uma parede enorme que tinha na minha frente”. Eu estava apoiado nos joelhos e não via mais nada. Ele veio perto de mim, me abraçou e disse: “Tenho mais uma coisa para te falar: Seu pai deixou uma carta para você, pedindo desculpas, dizendo que não queria fazer nada disso, mas que não podia mais estar junto a você e sua mãe”. </p>
<p>Ele disse que a carta existe, que está na Marinha: “Essa carta foi feita para você. Ela ficou nas minhas mãos e foi aí que eu percebi quem era seu pai, que eu podia em algum momento talvez ter sido ele” . Porque ele, como sargento da Aeronáutica, não concordava com o que estava acontecendo. Eu falei: “Zé, você fez a coisa mais maravilhosa do mundo”. </p>
<p>Esse momento foi muito bonito. Quem estava lá quando nos encontramos viu a presença de Deus, todo mundo estava chorando. </p>
<p>Essa frase “Seu pai não foi um ladrão. Seu pai foi um herói” eu tenho na minha cabeça e isso faz a minha vida seguir. A minha vida acelera. Se alguém vier e me mandar abaixar a cabeça, antes eu até podia abaixar. Mas agora, não. Agora eu peito, agora eu vou para cima. Quando meus filhos falam: “Eu não consigo&#8230;”, eu digo: “Não fale que não consegue. </p>
<p>Essa palavra não pode existir. Você consegue, você sabe, você vai&#8230;Você é neta do Grenaldo!”. Minha vida mudou depois disso. Hoje sou um Grenaldo muito diferente. Sou o Grenaldo filho do herói.</p>
<p>Isso e a tortura da minha mãe foram as coisas que mais marcaram a minha vida. Acho que não existe tortura pior do que a que ela sofreu depois da morte do meu pai: O AVC, o alcoolismo, morando muito mal, apanhando do meu padastro, depois do meu tio. Ela foi a mais torturada. E eu de tabela.</p>
<p>Então, o Zé foi o meu libertador e a Eliane Brum um anjo que Deus colocou na minha vida. A partir daí comecei uma outra luta, de pesquisa, correndo atrás, lendo.. E fomos, a </p>
<p>Eliane e eu, atrás do Inquérito Policial Militar. Nós encontramos um pedaço da carta, que estava rasgada.<br />
Eu tentei resgatar a história do meu pai através das ações que eu movi. A própria indenização do governo federal é um reconhecimento legal disso. O sargento [Augusto Carlos] Cassaniga foi quem executou meu pai, mas nunca fui atrás disso.</p>
<p>Depois disso tudo, no começo de 2003, conheci minha avó paterna. A Eliane me disse: “Mandei a revista para a casa da sua avó”, e eu “onde ela está?”. “No Maranhão”, disse ela. Na chegada a São Luís, descendo do avião, já percebi que era a minha avó. Ela me abraçou, começou a chorar. Foi muito especial. Nos dias que fiquei lá, ela ficava me abraçando, me tocando, pegando no meu cabelo. Parecia que estava vendo meu pai.</p>
<p>Aí descobri que, em 1971, quando meu pai saiu de casa, foi para o Rio de Janeiro e de lá para o Maranhão. Chegando lá, disse à minha avó: “Mãe, tenho um filho. O nome dele é Grenaldo e a foto dele é essa”. E atrás da foto está escrito assim: “Oi, eu sou o Naldinho, tenho três anos. Quando eu crescer, irei até o Maranhão”.  Ou seja, como eles sabem que eu era filho do meu pai? Como eles têm certeza disso? Porque é a mesma foto que eu tenho, que foi publicada na reportagem da revista Época. Minha avó viu a reportagem que a Eliane mandou onde tinha a mesma foto.</p>
<div style="background-color:#6c9188; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut</strong> nasceu em 27 de abril de 1968 em Guarulhos (SP). Filho de Grenaldo de Jesus Silva e Mônica Mesut, é professor de Educação Física e mora em São Paulo.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#9dd7c9; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Grenaldo de Jesus Silva</strong> nasceu em 17 de abril de 1941, em São Luís no Maranhão, filho do alfaiate Gregório Napoleão Silva e da servente de escola Eneida Estela Silva.<br />
Era o filho mais velho dentre 12 irmãos. Ingressou na Escola de Aprendizes de Marinheiros do Ceará em 1960. Em 30 de setembro de 1964, quando era marinheiro de 2ª classe, foi expulso em função de sua militância política e acabou condenado a cinco anos e dois meses de prisão. Fugido, chegou a Guarulhos (SP), onde trabalhou por cinco anos. Lá se casou com Mônica Edmunda Messut e tiveram um filho. Trabalhou de 1965 a 1970 como porteiro e vigilante na empresa Camargo Corrêa. Em 1971 começou a receber cartas que o deixavam nervoso, provavelmente avisando que a repressão havia conseguido descobrir seu paradeiro. Grenaldo saiu de casa dizendo que buscaria a família para viverem uma vida melhor. A mulher só voltou a ter notícias dele quando foi divulgada sua morte por ocasião do sequestro de um avião no Aeroporto de Congonhas, na cidade de São Paulo.<br />
Foi assassinado em 30 de maio de 1972, neste Aeroporto, quando tentava sequestrar um avião da Varig, que voava para Curitiba e acabou retornando para São Paulo. Após negociar a saída de todos os passageiros e a maior parte dos tripulantes, a aeronave foi invadida e Grenaldo, mesmo imobilizado, recebeu um tiro na cabeça dado por agentes do DOI-CODI/SP. Sua execução foi contada em detalhes pelos policiais aos presos políticos do DOI, quando voltaram da operação aos gritos de alegria.<br />
A versão policial foi de suicídio. De acordo com os registros do Cemitério D. Bosco, em Perus, seus restos mortais encontram-se entre as 1.049 ossadas da vala clandestina criada ali em 1976 e descoberta apenas em 1990.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#94a6a2; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Mônica Edmunda Messut</strong> nasceu na Alemanha. Sua mãe Christina fugia deste país depois da Segunda Guerra Mundial quando, no caminho, encontrou uma mulher morta e, nos braços, um bebê ainda com vida, era Mônica. Decidiu, com todas as adversidades de uma Europa devastada, salvar a criança levando-a consigo. Esta dura história de sobrevivência traduziu-se em uma família que não gostava de falar do passado, o que justifica as poucas explicações que pediram a Grenaldo quando o conheceram. Mônica e Grenaldo se apaixonaram e tiveram um único filho, que leva o nome do pai. Depois do assassinato de seu companheiro passou por muitos problemas, inclusive dependência alcoólica, e teve um acidente vascular cerebral que a deixou com danos permanentes. Seu filho tinha 9 anos na época e se tornou o responsável pelos seus cuidados. Nove anos depois ela morreu. O filho acredita que a mãe nunca soube da militância do seu pai.<br />
Essas informações são baseadas em uma matéria de Eliane Brum na revista Época de novembro de 2003.</p>
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		<title>Uma rede de solidariedade</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 22:23:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[José Paulo De Luca, José Paulo Vitalli Ramos, Alexandre ou Xandinho nasceu e viveu na clandestinidade nos seus primeiros anos de vida. Teve vários registros de nascimento com nomes e mães diferentes. Oito cidades, dois estados, cinco países foi o roteiro durante quase três anos. Lugares desconhecidos, com pessoas desconhecidas, passando de mão em mão. [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>José Paulo De Luca, José Paulo Vitalli Ramos, Alexandre ou Xandinho nasceu e viveu na clandestinidade nos seus primeiros anos de vida. Teve vários registros de nascimento com nomes e mães diferentes.</p>
<p>Oito cidades, dois estados, cinco países foi o roteiro durante quase três anos. Lugares desconhecidos, com pessoas desconhecidas, passando de mão em mão. Dezenas de mãos solidárias cuidaram dele, sabendo apenas que a mãe era procurada pela ditadura.</p>
<p>Em 18 de abril de 1972, aos três meses de idade deixei-o com Joana Lopes, num hospital em Londrina. Sem ter ideia dos fatos, ela segura o menino. Expliquei que meu marido fora preso por problema político, e saí rapidamente sem dar-lhe tempo de reagir. Não podia por em risco a vida de meu filho. Precisava impedir que caísse nas mãos da repressão se eu fosse presa. Joana conversa com os médicos do hospital e o menino fica internado no berçário por vários dias até conseguirem uma solução.</p>
<p>Sai do berçário e vai para a casa de vários professores universitários. Passava uma noite em cada casa. Por segurança e por que as pessoas tinham de manter seus horários de vida normais, para não suscitar desconfiança. Esse período ele teve como anjo da guarda Eda Arzua.</p>
<p>A médica Elzira Vilela busca-o em Londrina e leva para Curitiba. Ali, o menino passa dias e noites no Seminário Catarinense, aos cuidados do Padre-diretor Evaristo Debiasi e os seminaristas Vertolino e Sergio Maikot.</p>
<p>O bebê chorava e os seminaristas davam mamadeira. Quanto mais mamadeira, mais o bebê chorava. Não sabiam trocar fraldas e receavam chamar alguém. Queriam que o menino se calasse para não chamar a atenção dos demais sacerdotes e seminaristas. Como explicar um bebê num seminário católico, onde só moravam homens? O menino chorava e chorava. Saíram na madrugada gelada de Curitiba em busca de um pediatra. O pediatra pensou que o menino fosse filho de algum padre. Eles negam e o pediatra não fez mais perguntas. Apenas aconselha a darem mamadeira de quatro em quatro horas. Quase mataram o menino de tanta comida!</p>
<p>Militantes da Ação Popular se mobilizam em Santa Catarina. Quem o abriga, enrola numa manta quentinha é a jornalista Márcia Maykot.Num Volkswagen descem a Serra Geral em direção à Ilha de Santa Catarina.</p>
<p>Em Florianópolis, em frente à Maternidade Carmela Dutra é entregue para João Soccas, que pediu apoio ao casal francês Pihilippe e Bernadette Vialle. O estudante de engenharia, solteiro, faltava às aulas para cuidar do menino. Aprendeu a trocar fralda e esquentar mamadeira que Bernadette deixava pronta antes de sair de casa.</p>
<p>Semanas depois, em frente a mesma maternidade, o casal francês entrega o menino para o casal Ivo e Onadyr de Jesus de Itajaí. O menino segue para Itajaí com o nome de Alexandre, um pacote de remédios e várias recomendações, escritas numa folha de caderno, em tinta vermelha, num português arrevesado.</p>
<p>Calada e muda, Onadyr segura as línguas das mulheres. As vizinhas xeretavam. Diziam que ela era burra e a criança devia ser filha do Ivo com outra mulher. A cunhada desconfiada perguntava de quem era a criança. Com cinco filhos e tendo mais uma criança para alimentar, Onadyr nunca se queixou nem explicou a origem da criança. Apenas o vigário, padre Taicyl, sabia. Durante quase um ano o menino ficou em Itajaí, quando então é devolvido ao casal Vialle e daí segue para casa da avó Maria Rizzieri. Nesse período, teve como anjo Valmir Martins e Murilo Canto. Onadyr faz questão de fotografá-lo. Fotografia esta que manteve escondida durante trinta anos. Em Içara é cuidado pela Ica – Nadir dos Santos, enquanto a avó vai trabalhar.</p>
<p>Meses depois, se prepara para viajar a Cuba com permissão do Juiz de Menores, Wladimir Divanemko, que ordena o registro do menino com o nome verdadeiro da mãe. Cuba e Brasil não tinham relações diplomáticas. O Juiz não se aperta. Escreve no despacho: Para ir ao encontro da mãe.</p>
<p>Tia Darcy Terezinha De Luca e Dozolina Rizzieri viajam a Buenos Aires, onde as aguarda Yurina, da Juventude Cubana. Passam dois dias num hotel. Viajam ao Peru e Darcy acompanha-os até o embarque, em Lima. Ao entrar no avião, o menino percebe que tia Darcy não está, escapa da mãe de Yurina e sai correndo pela pista. Segundo o companheiro cubano organizador da viagem, foi o momento mais tenso da missão. O menino só tinha autorização para viajar com tia Darcy. No avião da companhia aérea Cubana de Aviación ele não sossegou, nem comeu. Tomou 17 sucos de laranja. </p>
<p>Yurina me entrega um menino de 2 anos e três meses, já caminhando.</p>
<p>Em Havana, fomos acompanhados pelos psiquiatras Elza Gutierrez e Alberto Lavandera.Em 1979, com a Lei de Anistia voltamos ao Brasil. Levei 32 anos para refazer sua trajetória desde o momento em que eu o deixei em Londrina, até a chegada em Havana. Faltam muitas lacunas a preencher, mas uma verdade é notável. Apesar da ditadura, meu filho foi envolvido numa rede de solidariedade que garantiram sua segurança. O Diário Catarinense publicou a história, em 2005 sob o título: “O bebê que driblou a ditadura”.</p>
<p></p>
<div style="background-color:#dcded1; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Derlei Catarina De Luca</strong> nasceu em Içara (SC), em 17 de setembro de 1946. Era estudante secundarista quando houve o golpe de 1964. Foi militante da Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Ação Popular (AP). Foi presa em Ibiúna junto com outros estudantes catarinenses que participaram do XXX Congresso da UNE, em 1968. Entrou para a clandestinidade em 13 de dezembro de 1969 e logo depois, de acordo com definição da organização, integrou-se na produção, indo trabalhar numa tecelagem, em Curitiba. Foi deslocada pela organização para um trabalho em São Paulo, onde foi presa pela Operação Bandeirante (OBAN), em novembro de 1969. Torturada no pau de arara, foi submetida a choques elétricos e chegou a entrar em coma. Quando saiu da prisão, em abril de 1970, foi para Florianópolis (SC), sendo acolhida por Dom Afonso Niehues, arcebispo da cidade. Ficou lá por dois meses, acompanhada por médicos. Em seguida, foi mandada para a Bahia por sua organização. Ficou em Feira de Santana até começo de 1972, de onde saiu com o nome de Maria Luiza Vitali. De lá, seguiu para Londrina (PR), grávida de vários meses. Seu filho, José Paulo De Luca Ramos nasce em 11 de janeiro de 1972. Em abril, seu marido, Nilo Ramos, é preso. Obrigada a fugir, Derlei deixa seu filho na porta de um hospital em Londrina e segue para o Chile. Com o golpe que derrubou Salvador Allende, vai para Cuba. O menino percorre um longo caminho até ser entregue em Havana, já com 2 anos e três meses de idade. Estudou história na Universidade do Oriente, em Santiago de Cuba. Após a Lei Anistia em 1979 e de retornar do exílio em Cuba, Derlei participou das buscas pelos catarinenses mortos e desaparecidos políticos.Fundou e coordenou o Comitê Catarinense Pró Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos, hoje Memorial dos Direitos Humanos.<br />
Em 1988, recebeu o título de Cidadã Honorária de Criciúma e, em 2001, recebeu da Assembleia Legislativa de SC a Medalha Antonieta de Barros. É autora de diversos livros, entre eles Os jasmins do Jardim de Paolo, À sombra da Figueira e No corpo e na alma, Além da lenda e o livro didático de história e geografia do município de Içara.<br />
É professora e coordena o Coletivo Catarinense pela Memória Verdade e Justiça. Membro do CASC e da Rede Brasil Memória, Verdade, Justiça.</div>
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		<title>O bêbe que a Ditadura  separou da mãe</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 22:09:03 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Eu sou José Paulo De Luca Ramos, filho de Derlei Catarina De Luca e Nilo César Sobral Ramos. Nasci em 1972, em Londrina (PR). Na época, meu pai e minha mãe passavam por lá fugindo da polícia. Quando eu tinha 1 ano de idade, minha mãe já havia sido presa e torturada, e precisou fugir [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sou José Paulo De Luca Ramos, filho de Derlei Catarina De Luca e Nilo César Sobral Ramos. Nasci em 1972, em Londrina (PR). Na época, meu pai e minha mãe passavam por lá  fugindo da polícia. Quando eu tinha 1 ano de idade, minha mãe já havia sido presa e torturada, e precisou fugir do Brasil para não ser morta. Acabou indo para Cuba. Ela foi na frente e eu um ano depois. Cheguei à Ilha com 2 anos de idade, em 1974, onde morei por cinco anos. Minha mãe, por seis. Tenho lembranças da gente voltando em 1979, na época da Anistia.</p>
<p>Da infância em Cuba eu não tenho do que reclamar, porque foi uma fase muito boa. No período em que morei lá, dos 2 aos 7 anos, tinha educação, saúde, mas, óbvio não tinha o meu pai. Ele ficara no Brasil. Antes de irmos para Cuba, meus pais se separaram. Então, até os 7 anos não tive nem a presença do meu pai nem a falta dele, o que é diferente de se perder um pai. Então, como criança, naquela época, eu não sofria por conta disso.</p>
<p>Em Cuba, tive muitas crises de asma. Mas como lá o sistema de saúde já era avançado, quando as crises começavam eu era internado e devidamente tratado. Acho que foram 22 internações nesses cinco anos por crise de asma. Não sei se isso é diferente de outro asmático que não teve uma mãe torturada. Não faço essa relação. Tive crises até meus 15, 16 anos. Depois, deu uma parada e ficou mais psicológico, eu diria. Quando tem algum desafio, quando eu fico um pouco angustiado me dá uma crise. Hoje meu filho de 8 anos tem asma também, mas bem mais amena porque conseguimos tratar desde cedo.</p>
<p>Também tem a história dos psicólogos, que faz parte das coisas que eu não lembro, mas que minha mãe sempre conta. “Você teve ajuda psicológica em Cuba”. Talvez, hoje, os poucos momentos de crise de asma sejam um mecanismo de defesa da minha mente.</p>
<p>Mas ir em busca de ajuda psicológica foi uma das razões que fez a minha mãe ir para Cuba. Quando voltamos para o Brasil tive algumas conversas com psicólogo e foi por isso que fomos morar no interior. Para estar junto da família. </p>
<p>Uma vez no Brasil, tive toda a estabilidade de ter uma família grande, de conhecer meu pai, meus avós. Isso foi em 1980, eu tinha de 8 para 9 anos. Considero que tive uma infância normal, não me acho diferente de outras crianças por conta do que ocorreu com minha mãe no período da ditadura. Lógico que tem a lacuna da ausência da família durante cinco anos, mas naquele momento eu não tinha a consciência dessa falta. </p>
<p>A minha infância e juventude foram muito normais. Estive envolvido com a política, com a luta pelas Diretas Já, também me lembro da criação do PDT em Santa Catarina. </p>
<p>Depois, mais velho, eu posso até repetir o ditado: “Mãe liberal, filho conservador”, porque eu procurei muita segurança. Fiz engenharia, administração e busquei o lado da racionalidade. Não sei se inconscientemente ou não. Depois de me formar, fui estudar fora, fiz MBA em finanças e voltei para o Brasil. Não sei se foi uma escolha inconsciente ou consciente de eu procurar esse lado da racionalidade, de ir para o lado da segurança. </p>
<p>Na infância, meu nome permaneceu sempre o mesmo, José Paulo, mas tinha algumas certidões com sobrenomes diferentes porque meus pais usavam nome falso. Essa questão foi se resolvendo ao longo da minha juventude, quando eu tinha entre 15 e 18 anos. Mas nunca foi um trauma. Simplesmente tinha algumas coisas na vida diferente das outras crianças, mas nada que me traumatizasse. Minha mãe estava ali, meu pai estava ali, minha família. Eu cresci no interior de Santa Catarina, o que fez muito bem para mim. Ter essa base sólida de família, de ter todo mundo lá. Então, mesmo que meus pais fossem separados, eu tinha a figura do pai, a figura da família. Nunca ficou um elo faltando. </p>
<p>Tem algumas coisas que a gente, como filho, sente, mas evita falar para os pais. Minha mãe sempre falou das coisas. Da tortura, ela foi falando mais tarde, porque como é uma coisa que machuca quando a gente fala, e evitávamos.</p>
<p>Quando minha mãe foi para Cuba, eu tinha entre 1 e 2 anos, fiquei um ano perambulando em Santa Catarina pela casa de algumas famílias para a polícia não me prender. Foi um período que só conseguimos refazer  no ano 2000 quando descobri a casa onde fiquei num período de dois, três meses. Havia essa lacuna na minha história. Claro que essa experiência diferenciou a minha infância da de outras crianças da época. </p>
<p>A maior parte desse período fiquei com minha avó. Mas fiquei, também, com padres em seminários, conventos e uma família em Itajaí. Tem também histórias de alguém ir me buscar em algum lugar, levar para minha avó me ver e voltar. Por conta disso, muitas vezes eu me questionei, brincava com a minha mãe, perguntando: “Será que eu sou eu mesmo, não me trocaram em algum lugar?” E aí isso foi se materializando, diminuindo. Depois, fui vendo a semelhança física com meu pai, então é uma ferida sarada. </p>
<p>A minha mãe conta a história que embora eu tenha chegado em Cuba com 2 anos, só fui chamá-la de mãe quando eu tinha 3. E queria sempre voltar para minha avó, que era meu ponto de referência. Mas isso, de novo, é a minha mãe que conta, as famílias que me acolheram naquela época me contam, porque eu não lembro disso. </p>
<p>Mas essas histórias não era eu quem buscava e sim minha mãe. Não é que a gente, como filho, negue. Mas a gente evita falar. Nossos pais buscam toda informação possível. E a gente não. Eu fico mais na minha. Por exemplo, eu não participo assiduamente das coisas que minha mãe busca. Apoio, mas não é uma coisa que eu queira buscar. E talvez isso seja assim para não me abalar emocionalmente. Eu estou bem sem ir buscar. </p>
<p>Fora isso, eu tenho muito orgulho de ser filho da Derlei, ela é uma verdadeira heroína por tudo o que ela passou, por tudo o que ela viveu, de querer mudar o Brasil. Ela fez de uma forma, e eu procuro fazer, também, da minha maneira. </p>
<p>Hoje tenho três irmãos por parte de pai. A gente tem um relacionamento, não diria de irmãos, mas de amigos. É um relacionamento bom. E meu pai existe, está lá. Eu não busco a falta de um pai. Eu não tenho que preencher uma lacuna. Elas estão todas saradas. Ou espero, eu acho que estão.</p>
<div style="background-color:#959c74; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>José Paulo De Luca Ramos</strong> nasceu em Londrina (PR) em 1972. É filho de Derlei De Luca e Nilo Ramos. Estudou engenharia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), administração na ESAG e fez MBA em finanças na Universidade de Michigan. Hoje mora em São Paulo, é casado com Luciana e tem dois filhos, João Paulo, que nasceu em 2005 e Ana Lúcia, que nasceu em 2009. É executivo no setor financeiro.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#dcded1; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Derlei Catarina De Luca</strong> nasceu em Içara (SC), em 17 de setembro de 1946. Era estudante secundarista quando houve o golpe de 1964. Foi militante da Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Ação Popular (AP). Foi presa em Ibiúna junto com outros estudantes catarinenses que participaram do XXX Congresso da UNE, em 1968. Entrou para a clandestinidade em 13 de dezembro de 1969 e logo depois, de acordo com definição da organização, integrou-se na produção, indo trabalhar numa tecelagem, em Curitiba. Foi deslocada pela organização para um trabalho em São Paulo, onde foi presa pela Operação Bandeirante (OBAN), em novembro de 1969. Torturada no pau de arara, foi submetida a choques elétricos e chegou a entrar em coma. Quando saiu da prisão, em abril de 1970, foi para Florianópolis (SC), sendo acolhida por Dom Afonso Niehues, arcebispo da cidade. Ficou lá por dois meses, acompanhada por médicos. Em seguida, foi mandada para a Bahia por sua organização. Ficou em Feira de Santana até começo de 1972, de onde saiu com o nome de Maria Luiza Vitali. De lá, seguiu para Londrina (PR), grávida de vários meses. Seu filho, José Paulo De Luca Ramos nasce em 11 de janeiro de 1972. Em abril, seu marido, Nilo Ramos, é preso. Obrigada a fugir, Derlei deixa seu filho na porta de um hospital em Londrina e segue para o Chile. Com o golpe que derrubou Salvador Allende, vai para Cuba. O menino percorre um longo caminho até ser entregue em Havana, já com 2 anos e três meses de idade. Estudou história na Universidade do Oriente, em Santiago de Cuba. Após a Lei Anistia em 1979 e de retornar do exílio em Cuba, Derlei participou das buscas pelos catarinenses mortos e desaparecidos políticos.Fundou e coordenou o Comitê Catarinense Pró Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos, hoje Memorial dos Direitos Humanos.<br />
Em 1988, recebeu o título de Cidadã Honorária de Criciúma e, em 2001, recebeu da Assembleia Legislativa de SC a Medalha Antonieta de Barros. É autora de diversos livros, entre eles Os jasmins do Jardim de Paolo, À sombra da Figueira e No corpo e na alma, Além da lenda e o livro didático de história e geografia do município de Içara.<br />
É professora e coordena o Coletivo Catarinense pela Memória Verdade e Justiça. Membro do CASC e da Rede Brasil Memória, Verdade, Justiça.</div>
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		<title>Crime: ser filho de resistente</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 21:51:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Santa Cruz Leite]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Rosalina de Santa Cruz Leite sobre André de Santa Cruz Leite Fui presa pela primeira vez em 1971. Fui torturada, conheci o limite humano da dor, da força bruta e da derrota de um sonho e a impotência diante da violência desmedida do Estado terrorista, implantado pela ditadura militar no Brasil. Sofri quase todos [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Por Rosalina de Santa Cruz Leite<br />
sobre André de Santa Cruz Leite</p>
<p>Fui presa pela primeira vez em 1971. Fui torturada, conheci o limite humano da dor, da força bruta e da derrota de um sonho e a impotência diante da violência desmedida do Estado terrorista, implantado pela ditadura militar no Brasil.  Sofri quase todos os tipos de torturas físicas e psicológicas pelas quais passavam todos os presos políticos na década de 1970. Além de ter passado pela famigerada “geladeira”, a sala escura, o emparedamento que nos fazia perder a noção de tempo e de espaço. Fiquei um ano presa no Rio de Janeiro, na Vila Militar e depois no Presídio Talavera Bruce, em Bangú.</p>
<p>Sai da cadeia em 1973, mudei-me pra São Paulo e pensei que nada pior do que passara poderia me voltar a acontecer. Foi, então, que meu irmão querido, que como eu era militante da esquerda, estudante e socialista, Fernando Santa Cruz, um dia saiu para cobrir “um ponto”, isto é, um encontro político com um companheiro, Eduardo Collier, da sua organização, a APML (Ação Popular Marxista-Leninista). Era 23 de fevereiro de 1974, Fernando e Eduardo nunca mais voltaram. </p>
<p>A procura que envolveu toda a nossa família para encontrar Fernando, saber as circunstâncias da sua prisão, do seu assassinato e a localização dos seus restos mortais, levou a mim e ao meu companheiro, Geraldo Leite, à nossa segunda prisão, em abril de 1974, agora na Operação Bandeirante (DOI–CODI/SP). </p>
<p>Eu e Geraldo fomos, então, novamente submetidos a torturas como “cadeira do dragão”, “palmatórias” e “pau de arara”. Entretanto, a pior tortura nessa segunda prisão foi o fato de ter um bebê de cinco meses, meu filho André de Santa Cruz Leite, que ficou por três dias em poder dos policiais, trancado no nosso apartamento. A equipe de busca do DOI-CODI montou na nossa casa aparelhos de escuta e ali ficaram nesses três dias para prender quem chegasse ao apartamento. Sem poder mamar e acostumado a ter a mãe por perto, André, segundo a “menina” que cuidava dele, chorava muito e os policiais, irritados, o ameaçavam.</p>
<p>Meu irmão Marcelo Santa Cruz chegou ao apartamento três dias após a nossa prisão, ao tomar conhecimento do ocorrido, intercedeu para que André fosse entregue a um de nossos familiares. Para amedrontar e pressionar Marcelo, os policiais torturadores pegaram o André e ameaçaram jogá-lo pela janela. Logo depois, Marcelo foi levado para a OBAN onde ficou por uma noite preso, levando pontapés e sofrendo ameaças. Ao ser liberado, meu irmão levou uma autorização minha para retirar o André do apartamento. Ao chegar de volta ao apartamento, os policiais já haviam abandonado o local e a “menina” estava de saída levando o André para Minas Gerais onde  morava sua família. Ela contou que ao desocuparem o apartamento, pouco antes do Marcelo chegar, eles disseram que ela poderia levar o nosso filho, pois nós éramos “bandidos e terroristas” e não voltaríamos mais para rever a criança.</p>
<p>Na OBAN, compartilhei com as companheiras, entre elas Nádia Lúcia do Nascimento, que havia sofrido um aborto sob tortura, o desespero de não saber o que estava acontecendo com o meu bebê. O fato de ter suspendido abruptamente a amamentação fazia com que eu sentisse muitas dores nos seios, o que não me deixava ficar nem um minuto sem sentir a falta física de meu filho.</p>
<p>As crianças da minha família sofreram as consequências dos terríveis momentos de perdas, de pressão e ameaças que passaram, cada uma de forma muito diferente entre si. O André, meu filho que nasceu dez meses depois da saída da minha primeira prisão, e que tinha quatro meses quando Fernando desapareceu, foi desde a gestação muito marcado pela nossa aflição e medos, buscas e ausências durante seu primeiro ano de vida.</p>
<p>A Alexandra, filha da minha irmã Elzita de Santa Cruz Pimenta, desenvolveu desde cedo fobia social e síndrome de pânico que não a tem permitido trabalhar. Já André tornou-se uma criança e um jovem muito marcado pelo que passou nesses anos terríveis de nossas vidas. Por tudo isso, desenvolveu uma dependência química que o levou a internações e a muito sofrimento psíquico. </p>
<p>Já o Felipe [Santa Cruz], filho de meu irmão Fernando, até hoje não conhece as circunstâncias do desaparecimento e assassinato de seu pai. Ele viveu anos da sua infância em busca de uma explicação para o fato do pai, tão amoroso e presente na sua vida, ter “sumido” assim “de repente” e nunca mais ter voltado. Felipe é hoje presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro, mas tem muitas sequelas emocionais, todas fruto da dor que sentiu pela perda do pai.</p>
<p>André, Alexandra e Felipe, eles não lembram desses momentos, mas cada um teve um modo de se defender de experiência cruel que atingiu diretamente seus pais e a eles, cujo crime maior era o de ser nossos filhos. Hoje, cada um a seu modo, luta por um mundo justo e solidário e são pessoas dignas, que se orgulham de ser e fazer parte de uma família de resistentes.</p>
<div style="background-color:#a8a390; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Carta de Felipe</strong><br />
(Felipe Santa Cruz, filho de Fernando, aos 11 anos de idade)<br />
Todo mundo  podia pensar que eu escreveria uma carta triste. Mas não. Eu escreverei uma carta dizendo tudo o que acho. Eu tenho uma ideia de como era meu pai, devia ser um homem que lutava contra a ditadura militar do presidente Médici que foi uma das que mais teve repressão e morreu como muitos outros que tentaram o mesmo.<br />
Eu tenho uma vida feliz, mas ele está na minha cabeça como o meu outro pai. Sabe, minha mãe casou de novo com um homem que eu considero muito meu pai, tanto quanto o outro, pois eu tenho 11 anos e meu pai morreu quando eu tinha dois anos. Hoje moro em Porto Alegre e sou muito feliz. Torço pelo Internacional e faço muitas coisas como jogar na escolinha do Bráulio.<br />
E ao fim de tudo eu acho que alguém um dia vai acabar com essa ditadura militar.    </p>
<p>Esta carta está publicada no livro Onde está meu filho?</p></div>
<p></p>
<div style="background-color:#e0dbca; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Rosalina de Santa Cruz</strong> nasceu em Recife (PE), filha de Elzita Santos de Santa Cruz Oliveira e Lincoln de Santa Cruz Oliveira. Começou sua militância política na Juventude Estudantil Católica em Recife (PE). Foi militante da VAR-Palmares no Rio de Janeiro (RJ), onde ficou presa entre 1971 e 1972.<br />
Respondeu a Inquérito Policial Militar (IPM) no Rio de Janeiro, tendo sido julgada e condenada pela Lei de Segurança Nacional a um ano de prisão. Sua segunda detenção foi em São Paulo, em 1974, pela OBAN.<br />
É irmã de Fernando  Santa Cruz, preso político desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Foi militante do movimento pela Anistia, uma das fundadoras da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Participou do Movimento de Mulheres. Foi Secretária Municipal da Assistência Social do governo Luiza Erundina. Atualmente é membro da Comissão da Verdade da PUC/SP, onde é professora do curso de Serviço Social desde 1980.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#b5dca5; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Fernando Augusto de Santa Cruz</strong>, filho de Elzita Santos de Santa Cruz Oliveira e Lincoln de Santa Cruz Oliveira. Nasceu em 20 de fevereiro de 1948, em Recife, Pernambuco. Desaparecido desde 1974, aos 26 anos. Militante da Ação Popular Marxista-Leninista (APML).<br />
Era casado com Ana Lúcia e tinha um filho: Felipe. Foi preso junto com Eduardo Collier Filho, em 23 de fevereiro de 1974, em Copacabana, no Rio de Janeiro, por agentes do DOI/CODI-RJ. Logo em seguida, o apartamento foi invadido pelos órgãos da repressão.<br />
Em 14 de março de 1974, buscando saber do paradeiro de Fernando e Eduardo, as duas famílias foram ao DOI-CODI/SP, cujo carcereiro de plantão, conhecido como “Marechal”, confirmou que os dois jovens estavam presos ali, só podendo receber visitas no domingo, dia 17. Foram deixados, então, para eles, objetos de uso pessoal. Posteriormente, esses objetos foram devolvidos, com a justificativa de que se tratava de um engano, pois os dois não estavam ali. </div>
<p></p>
<div style="background-color:#d8faca; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Elzita de Santa Cruz</strong>, nasceu em Água Preta (PE), casou-se com Lincoln, médico sanitarista. Teve dez filhos, 28 netos e 24 bisnetos.<br />
Parte de seus filhos foi atingido pela ditadura militar, como Marcelo, que foi expulso da faculdade e Rosalina que foi presa e torturada. E por fim Fernando, seu quinto filho, preso e desaparecido em 23 de fevereiro de 1974. Foi a partir do desaparecimento do filho que começou a via-crúcis de dona Elzita a quartéis do Rio de Janeiro, Recife, de São Paulo, de cartas – sem resposta- a autoridades civis e militares.A luta incansável da mãe de Fernando pelo esclarecimento da situação dos desaparecidos políticos no Brasil e por informações do paradeiro de seu filho é retratada no livro Onde está meu filho?<br />
É uma das lutadoras pela anistia e pela democratização do país e hoje, aos 100 anos, segue, ao lado dos filhos, em busca dos restos mortais de Fernando.</div>
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		<title>O testemunho do que eu sei,  li, vi, ouvi, senti e pensei</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 21:30:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Paiva]]></category>

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		<description><![CDATA[Sou filha do ex-deputado Rubens Beyrodt Paiva, que foi cassado na última lista das várias que foram publicadas a partir de primeiro de abril de 1964, pelo golpe militar. Depois de auxiliar a fuga do Procurador Geral da República, Valdir Pires – que atualmente é vereador em Salvador na Bahia; e, Darcy Ribeiro, Ministro da [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Sou filha do ex-deputado Rubens Beyrodt Paiva, que foi cassado na última lista das várias que foram publicadas a partir de primeiro de abril de 1964, pelo golpe militar. Depois de auxiliar a fuga do Procurador Geral da República, Valdir Pires – que atualmente é vereador em Salvador na Bahia; e, Darcy Ribeiro, Ministro da Educação. Em seguida, papai exilou-se na Embaixada da Iugoslávia, a única Embaixada aberta em Brasília para receber os perseguidos. Rubens juntou-se a todos aqueles que estavam ali refugiados e que faziam parte da Frente Parlamentar Nacionalista, criada no início dos anos 1960. </p>
<p>Formada de uma forma quase que espontânea na Câmera Federal, a Frente Parlamentar Nacionalista foi organizada por militantes de diversos partidos de esquerda, religiosos, artistas. Enfim, grande parte da sociedade participante da luta que defendia a aprovação, pelo Congresso, das Reformas de Base. Entre elas: Reforma Agrária, Reforma Jurídica, Reforma da Educação, Reforma Urbana, Reforma da Lei de Remessa de Lucros. </p>
<p>Meu pai fez parte do pequeno Partido Socialista Brasileiro, que não tinha direito a voto, mas tinha voz de comando e direção. O PSB, como aliado do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) era agregado a outras forças de apoio ao governo Jango, como Partido Comunista Brasileiro, ainda na ilegalidade (que, por sua vez, usou a legenda do PSD).<br />
Rubens Paiva, assim como outros deputados do PSB e PCB utilizaram para se elegerem em 1962, respectivamente, legendas do PTB e PSD. Como deputado eleito, ele fez parte da direção da Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou o IBAD, que teve um papel de destaque na preparação do Golpe Militar.</p>
<p>O testemunho que trago para a semana “Infância Roubada” por iniciativa da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, da Assembleia Legislativa de São Paulo é de uma adolescente de 15 anos e meio. Acredito que o meu depoimento é um pouco diferente do que eu ouvi aqui, hoje, apesar de ter coisas bastante semelhantes. Uma delas é a capacidade incrível que quase todos nós tivemos, em relação à nossa memória, que parece nos pedir: “eu vou esquecer o que aconteceu, e um dia eu não lembrarei mais”. </p>
<p>Isso está claro, porque apesar toda a midiatização que existe em torno do meu pai, eu só fui dar o meu depoimento há dois anos. Eu nunca falei, os meus irmãos talvez soubessem um pouco, minha mãe sabia mais, porque fomos presas juntas. Minha família nunca soube de nenhuma sequência de detalhes, os meus amigos também não. Só quem soube foi um ou outro amigo, pessoas com quem eu convivo e que perguntaram com grande insistência.</p>
<p>O que foi a minha adolescência roubada? Eu sabia o que se passava neste país, exatamente como todo mundo, ouvindo tudo que aqui já foi dito. O meu pai foi deputado federal, foi um deputado engajado. Ele já era engajado politicamente desde a sua juventude. Foi vice-líder da UEE, vice-presidente da UEE Paulista, fez parte da campanha do “petróleo é nosso”. </p>
<p>Rubens Paiva foi eleito deputado federal pelo Estado de São Paulo aos 34 anos de idade, uma das primeiras ou segundas gerações a entrar no atual Congresso Nacional em Brasília, depois da era Vargas. Antes disso, ele ajudou a construir Brasília como engenheiro civil. Era empreiteiro e fez pontes na construção de Brasília. </p>
<p>Com a cassação, meu pai voltou do exílio nove meses depois. Como deputado federal ele tinha direito e posse ao passaporte diplomático vermelho. Pegou o passaporte, colocou no bolso, pegou um avião com escala no Rio de Janeiro. Desceu no Aeroporto Santos Dumont, pegou a Ponte Aérea e veio para São Paulo. Entrou em casa pela cozinha dizendo para quem ali estava, “oi, eu cheguei”. Foi um dos maiores sustos da minha mãe quando, de repente, surge aquele pai de família de cinco filhos na porta da cozinha, dizendo “voltei, estou de volta”. </p>
<p>A partir daí nós moramos mais alguns meses em São Paulo, e nos mudamos no início de 1965 para o Rio de Janeiro. Como deputado cassado, meu pai havia entrado em uma espécie de lista negra. Como era engenheiro civil, seu trabalho era de empreiteiro, empreendedor. Sem os direitos civis ele já não podia mais assinar como engenheiro obras contratadas por governos, ou pagas com o dinheiro público. Como deputado cassado não podia seguir vida política e se reeleger. Então a ideia dele, ao ser convidado, foi entrar como sócio em uma firma de engenharia no Rio de Janeiro, a Machado da Costa Engenharia, acho que nem existe mais. Pegou o dinheiro que tinha e investiu na sociedade desta empresa. Então, nós nos mudamos para o Rio de Janeiro.</p>
<p>O estilo do meu pai era e sempre foi da continuidade da vida. Do prazer pela vida. Então o que ele fez? Alugou um sobradinho em frente à praia do Leblon. Nossa vida de paulistanos mudou radicalmente, mas a vida continuava a mesma, frente ao mar e da melhor maneira possível.</p>
<p>Inaugurada esta nova fase, o pequeno sobrado na Avenida Delfim Moreira, nº 80, se agitou com a circulação de políticos, militantes, ex-deputados, ex-ministros e de todo o pessoal ligado ao governo João Goulart, e todos que faziam parte deste grupo. Os militares sempre estiveram de olho nessa casa, porque papai era um sujeito muito alegre, muito afetivo, socialmente muito engajado. </p>
<p>Não havia espaço para tristeza ou depressão. Tudo podia ser engraçado, a vida era uma festa naquela casa, tanto que a famosa expressão “esquerda festiva” (acho eu) vem um pouco daí. Se alguém não sabia o que era esquerda festiva, agora está sabendo. Era uma esquerda que tinha sido cassada em 1964 e que achava que os militares não iriam longe. Tinham o dom de se divertirem com certa ignorância dos militares no poder, assim, em uma comparação, como o discurso que o jornal Pasquim construiu, especialmente.</p>
<p>Até o dia em que foi assinado o AI 5 (Ato Institucional número 5). Quando começaram prisões, torturas e mortes, meu pai achou que a coisa era séria e começou, em seguida, a ajudar militantes engajados na luta armada, uma nova geração constituída. A geração de 1968, uma geração acima da minha e uma geração ou duas abaixo da dele. Nesta geração de militantes estavam poucos amigos com uma maioria de jovens, filhos de amigos que se engajaram em ações como o rapto de embaixadores. Parte destes amigos, filhos e parentes de amigos, atuou principalmente no rapto do embaixador americano. </p>
<p>Meu pai ajudou com conversas e com dinheiro que pôde dar, considerou um acerto político. No entanto, esta ajuda acabou ligando papai no próprio circuito de luta armada, o que ele não imaginou e com a qual ele não estava envolvido. </p>
<p>Não sei se ele concordava com o que esta militância armada fazia, porque eu era muito menina para saber se ele apoiava ou não. Não cheguei a conversar sobre isso com ele, não era tema de conversa. No entanto, soube depois que ele se preocupou com a segurança física e moral desse grupo, que já vinha sendo trucidado e perseguido pelas ações que faziam contra a ditadura instituída pelos militares, a partir de 1964. Em casa só sabíamos que havia prisões e que alguns foram bastante maltratados, a maioria bastante torturada e era uma maioria de jovens, bem jovens. Outros presos e interrogados eram intelectuais, parte integrante do vasto grupo de políticos, na sua maioria cassada, artistas e intelectuais, que circulava em casa.</p>
<p>Em janeiro de 1971, meu pai tinha 41 anos recém-completos quando foi preso. Ele faz aniversário dia 26 de dezembro e foi preso no meio da manhã do dia 20 de janeiro – feriado no Rio de Janeiro. Essa é a história do meu pai. Nunca mais soubemos dele, não se sabe até hoje o que aconteceu exatamente, como morreu e onde está enterrado o seu corpo.</p>
<p>Agora, a minha história em relação a ele. No início, ao sair da prisão, eu resolvi que iria esquecer o que aconteceu. Por que eu antes não contei, ou pouco contei, do que aconteceu. Sobre as 24 horas que durou a prisão domiciliar, minha, do meu irmão Marcelo, irmã caçula, Beatriz e, minha mãe Eunice, as minhas 24 horas no DOI-CODI? </p>
<p>Assim como os detalhes de tudo que tinha testemunhado na prisão e morte de meu pai e na prisão, por onze dias, da minha mãe no mesmo quartel da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca? </p>
<p>Porque eu tinha 15 anos de idade. Eu tinha a vida inteira pela frente, tinha que conviver com os meus colegas, tinha que conviver em uma sala de aula, tinha que olhar para os professores, eu tinha que ir à praia. Nas turmas e na turma da praia eu tinha que dançar um rock, eu tinha que ouvir música. E não interessava para os meus amigos, para os grupos com quem eu andava, que eu contasse a história do meu pai ou que eu tinha sido presa no DOI-CODI do Rio de Janeiro. Não interessava de jeito nenhum. </p>
<p>Muito menos interessava para os meus avós, os pais do meu pai, que acreditaram durante muito tempo que meu pai poderia estar vivo.  Meu avô morreu três ou quatro anos depois, com a certeza ou incerteza, de que meu pai poderia voltar um dia para ele e para a família. Meu avô, Jayme Almeida Paiva, morava em Santos e pediu que nos mudássemos para lá e fôssemos esperar a volta do meu pai. </p>
<p>A nossa casa do Rio de Janeiro, que era alugada, ficou fechada durante seis primeiros meses. E só foi entregue ao proprietário seis meses depois. Depois disso, nós moramos com meu avô, em Santos, SP, durante três anos. Um ano depois da morte ou desaparecimento do meu pai, minha mãe, inclusive por ideia do meu avô, começou a fazer um curso de Direito em uma Faculdade em Santos e, formada, já morando em São Paulo, se tornou uma brilhante advogada.</p>
<p>A história, ainda em resumo, é esta: meu pai foi preso no dia 20 de janeiro, mais ou menos ao meio dia, uma hora da tarde. Fui me despedir dele por volta das onze horas da manhã quando fui para praia em frente, no Leblon. Papai estava sentando no jardim com Raul Ryff, que era muito amigo dele e morava perto de casa. Ryff era jornalista e foi assessor de imprensa do João Goulart. </p>
<p>Dei um beijo nos dois e fui à praia encontrar minha turma. Voltei duas horas depois e a casa estava fechada, o que era estranho em pleno verão. Entrei, vi uns homens, meio na penumbra e fui para a área da cozinha deixar toalha, esteira. Minha mãe me pegou na entrada e disse, com um olhar muito assustado: “O seu pai foi preso. Você vai tentar sair e avisar, telefonar para o seu tio advogado (que é o marido da irmã caçula do meu pai) em São Paulo. Você tem dinheiro?”. Eu ouvi, não falei nada e continuei pela cozinha. Subi por trás, pela escada dos fundos e não voltei para a sala. Isto porque Eunice, minha mãe, parecia estar me esperando atrás da porta da sala de jantar que dava para a cozinha. E a maneira com que ela me falou, especialíssima, demonstrou certo planejamento de palavras e ação. Muito do seu estilo. Portanto, eu entendi aquilo que deveria entender; ou seja, que precisava agir rápido, sem que soubessem ou conseguissem ver o que fazia. </p>
<p>Nessa época, eu era atleta juvenil do Clube Botafogo, de voleibol. Então, subi e me vesti de atleta do Botafogo. Desci rapidamente as escadas da sala, e fui saindo pela porta da frente, por onde tinha entrado. E falei rapidamente, sem que tivessem tempo para pensar: “estou indo jogar, estão me esperando, tenho que ir”. E fui saindo de casa e fechando a porta atrás de mim. </p>
<p>Lembro agora do alívio que eu senti quando fui passando pela porta e depois pelo portão da casa. Agora me vem esta lembrança, que havia como que esquecido, da sensação de um dever a ser cumprido, por pedido da minha mãe, quando abri a porta da minha casa, quando eu senti o ar de fora, eu comecei a respirar de novo. Alguma coisa precisava ser feita, com muita urgência, e que saberia o que fazer. Foi este o recado que ela me passou. Conheço a inteligência da Eunice e antes jamais tinha visto minha mãe agir daquela maneira. Tão séria, tão resoluta, tão assustada.</p>
<p>Eu estava muito focada na minha pressa. E, com a saída para a rua, com o ar que novamente entrou no pulmão, quando até então minha respiração estava quase que suspensa, não tive muito tempo para pensar, mas senti que o ar dentro da minha casa tivesse faltando. Hoje em dia o olhar da minha mãe parece que já dizia de uma vida que tínhamos para salvar, ou de um desastre iminente. Isto porque agi quase sem pensar, e fiz o que tinha que fazer, sem pensar nas consequências. </p>
<p>Dois quarteirões atrás de casa, entre as ruas Ataulfo de Paiva e a Afrânio de Melo Franco, no Leblon, existia o que a gente chamava de “condomínio de jornalistas”, onde viviam muitos deles, inclusive o Raul Ryff. As várias turmas de praia e parte dos meus amigos moravam lá. Um deles era o Ronaldo Pacheco, que era um dos meus melhores amigos. </p>
<p>Fui direto para a casa dele e disse: “eu não posso contar exatamente o que está acontecendo (também ainda movida pela urgência do olhar e simples fala da minha mãe), mas eu preciso usar o teu telefone para fazer um interurbano para São Paulo, posso?”. </p>
<p>Hoje em dia penso que foi um encadeamento de fatos, Ronaldo não tinha ideia nenhuma do que se passava na minha casa, o que lá acontecia, era meu amigo de bairro. Não sei como imediatamente ele franqueou o telefone. Liguei para São Paulo, avisei o meu tio, o advogado Cássio Mesquita Barros, acho que ele não estava, mas o recado foi dado.</p>
<p>Sai de novo, fui para a rua, já ansiosa, dar o tempo necessário para um treino de vôlei, fiquei circulando perto de casa. Muito preocupada com minha mãe. Repito, nunca a tinha visto agir daquela maneira. O meu amigo Ronaldo quis vir comigo, eu tentei despistar e pedi muito para que ele não viesse atrás de mim, ou na minha casa, porque estava tudo muito esquisito. Não falei mais nada do que estava acontecendo.</p>
<p>O resto veio se formando da maneira lógica de um quebra cabeças, foi o momento em que comecei a juntar intuitivamente as peças daquilo que a vida inteira presenciei com o trânsito e as conversas políticas em casa. Então eu entendia que estava acontecendo alguma coisa.  Sabia a leitura disso, mas não conseguia decifrar, ou já tinha decifrado e estava esperando a sequência. Como eu digo, existiu a fase aparente de “esquecimento”, que a gente leva anos para que ela retorne. Mas tudo fica guardado. </p>
<p>Bom, dei um tempo e voltei para casa. Quando cheguei, um dos homens que estava em casa, a paisana, o mais forte, estava com um cabo de fio elétrico na mão, querendo me bater, perguntando: “onde você foi?”. Eu, vestida de jogadora de vôlei, de novo fui entrando, sentei no sofá da sala, ele sentou ao meu lado e respondi assim: “Eu saí”. Ele disse: “Você não saiu”. Eu respondi: “Fui jogar vôlei”. “Não, você não foi jogar vôlei, você foi avisar o teu tio, a tua família, que seu pai foi preso”, ele falou furioso, mas já mais calmo.</p>
<p>O que aconteceu depois que telefonei e enquanto esperava voltar para casa? O meu tio, advogado, querendo saber realmente o que tinha acontecido, ligou para a minha casa quando o telefone estava censurado. Agora, um dia a Comissão de Verdade, advogados, procuradores, historiadores e jornalistas terão de saber se realmente existia escuta telefônica naquela época. Não sei que tipo de escuta telefônica era, mas na minha casa foi escuta de extensão para extensão telefônica. Tínhamos um telefone no escritório do meu pai, outro na cozinha, outro em cima no hall e um no quarto dos meus pais. Até hoje eu fico curiosa em relação a isso. </p>
<p>Ou seja, o meu tio ligou e como um bom advogado começou a questionar a minha mãe sobre o que estava acontecendo. Então, quando eu cheguei em casa, o militar que ouviu a conversa pela extensão estava transtornado. </p>
<p>De certa forma é interessante pensar no que se passou, eu sou muito parecida com meu pai, então dei muito uma de “Rubens Paiva”. Eu falei para ele, entrando em casa com ele me ameaçando: “Senta aqui comigo, vamos conversar, qual o problema do senhor?” O cara era enorme, muito forte, olhando para mim, acho que não entendeu nada. Aquela menina, completamente loira, cabelo de frequentadora de praia, quase dourado, vestida com roupa de jogadora de vôlei, perguntando para ele o que estava acontecendo. Ele foi se acalmando. </p>
<p>Eu não perguntei para ele o que poderia ter perguntado: “O que é esse cabo na tua mão?”. Eu fiquei olhando para ele e não para o cabo elétrico. E assim ele foi escondendo o cabo. A reação dele foi muito engraçada. Bom, esta já é uma interpretação de uma menina de 15 anos, quarenta anos depois. Mas me parece que todo mundo, todos nós que fomos presos crianças, está tendo este tipo de reação. Falamos, rimos e choramos como crianças e adolescentes.</p>
<p>E também era como meu pai reagia. Inclusive acho que foi por isso que ele foi morto, parece engraçado aos 15 anos, mas é sério para adultos. Acredito que ele tenha reagido desta maneira na prisão, por isso o massacraram, eu penso que ele diria: “Eu fui deputado eleito legitimamente, vocês não têm nada comigo. Ou vocês me respeitam ou não sei, vão para aquele lugar”. Creio que foi isso que ele fez dentro da cadeia e foi por isso que ele morreu inclusive. </p>
<p>Hoje em dia não se tem dúvida: papai entrou na prisão exigindo que fosse tratado como deputado. Ao mesmo tempo começou a tentar defender as duas senhoras que foram presas junto com ele e responder usando de certa autoridade. Tem algum relato que conta que os militares começaram a maltratar estas senhoras que foram presas juntas com ele. Inclusive a nossa professora do Colégio Sion, Cecília Viveiros de Castro, que papai conhecia. </p>
<p>Professora Cecília começou a ser maltratada na frente do meu pai, que enlouqueceu. Imagino ele dizer: “Vocês não têm direito, vocês não sabem o que estão fazendo, vocês parem com isso. Eu sou deputado, respeitem”. Tanto que nos únicos depoimentos que têm da possível tortura e também de resgate do que aconteceu, é dito que os militares depois de destruí-lo perguntam o que foi feito do “deputado”. </p>
<p>O depoimento do médico coronel Lobo, que o atendeu no DOI-CODI, diz que ele cheio de hematomas pelo corpo todo, deitado sem conseguir se mover, só dizia o próprio nome: “Rubens Paiva”. Desde o dia que li este depoimento penso que, primeiro ele tenta se identificar, porque parece que certa hora ele percebeu que perdeu a identidade ali dentro. É o caso do torturado, do sujeito torturado que perde a identidade dentro da prisão. Esse é o grande problema da tortura, física e psicológica que eu saiba. Em segundo lugar, a tortura moral, dizendo: “o senhor deputadozinho, o senhor ainda está querendo alguma coisa?”. Parece que a tortura foi em cima disso, ou seja, ele reagiu, foi torturado, massacrado. Mas digo isso hoje em dia, também parte de pensamentos que tive esses anos todos.</p>
<p>Voltando um pouco, depois dessa minha conversa com o policial, nas primeiras 24 horas de prisão domiciliar, a coisa toda acalmou. Eu não lembro muito mais o que aconteceu depois disso, depois dessa conversa com esse homem. Isso devia ser umas cinco horas da tarde. Nós fomos dormir. Não me lembro se vimos televisão, o que comemos, não lembro mais nada. Só lembro-me da minha mãe, no dia seguinte, me acordando e falando: “Acorda, se veste que a gente vai ter que dar depoimento”. Eu escolhi uma roupa que me cobria todo o corpo, porque eu fiquei com medo, comecei a ficar com medo de ser exposta a alguma coisa que não pudesse controlar. Era uma túnica preta que vinha até perto do joelho com uma calça. Muitos meses depois disso eu joguei essa roupa no mar, num lugar muito longe, porque por mais que eu lavasse, ficou com o cheiro da prisão.</p>
<p>Fomos colocadas em um fusca no banco de trás, havia duas pessoas na frente. Pararam o fusca e nós fomos encapuzadas. Era um capuz fedorento, já devia ter sido usado para tudo. E lá fomos nós para o DOI-CODI. Chegando ao quartel da Rua Barão de Mesquita, minha mãe e eu fomos separadas. Fui inteiramente revistada, a minha mãe deve ter sido também, e fui colocada em uma espécie de corredor polonês, sentada em uma cadeira de madeira. </p>
<p>Por que chamo de “corredor polonês”? Porque cada um que passava me dava um coque na cabeça ou me chamavam de comunista. Vinham perto do meu ouvido e me chamavam de comunista. E eu pensei: “está acontecendo alguma coisa”. Não sabia exatamente decifrar aquele ambiente. Como adolescente você não consegue entrar na leitura daqueles acontecimentos que não fazem parte do teu cotidiano, ou que conhece alguma história ou descrição. Eu tinha 15 anos e meio. Nasci em 1º de junho de 1955 e a prisão foi em 21 de janeiro de 1971.<br />
No meio da tarde eu fui interrogada por um sujeito bastante grosseiro, moreno, grandão. Conforme ele foi falando comigo, foi me agredindo e eu fui respondendo. Ele foi perguntando dos amigos do meu pai, e eu respondia sobre aqueles que eu conhecia. Grande parte gente conhecida e, pensei, “público e notório que frequentam a minha casa”.<br />
Gostaria de afirmar que este meu primeiro interrogatório foi extremamente violento. Eles colocaram na minha frente uma espécie de planilha, um gráfico enorme, parecia uma página dessas, do tamanho de uma cartolina, como um gráfico, com nome de pessoas, quadriculada. </p>
<p>A sensação que deu é que eles estavam organizando o que estava acontecendo e eles começaram a perguntar e olhar para aquele papel e perguntar de novo, olhar para mim para que eu confirmasse. Ele olhava para aquilo e me perguntava: “Tal pessoa é amigo do seu pai?”. Eu respondia: “É” ou “Não conheço”. </p>
<p>Quando o militar percebeu que não iria conseguir muita coisa, começou uma preleção no sentido de dizer alguma coisa como: “Então o seu pai era um grande comunista”. Não sei de onde eu tirei essa frase quando respondi, na hora, lembro bem disto porque o interrogador ficou sem resposta: “Eu não sei se ele é um grande comunista, porque eu não sei se ele conhecia alguma coisa sobre Marx”. Apesar de uma boa biblioteca, papai não era um bom leitor de literatura política. Foi um militante socialista, no entanto acho que nem Marx tinha lido na vida. </p>
<p>O interrogatório continuou nesta batida de expressão e conversa, digamos, quase adolescentes, até que certa hora o interrogador falou com um ar de que “chegamos onde eu queria”. Ele me disse assim: “Mas se o teu pai não é comunista, você é comunista”. Eu tomei um susto e disse: “O quê????” O interrogador: “Você é comunista e aqui está a prova”. Então ele tira de trás dele um trabalho escolar que eu escrevi no Colégio Sion para professora de História, Dona Ilma, sobre a invasão da Tchecoslováquia. Sobre a “Primavera de Praga”. Que relata a reação contra os russos em um momento em que, principalmente a cidade de Praga se rebela. Foi um trabalho que eu adorei fazer. Eu achei aquilo fantástico, como um povo tinha conseguido reagir e de uma maneira tranquila a um regime soviético, stalinista, que foi terrível.</p>
<p>Nesse momento que ele colocou esse trabalho na minha frente, eu dei um tal pulo, que deixou o interrogador com um sorriso tal que parecia que ele tinha comido um doce.<br />
Eu falei assim: “Bom, esse trabalho é meu”. E em segundos se passaram mil coisas na minha cabeça: será que eles irão atrás da minha professora, Dona Ilma? O que mais eles pegaram lá em casa? Será que mais alguém poderá ser comprometido? Este trabalho foi inteiro feito no Departamento de Pesquisa do Jornal do Brasil, do qual o Raul Ryff era o chefe e me franqueou horas e horas de trabalho.  </p>
<p>Depois, no final da tarde, quando me levaram para a cela, tentei lembrar onde é que eles tinham pegado, em casa, o trabalho sobre a “Primavera de Praga”. Eu e minha irmã mais velha dormíamos no mesmo quarto, e cada uma de nós tinha um gaveteiro com trabalhos de escola e coisas como diários, fotografias. Eles devem ter revirado a casa toda. Principalmente quando fiquei dando voltas para voltar para casa, depois de ter ligado para meu tio em São Paulo.</p>
<p>Bom, voltando a esse primeiro interrogatório, por sorte ou por azar, entra nessa sala outro militar (não se sabia as patentes, não se sabia nomes, mas eles andavam com placas de metal no peito, à paisana); ele vira-se para o monstro na minha frente e fala: “Ei, cirurgião, nós temos um trabalho para você”. Aí se encerra o interrogatório. Imediatamente o interrogador se levanta, me colocam o capuz e sou levada de volta para o corredor. Não estou sentada muito longe desta sala pequena, com a mesa, debaixo de uma escada, onde se deram as conversas. No entanto, neste momento, começam acontecer torturas horrorosas em sala ao lado, mais adiante.</p>
<p>Não entendi muito bem o que estava acontecendo, mas para uma criança de 15 anos de idade ouvir “pelo amor de Deus, parem com isso”, repetido em sequência, foi a coisa mais alucinante que eu já ouvi em toda minha vida. Aquilo já não era mais um filme na minha cabeça, os gritos eram reais. A primeira vez que contei isso, eu não parava de chorar, porque quando ouvi a tortura estava vedada, com um capuz fedorento, me cobrindo a cabeça toda, em um corredor estreito, no dia 20 de janeiro, verão no Rio de Janeiro, dentro do DOI-CODI, sem nada que me fizesse entender a realidade, foi a coisa mais enlouquecedora do mundo. </p>
<p>Eu fiquei meio estática, pensando, tentando respirar: “Agora eu sei onde eu estou. Será que isso não vai parar nunca?” Não parava, e a coisa piorava. Ou seja, o tal do cirurgião tinha ido fazer uma sua cruel tortura cotidiana. </p>
<p>Também tinham dois rapazes, sentados no chão na minha frente. Toda vez que alguém passava os chutavam, e naquele lugar, porque eles davam berros tremendos. </p>
<p>Duas horas depois, fui novamente levada para interrogatório. Nesse segundo interrogatório, entra um pouco a cronologia dos fatos da morte de Rubens Paiva guardados comigo. Ou seja, porque eu sabia que papai estava morto, eu tinha quase certeza desde o momento que saí da prisão. Objetivamente começa a se configurar nesse segundo interrogatório. Esperava-me sentado atrás da mesa um segundo militar, um pouco mais velho, um pouco mais calmo, um pouco menos, digamos, animalesco. Vejam que só consigo descrever como criança, como garota. Qualquer outra pessoa mais velha descreveria de outra maneira. Ou seja, o sujeito era um pouco mais velho e um pouco mais sábio, não era o monstro que era o anterior, gordo e horroroso, peludo. </p>
<p>Com este interrogador, o clima foi um pouco melhor. Ele começou a conversar comigo de uma maneira pouco mais saudável: “Como é que você está?”. Quando ele fez essa pergunta, voltou de novo a configuração Rubens Paiva e eu disparei em exigências: “Não gosto deste capuz, ele está me incomodando. Não consigo respirar. Tenho 15 anos de idade, se o senhor não me liberar em 24 horas, o senhor pode ser denunciado”. Ele foi ouvindo e ficando cada vez mais com um ar mais grave, e eu continuei: “Estão me apalpando nesse corredor, estou ouvindo coisas horrorosas, eu estou achando tudo isto um absurdo. Têm uns meninos que estão sendo maltratados ali dentro, perto de mim. Além disso, estou ouvindo berros de gente que está sendo violentamente maltratada. Não estou entendendo o que está acontecendo&#8230; pegaram um trabalho meu de escola”. Disparei a falar e o militar cada vez mais quieto.<br />
Nessa hora, nada foi perguntado, quem disparou a falar fui eu. Depois que eu me acalmei ele me disse para que eu repetisse o que estava acontecendo. Voltei a dizer e pedir, principalmente, que me tirassem o capuz. E respondeu: “tudo bem, a gente vai ver”. Acabou aí o interrogatório. Este militar imediatamente mandou tirar o capuz e me colocaram um venda, deu certo. Puseram uma venda e quando saí da sala consegui ver por baixo, quando a mamãe entrou. </p>
<p>Eu e a mamãe entramos juntas na cadeia, mas não a vi mais. Estávamos as duas vendadas. Quando eu saí deste interrogatório, ela entrou e ela sentiu que era eu e perguntou: “Filhinha, você está bem?” Com a maneira habitual, bastante doce da Eunice. Eu respondi: “Tudo bem mamãe, está tudo bem, não se preocupe, está tudo em ordem”. Ai que eu falei “Mamãe, tudo bem?”, “Sim, filhinha, como vai você?”. Até hoje eu não consigo reproduzir a doçura que foi aquilo lá, “Minha filhinha, como vai, você está bem?”</p>
<p>Aí fui colocada novamente nesta espécie de corredor polonês, com a venda, mas minutos depois a tortura recomeçou pior do que antes. Foi aí que comecei a ter uma crise de choro compulsiva. Já estava quase entardecendo, devia ser cinco, seis horas da tarde.</p>
<p>Acho que ficou evidente que eu não poderia continuar ali. Alguém veio até mim, pediu para que eu me levantasse e me levaram para uma cela onde pude tirar a venda. E, de novo, tive a sensação de que alguma coisa já deveria ter acontecido com papai, porque a coisa ficou, digamos, não light, mas os ataques pararam. Os gritos pararam, a pressão acabou até o meio dia da manhã seguinte. </p>
<p>Eu (e minha mãe foi colocada a duas celas depois da minha, o que vim a saber no dia seguinte) fui colocada em uma cela semiaberta, com chuveiro e latrina. Mas o terrível é que durante a noite foram colocados pessoas na frente da cela, gente amordaçada, gente encapuzada, amarrada, imobilizada. Não dava para ver quem eram. Estavam todos estranhamente quietos e eu só ouvia a respiração. Era uma respiração muito difícil por causa do capuz. Tinha um colchonete pequeno e imundo no chão. Acho que dormi e acordei várias vezes.<br />
O dia amanheceu com a música do Roberto Carlos “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui…”. Achei aquilo grotesco. Já não tinha mais ninguém deitado em frente das celas. Alguns guardinhas estavam por ali, com o quais conversei bastante, apesar do receio deles.</p>
<p>Ah sim, eu sempre esqueço que houve um terceiro interrogatório, porque estava morrendo de sono. Durante a madrugada eu fui interrogada uma terceira vez. De novo foi um interrogatório acho que mais para saber se eu estava bem, foi uma conversa tranquila. Por isto que digo agora que fica claro que papai estava ou já morto ou quase morto. Eles estavam recuando de maneira muito rápida, quer dizer, todo ataque que a gente tinha sofrido antes ou que teria sofrido, estava amainando muito rapidamente.</p>
<p>Pela manhã perguntei aos guardas se eles sabiam onde estava o meu pai. Perguntei individualmente para os dois que estavam de guarda e vinham me ver. Os dois ficaram assustados. Conversaram entre eles e a resposta veio: “Acho que seu pai foi levado lá para cima”. Depois o outro falou: “Acho que ele estava muito mal, mas eu não posso dizer mais nada”. Então perguntei para um deles sobre Eunice: “Quero saber onde está minha mãe. Você a viu?” </p>
<p>Ele foi confabular com o outro e veio com a resposta. Contou que minha mãe estava duas celas depois de mim. Pedi para que ele dissesse para ela que eu estava bem. Ele foi até a cela dela, voltou mais assustado me dizendo que ela estava estendida no colchão, sem se mexer. </p>
<p>Depois soube que mamãe ficou dois dias sem se mexer, imóvel, porque não sabia o que tinha acontecido comigo. Só a avisaram dois dias depois de me soltarem. Isto porque ela, Eunice, me contou, na única vez que conversamos sobre a prisão. Ela estava furiosa quando me contou que só disseram para ela que fui solta dois dias depois de eu sair. Eu ainda disse para ela; “Mas eu pedi para os guardinhas avisarem você”. E ela, já em casa, onze dias depois: “Pois é Eliana, não me disseram nada.” Esta foi a única conversa sobre a prisão que tive com minha mãe durante todos estes anos. Fora a bronca que tomei por ter trazido a bolsa dela. Cena que relato a seguir. </p>
<p>Eu fui solta em 24 horas e mamãe ficou onze dias presa. Quando eu saí da prisão, me tiraram da cela, com a minha vendinha, e me levaram para uma sala, espécie de sala de saída e me deram a bolsa da mamãe com tudo dentro. Nesta sala estavam dois militares. Outros dois, a paisana e desconhecidos que me ordenaram: “Agora você sai”. Eu respondi: “Não saio, só saio daqui com minha mãe, como cheguei”. Morrendo de vontade de sair dali correndo. Ainda falei: “Porque isso aqui é a bolsa da minha mãe, se ela souber que eu estou saindo com a bolsa dela com tudo dela, inclusive cigarro, ela não vai gostar”. “Não vou sair, não saio”. Eles: “Vai sair”. Eu, “Não vou sair”. </p>
<p>Ainda tentei negociar deixar cigarros e outras coisas, mas não deixaram. Colocaram a venda de novo, levaram-me até a saída, eu me lembro de ter assinado qualquer coisa, me colocaram em um fusca e me soltaram na Praça Saens Peña, na Tijuca. Fui para um bar ali ao lado e com a carteira de endereços da minha mãe e dinheiro, liguei para o Bocayuva Cunha ir me buscar. Foi uma conversa rápida por telefone. Pedi um sundae e esperei Bocayuva chegar. Não consegui comer, minha cabeça pensava em tudo, principalmente na minha mãe.</p>
<p>Bocayuva chegou com um médico da família. Conversamos sobre o que tinha acontecido. Quando entramos no túnel Rebouças, que liga a Zona Norte entrei em prantos, enlouquecida de dor e preocupação. Quando cheguei em casa meus avós maternos já estavam lá. Não me lembro dos meus irmãos. Durante onze dias quando a minha mãe esteve presa, eu botava maiô, saía de casa, dizia para o meu avô que estava indo à praia (porque meu avô, pai da minha mãe, é um italiano Facciolla, completamente histérico e não podia saber o que estávamos fazendo), pela praia eu caminhava até o final do Leblon, onde era o apartamento do Bocayuva Cunha. </p>
<p>Lá, alguns amigos dos meus pais se reuniam todos os dias pela manhã e iniciaram uma campanha nacional e internacional de pressão para a soltura de Rubens e Eunice. Foi Raul Ryff que me ajudou, inclusive, a redigir uma carta contando da minha prisão e pedindo a soltura dos meus pais. A ideia deles, desse grupo de amigos de papai, era tentar divulgar o sequestro de Rubens e Eunice, o mais rápido possível. Uma vez estive com meus avós ao 1º Exército no Rio, para levar roupas, objetos de higiene para os dois. Os militares não aceitaram tudo, mas pegaram uma ou outra coisa.</p>
<p>Recentemente, foi encontrada na casa do General Molinas uma lista em uma página datilografada de objetos pessoais e livros que teriam sido levados com papai para prisão. É aí que se confirma a impressão que tinha de que revistaram a casa inteira. Tinha livros, de dez a quinze livros e, certamente, foi neste momento que o meu trabalho escolar foi junto.<br />
Quanto aos problemas relatados pelas crianças presas, eu também tive um estresse muito grande. Devia ter entre 24 a 25 anos de idade. Logo após o acidente do meu irmão Marcelo, que o deixou tetraplégico. Acho que foi o único momento em que não aguentei e alguma coisa disparou dentro de mim. Foi quando fiquei delirando por uns dois dias, consciente, tanto que recusei os remédios que me davam. Mas passou como veio. Porém, por mais estranho que pareça o que veio nesses delírios foi a memória de judeus e holocaustos que eu não deveria ter, porque eu não sou judia. </p>
<p>A explicação disso me parece meio óbvia: eu leio muito, histórias existem de todos os tipos, entre textos e imagens, sobre os campos de concentração nazistas. Foi esta a única referência objetiva que tinha quando tentei entender o que eu sei, li, vi, ouvi, senti e pensei no DOI-CODI. Eu pelo menos entendi que estava em um campo de concentração ali dentro. Sequestrada, maltratada e politicamente excluída.</p>
<p>Para concluir, acho importante saber onde foram parar os restos mortais de meu pai. Porque todos têm o direito de saber o que aconteceu. Já que a morte foi apurada. É preciso que as Comissões da Verdade insistam em saber onde estão os restos mortais. Quem foi que o matou não interessa tanto como saber onde estão seus restos mortais. Que assassinaram, que torturaram já se sabe. Os torturadores precisam ser identificados, sim. Mas é necessário que a história seja contada, porém vários fatos ainda faltam ser apurados.</p>
<div style="background-color:#f5dded; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Maria Eliana Facciolla Paiva</strong> nasceu em 1º de junho de 1955. Segunda de cinco filhos de Rubens Beyrodt Paiva e Maria L. Eunice Facciolla Paiva. Professora universitária, Jornalista, Editora de Arte. Possui Licenciatura em Educação Artística, com Habilitação em Artes Plásticas pela ECA &#8211; USP. Mestrado em Ciências, Curso Ciências da Comunicação pela ECA &#8211; USP. D.E.A. (Diplôme d’Études Approfondies) em Estéticas, Tecnologias e Criação Artísticas no Departamento Artes e Tecnologias da Imagem (A.T.I.) e Departamento de Artes Plásticas pela Université Paris VIII. Doutorado em Ciências da Comunicação, área Jornalismo pela ECA &#8211; USP. Concluiu Pós-doutorado pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é pesquisadora/colaboradora da Linha de Pesquisa Design, Comunicação, Cultura e Artes Departamento de Design e Artes da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), como integrante do “Grupo Barthes: estudo dos aspectos subjetivos envolvidos nos processos de configuração e de recepção de objetos de uso e de imagens”.</div>
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<div style="background-color:#e4a5ce; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Rubens Beyrodt Paiva</strong> nasceu em Santos em 26 de dezembro de 1929. Filho de Jaime Almeida Paiva, advogado, fazendeiro do Vale do Ribeira e despachante do Porto de Santos, e de Araci Beyrodt. Era engenheiro formado pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, em 1954. Militou no movimento estudantil. Foi presidente do centro acadêmico da universidade e vice-presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo.Em outubro de 1962 foi eleito deputado federal por São Paulo, na legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Teve seu mandato cassado no dia 10 de abril de 1964, um dia antes da edição do AI-1.<br />
Exilou-se na Iugoslávia e depois na França e, durante a escala de uma viagem que fazia para Buenos Aires, conseguiu pegar um voo para São Paulo, seguindo para a casa de sua família, decidido a não mais sair do Brasil. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, voltou a exercer a engenharia e a cuidar de seus negócios, mas mantendo contato com os exilados.Em 20 de janeiro de 1971 estava na sua casa quando foi sequestrado por agentes da repressão. Foi apresentada na época uma versão oficial e falsa sobre seu desaparecimento que afirmava que seu carro havia sido atacado por indivíduos desconhecidos e que, a partir dali, nunca mais havia sido visto. Esta versão só foi publicamente desmascarada no ano de 2014, com documentos e depoimentos coletados pela Comissão Nacional da Verdade, com confirmações de agentes que assumiram participação e esclareceram as circunstâncias da tortura, morte e ocultação do cadáver de Rubens.<br />
Em sua homenagem, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, instalada em 2012, assumiu seu nome, como forma de resgate de sua memória. </div>
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<div style="background-color:#c3a8ba; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva</strong> nasceu no Brás, em São Paulo, em 7 de novembro de 1929. Filha de imigrantes italianos, estudou no Colégio Notre Dame de Sion.<br />
Conheceu Rubens aos 17 anos, através de Maria, irmã caçula de Rubens. Eunice e Rubens casaram-se com a mesma idade, aos 23 anos, em São Paulo, em 30 de maio de 1952. Formada em Línguas Neolatinas, pela Faculdade de Letras da Universidade Mackenzie, no início da década de 1950; pela mesma universidade, completou seu bacharelado em Direito, em 1977, quando foi paraninfa de sua turma. Teve cinco filhos: Vera Silvia (setembro de 1953), Maria Eliana (junho de 1955), Ana Lucia (fevereiro de 1957), Marcelo Rubens (maio de 1959) e Maria Beatriz (agosto de 1960).<br />
Foi detida no dia 20 de janeiro de 1971, com sua filha Eliana, mesmo dia do desaparecimento de Rubens Paiva. Sua filha foi libertada no dia seguinte, mas Maria Lucrécia permaneceu presa por doze dias, incomunicável.</p>
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		<title>O nascimento de Leta</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 21:18:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Sousa]]></category>
		<category><![CDATA[Vieira]]></category>

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		<description><![CDATA[As memórias relacionadas ao nascimento da minha filha me transportam para situações contraditórias. De um lado, a imensa felicidade com a chegada daquele pequenino ser, que nos trazia esperanças, alegrias e ao mesmo tempo, angústias pela consciência de que não poderíamos tê-la conosco. E, de outro lado, a preocupação pelo futuro que poderíamos vislumbrar para [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>As memórias relacionadas ao nascimento da minha filha me transportam para situações contraditórias. De um lado, a imensa felicidade com a chegada daquele pequenino ser, que nos trazia esperanças, alegrias e ao mesmo tempo, angústias pela consciência de que não poderíamos tê-la conosco. E, de outro lado, a preocupação pelo futuro que poderíamos vislumbrar para nossa filha, já que estávamos condenados a muitos anos de prisão e não sabíamos quanto tempo mais viveríamos sob a ditadura. Havia ainda a ausência da minha família, que se encontrava no exílio. </p>
<p>A família de meu companheiro, Colombo Vieira de Sousa Júnior, também já havia sido atingida pela repressão. Porém, quando soube que estava grávida, tudo o mais se tornou secundário. </p>
<p>A história da minha gravidez se insere na história das lutas contra a ditadura, já que ela ocorre no momento em que o regime estava acossado pelo crescimento das oposições e por um crescente desgaste no exterior diante das denúncias sobre violação dos direitos humanos. </p>
<p>Minha gravidez só foi possível com a transferência dos presos políticos da Ilha Grande para o centro da cidade do Rio de Janeiro após uma longa greve de fome realizada por aqueles companheiros. O episódio obrigou o regime a reconhecer a existência de presos políticos e resultou na construção de um presídio específico para aqueles presos. Tínhamos outras demandas e, dentre elas, a de que fosse permitido o encontro entre os casais presos. Este era o nosso caso. Eu e Colombo já estávamos há anos sem nos encontrar e para o carcereiro de plantão no sistema penitenciário do Rio de Janeiro, tal reivindicação seria atendida se autorizada pelo juiz da Auditoria de Aeronáutica.  E qual não foi a nossa surpresa quando conseguimos tal autorização? E, como a medicina dizia que eu não poderia engravidar, nem pensamos em algum tipo de anticonceptivo. Foi assim que nossa filha foi gerada, uma luz da natureza em uma fresta aberta pelas campanhas contra a ditadura. </p>
<p>A gravidez transcorreu com tranquilidade, mesmo sem os exames próprios ao pré-natal, mas o parto foi mais complicado.</p>
<p>Quando faltava um mês para o nascimento da Leta, fui transferida para o hospital penitenciário e ali permaneci até o dia do seu nascimento. Nesse período pude receber visitas da família do Colombo, que já me dava assistência ao longo dos anos em que estive presa. E assim pudemos estar juntos aos sábados e domingos.</p>
<p>Neste hospital-prisão permaneci isolada em uma pequena cela, sem exercícios ou banho de sol. E, evidentemente, sem qualquer assistência médica.Os hospitais militares se negaram a fazer o parto. Diante dessa recusa, os companheiros organizaram um fundo que nos permitiu pagar um hospital privado e, mais importante, o parto sendo realizado por um médico de absoluta confiança. Tratava-se do dr. Jeferson Carneiro Leão, ele mesmo militante da causa democrática e que havia trazido ao mundo vários filhos de companheiras nossas. Mas eu só o encontrei a poucos dias do parto,  quando fui levada à clinica.</p>
<p>Dia 19 de setembro, um daqueles domingos de visitas no presídio político, minha sogra percebeu que eu, sem saber, estava em trabalho de parto desde a noite anterior.  Logo os companheiros acionaram os carcereiros e fui levada para a maternidade sob forte escolta, ainda na caçamba de um camburão e algemada. Lá me esperavam alguns companheiros, que impediram que os soldados da Polícia Militar, que faziam a escolta, entrassem na sala de cirurgia. </p>
<p>À uma hora da manhã do dia 20 de setembro de 1976 nascia Leta, de cesariana, no Hospital São Sebastião. Inocentes, eu com minha alegria de ser mãe e ela que só queria saber de mamar, não sabíamos que naquela madrugada ocorria o sequestro de Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu e conhecido por suas posições a favor dos injustiçados. Esse crime, realizado por grupos de militares que se opunham ao projeto de abertura “segura, lenta e gradual” proposto pelo ditador Ernesto Geisel, se somava aos inúmeros atos de terrorismo que naquele momento ocorriam na cidade do Rio de Janeiro. </p>
<p>Naquela noite, terminei dormindo e fui acordada pela presença de soldados armados dentro do quarto. A partir deste momento, nossa presença no hospital se transformou num verdadeiro horror. Como ainda não haviam cortado o telefone, pude me comunicar com a advogada Abigail Paranhos, ex-presa política, e o médico Leo Benjamim, querido e corajoso combatente, que imediatamente chegaram ao hospital e, após um difícil diálogo com as autoridades policiais ali presentes, conseguiram que os soldados ficassem do lado de fora do quarto. </p>
<p>Esses acontecimentos me fizeram ficar em alerta. Ao amanhecer chegaram vários homens que, pela janela do meu quarto, passaram a me ameaçar dizendo que iriam matar a minha filha, que era necessário realizar o que eles chamavam de operação Jacarta (em referência à matança de comunistas que a Indonésia havia realizado). Eu, encolhida na cama, tentava me comunicar com o mundo exterior. O telefone já havia sido cortado e nenhuma enfermeira atendia aos meus chamados. Nem a minha filha, que se encontrava no berçário, vinha para mamar.</p>
<p>Em algum momento, dr. Jeferson, me pedindo que ficasse calada, entrou no quarto para avisar que eu seria imediatamente enviada à penitenciária e que a escolta policial chegaria a qualquer momento. Logo após, chegou uma assistente social, Gloriete, servidora do sistema penitenciário, que ajudou a me levantar – eu estava operada há menos de 48 horas – e nos encaminhamos para o pátio do hospital onde um camburão nos aguardava. No percurso, sob os olhares hostis que surgiam dos outros quartos, pude ver minha cunhada, Iná, e Iramaya Benjamim. Elas estavam impedidas de se aproximar. Minha angústia era absoluta pela falta de notícias da minha filha e por não entender o que ocorria, sem contar os temores de uma sutura ainda não cicatrizada.</p>
<p>Somente quando entramos no camburão é que a Gloriete me informou, sumariamente, o que ocorria. Cheguei à penitenciária em torno do meio dia e minha filha me foi entregue, por Iná e Iramaya, à tarde. Elas me entregaram a menina pela grade e nada puderam falar.</p>
<p>Na verdade, aquele pesadelo tornou a se repetir quando, também em uma madrugada, acordei para alimentar Leta e pude ouvir da guarita, no pátio do pavilhão aonde nos encontrávamos, vozes que repetiam as mesmas palavras ouvidas no hospital. No dia seguinte comuniquei ao diretor, mas, ainda hoje, não sei do que realmente se tratava.</p>
<p>Dos episódios ocorridos no hospital pude me inteirar melhor anos depois, quando acessei os documentos produzidos pelo sistema penitenciário e ali pude ter consciência do verdadeiro perigo que rondou a vida da minha filha. Soube então que o consultório do dr. Jeferson fora invadido e depredado por duas vezes e que a direção do hospital havia exigido a minha imediata retirada do hospital. E, sobretudo, pude ler as inverdades produzidas pela repressão acerca dos episódios relatados acima.<br />
Leta permaneceu comigo somente nos primeiros meses de vida, quando a entreguei aos cuidados da família do Colombo.  E aquele foi o momento mais dramático em toda a minha existência. Uma dor dilacerante, sem igual.</p>
<p>Pela legislação penitenciária, Leta poderia permanecer no presídio até os 6 anos, na creche que existia à época, quando então teria que ser entregue à família ou a um juiz.  Eu optei por tirá-la daquele ambiente entendendo que ela não deveria crescer entre aquelas grades e que deveria ter uma vida familiar normal entre os primos e desfrutar a sua infância como todas as crianças têm direito.</p>
<p>Colombo só pôde conhecê-la quando ela tinha quinze dias de nascida.<br />
Durante os anos seguintes, Leta era levada para ver o pai e a mim de quinze em quinze dias. Com o crescimento da luta pela anistia, quando a existência dos presos políticos se tornou um problema para o regime, conseguimos nos encontrar, os três, em Bangu, duas vezes ao mês. E, em algumas ocasiões especiais, pudemos até mesmo passar finais de semana juntos.</p>
<p>No dia 6 de fevereiro de 1979 fomos soltos e, na saída da prisão, lá estava ela. Linda, no colo das avós – minha mãe, rompendo com as proibições que a impediam de voltar ao país, resolveu que naquele momento estaria ali – e, ao longo da ponte que liga o Rio a Niterói, cidade em que residimos até hoje, ela ia nos mostrando o barco, a lua, como se estivesse entendendo tudo o que ocorria. Ficou acordada a noite inteira e, na manhã seguinte, pegou o pai pela mão e foi apresentá-lo aos gatos da casa.</p>
<p>Em seguida fomos residir em Volta Redonda, onde, pelas mãos de D. Waldir Calheiros, bispo da cidade, conseguimos nosso primeiro trabalho. Foi um período difícil para Leta já que, aos 2 anos e meio, se viu separada da família com quem ela havia vivido até então. </p>
<p>Quase toda semana encontrávamos com sua avó Inah na porta do presídio onde íamos visitar os companheiros e, em especial o marido da minha sogra. A hora das saídas eram momentos de grande aflição porque Leta chorava muito ao se despedir da avó.  Até que em uma dessas ocasiões ela simplesmente deu um beijo na avó e, desse momento em diante, os sintomas de desajustes com a nova vida desapareceram. Ficando, evidentemente, as referências relativas à estabilidade que lhe foi dada pela família do pai.</p>
<p></p>
<div style="background-color:#79bfc4; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Colombo Vieira de Sousa Júnior</strong> nasceu  em 6 de março de 1950. Filho de  Colombo Viera de Sousa e Inah Meireles de Sousa. Iniciou sua militância em 1967. Foi militante da Dissidência do Estado do Rio de Janeiro, Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Sua irmã, Ina Meireles de Souza, também militante do MR-8, foi presa, no Paraná, em abril de 1969 e cumpriu dois anos de prisão no Rio. Quando foi preso, sua mãe, a exemplo do que aconteceu com a mãe e irmã de Jessie, foi presa e levada para o DOI-CODI do Rio de Janeiro onde permaneceu por um mês, obrigada a assistir seu filho ser torturado. Colombo tem um longo percurso no movimento sindical junto ao Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda onde foi assessor político. Foi assessor parlamentar do líder metalúrgico Juarez Antunes, de quem foi secretário de governo  durante seu breve mandato à frente da Prefeitura de Volta Redonda. Foi secretário de transporte da Prefeitura de Caríacica (ES) e presidente do Ceasa deste estado quando Vitor Buaz era governador. Foi também assessor do governador Leonel Brizola. Hoje está aposentado.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#3fe7f3; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Jessie Jane Vieira de Sousa</strong> nasceu em 21 de abril de 1949, em Bom Jesus do Galho, então distrito de Caratinga (MG), numa família de militantes. Filha de Leta de Souza Alves e Washington Alves da Silva, ambos militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do grupamento comunista que deu origem à Ação Libertadora Nacional (ALN). Seus pais foram presos e torturados na Operação Bandeirantes (Oban). Seu pai, Washington, foi banido para o Chile no sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Burcher, em dezembro de 1970.<br />
Em 1969, Jessie entrou para Ação Libertadora Nacional (ALN). Na organização, conheceu Colombo Vieira de Souza. O casal viveu na clandestinidade até  1º de julho de 1970, quando foram presos durante a ação de sequestro do avião Caravelle PP-PDX da Cruzeiro do Sul, no Rio de Janeiro, realizada junto com os irmãos Heraldo e Fernando Palha Freire.Estava com 21 anos quando foi presa e barbaramente torturada no DOI-Codi, do Rio de Janeiro. Jessie e Colombo foram condenados a dezoito anos de prisão e ficaram presos por nove. Ela, na penitenciária de Bangu (Presídio Talavera Bruce) e ele no Instituto Penal Cândido Mendes (Presídio da Ilha Grande). Ficaram cinco anos sem se ver e a única forma de comunicação eram cartas. Em 1972, conseguiram autorização judicial para se casar. Em 1975, conquistaram o direito à visita íntima. Assim, Jessie engravidou na prisão e, em setembro de 1976, nasceu Leta, filha do casal, na Clínica São Sebastião (Rio de Janeiro) sob forte vigilância policial. A bebê permaneceu alguns meses ao lado de Jessie na prisão e depois foi entregue à sua sogra. Jessie e Colombo foram soltos em 1979 e estão casados até hoje.<br />
Jessie tem quatro irmãos: Sandra Maria Alves de Sousa, presa duas vezes em São Paulo e torturada na Operação Bandeirantes, em 1970; Vera Vani<br />
Alves de Pinho, voltou clandestina do Chile e assim viveu por nove anos no Brasil; José Alves Neto-Juca, preso junto o pai no Chile, ficaram por três meses no Estádio Nacional; Ivan de Sousa Alves, casado com uma ex-presa no Uruguai e ainda vive na Suécia.  Com o banimento do pai, as prisões de Jessie, Sandra e de sua mãe, todos entraram na clandestinidade e quando puderam foram para o Chile. No golpe, seu pai e Juca foram presos logo nos primeiros dias. Sua mãe se refugiou e os três se reencontraram a bordo do avião que os levou para a Suécia. Tudo graças à intervenção do embaixador sueco que salvou centenas de pessoas. Sandra e Ivan se refugiaram na embaixada da Argentina e depois foram para Portugal e, em seguida, Suécia.<br />
Seus pais e Juca foram inicialmente para a Suécia, em seguida para Cuba e depois Suécia,  onde  todos se reencontraram (menos Jessie que estava presa e Vera que estava clandestina no Brasil). Seus pais e Juca retornaram ao Brasil em 1980 e Sandra retornou há cerca de 5 anos. Mas Ivan ficou na Suécia.<br />
Hoje, Jessie é professora associada do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Graduada em História pela Universidade<br />
Federal Fluminense (UFF), tem mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em História Social pela UFRJ.</div>
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		<title>A Lua de Leta</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 21:06:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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		<category><![CDATA[Viera]]></category>

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		<description><![CDATA[Convidada pela assessoria da Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva” a escrever um testemunho de minha experiência enquanto filha de ex-presos políticos da ditadura militar brasileira, me peguei mais uma vez pensando: mas o quê eu vou falar? Acho que muitos filhos se fazem essa mesma pergunta, um sentimento de “não faz sentido [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Convidada pela assessoria da Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva” a escrever um testemunho de minha experiência enquanto filha de ex-presos políticos da ditadura militar brasileira, me peguei mais uma vez pensando: mas o quê eu vou falar?</p>
<p>Acho que muitos filhos se fazem essa mesma pergunta, um sentimento de “não faz sentido porque eu não vivi nada em comparação aos meus pais e seus companheiros” que nos deixa habitualmente silenciosos.</p>
<p>Além disso, ainda me vem o questionamento de “por que eu e não outros filhos que sofreram mais que eu?”. Nesse momento, passo a me lembrar da lista de amigos queridos que, como eu, têm pais que sofreram muitíssimo com a ditadura, mas que não têm o mesmo reconhecimento ou estatuto de anistiada que outros filhos e eu temos.</p>
<p>Pra mim, ser uma anistiada política, filha de pessoas que lutaram contra os absurdos da ditaduta militar brasileira é, e sempre foi, razão de grande orgulho. Meus pais e seus amigos são o que toda criança sonha: são heróis de verdade que ultrapassaram seus limites e suas próprias mazelas pelo bem comum.</p>
<p>No entanto, com esse status de “filha de heróis”, vem também o outro status, o de “filha de terroristas”. Com esse, vem o silêncio, o medo de saberem quem você é e o que você pensa. Esse medo me acompanha até hoje.</p>
<p>Sempre que as pessoas comentam sobre a própria infância, você pula um trecho. Sempre que você ouve alguém chamando a ditadura militar de revolução, você segura o grito. Sempre que você ouve alguém falando sobre terrorismo, você tenta não cair num debate emocionado. Sempre que você busca um emprego que exige suas referências, você torce pra que não descubram “toda a verdade”. Um visto, morar fora do país por um tempo? Você sabe que ele pode ser negado e que eles terão justificativa, afinal, seus pais sequestraram um avião. </p>
<p>Quer algo mais top top na lista de terrorismo internacional depois de 2001?</p>
<p>Sempre que descobrem que sou filha da Jessie Jane e do Colombo, imediatamente me cercam de perguntas e vejo os olhares curiosos esperando um depoimento cheio de profundidade. Mas eu já conheço esse olhar e entro num sistema de respostas automáticas e vagas. No fim, vejo os olhares decepcionados e sinto que consegui alcançar o que desejava : o final da sessão “quem é você”. Como se ao saberem que eu “nasci na cadeia”, como alguns gostam de comentar, definisse meu caráter, o meu eu.</p>
<p>Agora, convidada a escrever esse testemunho, fico refletindo sobre o que eu não falo a esses olhares curiosos, sobre a constante insegurança, sobre as tristezas, sobre as dificuldades. Penso em como meus pais lutaram pra me dar uma vida estável e buscaram que eu fosse apenas “uma menina normal”. Mas quem pode ser normal quando a polícia entra na sua casa pra espancar seu pai? Ou quando vive a invasão militar de Volta Redonda (já em 1989) e seus pais vêm até você para se despedirem, com o sentimento de que serão assassinados? Ou quando sua família está separada em várias partes do mundo porque foi obrigada a se exilar? Ou quando seu avô é obrigado a viver escondido para evitar ser deportado? </p>
<p>Ou quando seus amiguinhos da escola são proibidos de falar com você porque seus pais acham que você é representante das “forças do mal”?<br />
Mas meu testemunho nunca será tão interessante ou importante quanto o daqueles que viveram experiência mais duras e sérias que eu. Meu testemunho não pode ter o mesmo peso do que o de uma criança que viu seus pais serem torturados ou assassinados. Daí volta à pergunta : o que eu tenho a acrescentar?</p>
<p>Acho que o que eu poderia acrescentar é o testemunho de meus amigos desconhecidos, mas que têm muito mais histórias que eu sobre esse período. Aqueles que iam todas as semanas visitar pais e tios nos presídios e ficavam confusos tentando entender como aqueles heróis poderiam ser os bandidos. Ou a história daqueles que nasceram no Chile ou na Argentina, por exemplo, e começaram suas vidas em fuga mesmo sem saber – alguns deles até hoje não têm documentação brasileira regularizada. Porém, não cabe a mim falar por eles.</p>
<p>Muitos me perguntam como foi ser um bebê na prisão. Como poderia responder se eu era um bebê? Mas quando vejo minhas fotos e ouço os depoimentos de minha mãe, vejo que fui quase um bebê como outro qualquer, repleto de amor e, talvez, mais carinho do que outros bebês. Eu tenho o privilégio de ser filha de uma geração de sonhadores, de ser protegida e amada incondicionalmente por pessoas que sequer conheço mas que, igualmente, amo.</p>
<p>Minha mãe, às vezes, conta de quando descobriu que estava grávida, da felicidade que sentiu. E, logo depois, da imensa bronca que recebeu de uma companheira: “Você está louca? Como pode ter um filho nessa situação?”.</p>
<p>Talvez ela estivesse louca, talvez fosse um delírio de uma mulher que tinha todo o futuro traçado atrás de grades intransponíveis. E é por causa de loucos assim que o mundo é melhor, mais belo, mais cheio de esperança, de alegria. São os loucos que são capazes de colocar em xeque todas as verdades, de subvertê-las. Ainda bem que sou filha de uma subversiva!</p>
<p>As histórias de meu nascimento me foram chegando aos poucos. Não, não nasci num presídio, nasci em um ótimo hospital no Flamengo. Não, minha mãe não estava sozinha, ela teve o apoio de outros loucos que se expuseram ao serem presos, mas que estavam ali tentando nos proteger. Pra mim, esses heróis são, por extensão, meus pais e mães, meus parentes mais íntimos.</p>
<p>A imagem dos homens que foram no quarto do hospital ameaçar a minha vida, a vida de minha mãe, me passa pela mente várias vezes. Eu não estava presente, mas posso ver seus rostos, sentir seu suor, ouvir suas vozes tenebrosas. Sempre pude, sempre poderei.</p>
<p>Quanto à minha experiência no presídio, obviamente não tenho memória. Mas todas as vezes que eu vejo a lua cheia, lembro dos meus pais dizendo que essa é a “Lua de Letinha”, porque lhes mostrava no dia em que foram soltos, como se eu estivesse advinhando que eles não tiveram oportunidade de ver o mundo fora do presídio. Porém, apesar da falta de memória específica, eu me lembro do sentimento. </p>
<p>Esse sentimento me acompanha até hoje. Nos momentos importantes da vida ele me retorna, como se um clic interno me acendesse e informasse “isso é importante, seja forte, siga em frente, faça o que é preciso, ouça o entorno, observe, fale menos, se proteja e, sobretudo, proteja os seus”. É um sentimento, uma coisa não mesurável, uma urgência.</p>
<p>Deparei-me com esse sentimento num belo dia de sol. Eu brincava alienada a tudo, na rua Cuba, em Vila Americana, Volta Redonda. Era o ano de 1989. Comecei a ouvir minha avó me chamar, eu precisava voltar para casa imediatamente. Quando cheguei, o caos estava estabelecido. Uma mochila havia sido preparada, papéis eram queimados no fundo da casa, meu avô dizia que tínhamos que ir, “dá um beijo nos seus pais”. Esses, correndo de um canto para o outro, vieram e disseram que era pra eu ir, que o Exército havia invadido a cidade e eles estavam indo para o Sindicato dos Metalúrgicos e me encontrariam mais tarde.</p>
<p>Já era noite quando pegamos um táxi, meus avós e eu, em direção à casa de uma companheira de meus pais, a Marlene. No táxi, o rádio falava como a cidade estaria sendo protegida contra os baderneiros… O taxista começou a falar : “Espero que o Exército pegue esse bando de comunista, tem tudo que ir pra cadeia, vocês não acham?” Silêncio.<br />
Quando chegamos na casa da Marlene, todos de frente para a televisão, tentando ter notícias. O Jornal Nacional dizia como a ação militar em Volta Redonda era importante. Eu via o olhar de pavor nos olhos da minha avó, sentia suas vibrações. Fui ao banheiro chorar pra que não soubessem que entendia que depois desse dia eu poderia não mais encontrar meus pais.</p>
<p>Eles finalmente apareceram. Vieram até a mim e me abraçaram. Explicaram que tentavam ajudar os operários em greve na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Eu entendia e concordava, nada precisava ser explicado. Demos um abraço eterno. Quando foram embora, ficou aquele sentimento de urgência, de manter tudo em ordem, nada poderia nos atingir, nada poderia nos separar, nem mesmo a morte, muito menos a prisão.</p>
<p>Nessa madrugada, três operários foram assassinados, mulheres grávidas foram espancadas por soldados em ônibus, a praça pública foi metralhada, entre outras barbaridades cometidas após a ditadura ter oficialmente terminado. Nessa madrugada eu pude entender um pouquinho todo o terror que meus pais e seus companheiros sentiram por tantos anos, primeiro na clandestinidade, depois nas torturas e, por fim, nas prisões. Uma gota em um oceano de lutas, dores, decepções. Uma gota num oceano de esperança em um mundo melhor, mais igualitário e mais justo.</p>
<p>Uma gota. </p>
<p>Imagino agora a vida dos outros filhos, nascidos antes de mim, que viveram na clandestinidade, que viram seus pais sendo presos, que acompanharam as longas e inesquecíveis sessões de tortura. Só posso imaginar a força dessas pessoas, só posso respeitar suas cicatrizes.</p>
<div style="background-color:#719da0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Leta Vieira de Sousa</strong> nasceu em 1976, filha de Jessie Jane Vieira de Sousa e Colombo Vieira de Sousa Júnior. Formada em arquitetura e urbanismo, tem MBA em gestão de negócios sustentáveis, especialização em cooperação internacional e trabalha como tradutora.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#79bfc4; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Colombo Vieira de Sousa Júnior</strong> nasceu  em 6 de março de 1950. Filho de  Colombo Viera de Sousa e Inah Meireles de Sousa. Iniciou sua militância em 1967. Foi militante da Dissidência do Estado do Rio de Janeiro, Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Sua irmã, Ina Meireles de Souza, também militante do MR-8, foi presa, no Paraná, em abril de 1969 e cumpriu dois anos de prisão no Rio. Quando foi preso, sua mãe, a exemplo do que aconteceu com a mãe e irmã de Jessie, foi presa e levada para o DOI-CODI do Rio de Janeiro onde permaneceu por um mês, obrigada a assistir seu filho ser torturado. Colombo tem um longo percurso no movimento sindical junto ao Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda onde foi assessor político. Foi assessor parlamentar do líder metalúrgico Juarez Antunes, de quem foi secretário de governo  durante seu breve mandato à frente da Prefeitura de Volta Redonda. Foi secretário de transporte da Prefeitura de Caríacica (ES) e presidente do Ceasa deste estado quando Vitor Buaz era governador. Foi também assessor do governador Leonel Brizola. Hoje está aposentado.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#3fe7f3; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Jessie Jane Vieira de Sousa</strong> nasceu em 21 de abril de 1949, em Bom Jesus do Galho, então distrito de Caratinga (MG), numa família de militantes. Filha de Leta de Souza Alves e Washington Alves da Silva, ambos militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do grupamento comunista que deu origem à Ação Libertadora Nacional (ALN). Seus pais foram presos e torturados na Operação Bandeirantes (Oban). Seu pai, Washington, foi banido para o Chile no sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Burcher, em dezembro de 1970.<br />
Em 1969, Jessie entrou para Ação Libertadora Nacional (ALN). Na organização, conheceu Colombo Vieira de Souza. O casal viveu na clandestinidade até  1º de julho de 1970, quando foram presos durante a ação de sequestro do avião Caravelle PP-PDX da Cruzeiro do Sul, no Rio de Janeiro, realizada junto com os irmãos Heraldo e Fernando Palha Freire.Estava com 21 anos quando foi presa e barbaramente torturada no DOI-Codi, do Rio de Janeiro. Jessie e Colombo foram condenados a dezoito anos de prisão e ficaram presos por nove. Ela, na penitenciária de Bangu (Presídio Talavera Bruce) e ele no Instituto Penal Cândido Mendes (Presídio da Ilha Grande). Ficaram cinco anos sem se ver e a única forma de comunicação eram cartas. Em 1972, conseguiram autorização judicial para se casar. Em 1975, conquistaram o direito à visita íntima. Assim, Jessie engravidou na prisão e, em setembro de 1976, nasceu Leta, filha do casal, na Clínica São Sebastião (Rio de Janeiro) sob forte vigilância policial. A bebê permaneceu alguns meses ao lado de Jessie na prisão e depois foi entregue à sua sogra. Jessie e Colombo foram soltos em 1979 e estão casados até hoje.<br />
Jessie tem quatro irmãos: Sandra Maria Alves de Sousa, presa duas vezes em São Paulo e torturada na Operação Bandeirantes, em 1970; Vera Vani<br />
Alves de Pinho, voltou clandestina do Chile e assim viveu por nove anos no Brasil; José Alves Neto-Juca, preso junto o pai no Chile, ficaram por três meses no Estádio Nacional; Ivan de Sousa Alves, casado com uma ex-presa no Uruguai e ainda vive na Suécia.  Com o banimento do pai, as prisões de Jessie, Sandra e de sua mãe, todos entraram na clandestinidade e quando puderam foram para o Chile. No golpe, seu pai e Juca foram presos logo nos primeiros dias. Sua mãe se refugiou e os três se reencontraram a bordo do avião que os levou para a Suécia. Tudo graças à intervenção do embaixador sueco que salvou centenas de pessoas. Sandra e Ivan se refugiaram na embaixada da Argentina e depois foram para Portugal e, em seguida, Suécia.<br />
Seus pais e Juca foram inicialmente para a Suécia, em seguida para Cuba e depois Suécia,  onde  todos se reencontraram (menos Jessie que estava presa e Vera que estava clandestina no Brasil). Seus pais e Juca retornaram ao Brasil em 1980 e Sandra retornou há cerca de 5 anos. Mas Ivan ficou na Suécia.<br />
Hoje, Jessie é professora associada do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Graduada em História pela Universidade<br />
Federal Fluminense (UFF), tem mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em História Social pela UFRJ.</div>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 20:31:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>Quero agradecer a todos os que me encorajaram a escrever minha história, ou melhor, nossa história. Muito do que contarei aqui talvez não fosse necessário para uma narrativa formal do que se passou. Só os documentos públicos seriam suficientes para mostrar as atrocidades que nós passamos, provando que até as crianças perderam sua cidadania durante a ditadura militar. Mas não foi só isso que perdemos e me estendo um pouco mais para que fiquem registrados os sentimentos, os desdobramentos, as consequências e os pontos de vista das crianças que passaram por situações adversas, inclusive até os dias de hoje. E assim possamos lutar por um futuro onde possamos dizer: “Los niños nacen para ser felices” – José Martí.</p>
<p>Meu pai iniciou sua militância no ano de 1959 com apenas 16 anos, sempre incentivado pela minha avó Tercina Dias de Oliveira. Atuou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi eleito na chapa do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco em 1962, onde militou até ser cassado pela ditadura em 1964. Continuou sua luta clandestina organizando os trabalhadores através das comissões de fábrica, o que lhe rendeu oito passagens pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) até 1967, quando elegeram José Ibrahin presidente do sindicato. Meu pai não compôs a chapa dessa vez para que não fosse impugnada, já que toda chapa precisava ser aprovada previamente pelo DOPS, mas fez questão de comparecer ao DOPS junto com Ibrahin e outros companheiros para negar que era comunista e solicitar a aprovação da chapa.</p>
<p>No 1º de maio de 1968, conduziu os trabalhadores metalúrgicos de Osasco junto com Zequinha Barreto, outro grande companheiro de luta, até a Praça da Sé, onde houve o primeiro confronto com as forças de repressão do Estado, que estavam disfarçadas de civis. Tal ato foi o ensaio para a grande greve dos metalúrgicos de Osasco, ocorrida em junho de 1968, em que os trabalhadores foram duramente reprimidos pelos militares, inclusive com tiros. Com sua prisão decretada, teve que ir para a clandestinidade, passando a atuar na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), junto com o Capitão Carlos Lamarca, minha avó Tercina Dias de Oliveira, minha mãe Jovelina Tonello Mantovani do Nascimento e outros companheiros. Nessa época vivi esse ambiente, mas era ainda uma criança muito pequena.</p>
<p>No dia 18 de maio de 1970 fui preso em São Paulo, com minha mãe. Eu tinha apenas 2 anos de idade. Fomos levados para a Oban, onde meu pai foi torturado na minha frente. Passei ainda pelos cárceres do DOPS, Presídio Tiradentes e DOI-CODI/SP. Depois de um tempo, me separaram da minha mãe e fui para um local incerto, talvez para o Juizado de Menores1. Minha mãe solicitou aos militares que me entregassem para minha madrinha, tia Bê, mas nunca o fizeram ou entraram em contato com essa tia. Fui mantido lá como qualquer outro preso político e me levaram diversas vezes às seções de tortura para ver meu pai preso no pau de arara. Para o fazerem falar, simulavam me torturar com uma corda, na sala ao lado, separados apenas por um biombo. </p>
<p>Eu tinha 2 anos e 3 meses e fui tratado como “Elemento Menor Subversivo”, terrorista e fui banido do país por decreto presidencial, conforme consta nos documentos no arquivo do Estado de São Paulo. Fiquei preso até 16 de junho de 1970, quando fomos libertados no resgate feito pelo Capitão Carlos Lamarca na troca de 442 presos políticos pelo embaixador Alemão Ehrenfried von Holleben. </p>
<p>Fui banido juntamente com minha avó Tercina Dias de Oliveira, mais conhecida como “A Tia”, que sabendo estar eu preso com meus pais, informada pelos companheiros de presídio e confirmado pelo seu interrogador, disse: “Entrei com três netos, mas só saio com quatro”. Meus pais continuaram presos.</p>
<p>Além de mim, também foram banidos meus primos-irmãos: Samuel Dias de Oliveira, filho adotivo da minha avó (9 anos de idade quando da prisão);  Luis Carlos Max do Nascimento, filho do primeiro filho adotivo de minha avó (6 anos de idade quando da prisão); e Zuleide Aparecida do Nascimento (4 anos de idade quando da prisão), irmã de sangue do Luis Carlos. Como esclarece minha avó Tercina em seu depoimento à Delegacia Especializada de Ordem Social, quando da sua prisão. Assim, minha avó só aceitou ser banida se pudesse levar consigo as quatro crianças, as três que tinham sido presas com ela e eu. Minha avó sempre contou que um sargento ou capitão, que a interrogou e não teve coragem de torturá-la fisicamente3, ajudou-a e insistiu muito para que conseguisse me levar.</p>
<p>O Decreto presidencial de 15 de junho de 1970 lista os opositores políticos presos que seriam e foram trocados pelo Embaixador da Alemanha, sequestrado pela VPR e aliados.<br />
Chegamos à Argélia em 16 de junho 1970, e em 27 de julho de 1970 desembarcávamos em Havana, Cuba, onde vivi até 7 de janeiro de 1986. Lá, passei os anos mais importantes da vida de um cidadão para sua educação e formação do caráter.</p>
<p>Os primeiros anos que tenho lembranças em minha vida (após um ano em Havana, entre 3 a 4 anos de idade) foram marcados por pavor de policiais de farda, de grupos com mais de quatro pessoas e quando meus pais chegavam do exterior4. Nessas situações eu entrava em pânico, chorava, me escondia debaixo da cama, dentro de armário, mordia quem tentava me pegar, urinava nas calças.</p>
<p>Com 4 para 5 anos de idade, toda vez que via um policial de moto, gritava “Olha meu amigo ali!”. Eu ficava horas na varanda de nossa casa na Quinta Avenida no bairro de Miramar vendo eles passarem e achava que era sempre o mesmo que passava e enchia o saco de todos com meus gritos, “Olha meu amigo ali!”. Quando cresci, e superei esse trauma, minha avó me contou que a Tia Damaris5 teve esta ideia: fomos comprar brinquedos em Los dias de Reyes e, sem eu perceber, ela pediu para um policial me dar um brinquedo de presente. Ele me colocou até em cima da moto, uma clássica Harley Davidson, e só percebi que estava fardado na hora que ele partiu. “Tia Damaris olha&#8230; ele é meu amigo!”</p>
<p>Minha mãe sofreu muito e com certeza eu sofria com ela. Nas entrevistas e depoimentos feitos a jornalistas, minha mãe conta que entrou em todo esse processo de luta armada por amor ao meu pai, e não foi uma história inventada para suportar a dor da tortura, de fato ela tinha uma paixão que, mesmo passando muitas dificuldades durante décadas e hoje serem divorciados, ela ainda fala de meu pai com brilho nos olhos.</p>
<p>Essa paixão acesa no primeiro olhar no refeitório do Frigorífico Bordon (fábrica onde os dois se conheceram), fez que ela o seguisse sem vacilar. Meu pai, já engajado na luta, tinha temor de ter um filho nesses anos de chumbo, mas eu cheguei quando minha mãe completava 30 anos, idade que geralmente mulher não esperava mais ter um filho. Nos dois anos e três meses seguinte, eu não desgrudo da minha mãe, que me amamentou até ser arrancado de seus braços na cadeia.</p>
<p>No meu regresso ao Brasil, em 1986, uma companheira de cela da minha mãe, a Encarnação (Encarnación Lopes Peres, in memoriam) me conta:<br />
Ernesto, sua mãe sofreu muito. Um dia os milicos entraram em nossa cela e fizeram a gente tirar toda a roupa. Eu me despi com raiva e cheia de ódio no meu olhar, não sabia o que nos esperava, mas fomos tão violentadas que nada mais fazia diferença, e eles ficaram gritando com sua mãe para ela se apressar, ela envergonhada começou a tirar a roupa atrás de mim, eu vi aquela cena e me comovi muito, ela era aquela moça com a pureza do interior que sofreu mais com a vergonha de ficar nua na frente desses milicos do que com os choques elétricos que tomou&#8230; é linda a paixão que ela tem pelo seu pai.</p>
<p>Minha mãe sempre me contou de sua aflição durante a clandestinidade, das dificuldades financeiras que passou, muitas vezes só tinha o peito para me dar, e como meu pai era procurado e eles participavam, principalmente, na mobilização da resistência armada na cidade, ele ficava escondido em casa e ela tinha que ir à feira sozinha comigo no colo, ou dirigir com ele escondido no carro. Como minha mãe não era procurada oficialmente (seu nome e foto não tinham sido publicados nos jornais), ela servia de motorista e, em um dos reencontros após o exílio com amigos sobreviventes, me contaram o apuro que todos eles passaram quando foram resgatados e trasladados de um “aparelho” para outro pela minha mãe em uma Rural, eu ao lado dela no banco do passageiro e vários companheiros, inclusive meu pai, deitados no chão atentos com metralhadoras na mão e cobertos por uma lona. No caminho passaram por uma barreira policial, mas o disfarce dela dirigindo sozinha comigo ao seu lado funcionou.  Mas ela ficou tão nervosa que ao chegar à casa-aparelho passou por cima do portão, todos saltaram com arma na mão e por pouco não saíram atirando. Ela ficou com fama de má motorista e até hoje eles riem desse momento quase trágico.</p>
<p>Nesse período eu tinha muitos pesadelos e nas noites de pesadelos sempre fazia minhas necessidades involuntariamente. Quando tinha febre os pesadelos aconteciam até acordado. Lembro uma vez que as tias da creche ficaram tão preocupadas que ligaram pra minha avó ir me buscar e ela mandou meus irmãos. Eles ficaram um pouco comigo para me acalmar, mas a diretora não deixou que me levassem e hoje eu entendo o porquê. O mais velho deles, o Samuel, só tinha 11 ou 12 anos e a creche ficava longe de casa. A última vez que mijei nas calças tive vergonha de falar, eu já estava com 11 anos e dormia no meio da minha mãe e do meu pai depois de eles voltarem de mais uma concentração para irem a outra guerrilha, isso foi em 1979 quando se ofereceram voluntariamente para lutar na revolução da Nicarágua.</p>
<p>Meu pesadelo mais comum era com um asno, uma corda e uma agulha. O asno usava um boné militar, a agulha tinha olhos arregalados e uma risada aguda sarcástica e corria atrás de mim, eu apavorado tentava fugir. O asno me cercava, me dava coices ou chutava coisas sobre mim. A corda parecia boazinha, disfarçada de linha se estendia até mim, mas quando eu a segurava ela machucava minhas mãos e me deixava cair em um abismo.</p>
<p>Devido a toda sua história de luta, meu pai apanhou muito dos militares e sempre se manteve reservado ao falar do tempo que ficou no presídio – nunca conversou comigo sobre nossa passagem pelos presídios. Neste ano, 2013, o repórter Luiz Carlos Azenha fez uma série de reportagens sobre “Crianças e a Tortura”. Em um capítulo dedicado à minha história, ele me entrevistou, depois meu pai e por último minha mãe, separados e em locais diferentes. Meu pai conta para o Azenha que fui levado muitas vezes às seções onde ele era torturado e lá faziam “simulação” de espancamento em mim usando uma corda. </p>
<p>Eu comecei a entender tudo o que as tias e os coleguinhas da creche falavam, mas não me comunicava, ficava sempre nos cantos, atrás de colunas ou de árvores. Lembro de uma tia nova me dando instruções para lavar as mãos e ir para o refeitório quando outra tia lhe disse, “El es brasileño y no entiende, tienes que acerle gestos”. Dei risada e saí correndo. Essa tia nova começou a falar comigo sem fazer gestos e eu sempre a atendia, aí comecei a segui-la. Eu via que ela, à tarde, chamava os meninos maiores e entrava em uma sala e passei a espiar pela porta entreaberta, assim comecei a assistir suas aulinhas de pré-escola. Dessa forma, ela foi me deixando adquirir confiança, até que um dia percebi que estava deitado no meio da sala e na lousa de feltro tinha uma equação matemática simbolizada com patinhos colados. Ela perguntou olhando pra mim: “¿Tres paticos mas dos paticos es igual a&#8230;?” Respondi na hora: “Cinco paticos”. Ela me convidou para sentar na cadeira com os outros e eu respondi “No puedo, yo soy mas chico”. “No importa, ven”. Depois vi seu entusiasmo contando para superiora, “No les dije que el entendia todo y que es muy inteligente”.  </p>
<p>Alguns meses depois, a tia Damaris me colocou na marra na primeira série na escola que a Zuleide e a Telma Lucena estudavam. Não queriam me aceitar porque eu tinha apenas 5 anos, mas a tia Damaris me levou quase que arrastado pelo braço (ela andava muito rápido) um dia depois que começaram as aulas e me enfiou na fila “del Matutino”, foi até a frente da diretora, que ia começar o matutino, e apontando o dedo no nariz dela falou-lhe rápido em português alguma coisa que nem eu entendi e foi embora. Eu estava matriculado.<br />
Mas nunca me esqueci da Inhai [Ñasaindy Barrett]que ficou para trás, que era exatamente um ano e dois meses mais nova do que eu, “¿Y que le pasó a Ñasaindy solita ayá en el circulo?”.</p>
<p>Nesse período, meus pais chegaram definitivamente em Cuba e ficaram preocupados comigo porque, apesar do meu prematuro bom desempenho na escola, eu não mantinha convívio social e ficava distante no “meu mundo”.  Levaram-me ao pediatra para descobrir minhas sequelas. Ele orientou meus pais a buscar um psicólogo, dizendo que eu tinha traços e atitudes de um menino autista, o que não se confirmou. Eram bloqueios, mecanismos de defesa por ter sido separado abruptamente dos pais e pelos abusos que eu passei.</p>
<p>Quando voltei ao Brasil, meus parentes (tios, primos, madrinha etc.) sempre diziam que eu era muito vivo, esperto e falante, além de reconhecer os parentes, comecei a falar muito cedo e com pouco mais de um ano já conhecia as marcas de todos os carros. Fica clara minha mudança radical de comportamento após passar pela prisão.</p>
<p>Durante minha alfabetização, em Cuba, na primeira série, tive muita dificuldade em pronunciar o “rr” , mas um ano depois eu fui condecorado no Teatro Lazaro Penha junto com  os melhores mestres e doutores do país por ter tirado média máxima (dez) na primeira série do primário. No Teatro tive que ficar sozinho, no andar debaixo só podiam ficar os homenageados, a Zuleide viu sua professora que também estava sendo homenageada e pediu para que cuidasse de mim. Sentei no cantinho “de su butaca”, a Zu e meus pais, que estavam há pouco tempo em Cuba de forma definitiva, foram para o andar de cima. Quando me chamaram, foi um suspense. Primeiro o mestre de cerimônia errou meu gigante nome “ahora llamamos Ernesto Carlos Diaz do&#8230; doooo Nasc&#8230;  Nasc&#8230; del Nacimiento, por haber logrado el promédio máximo em todo el año escolar en la Escuela básica Viet-Nam Heroico”. Quando o homenageado se levantava todos aplaudiam, mas como ninguém me via caminhando em direção ao palco, ficou um silêncio total e fui chamado mais duas vezes, quando comecei a subir as escadas meio que engatinhando.  Começaram risos e aplausos progressivamente até o teatro explodir de vibração com todos aplaudindo em pé. Fiz exatamente o que os outros homenageados faziam, debrucei-me sobre a mesa para cumprimentar os integrantes da mesa e peguei meu canudo das mãos da Ministra da Educação Vilma Espin, que teve dificuldades em colocar o broche de condecoração no meu peito debruçada sobre a mesa. No dia seguinte, essa cena comigo foi reprisada na TV no Noticiero Nacional. A Telma gritou “Corre, Chesinho, corre, vem ver você na televisão”.</p>
<p>Nota dez na primeira série, nota cem no Projeto de Graduação, sempre tirei média acima de 9 e no Projeto de Graduação do Centro Tecnológico Amistad Cubano Soviético consegui a nota máxima no teórico e na defesa oral, um feito inédito na história do Instituto, defendendo o projeto perante uma banca de professores. A última pergunta foi: Professor, “Ernesto, sabemos que asi que termines la graduación regresaras a tu país Brasil que sigue las normas Norte-americanas y aqui seguimos las normas internacionales pero el acero y todos los metales que usaste en el proyecto estan codificados por las normas Russas ¿Como haras los proyetos?” Sem hesitar respondí “Sé que Brasil tiene grandes indústrias y puede ser que tengan sus próprias nomenclaturas, pero es sensiyo, lo sabré por la composición química de cada metal encontraré su similar en las normas brasileñas o norteamericanas”. Professor interrompeu, –“Eso dá trabajo tendras que memorizar muchas composiciones”. Respondi,  “Si lo sé, pero vea, por ejemplo, em la matriz de este proyecto uso acero-herramienta ruso YA12C8N6 que tiene 1,2 % de carbono, 0,08 de cromo e 0,06 de niquel temperado a 55 Hrc – Dureza Rockwel una medida internacional, en la guia uso acero-aleado con 0,08% de carbono cementado e temperado  a 1,2 mm de profundidad consiguiendo una alta dureza superficial sin perder la tenacidad, en la base acero de construción com 0,45% de carbono&#8230;”. O professor me interrompe “Disculpeme Ernesto&#8230;”, e olhando para os outros sabatinadores fala “Señores, para mi basta”. Todos concordaram e me dispensaram. </p>
<p>Ficou um suspense danado e eu com um pouco de temor, foram muitas perguntas e apesar da parte teórica do projeto ser feita em grupo, eu fiz tudo sozinho porque os colegas que estagiavam na fábrica comigo não quiseram arriscar e pegaram projetos mais simples. Passei várias noites acordado fazendo o projeto ao lado de minha avó, minha sempre guardiã e companhia nas madrugadas. Todos ficaram aguardando o resultado dos avaliados naquele dia pela banca examinadora até começar um murmúrio geral na escola e  fazerem uma roda sobre mim e todos que chegavam falavam praticamente a mesma frase: “Cooonñó ERNESTO SACASTE 100”, eu respondia “Gracias a mi abuela”.</p>
<p>Cuba é reconhecida mundialmente e até pelos opositores políticos como uma potência na Saúde e Educação, então quem se destaca lá deve ser bom. Pressupondo isso, assim como eu, modéstia à parte, várias crianças brasileiras exiladas em Cuba foram brilhantes. Destaco alguns e me perdoem os outros: a Telma, autodidata, que além de ter sido avaliada durante vários anos na escola como a melhor aluna, aprendeu a falar russo sozinha falando com seus vizinhos no bairro de Alamar, seu irmão Kito que foi campeão de xadrez várias vezes em Cuba – a Ilha também terra de grandes mestres enxadristas –, não pôde participar de competições internacionais porque ele “Não tinha pátria” (não era cubano e era banido do Brasil),  o César Lamarca já desenhava navios no ginásio na escola especial Los Camilitos. Mas o que aconteceu com essas pessoas brilhantes na volta ao Brasil após a Anistia?</p>
<p>Nosso brilhantismo teve que enfrentar o preconceito político-social imposto pela mídia reacionária, a falta de reconhecimento e legalização de nossos estudos e diplomas adquiridos em Cuba por parte das autoridades. A Anistia foi só para os carrascos torturadores, eu só tive meu diploma reconhecido pela Comissão da Anistia do Ministério da Justiça em junho de 2012.</p>
<p>Meus pais chegaram definitivamente em Cuba em abril de 1974, após conseguirem escapar do golpista assassino Pinochet. Eu já tinha 6 anos e estava terminando a primeira série. Dessa vez não entrei em crise no reencontro, eu sabia que eles estavam para chegar e quando os vi entrando na minha sala de aula, reagi com muita tranquilidade, fui até a mesa da professora e pedi licença para ver meus pais, ela com empolgação pediu para eu correr para os braços deles.</p>
<p>A convivência com eles trouxe uma estabilidade e segurança a todos as crianças da casa. A figura e o carinho do meu pai nos proporcionou muita felicidade e, apesar de ser o filho único deles, seus carinhos faziam esquecer que eram praticamente todos órfãos. O Samuka [Samuel] foi adotado pela minha avó, a Zuleide e o Carlinhos são filhos do primeiro filho adotivo da Tia, mas desde muito pequenos foram criados pela nossa avó, os filhos da Damaris tiveram seu pai assassinado e a Ñasaindy perdeu o pai, José Maria Ferreira de Araújo e a mãe, Soledad Barrett Viedma, para os torturadores que nem a lembrança lhe foi preservada. Eu de fato fui privilegiado por ter recuperado meus pais aos 6 anos de idade.</p>
<p>Os cubanos nos deram muito afeto, e todos os cuidados necessários para nosso bem. Minha avó recebia além da casa toda mobiliada, também serviços como troca de gás, conserto de aparelhos domésticos. Tínhamos direito a fazer compras em lojas especiais para técnicos estrangeiros em que era possível encontrar até produtos importados. Com a chegada dos meus pais, eles quiseram viver como os cubanos e nos mudamos para uma casa em La Lisa, um município a oeste de Havana, e passamos a fazer compras nas bodegas que tinham de tudo, claro, menos as guloseimas importadas.</p>
<p>Essa casa com três quartos, dois banheiros e belo quintal, tornou-se a porta de entrada dos brasileiros que chegavam do exílio, que ficavam meses morando com a gente. Alguns se casaram em nossa casa, fizeram aniversários e festa de 15 anos, além dos tradicionais festivais brasileiros de fim de semana. E assim nossa família começou a crescer, com muitos tios carinhosos e que se divertiam conosco como se fosse “seu último dia”&#8230; e foi para alguns. </p>
<p>A cada seis meses recebíamos jornais brasileiros, Jornal do Brasil, Estadão e O Globo. Eu e meu irmão, Carlinhos, gostávamos de histórias em quadrinhos e éramos os primeiros a pegar os pacotes de jornais para cortar as “tirinhas” e colar em um caderno, criando um gibi. Numa dessas vezes vi a foto de seis “tios” que foram mortos na fronteira do Uruguai pelo exército brasileiro entrando clandestinamente no Brasil. Foi um choque. Foi assim também que descobri que eu era classificado como terrorista no rodapé de nossa foto publicada nos jornais quando fomos banidos e até hoje usada para relembrar os terroristas trocados pelo embaixador alemão. Lembro-me ainda que ao ver tal foto, perguntei a minha avó: “Vó! Vó! O que é terrorista?”, “São gente ruim que matam outras pessoas”, “Então eu sou ruim?”, “Claro que não, filho! De onde você tirou isso?”, “Aqui no jornal diz que nós somos terroristas&#8230;”. Não sei se entendi a explicação dela.</p>
<p>Era uma numerosa e esquisita família. Sim, esquisita porque meu pai e minha mãe são tios de meus irmãos que são órfãos e eu não; temos um monte de tios, mas ninguém é irmão; um monte de primos brasileiros que só conhecemos em Cuba. Foram 16 anos em Cuba contando nossa história mais de uma vez por dia.<br />
Mas esta numerosa família foi esmaecendo. Quando a Tia Damaris mudou-se para um apartamento do outro lado de Havana perdi quatro irmãos e ganhei quatro primos, creio que tinha 8 anos. Duro foi perder o contato com a Telma e a Inhai que mudaram de escola e eu fiquei no internato sozinho. A Zuleide também saiu porque foi para o ginásio. Passamos a nos ver praticamente uma vez por ano quando passávamos as férias um na casa do outro.</p>
<p>Muitos tios voltaram clandestinos, José Ibrahin, José Dirceu e outros, não sei se todos vivem hoje. Meu filho mais velho se chama Átila em homenagem a um desses grandes tios dos anos de exílio e que faleceu no Brasil sem poder reencontrá-lo (Deputado Valnerí do Rio Grande do Sul). Átila era seu apelido pelo seu tamanho e bravura. Com as crianças era muito carinhoso, pegava quatro de nós em cada braço e ele virava uma gangorra humana.</p>
<p>Depois da Lei da Anistia em 1979, quase todos se foram. Em março de 1980 meus pais regressaram, a Tia Damaris, meus primos-irmãos Kito, Denise, Telma e Ñasaindy, também.  Tia Isaura, Suely e Célia Coqueiro, Darcy, Rosa Darcisinho e Dorinha com os quais muito convivi antes da chegada dos meus pais em 1974. Miriam (Marília Carvalho Guimarães) e seus filhos da minha idade Marcelo e Eduardo, César e Claudia Lamarca, Tia Clara Charf (em Cuba só a chamávamos de Clara Marighella). Alguns que eu tinha muito apego já se haviam ido, como Tio Gregório (Ubiratã), Mazine, Cassiana, o Tio do Berço (nos primeiros anos de exílio o Tio Rogério deitava em nosso berço para contar historinhas e acabava dormindo). Em 1981 meu irmão mais velho Samuel volta para o Brasil e, em 1982, é a vez do meu irmão Carlinhos. Da casa que abrigou dezenas de “Tios, primos e irmãos” só restou eu, minha avó e minha irmã Zuleide.</p>
<p>Chegou minha adolescência e minha avó me educou do mesmo jeito que educou mais de quarenta crianças que passaram pelas suas mãos, sempre incentivando a encarar os desafios e assumindo responsabilidades. Eu, como todos, aprendi desde cedo a lavar minhas roupas, a pregar um botão ou fazer pequenos remendos no meu uniforme, a cozinhar e saber tomar decisões quando se faz necessário, não importa o tamanho da responsabilidade.</p>
<p>Escolhi fazer um curso tecnológico para voltar ao Brasil com uma profissão para encarar melhor este desafio. Meu pai por carta insistiu que eu continuasse e terminasse a Engenharia na Universidade, mas as saudades da minha mãe e meu anseio em conhecer minha pátria nativa pesaram na minha decisão de regressar em 1986.</p>
<p>Quando meus pais voltaram para o Brasil em 1980, saíram de Cuba em março, mas ficaram um mês no Panamá tentando tirar passaporte e visto de retorno junto a outros brasileiros. Ao chegarem, em abril, ainda ficaram 24 horas no aeroporto de São Paulo sendo interrogados (dessa vez sem agressão física). Confiscaram todos os livros que eles levavam, tanto os de conteúdos técnicos quanto os de políticos. Eu fiquei até 1986 concluindo meus estudos e o sonho de conhecer o Brasil foi crescendo proporcionalmente às saudades que sentia pelos meus pais nesses seis anos de adolescência.</p>
<p>Depois de passar cinco dias no Panamá para tentar tirar passaporte e visto (entramos com salvo conduto, só deram passaporte para o filho da Zuleide que nasceu em Cuba) chegamos ao Brasil em 12 de janeiro de 1986. Até que, enfim, vim a conhecer a minha pátria nativa. Realmente o Brasil é lindo e ser turista aqui é maravilhoso, mas depois de três meses a minha vida de turista acabou, começou a realidade. Foram dois anos de angústia, sofrimento, confronto e cadeia no serviço militar.</p>
<p>Meu pai voltou para Cuba no final de 1985 para nos ajudar nos preparativos para o nosso regresso (foi um reencontro de estranhos). Como ele e minha mãe tiveram dificuldades e não revalidaram seus diplomas, (minha mãe se formou Enfermeira Geral, mas só consegui o registro do COREM de Auxiliar de Enfermagem em 1998; meu pai nunca revalidou seus diplomas, nem voltou a trabalhar na sua profissão), ele pediu pra refazerem todo meu histórico escolar, pediu para retirarem do meu currículo todas as matérias relacionadas a política que fazem parte do ensino fundamental cubano e tivemos que ir a todos os órgãos para validar os documentos que foram certificados pela Embaixada Suíça, representante oficial dos interesses do Brasil em Cuba. Matérias excluídas: Fundamento de los conocimientos Políticos, Geografia Política Econômica, Marx, El Capital 1, El Capital 2, El Capital 3, Marx e Engels, Marxismo Leninismo e Táticas Militares e outras.</p>
<p>Toda essa trabalheira não adiantou de nada, nunca consegui revalidar meu diploma, tendo que trabalhar em serviços inferiores à minha formação. E a discriminação pelo fato de ter vivido em Cuba se manifesta em todas as instituições e esferas sociais.</p>
<p>Como pode ser constatado em uma série de documentos que estão comigo, meu pai fez todos os trâmites para revalidar meu diploma: primeiro, a tradução oficial que lhe custou dois meses de salário; depois, entramos com processo na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo que encaminhou para a Fundação Paula Souza-Fatec. Depois de dois anos devolveram o processo dizendo que não tinham cursos similares no Brasil, sendo meu curso muito superior em matéria e carga horária que um curso técnico e até maior que um similar superior, mas que não poderiam revalidá-lo porque, conforme está escrito em meu histórico, meu curso é “Médio-Superior”. Em 1991, cinco anos após voltar para o Brasil, consegui a equiparação de ensino médio para prosseguir no estudo superior.</p>
<p>Em Cuba revivíamos nossa dramática história contando-a quase todos os dias, mas as reações das pessoas eram de solidariedade e admiração. Aqui no Brasil fui até apedrejado quando debatia politicamente com um professor em uma escola para esclarecer que eu não era terrorista e que em Cuba não existe ditadura militar. Fui preso também duas vezes no Serviço Militar Obrigatório por insubordinação, mas, como suportar calado me chamarem de terrorista, assassino, ateu-satanás e outras injúrias?<br />
Pior é ter que viver uma vida de mentiras, ocultar meu passado, mentir no meu currículo que, em vez de ter me formado no El Centro Tecnológico Amistad Cubano Soviética, me formei no Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernambuco, assim sugerido por colegas, para que eu pudesse arrumar emprego. E não é que funcionou? Claro, mentira tem perna curta e meus empregos em grandes empresas também.</p>
<p>Com muito orgulho dei aulas técnicas (voluntário com pequena ajuda de custo) e fui um dos fundadores de uma escola profissionalizante criada pelo Movimento de Oposição Metalúrgica de São Paulo nos anos 1990, sendo reconhecida pelo MEC como a primeira escola com Supletivo Profissionalizante no Brasil.</p>
<p>Em uma escola profissionalizante renomada de São Paulo, curiosamente fundada em 1964 que só contrata Engenheiros para dar aulas, nunca consegui preencher ficha de solicitação de emprego. Um dia me passei por aluno e consegui chegar na sala do diretor, em uma conversa de quinze minutos já estava contratado, mesmo sem possuir nenhum diploma.</p>
<p>Teve uma empresa que não me discriminou porque um dos diretores era um chileno fugitivo do Pinochet e me contratou como desenhista. Cinco anos depois, com 25 anos eu era diretor técnico desta empresa que trabalhava com tecnologia avançada, automação, robótica etc., com mais de cem funcionários, mas a empresa passou por dificuldades financeiras, nas recessões dos anos 1990 e fiquei novamente trabalhando na informalidade, como empreendedor e ativista no setor de TI e, como voluntário, presido e milito em associações de inclusão social.</p>
<div style="background-color:#d39a41; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Ernesto Carlos Dias do Nascimento</strong>, brasileiro, natural de São Paulo, Capital, nascido em 4 de fevereiro de 1968, casado, quatro filhos e uma neta, filho de Manoel Dias do Nascimento e Jovelina Tonello Mantovani do Nascimento, avó paterna Tercina Dias de Oliveira (A Tia), Formado em Tecnologia de Projetos de Máquinas e Ferramentas, especializado em Tecnologia da Informação e Automação Industrial. Atualmente é Coordenador Governança de TI e Tecnologia Cidadã na Prefeitura de Guarulhos – SP.</div>
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<div style="background-color:#e4dcd0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Tercina Dias de Oliveira</strong> nasceu em 2 de novembro de 1913. Faleceu em 2004, aos 90 anos de idade. Ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Durante o período em que viveu na clandestinidade, Tercina era chamada de “Tia”, apelido dado por Carlos Lamarca. Figura lendária da esquerda brasileira, teve quatro filhos de quatro relacionamentos diferentes e criou outras duas crianças que adotou. Foi Manoel Dias do Nascimento, um dos filhos, que a levou para a militância.<br />
Juntamente com os netos, viveu no sítio em que Lamarca realizava treinamentos militares, no Vale do Ribeira, em São Paulo. Uma de suas missões era fazer a casa principal parecer levar uma vida “normal”. A outra era costurar os uniformes usados nos treinamentos.<br />
Tercina foi presa em Jacupiranga, interior do estado, com três das quatro crianças. Em 1979, foi uma dos 40 militantes trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Hollenben, sequestrados em junho de 1970.<br />
Banida, Tercina seguiu da Argélia para Cuba com três netos e um dos filhos de criação: Samuel Dias de Oliveira, Luis Carlos Max do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.  Retorna ao Brasil em 1986 com Zuleide, Luis Carlos e Ernesto. Samuel voltou em 1982.</div>
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<div style="background-color:#c9b17a; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Manoel Dias do Nascimento</strong> e <strong>Jovelina Tonello M. do Nascimento</strong>  Foram militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca. Ele foi um de seus fundadores, enquanto ela iniciou a militância após a prisão e o exílio.<br />
Antes de ajudar a criar a VPR, Manoel era líder sindical filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Entrou na clandestinidade em 1968, após ter a prisão decretada. Incentivou a mãe, Tercina Dias de Oliveira, a também contribuir para a VPR. Sua tarefa era organizar a guerrilha em São Paulo (SP). Foi preso em maio de 1970, quando cobria um ponto para passar informações a companheiros. No mesmo dia, mais tarde, a companheira Jovelina e o filho Ernesto foram presos na casa da família no bairro de Vila Formosa.<br />
Jovelina trabalhava na prefeitura de Osasco (SP) e foi demitida durante a licença maternidade por causa da militância do marido. Depois de passar pela Operação Bandeirantes (OBAN) e pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi com o filho para a ala feminina do Presídio Tiradentes.<br />
Em fevereiro de 1971, Manoel e Jovelina foram dois dos 70 presos políticos que tiveram a liberdade trocada pela do embaixador suíço Giovanni Enrico Bücher, sequestrado por militantes de resistência à ditadura. Exilaram-se no Chile. Na ocasião, contaram o que tinha acontecido com eles para os cineastas estadunidenses Haskell Wexler e Saul Landau, cujo documentário Brasil, um relato da tortura tornou-se uma das primeiras denúncias internacionais dos abusos cometidos pelo regime.<br />
“Antes de eu descer do pau de arara, minha companheira chegou com meu filho. Este filho assistiu a parte da tortura. Em seguida, puseram minha companheira no pau de arara, tomando choque em todas as partes do corpo, inclusive nas partes íntimas. Na minha presença. Só para eu falar alguma coisa”, relatou Manoel. Chorando muito, Jovelina testemunhou: “Ele [o filho Ernesto] dizia: ‘Não pode bater no papai. Não pode’. Para mim foi muito duro. Batiam muito em mim, mas não me perguntavam nada porque sabiam que eu não tinha participação nenhuma”.<br />
Em 15 de agosto de 1971, o casal chegou a Cuba, onde reencontraram Ernesto. Jovelina, então, foi à Coreia do Norte fazer treinamento de técnicas de guerrilha. Em 1972, ela e Manoel voltam ao Chile para se prepararem a retomada das atividades guerrilheiras no Brasil.<br />
Em setembro de 1973, com o golpe contra Salvador Allende, os dois foram presos no Estádio Nacional. O casal conseguiu fugir e se abrigar num refúgio da ONU, de onde seguiram para Cuba novamente.<br />
Lá, Jovelina fez curso de enfermagem. Ela e o marido voltaram ao Brasil em 1985. Ernesto retorna com Tercina em 1986. </div>
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		<title>&#8220;Fomos levados ao DOPS. Até hojé é doloroso&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2015 20:13:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Paulo Teixeira]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Nascimento]]></category>
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		<description><![CDATA[Meu nome é Luis Carlos Max. Sou um dos quatro netos da Tia Tercina [Dias de Oliveira]. Somos eu, minha irmã Zuleide, tem o Ernesto, e meu irmão de criação, que é o mais velho, o Samuel. Nós fomos criados com minha avó desde cedo. Depois que minha mãe adoeceu, nós fomos viver com a [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Meu nome é Luis Carlos Max. Sou um dos quatro netos da Tia Tercina [Dias de Oliveira]. Somos eu, minha irmã Zuleide, tem o Ernesto, e meu irmão de criação, que é o mais velho, o Samuel. Nós fomos criados com minha avó desde cedo. Depois que minha mãe adoeceu, nós fomos viver com a nossa avó.</p>
<p>Na época da greve de Osasco eu tinha 5 anos. Logo em seguida, minha avó teve que entrar na clandestinidade, junto com meu tio, que era sindicalista e foi cassado. Nessa época, a vó era do Partido Comunista – que foi cassado. </p>
<p>Ficamos indo de um aparelho para outro, fugindo da polícia, até que fomos para o Vale do Ribeira, no final de 1969. O Vale do Ribeira era um centro de treinamento de guerrilha, para preparar o pessoal para a luta armada. Quem chefiava era o Carlos Lamarca. Nós não morávamos na cidade nem no povoado, e sim no vale, dentro do mato. Ali não podia entrar ninguém, era escondido.</p>
<p>Lá, vivíamos minha avó e nós três – eu, Zuleide e o Samuel, irmão adotivo que minha avó criou desde pequeno. O Ernesto ainda não estava conosco. Estava em outro aparelho com o pai e a mãe. Só encontramos com ele quando fomos presos e levados ao Juizado de Menores. E tinha o Nicolas, que era o codinome do José Lavechia. Éramos uma família de camponeses de fachada. Ficamos lá mais ou menos três meses.  Nessa época, eu estava com 6 anos, a Zuleide com 4 e o Samuel com 9. </p>
<p>Lá, nós conhecemos o Carlos Lamarca, coisa de que tenho muito orgulho. Ele morava lá no meio do mato mesmo. A morte dele foi uma perda muito dolorosa. Da mesma forma que ele era rígido por ser um comandante de uma organização, era doce também. Ele nos deu uma grande formação. Ele nos ensinava muita coisa e o tenho como um pessoa muito querida. </p>
<p>Quando o Vale do Ribeira caiu e a polícia ficou sabendo da existência do local, a situação já não podia mais se sustentar, então tivemos que sair de lá e fomos para uma casa em Peruíbe. Desde criança nós tínhamos noção do perigo, éramos preparados para isso, vivíamos nessa tensão. Não éramos crianças comuns que podiam brincar na rua. </p>
<p>A gente ficava dentro de um aparelho. Era complicado. Não podia fazer barulho porque o vizinho de baixo sabia que tinha crianças. Volta e meia tínhamos que sair de uma casa para outra. Nós íamos dentro do carro sem poder olhar para a rua, tínhamos que fechar os olhos, abaixar a cabeça. Isso porque não podíamos reconhecer o lugar para onde estávamos indo.</p>
<p>Aí fomos para Peruíbe. E foi lá que fomos presos. A tensão maior foi quando de madrugada a polícia chegou em casa, foi em março ou abril de 1970. Estávamos eu, vó, Samuel e Zuleide. O Lavechia já não estava mais lá. Ali sim percebemos que a coisa era pesada mesmo. Vimos a brutalidade daquela invasão. A minha avó ficou muito tranquila. Ela sempre foi muito bem preparada para isso e sempre nos preparou. Era de madrugada quando nos acordou: “Olha, não está acontecendo nada, recolham as coisas, arrumem as roupas, nós vamos ter que sair”. E nós tranquilamente fizemos isso. Mas sentimos a invasão, a polícia chegando, entrando e revirando as nossas coisas todas. Foi pesado.</p>
<p>Depois disso, os militares e a polícia invadiram o Vale do Ribeira, teve tiroteios, bombardeios. Ficou uma linha de fogo mesmo. Se estivéssemos ali, não sei o que iria acontecer. </p>
<p>Mas o Lamarca nos tirou dali. Quando os militares estouraram a casa, foi muito sigiloso, não era todo mundo que sabia. A casa serviu de armadilha para outros companheiros que chegassem ali sem saber que havia sido invadida. Aí chegavam lá e já eram presos.</p>
<p>Fomos levados para São Paulo, para o DOPS. Até hoje, quando me lembro, é doloroso. Fomos colocados em uma sala e sabíamos o que estava acontecendo. A situação estava tensa. Hoje eu vejo meus filhos com 6, 7 anos&#8230; Eu não vejo neles o preparo psicológico que tínhamos. Aí falamos: “Mas com 6 anos você fazia isso, fazia aquilo, você sabia o que estava acontecendo?”  A gente vivia aquilo, tinha que saber. De uma forma ou de outra, os nossos companheiros também não deixavam que as dores maiores  chegassem até nós.</p>
<p>Minha avó nos orientava: “Olha, vocês não podem falar alto”, “Agora seu nome será X”.  Eu não podia mais chamar minha irmã de Zuleide, tinha que ser Zulmara. E ela não podia atender pelo nome de Zuleide. E eu passei a ser chamado de João Carlos. Essa era a preparação que tínhamos.  Acho que todas as crianças que estavam com seus parentes na clandestinidade também receberam esse preparo. A minha avó sempre passou segurança para nós, sempre foi dura, carinhosa na hora que era para dar carinho e dura  quando necessário. Pela vida que levávamos, a minha avó não podia ser mole conosco. Aliás, ninguém podia ser mole naquela época, então a minha avó sempre falou olhando nos nossos olhos e sempre falou sério quando era necessário. Ela era nossa referência de seriedade, de tudo. A melhor referência que tenho é a da minha avó, que no caso todo mundo chama de Tia.</p>
<p>No DOPS, foi uma crueldade quando nos colocaram em uma sala e nos separaram da vó. Eu, que sempre fui o mais rebelde dos irmãos, me agarrei muito na minha vó e comecei a chorar. Aí dois policiais pegaram a minha avó pelo braço e outro me desgarrou dela. Ela me disse: “Carlinhos, fique tranquilo que não vai acontecer nada, tá? Depois a gente se vê”. Mas eu fiquei muito mal, porque a partir dali eu não a vi mais. Ficamos horas e horas naquela sala.  E depois fomos levados para o Juizado de Menores. Eu fiquei muito mal, mas muito mal. Eu não queria me alimentar, não queria brincar com as outras crianças que estavam lá. Nunca tinha me separado dela. Lembro disso até hoje. </p>
<p>Eu e a Zuleide, como éramos menores, fomos levados ao Juizado. Não fomos maltratados lá. Mas o Samuel, como já tinha mais de 9 anos, foi levado para uma instituição de crianças infratoras, onde foi maltratado. Mas antes de nos levarem para o Juizado de Menores, nos levaram para uma casa muito grande. Não sei qual era a intenção de fazer isso, se era para depois alguém nos adotar. Ficamos ali uns três ou quatro dias. Era uma casa comum, muito chique, com móveis caros, de madeira, com tapetes. Não vimos ninguém além de uma senhora que cuidava de nós. Ela não nos maltratava, mas também não nos dava carinho nem nada. </p>
<p>Eu, por ser mais rebelde, saía do quarto correndo e ela dizia: “Não, não pode sair do quarto”. Ela levava comida para nós. Só saíamos de lá para ir ao banheiro. E dali nos levaram para o Juizado de Menores, onde ficamos uns dois meses mais ou menos.</p>
<p>Lá, praticamente só havia crianças, tinha até bebês. Então ficávamos brincando o dia todo. A única coisa com a qual me senti muito mal foi que tiraram os nossas pertences, cortaram o cabelo da Zuleide e tiraram o brinquinho de ouro dela, uma argolinha que minha avó havia dado a ela.<br />
Um belo dia chegaram e disseram: “Olha, vocês estão indo embora”. Foi uma alegria.  Nos levaram não sei para onde, não sei se foi de novo para o DOPS, mas reencontramos a nossa avó. Todo esse tempo ficamos sem saber nada dela. Quando nos reencontramos, a alegria foi imensa. E junto com ela estavam os companheiros, inclusive o Nicolas. </p>
<p>Nós fomos fichados, tiraram uma série de fotografias, tiraram as digitais. Depois ficamos sabendo que estávamos saindo do Brasil. A polícia não estava querendo liberar as crianças e minha avó disse: “Sem as crianças eu não vou”. Nós não tivemos passaporte. Quando você é banido, não tem passaporte, não tem documentação nenhuma. É expulso mesmo. Nós, por estarmos junto com nossos companheiros, fomos fichados como terroristas. Não somos nós que estamos dizendo isso. São os documentos do DOPS que diziam que éramos terroristas. </p>
<p>Tiraram nossas digitais para caso retornássemos ao Brasil, já saberiam. Se retornássemos para o Brasil é porque iríamos fazer guerrilha, como teve companheiros que voltaram e foram assassinados. Então fomos banidos mesmo, exilados.</p>
<p>Parece que essa noite nós dormimos no DOPS ou no aeroporto. Aí fomos para o Rio de Janeiro, onde chegamos à noite. Dormimos no saguão do aeroporto, em uma sala onde estavam todos os companheiros, os quarenta. Era uma sala imensa, com um montão de colchões no chão e dormimos ali. No dia seguinte de manhã, embarcamos para a Argélia. Antes de sairmos, tiraram aquela foto que todo mundo já conhece. Fomos num avião comum, da Varig, até hoje me lembro. </p>
<p>Na Argélia, também havia um problema político, então não podíamos estar muito expostos. Depois o Fidel Castro ficou sabendo da situação e disse: “Quero que essas crianças venham para Cuba. Eu me responsabilizo por elas, vou dar educação e saúde para elas”. Foi o próprio Fidel que nos fez esse convite.</p>
<p>Aí pegamos outro avião e fomos para Cuba, onde fomos acolhidos pelo governo e pelo povo cubano.  Praticamente toda a formação cultural e política que temos é cubana. Quando cheguei lá, em agosto de 1970, já tinha 7 anos. </p>
<p>Minha mãe não foi para Cuba. Me separei dela quando tinha 4 anos de idade. E como tínhamos entrado na clandestinidade, não soube mais dela. Eu vim a reencontrá-la, praticamente conhecê-la, quando eu tinha 42 anos de idade. Por conta desses problemas todos, não consegui conviver com ela. E o triste da história são as sequelas que ficam. </p>
<p>Quando voltamos para o Brasil, não foi de uma forma segura. Havia um medo muito grande. Sempre tivemos aquele temor da farda verde dos militares. Tínhamos temor até de guarda de banco, de arma. Era uma coisa tenebrosa, eu ficava com medo de ver polícia, de ver militar, achava que estava sendo vigiado. A minha irmã tremia quando via a polícia. Treme até hoje.</p>
<p>Eu voltei ao Brasil um pouco antes da Zuleide. Cheguei em 1982, tinha 18 para 19 anos. Nós tínhamos um problema de identidade muito grande. Fui saber meu nome verdadeiro quando o meu tio Neto voltou para o Brasil para preparar o campo para nosso retorno. Não tínhamos casa aqui, não tínhamos documento nenhum. Então enviaram para Cuba a nossa certidão de nascimento. Aí que eu fui ver realmente meu nome verdadeiro, porque até então não sabia.</p>
<p>Recebi a certidão de nascimento em 1980. Foi quando preparamos toda a documentação para retornar ao Brasil. Até então, eu tinha uma confusão de nomes. Eu não sabia mais qual era meu nome, se era João Carlos, se era João Carlos Dias, se era Luis Carlos Dias.</p>
<p>Em Cuba, nossa convivência com as crianças cubanas era normal, porque estudávamos praticamente numa escola interna. Tínhamos uma ligação também muito grande com as crianças brasileiras que moravam lá. Eram os filhos da Damaris Lucena, do Lamarca, que eram o Cesar e a Claudinha, os filhos do Darcy [Rodrigues] também estavam lá. A nossa casa era praticamente um território brasileiro, pois todos os brasileiros exilados em Cuba que moravam em Havana se reuniam na nossa casa, na casa da minha avó. No 7 de Setembro e no Carnaval fazíamos festas. Era um território onde não se podia falar espanhol, só português, para não perdermos o nosso idioma. </p>
<p>Tínhamos aulas de Português e História do Brasil, porque nossos pais sabiam que tínhamos que voltar para o Brasil e não perder essa identidade, eles se preocupavam com isso.  A influência cubana para nós foi muito grande, fomos muito novos para Cuba. Lá, havia preparação de guerrilha. Então, nós, os maiorzinhos, já estávamos sendo preparados também justamente para voltar para o Brasil e montar a nossa guerrilha. Tivemos aulas de guerrilha em Cuba, com armas, em locais estratégicos.</p>
<p>Nós fomos muito bem aceitos, mas não éramos cubanos, éramos brasileiros e estávamos com muita vontade de voltar para o Brasil e reencontrar as nossas identidades. Até hoje eu não achei minha identidade.</p>
<p>Moro no Rio de Janeiro e hoje vim especialmente para São Paulo. Meu filho mais velho, de 25 anos, me perguntou: “Pai, o que você vai fazer em São Paulo?” Eu respondi: “Meu filho, eu tenho que resgatar uma coisa do passado para todas aquelas pessoas que não conheceram o que aconteceu no Brasil, na época que todo mundo estava cego com futebol. Na década de 1970 teve a Copa do Mundo, nas ruas estava se comemorando o jogo do futebol. Nem sei se o Brasil foi campeão na época, mas a maioria dos brasileiros também não sabia que nos porões da ditadura pessoas eram assassinadas, até crianças foram torturadas na época”. Foi isso que falei para os meus filhos. </p>
<p>Porque nos livros, nas escolas, as crianças não sabem que isso aconteceu. Eu e minha irmã, assim como muitas outras crianças, somos a prova viva do que realmente aconteceu. </p>
<p>Fisicamente as coisas vão se apagando, como o companheiro Zé Ibrahin que morreu esta semana [José Ibrahin, líder sindical, faleceu em 2 de maio de 2013]. Mas temos que ir levando as memórias para o futuro. Da mesma forma que se guardou as histórias da Segunda Guerra Mundial, do Holocausto, também queremos falar sobre isso todos os dias para que isso nunca mais aconteça. </p>
<div style="background-color:#f9eac7; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Luis Carlos Max do Nascimento</strong> nasceu em Osasco (SP). Filho de Maria do Perpétuo Socorro do Nascimento e de Sebastião Rivom do Nascimento. Tem formação de  Técnico Industrial, trabalha em metalúrgica e mora no Rio de Janeiro.</div>
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<div style="background-color:#e4dcd0; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Tercina Dias de Oliveira</strong> nasceu em 2 de novembro de 1913. Faleceu em 2004, aos 90 anos de idade. Ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Durante o período em que viveu na clandestinidade, Tercina era chamada de “Tia”, apelido dado por Carlos Lamarca. Figura lendária da esquerda brasileira, teve quatro filhos de quatro relacionamentos diferentes e criou outras duas crianças que adotou. Foi Manoel Dias do Nascimento, um dos filhos, que a levou para a militância.<br />
Juntamente com os netos, viveu no sítio em que Lamarca realizava treinamentos militares, no Vale do Ribeira, em São Paulo. Uma de suas missões era fazer a casa principal parecer levar uma vida “normal”. A outra era costurar os uniformes usados nos treinamentos.<br />
Tercina foi presa em Jacupiranga, interior do estado, com três das quatro crianças. Em 1979, foi uma dos 40 militantes trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Hollenben, sequestrados em junho de 1970.<br />
Banida, Tercina seguiu da Argélia para Cuba com três netos e um dos filhos de criação: Samuel Dias de Oliveira, Luis Carlos Max do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.  Retorna ao Brasil em 1986 com Zuleide, Luis Carlos e Ernesto. Samuel voltou em 1982.</div>
<p></p>
<div style="background-color:#c9b17a; padding: 5px 30px 30px 30px;"><strong>Manoel Dias do Nascimento</strong> e <strong>Jovelina Tonello M. do Nascimento</strong>  Foram militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca. Ele foi um de seus fundadores, enquanto ela iniciou a militância após a prisão e o exílio.<br />
Antes de ajudar a criar a VPR, Manoel era líder sindical filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Entrou na clandestinidade em 1968, após ter a prisão decretada. Incentivou a mãe, Tercina Dias de Oliveira, a também contribuir para a VPR. Sua tarefa era organizar a guerrilha em São Paulo (SP). Foi preso em maio de 1970, quando cobria um ponto para passar informações a companheiros. No mesmo dia, mais tarde, a companheira Jovelina e o filho Ernesto foram presos na casa da família no bairro de Vila Formosa.<br />
Jovelina trabalhava na prefeitura de Osasco (SP) e foi demitida durante a licença maternidade por causa da militância do marido. Depois de passar pela Operação Bandeirantes (OBAN) e pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi com o filho para a ala feminina do Presídio Tiradentes.<br />
Em fevereiro de 1971, Manoel e Jovelina foram dois dos 70 presos políticos que tiveram a liberdade trocada pela do embaixador suíço Giovanni Enrico Bücher, sequestrado por militantes de resistência à ditadura. Exilaram-se no Chile. Na ocasião, contaram o que tinha acontecido com eles para os cineastas estadunidenses Haskell Wexler e Saul Landau, cujo documentário Brasil, um relato da tortura tornou-se uma das primeiras denúncias internacionais dos abusos cometidos pelo regime.<br />
“Antes de eu descer do pau de arara, minha companheira chegou com meu filho. Este filho assistiu a parte da tortura. Em seguida, puseram minha companheira no pau de arara, tomando choque em todas as partes do corpo, inclusive nas partes íntimas. Na minha presença. Só para eu falar alguma coisa”, relatou Manoel. Chorando muito, Jovelina testemunhou: “Ele [o filho Ernesto] dizia: ‘Não pode bater no papai. Não pode’. Para mim foi muito duro. Batiam muito em mim, mas não me perguntavam nada porque sabiam que eu não tinha participação nenhuma”.<br />
Em 15 de agosto de 1971, o casal chegou a Cuba, onde reencontraram Ernesto. Jovelina, então, foi à Coreia do Norte fazer treinamento de técnicas de guerrilha. Em 1972, ela e Manoel voltam ao Chile para se prepararem a retomada das atividades guerrilheiras no Brasil.<br />
Em setembro de 1973, com o golpe contra Salvador Allende, os dois foram presos no Estádio Nacional. O casal conseguiu fugir e se abrigar num refúgio da ONU, de onde seguiram para Cuba novamente.<br />
Lá, Jovelina fez curso de enfermagem. Ela e o marido voltaram ao Brasil em 1985. Ernesto retorna com Tercina em 1986. </div>
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