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	<title>Infância Roubada &#187; lucaspretti</title>
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		<title>&#8220;Vivi as dificuldades da minha filha  como se fossem minhas&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 22:15:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[lucaspretti]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[Resende]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rosemary Reis Teixeira O ideal de uma pessoa jovem é muito forte. Eu era jovem e possuía essa força. Desejava mudar, corrigir erros, fazer justiça. Lutar por um mundo melhor, eliminar as diferenças. Ver pessoas desprotegidas doía na minha consciência de jovem idealista, que acreditava ser possível transformar a sociedade e viver em um [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>por Rosemary Reis Teixeira</p>
<p>O ideal de uma pessoa jovem é muito forte. Eu era jovem e possuía essa força. Desejava mudar, corrigir erros, fazer justiça. Lutar por um mundo melhor, eliminar as diferenças. Ver pessoas desprotegidas doía na minha consciência de jovem idealista, que acreditava ser possível transformar a sociedade e viver em um mundo mais justo.</p>
<p>Em função da repressão advinda da ditadura militar, eu e Gilberto [Gilberto Franco Teixeira] tivemos de optar por deixar a vida normal e viver na clandestinidade. Isso naturalmente acarretou mudanças radicais para nós e para nossa filha.</p>
<p>Nessa época, Rita era uma menina de 5 anos, saudável, alegre, vivia em Goiânia, em um porto seguro. Rodeada por uma família grande, muitos primos da sua idade, amigos. </p>
<p>Com a ditadura, para sobreviver à repressão, nós, Gilberto e eu tivemos que adotar outra identidade: “Juarez e Rosa”, e nos mudamos para o sertão alagoano.</p>
<p>Essa mudança de vida, o convívio com pessoas muito pobres (camponeses sem terra e sem o mínimo necessário à sobrevivência) foi o lado bom, o lado benéfico de toda essa história. Aprendi muito nessa época, principalmente em termos de relacionamento humano. Por incrível que pareça, aprendi com a Rita, a criança que imediatamente se integrou com todos, com a criançada do lugar, com a pobreza, com a alimentação diferente e escassa. Aprendeu a brincar com as coisas que o lugar oferecia. Para crianças, não existem fronteiras ou obstáculos para se viver com as diferenças, seja de cor, religião, situação econômica e social. A relação social é profunda, pura, sincera. Eu já me norteava por esses princípios, mas vi através da Rita que a prática vai muito além da teoria, tudo é muito simples e verdadeiro. Se nós, adultos, aprendêssemos mais com as crianças, certamente teríamos um mundo melhor.</p>
<p>Se eu pudesse, falaria somente do lado bom da história mas não seria a história verdadeira. O estrago foi muito grande. A repressão militar destruiu sonhos e projetos de vida que previam uma vida digna para todos. Causou muitas feridas e deixou muitas cicatrizes. </p>
<p>Minha experiência de mãe nessa época foi muito sofrida. Sofri por ver a Rita passar por situações que foram frutos da minha escolha. Eu escolhi lutar por uma sociedade mais justa e sabia que isso envolvia risco, mas o ideal nos movia para a frente e o filho é parte de nós, não tem como separar a vida de pais e filhos.</p>
<p>O instinto de proteção de uma mãe não tem limites e eu me via impedida de exercê-lo, impotente numa prisão com a minha filha sem saber o que poderia acontecer no dia seguinte. A solução foi viver um dia após o outro tentando minimizar o sofrimento da criança com um suprimento muito grande de carinho, paciência, dedicação. Foi uma experiência muito difícil. Quando a Rita dormia, eu podia extravasar os meu próprios sentimentos: medo, angústia, ressentimentos, impotência, receios. Apareceria uma doença amanhã? O dente doeria? E se os militares tirassem a menina de mim? Ou me levassem para longe dela? Nossa família em Goiânia não sabia da nossa prisão porque fomos presos com outra identidade. Não havia como esperar ajuda. O que restava era apreensão e temor, dia após dia. Se os militares descobrissem nossa verdadeira identidade tudo poderia piorar ainda mais. </p>
<p>O pai da Rita, Juarez (Gilberto) também preso em outra unidade carcerária, conquistou a confiança de um agente e através dele conseguiu uma advogada para nos defender. Essa foi a fagulha de luz diante daquele futuro incerto. É com agradecimento e grande carinho que falo dessa jovem advogada, destemida, valente, que sem obter qualquer vantagem financeira evitou que o pior acontecesse. O nome dela é Maria Ligia Januzzi Jablonca. </p>
<p>Após cinco meses de prisão, conquistamos a liberdade, mas não o direito à vida normal, pois tivemos que viver com várias restrições por mais alguns anos. Tive, como mãe, que lutar para ajudar minha filha a vencer seus medos, inseguranças, limitações, inclusive na aprendizagem escolar pois ela somente se alfabetizou aos 9 anos de idade.</p>
<p>Muitas coisas ainda poderiam ser ditas, pois a missão de uma mãe é ver o filho se realizar como pessoa e o trabalho para alcançar esse objetivo nos acompanha durante toda a vida.</p>
<p>Vivi as dificuldades enfrentadas pela minha filha como se fossem minhas. As conquistas eu partilhei com ela na mesma intensidade. Em tempos difíceis, vivemos momentos muito marcantes. Devo registrar aqui um desses momentos. Faço uma homenagem à solidariedade humana. </p>
<p>A solidariedade é um sentimento que penetra fundo na alma e que vive para sempre em quem foi beneficiário dela. Eu vivi essa experiência. </p>
<p>Ao sair da prisão fui orientada a seguir para São Paulo com minha filha e encontrar, nessa cidade, em uma determinada praça, a pessoa que me ajudaria naquele momento. Eu estava frágil e desorientada após cinco meses de prisão e tinha pouquíssimo dinheiro. São Paulo, em 1969, vivia seus piores momentos de repressão. </p>
<p>Sentada em um banco da praça com minha filha, vi se aproximar de nós e se apresentar, aquele homem alto, de olhar bondoso que me inspirou confiança. Seu nome era João. Tempos depois soube que se tratava do Paulo Stuart Wright, ex-Deputado Federal pelo Paraná, torneiro mecânico e líder operário que estava sendo caçado por toda a cidade. Andamos a pé por um longo tempo e nos lugares onde o clima de guerra se acalmava ele carregava a Rita no colo e demonstrava a ela todo o seu carinho. Em outros momentos, ele caminhava à frente e nos orientava a segui-lo à distancia até chegarmos à casa de sua irmã onde nos deixou em segurança. </p>
<p>Essa lembrança me emociona muito, principalmente por saber que pouco tempo depois ele foi preso e torturado até a morte. Deixo minha homenagem ao grande homem Paulo Stuart Wright que muito lutou pelo povo brasileiro. </p>
<p>Hoje estamos aqui, vivas, minha filha Rita e eu, para contar essa história. Quantos ficaram pelo caminho, quantos tiveram seus sonhos rompidos, quantas vidas perdidas. </p>
<p>Dizem que o tempo cura todos os pesares. Acredito que as feridas provocadas pelas atrocidades da repressão nos tempos da ditadura permanecerão abertas para sempre na lembrança de todos aqueles que foram atingidos, seja pela perda da liberdade, pela infância roubada ou pela morte prematura de muitos cujos familiares não tiveram sequer a chance de enterrá-los com a dignidade que o ser humano merece.</p>
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Rosemary Reis Teixeira</h4>
<p>Nasceu em 26 de março de 1944, em Goiânia (GO). Filha de Maria Reis Resende e Joaquim Resende Barros. Em agosto de 1962, conhece Gilberto Franco Teixeira, com quem começa a se relacionar (o casal segue junto até os dias atuais). Influenciada pela militância do avô, Pedro Doca, que foi do Partido Comunista, iniciou sua militância na Juventude Estudantil Católica (JEC), em 1963. </p>
<p>Depois, passou a militar na organização Ação Popular. Em 1965, ingressa no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goias (UFG). Em março de 1967, com o acirramento da repressão, Rosemary e Gilberto casam às escondidas e entram para a clandestinidade. Em abril do mesmo ano, o casal e a filha adotiva Rita vão viver em Pariconha, interior de Alagoas. Lá, Rosemary passa a usar o codinome de Rosa e Gilberto assume o codinome de Juarez Echeverria. Em Pariconha fazem trabalho de base com os camponeses do sertão alagoano. Rosemary atua na alfabetização de camponeses por meio do método Paulo Freire e na politização das mulheres da região. Em dezembro de 1968, é presa junto com sua filha e com Dodora Arantes e seus dois filhos. Seu marido também é preso. Após cinco meses de prisão, voltam para Goiás e seguem na vida na clandestinidade.</p>
<p>Em maio de 1971, nasce a segunda filha do casal, Uliana Reis Teixeira. Nessa época, Rita estava com 11 anos. No mesmo ano Rosemary retorna à faculdade, onde é impedida de colar grau com a turma sob o argumento de que o histórico escolar dos dois primeiros anos não foi encontrado. A colação de grau ocorreu somente em 1988 quando, depois de anos de busca, um amigo professor encontrou os referidos documentos “esquecidos” em uma gaveta da universidade. Em 1982 nasce o terceiro e único filho homem do casal, Juarez (nome escolhido em homenagem ao pai Gilberto por sua atuação política com esse nome na clandestinidade). Juarez viveu 10 anos e faleceu em em 1992. Hoje, Rosemary é servidora pública estadual aposentada.</p>
<h4>Gilberto Franco Teixeira</h4>
<p>Nasceu em 18 de junho de 1941, em Goiânia (GO). Filho de Anita Lombardi Teixeira e Adolpho Sindulpho Teixeira. Militante do movimento estudantil secundarista do Liceu de Goiânia. Em 1963 inicia a militância na JEC junto com sua companheira Rosemary. No ano seguinte, ingressa na Faculdade de Direito da UFG. É eleito presidente do centro acadêmico XI de Maio, onde atua intensamente. </p>
<p>Com o golpe militar de 1964, participa da luta do movimento estudantil contra a intervenção Federal em Goiás e a destituição do Governador. Em 1965, é preso em São Paulo com mais 13 militantes da Ação Popular e levado ao DOPS. Em 1966, é decretada a prisão de Gilberto em função de sua atuação no XI de Maio da Faculdade de Direito. Assim, interrompe o curso e entra para a clandestinidade para evitar a prisão. </p>
<p>Depois do período de trabalho de base junto aos camponeses de Pariconha e da prisão, já de volta a Goiás, Gilberto volta à universidade e termina o curso de direito. </p></div>
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		<title>A felicidade interrompida  da &#8220;menina ruim&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 22:12:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[lucaspretti]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Rita de Cássia Resende Em 1968, aos 5 anos de idade, fui morar com meus pais Gilberto e Rosemary em um povoado camponês chamado Pariconha, no interior de Alagoas. Ali, eles eram chamados de “Juarez” e “Rosa”. Minha mãe me explicou que eles deveriam ser chamados por esses nomes para a nossa segurança e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>por Rita de Cássia Resende </p>
<p>Em 1968, aos 5 anos de idade, fui morar com meus pais Gilberto e Rosemary em um povoado camponês chamado Pariconha, no interior de Alagoas. Ali, eles eram chamados de “Juarez” e “Rosa”. </p>
<p>Minha mãe me explicou que eles deveriam ser chamados por esses nomes para a nossa segurança e que isso seria nosso segredo. Pelo que me lembro, apesar da pobreza do lugar, as pessoas eram boas e eu brincava com a meninada como uma criança normal. Fui feliz ali até o dia que aconteceu algo que uma criança não pode entender, nem suportar sem sentir pavor e insegurança. Foi uma noite de pesadelo. Acordei com batidas fortes na porta, gritos, depois porta caindo, a casa sendo invadida por soldados fortemente armados. Hoje eu diria que foi um filme de terror. Depois, a prisão. E a falta de tudo: acabou o sol, as brincadeiras, comida pouca e ruim.</p>
<p>Eu gostava de correr, mas tinha que ficar parada. Tínhamos quinze minutos para almoçar em um refeitório que saía para um pequeno pátio. Corríamos para lá, a Priscila, o André e eu, crianças presas políticas, querendo brincar. Víamos ratos enormes subindo pelas calhas do prédio velho. Havia muita sujeira e hoje sei que era lixo hospitalar jogado a céu aberto no pátio do Hospital do 20º Batalhão da Polícia Militar de Alagoas.</p>
<p>Mães e crianças ficamos mais de cinco meses presas. Para mim, representou uma eternidade. Sei que sofri muitas perdas, mas sempre me recusei a aprofundar nesta questão, talvez por fuga, medo&#8230;  Apesar dos esforços de meus pais, depois que saímos dali só consegui me alfabetizar aos 9 anos de idade. </p>
<p>Durante anos me fechei e não suportava política e polícia. Depois, entendi que a causa de meus pais era nobre. Lutaram por um ideal de justiça e igualdade social. Quando criança e mesmo adolescente sentia que me tiravam o direito à vida. A advogada que nos defendeu falou aos militares no julgamento que nós, crianças presas, éramos uma ameaça à segurança nacional.</p>
<p>O tempo passou e apesar de tudo que me foi tirado, hoje sou uma pessoa feliz dentro do possível. Tenho uma filha, Maria Tereza, e um neto de 2 anos, Joaquim, que proporcionam muitas alegrias e completam minha vida. Penso que hoje eles vivem em uma sociedade melhor e que eu inconscientemente contribuí para isso.</p>
<p><strong>Fragmentos de memória</strong></p>
<p>Em Pariconha lembro que brincava de fazer carro de boi com cacto e palito de dente, fazia guerra de mamona. Ganhei um pote de barro para carregar água na cabeça, mas quebrou. Brincava com coisas simples da região, pois não tinha brinquedo.</p>
<p>Na primeira prisão, lembro que chegou uma mala cheia de coisas. Fiquei desesperada para ver o que tinha dentro. Por sorte, me deixaram pegar alguns brinquedos: um boneco chamado “Bonitão”, que vestia uma roupinha azul e era de plástico, fogãozinho e panelinhas. Foi onde minha mãe achou cartas de Goiânia com a verdadeira identidade de meus pais biológiocos e escondeu. Ela falou que eu precisava ir ao banheiro então leu as cartas e jogou fora. </p>
<p>No mesmo lugar, andando no pátio da prisão, vi várias celas pequenas e em uma delas estava meu pai deitado em um banco de madeira. Tentei a todo custo abrir a grade da cela, então no tanque ao lado tinha uma faca enorme. Peguei a faca e falei para o agente que eu ia matar todo mundo. Ele olhou pra mim  e disse  “menina ruim”. Fiquei muito brava aquele dia. Nesse dia, meu pai escreveu uma carta para mim porque era meu aniversário. Até hoje tenho uma cópia da carta. (Porque a original se perdeu com o tempo).<br />
 No cômodo que ficamos tinha pouco espaço. E ainda pisei em um prego enferrujado.  Nessa mesma prisão, um agente carcerário deu para mim, para o André e para a Priscila os presentes que ele tinha ganhado de Natal para seus filhos na Campanha de Natal. O que eu escolhi foi um barco azul e branco. Isso significou muito para mim. Era como se eu visse o brilho de uma jóia na lama.</p>
<div style="background-color:#4f4e4e; padding: 30px; color: #fff;">Rita de Cássia Resende nasceu em 1 de abril de 1962. É filha adotiva de Rosemary Reis Teixeira e Gilberto Franco Teixeira. É funcionária pública estadual em Goiás. </div>
<p></p>
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Rosemary Reis Teixeira</h4>
<p>Nasceu em 26 de março de 1944, em Goiânia (GO). Filha de Maria Reis Resende e Joaquim Resende Barros. Em agosto de 1962, conhece Gilberto Franco Teixeira, com quem começa a se relacionar (o casal segue junto até os dias atuais). Influenciada pela militância do avô, Pedro Doca, que foi do Partido Comunista, iniciou sua militância na Juventude Estudantil Católica (JEC), em 1963. </p>
<p>Depois, passou a militar na organização Ação Popular. Em 1965, ingressa no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goias (UFG). Em março de 1967, com o acirramento da repressão, Rosemary e Gilberto casam às escondidas e entram para a clandestinidade. Em abril do mesmo ano, o casal e a filha adotiva Rita vão viver em Pariconha, interior de Alagoas. Lá, Rosemary passa a usar o codinome de Rosa e Gilberto assume o codinome de Juarez Echeverria. Em Pariconha fazem trabalho de base com os camponeses do sertão alagoano. Rosemary atua na alfabetização de camponeses por meio do método Paulo Freire e na politização das mulheres da região. Em dezembro de 1968, é presa junto com sua filha e com Dodora Arantes e seus dois filhos. Seu marido também é preso. Após cinco meses de prisão, voltam para Goiás e seguem na vida na clandestinidade.</p>
<p>Em maio de 1971, nasce a segunda filha do casal, Uliana Reis Teixeira. Nessa época, Rita estava com 11 anos. No mesmo ano Rosemary retorna à faculdade, onde é impedida de colar grau com a turma sob o argumento de que o histórico escolar dos dois primeiros anos não foi encontrado. A colação de grau ocorreu somente em 1988 quando, depois de anos de busca, um amigo professor encontrou os referidos documentos “esquecidos” em uma gaveta da universidade. Em 1982 nasce o terceiro e único filho homem do casal, Juarez (nome escolhido em homenagem ao pai Gilberto por sua atuação política com esse nome na clandestinidade). Juarez viveu 10 anos e faleceu em em 1992. Hoje, Rosemary é servidora pública estadual aposentada.</p>
<h4>Gilberto Franco Teixeira</h4>
<p>Nasceu em 18 de junho de 1941, em Goiânia (GO). Filho de Anita Lombardi Teixeira e Adolpho Sindulpho Teixeira. Militante do movimento estudantil secundarista do Liceu de Goiânia. Em 1963 inicia a militância na JEC junto com sua companheira Rosemary. No ano seguinte, ingressa na Faculdade de Direito da UFG. É eleito presidente do centro acadêmico XI de Maio, onde atua intensamente. </p>
<p>Com o golpe militar de 1964, participa da luta do movimento estudantil contra a intervenção Federal em Goiás e a destituição do Governador. Em 1965, é preso em São Paulo com mais 13 militantes da Ação Popular e levado ao DOPS. Em 1966, é decretada a prisão de Gilberto em função de sua atuação no XI de Maio da Faculdade de Direito. Assim, interrompe o curso e entra para a clandestinidade para evitar a prisão. </p>
<p>Depois do período de trabalho de base junto aos camponeses de Pariconha e da prisão, já de volta a Goiás, Gilberto volta à universidade e termina o curso de direito. </p></div>
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		<title>Uma conversa escrita</title>
		<link>https://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/livros/infancia-roubada/?p=26</link>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 21:58:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[lucaspretti]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[Arantes]]></category>

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		<description><![CDATA[por Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes No início dos anos 1960 participei da fundação da organização política Ação Popular, de matriz católica, que ampliou suas posições no campo marxista-leninista e passou a ser denominada APML (Ação Popular Marxista-Leninista). Mais à frente, a Organização abraçou concepções maoístas que influenciaram política e ideologicamente seus militantes e [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>por Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes</p>
<p>No início dos anos 1960 participei da fundação da organização política Ação Popular, de matriz católica, que ampliou suas posições no campo marxista-leninista e passou a ser denominada APML (Ação Popular Marxista-Leninista). Mais à frente, a Organização abraçou concepções maoístas que influenciaram política e ideologicamente seus militantes e suas práticas. Casei-me com Aldo Arantes, também fundador de AP, em dezembro de 1963 e recebemos convite para integrar o governo de João Goulart em Brasília. </p>
<p>Chegamos a Brasília em janeiro de 1964. No dia 1º de abril de 1964 ocorreu o golpe militar. Eu estava dentro da nossa casa em Brasília e, de repente, a casa começou a tremer, o chão do quintal tremia, vi ratos correndo na rua, para lá e para cá. Um barulho diferente e trepidante provocado por um desfile de tanques de guerra que seguia para a Esplanada dos Ministérios. A partir de então começaram a ser editados os primeiros Atos Institucionais. Aldo poderia ser cassado e preso. Saímos de Brasília imediatamente, deixei tudo na casa. Saímos de Brasília para uma longa noite que foi terminar somente quinze anos depois.  De 1964 até 1979, vivi entre o exílio, a prisão e a militância clandestina severa. Passei a usar nomes frios com identidades falsas. Nesse momento não tínhamos filhos e nossa primeira decisão foi ir para o exílio. Os exilados de primeira hora que tinham intenção de voltar imediatamente ao Brasil seguiram para o Uruguai, que era mais perto. Fiquei grávida do meu primeiro filho, o Andre, que nasceu em Montevidéu. Foi um dos primeiros filhos de exilados políticos brasileiros, nasceu em 13 de junho de 1965. Decidimos voltar logo para continuar no país, a luta de resistência. Já no Brasil, na cidade de São Paulo, em 1º de maio de 1966, nasceu nossa filha Priscila.</p>
<p>A situação política foi recrudescendo rapidamente e houve uma decisão da APML: os militantes e os dirigentes deveriam partir, como militantes clandestinos, para a integração na produção. Aldo e eu seguimos para a integração na produção no campo. Tomamos um ônibus na rodoviária em São Paulo e partimos para o interior do estado de Alagoas. O Andre tinha 3 anos, a Priscila tinha 2. Fomos para Água Branca. E de lá, para um subdistrito de Água Branca, Pariconha. Era uma região de camponeses pobres e meeiros que plantavam feijão. </p>
<p>Fomos morar com Gilberto, Rosa e a filha Rita, de 7 anos, que nos antecederam na integração nessa região. Tínhamos diferentes funções. Eu fui designada para ser professora de alfabetização de adultos na região. Era o ano de 1967. Atravessamos o ano e entramos em 1968.  Tínhamos o hábito de ouvir, todas as noites a Hora do Brasil. Anoitece cedo no campo, às 21 horas, já era noite alta no dia 13 de dezembro de 1968. Ouvimos passos no jardim e no quintal. Na varanda, vozes de homens. Rosa e eu nos levantamos. As três crianças dormiam. A porta da frente foi sacudida com violência. Abram a porta. Aqui é o Coronel. Tínhamos acabado de ouvir no rádio, o decreto do A1-5 e mal havíamos assimilado suas implicações, ao anotar apressadamente seus artigos. Não houve tempo. Conhecemos na prática seu significado. Não abriremos a porta, respondemos. Estamos sós com as crianças. Com os gritos e as violentas pancadas, na porta da frente, dos fundos e nas janelas, as crianças acordaram. A gritaria aumentou, e com nossos filhos nos braços, vimos a porta ser violentamente sacudida e finalmente arrombada, a pontapés e golpes de fuzis. Entraram vários homens, não sabíamos a princípio quantos. As lamparinas de querosene estavam apagadas. Percebemos que eram muitos. Nossa casa foi revirada. Colchões, armários prateleiras, tudo vasculhado. Perceberam que havia apenas roupas, mantimentos e brinquedos. Onde estão as armas? perguntavam aos berros. Disseram que iam nos levar para Água Branca e depois Maceió. Temos ordens. Agora tudo é permitido. Foi feito um decreto e tudo o que achamos suspeitos, vamos investigar. Gente suspeita, vamos prender. Vocês são professoras, seus maridos, gente de São Paulo. Vamos levar todo mundo. Resolveram que tínhamos que ir presas. Argumentamos sobre as crianças, que queriam que deixássemos para trás. Afinal, depois de muita conversa, decidiram que eu iria só com eles. Rosa ficaria com as três crianças. </p>
<p>Partimos para uma viagem que me parecia interminável. O tempo todo ouvi gracejos e perguntas. Não disse uma palavra. Chegamos a Maceió. Era dia 14 de dezembro de 1968. Fiquei dormindo no quarto dos investigadores. Estava exausta. Entravam e saiam o tempo todo, falavam alto, faziam comentários. Perguntavam por Aldo, quando voltaria de São Paulo. Fiquei quatro ou cinco dias em Maceió. Fui levada de volta para Pariconha. Um ou dois dias depois, Aldo chegou tarde da noite. Soube na estrada o que acontecera. </p>
<p>Nesta mesma noite, 22 de dezembro, fomos todos presos: Aldo, eu, Andre e Priscila, Gilberto, Rosa e Rita. Prenderam também toda a liderança camponesa militante. Passamos o Natal entre as cadeias de Água Branca e de Maceió. Começou uma noite longa, para nós, especialmente para os pequeninos presos. Ficamos todos, nos primeiros dias no DOPS de Maceió, as crianças e eu na mesma cama e no mesmo quarto dos investigadores. </p>
<p>Depois do Ano Novo, Andre, Priscila e eu, fomos deslocados para uma delegacia de bairro. Apesar de a cela ter uma das paredes totalmente de grade, ficávamos sufocados, trancados o dia todo, sem que qualquer brisa ou vento amenizasse o calor. Tivemos problemas gravíssimos de saúde. Todos os três desidratados tivemos estomatite e Priscila teve uma crise aguda de difteria. </p>
<p>Quase não conseguimos nos alimentar. Priscila ficou magrinha, só aceitava leite em pó, às colheradas. Os dois tiveram furunculose. Andre chegou a ter vinte furúnculos enormes e Priscila, outros tantos. Não tínhamos qualquer espécie de atendimento médico ou de saúde. Ficamos, literalmente depositados, sequestrados até o final de janeiro. </p>
<p>Depois fomos levados para a Escola de Aprendizes de Marinheiros nos arredores da cidade. Um lugar cheio de coqueiros à beira-mar. Alojaram-nos na ala dos oficiais. Na primeira noite almoçamos na sala dos oficiais, a contragosto. Em um desses dias, ao final da refeição, o oficial do dia aproximou-se de mim e disse: “Estive conversando com minha esposa e como não temos filhos, resolvi pedir que a senhora me dê seu filho. Podemos criá-lo muito bem. Olhe bem para a senhora. Que futuro a senhora tem? Seu marido está preso, a senhora está presa, ninguém da sua família apareceu, não vai ter condição nenhuma de educar esta criança”. Emudeci, não consegui responder, não gritei, não chorei, fiquei petrificada. Fui andando para trás, segurando o Andre, até sair da sala. Não voltamos a ver esse oficial, nunca mais entramos nessa sala. Pedimos para almoçar na cozinha com os marinheiros. O resto do dia ficávamos no quarto. Depois conseguimos circular pela escola quando já havia terminado o expediente. Estávamos profundamente debilitados. Nessa época, estávamos novamente com a Rosa e a Rita, duas mulheres e três crianças. Durou pouco a estadia aí. A Marinha não queria se envolver mais. </p>
<p>Resolveram então nos levar para o hospital da Polícia Militar, no centro de Maceió. Era um hospital antiquíssimo, cheio de torres, perto da cadeia pública conhecida como Presídio da Morte onde Aldo ficou preso com os demais companheiros. Fomos confinados num quarto, sobre o qual havia uma porção de histórias, era o quarto onde ficavam os desenganados. Um quarto grande, muito abafado, ao lado de um outro quarto menor, sem iluminação, sem janela, cuja porta dava para o quarto do capitão Fontes, que saía cedinho, voltava à noite. </p>
<p>Os dias pareciam intermináveis. Não sabíamos o que fazer com as crianças. Só podíamos sair do quarto por quinze minutos para as refeições. Conseguimos licença para um banho de sol, depois das 16 horas. Nesta hora, o pátio de descarte do hospital não recebia mais o sol, apenas um facho fugidio que caía sobre os degraus da escada, onde as crianças ficavam sentadinhas, vendo ratos enormes brincarem de entrar e sair pelos restos de pernas e braços de gesso, entre curativos usados, caixas vazias, bandagens, cacos de vidro, tudo jogado no meio de um mato que crescia. A gente dizia para as crianças que os ratos eram os primos do Jerry dos desenhos animados. Mesmo assim, com as energias recuperadas, não conseguimos cansá-los. </p>
<p>Dentro do quarto-cela, inventamos uma programação rígida de ginástica, brincar de roda, joguinhos. Depois vinham as atividades de contar as tampas de borracha coloridas dos vidros de antibióticos, empilhar caixas de remédio vazias, formar uma carreira com as serrinhas de seringas. Depois do almoço as crianças dormiam, e o que sobrava de tempo passavam dentro de uma banheirinha de plástico debaixo do chuveiro. Às quintas-feiras visitávamos o Aldo na cadeia. Depois de algum tempo apareceu uma advogada contratada pelos nossos companheiros. </p>
<p>Quando finalmente conseguimos ir à primeira audiência da Auditoria Militar de Recife, Andre e Priscila fizeram tanta bagunça na Audiência que o juiz, irritado, mandou que se retirassem da sala os três menores. Dra. Lygia lhes comunicou: “Excelência, estas crianças são presas. Foram presas em dezembro juntamente com suas mães”. Fomos dispensadas, os homens continuaram presos. Saímos da Auditoria, voltamos para Maceió e de lá para São Paulo. Aldo ficou preso ainda na delegacia de Maceió de onde fugiu juntamente com o Gilberto, em uma operação montada por APML. </p>
<p>Exatamente dez anos depois, em dezembro de 1976, Aldo foi preso na Lapa, em São Paulo, no episódio conhecido como Chacina da Lapa. Andre e Priscila, com 12 e 13 anos, passaram a frequentar novamente os presídios, agora como visitantes de seu pai, durante dois anos e seis meses até a Anistia de 1979. Eu me integrei de corpo e alma à construção da campanha pela Anistia ampla, geral e irrestrita.</p>
<p>Sobre minha prisão com meus dois filhos tenho hoje a clareza de que fomos sequestrados, não há qualquer notícia da prisão das crianças, não consta de nenhum documento. Consta meu julgamento e a absolvição. Sobre eles, nada.  Poderiam ter sido sumariamente sequestrados sem papéis que comprovassem sua presença no cativeiro. Depois que saímos da prisão e do Nordeste, voltamos para São Paulo, continuamos a militância clandestina, fomos morar nos bairros mais periféricos, no Morro Grande, Itaquera, Vila Formosa, e permanecemos clandestinos mais oito anos. As crianças foram para um parquinho da prefeitura e depois foram alfabetizadas em escola do estado e da prefeitura. Fizeram toda a escola com nomes frios: Andre e Priscila Guimarães Silva. Esse tempo teve fortíssimo impacto sobre eles, pois já estavam maiores e percebiam que havia muito segredo e muito não dito sobre as coisas e as situações que vivíamos. Somente saímos da clandestinidade quando o Aldo foi novamente preso no episódio conhecido como Chacina da Lapa que massacrou dirigentes do PCdoB então reunidos. </p>
<p>Sobre a vida clandestina, posso afirmar que foi uma experiência que até hoje reverbera na alma. Hoje percebo com mais clareza o quanto marcou o Andre e a Priscila e a mim mesma. Tanto é que, quando retornei à universidade, após a anistia de 1979, fiz minha dissertação sobre a experiência da clandestinidade política, através de uma abordagem psicanalítica. A incidência que teve sobre a vida dos meus filhos, somente agora, passados quase quarenta anos é que posso perceber melhor, a partir do que eles mesmos contam em seus testemunhos. Sempre nos surpreendemos negativamente com as reverberações que a ditadura civil-militar impôs a todos nós e que ainda continuam pulsantes. </p>
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Aldo Silva Arantes</h4>
<p>Nasceu no dia 20 de dezembro de 1938, em Anápolis (GO). Iniciou suas atividades políticas no movimento estudantil secundarista.</p>
<p>Estudante de direito da Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em julho de 1961. </p>
<p>Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes. Após o golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente Goulart, exilou-se em Montevidéu. </p>
<p>De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandestinidade. Em 1968, quando realizava trabalho político junto aos camponeses no sertão de Alagoas, foi preso. Após cinco meses e meio fugiu da prisão. </p>
<p>Em 1972, juntamente com a maior parte dos militantes da AP, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cujo comitê central passou a integrar. </p>
<p>Em dezembro de 1976 foi novamente preso quando participava de uma Reunião do Comitê Central do PCdoB, no bairro da Lapa, em São Paulo, episódio conhecido como Chacina da Lapa. </p>
<p>Em julho de 1977, foi condenado a cinco anos de prisão. Permaneceu preso até agosto de 1979, quando foi beneficiado pela anistia aprovada pelo Congresso.</p>
<p>Em 1979, filiou-se ao partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Exerceu o mandato de deputado federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988. </p>
<p>Autor dos livros : História de Ação Popular – da JUC ao PCdoB, co-autor, com Haroldo Lima (1984) ; O FMI e a Nova Dependência (2002); Meio Ambiente e Desenvolvimento &#8211; em busca de um compromisso (2010); Alma em Fogo – memórias de um militante político (2013).</p>
<p>[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]</p>
<h4>Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, a Dodora</h4>
<p>Nasceu em 5 de novembro de 1940, em Belo Horizonte (MG). Foi uma das fundadoras da organização Ação Popular (AP), na década de 1960. Em 1968 foi presa em Alagoas junto  com seus filhos Priscila e Andre. Após sair da prisão seguiu com a militância clandestina de combate à ditadura militar. </p>
<p>Foi uma ativa e importante militante da luta pela anistia no Brasil. Participou da fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo (CBA/SP) e foi dirigente dos Movimentos Nacionais pela Anistia (1978-1982). </p>
<p>Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Foi coordenadora Geral de Combate à Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (2009-2010). Foi membro das Comissões de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e do Conselho Federal de Psicologia ( 2004-2008 e 2011-2013). </p>
<p>Autora dos livros: Pacto Re-Velado: Psicanálise e Clandestinidade Política (1994) e Tortura (2013).
</p></div>
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		<title>Identidade, nome e o paradoxo  da liberdade: carta aos meus pais</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 21:51:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[lucaspretti]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[Arantes]]></category>

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				<content:encoded><![CDATA[<p>por Priscila Almeida Cunha Arantes </p>
<p>Antes de iniciar meu depoimento, gostaria de recorrer a um mito antigo que versa sobre a história de um sobrevivente. Refiro-me ao poeta Simônides, considerado o inventor da arte da memória na Grécia antiga. Diz o mito que o poeta teria estabelecido as bases da mnemotécnica – a arte da memória – em função de um acidente vivido por ele próprio. Simônides foi o único sobrevivente do desabamento do teto do salão de um banquete onde se comemorava a vitória do pugilista grego Skopas. </p>
<p>O que importa nessa história é o que aconteceu após tal tragédia. Os parentes das vítimas, que queriam enterrar seus familiares, não conseguiam reconhecer os mortos que se encontravam totalmente desfigurados pelas ruínas. Recorreram, então, a Simônides, o único sobrevivente, que graças à sua memória conseguiu se recordar dos participantes do banquete, na medida em que se lembrou do local ocupado por cada um deles durante a comemoração.</p>
<p>Se a história de Simônides está muito distante do nosso tempo, por outro lado, ilustra bem o embate contra o esquecimento da história. </p>
<p>Aquele que testemunha, de certa forma sobreviveu a uma situação limite, traumática, no meu caso e de meus familiares: à época da ditadura militar no Brasil. Como filha de pais que foram presos, torturados, foragidos e clandestinos  – e eu mesma presa com minha mãe e meu irmão quando tinha 3 anos de idade, no sertão de Alagoas, apesar de não ter lembrança desse episódio – deixo aqui meu depoimento na esperança que possa contribuir não somente para a construção de uma memória coletiva mas que, de alguma forma, ele possa servir de dispositivo para que essa história não se repita nunca mais no nosso país.</p>
<p>Recentemente meu pai me pediu um depoimento sobre as memórias da minha infância. Gostaria então de compartilhar aqui alguns trechos desta carta que recebeu o título de Identidade, Nome e o Paradoxo da Liberdade: Carta aos meus Pais.</p>
<p>Talvez um dos dispositivos mais antigos da humanidade seja o de dar nome às coisas. Dar nome às coisas significa dar a elas vida, história, identidade. É assim que uma criança recebe um nome ao nascer, carregando-o para o resto da vida. Escolher, dar um nome a uma criança é fazer uma espécie de doação de uma história simbólica familiar. Doação que a insere na continuidade de uma filiação, a inscreve nas linhagens maternas e paternas: uma espécie de fio de Ariadne que lhe indica um caminho, sem traçá-lo de antemão.</p>
<p>Priscila Almeida Cunha Arantes. Foi este o nome que os meus pais me deram em 1º de maio de 1966 quando nasci, mas não foi este o nome que utilizei até meus 11 anos de idade, quando, então, meu pai foi preso e minha mãe ficou foragida, na época da ditadura militar em nosso país. </p>
<p>Até os meus 11 anos, sempre fui Priscila Guimarães Silva; uma criança feliz que vivia como muitas outras de minha idade na periferia de São Paulo com a família. </p>
<p>Existia, por vezes, uma sensação velada que talvez, pela minha idade na época, não conseguia entender. As janelas da casa na avenida Itaquera eram forradas de papel e sempre me davam a impressão que estávamos escondendo algo que eu não tinha muito claro o que era. Muitas vezes quando ouvia meu pai escutar a Internacional em seu rádio pequeno, em seu quarto, bem baixinho, ficava sempre uma pergunta no ar: por que ele tem de escutar o som tão baixo? Mas os natais eram sempre muito gordos ao meu olhar. Recebia sempre várias roupas que, apesar de serem usadas, vinham sempre envoltas em um lindo papel celofane vermelho, que somente a minha mãe sabia fazer. A casa da avenida Itaquera tinha um quintal grande que, apesar de receber, às vezes, a visita de alguns amigos indesejáveis, enormes ratos – só recentemente vim a saber que vivíamos nos fundos de um açougue –, brincava com minhas bonecas e com meu exército de formigas, minhas companheiras inseparáveis.</p>
<p>Certo dia, fomos tirados às pressas da avenida Itaquera e levados por meu tio Bruno, irmão da minha mãe, de carro, até  Belo Horizonte para a casa de minha avó materna. Não entendia ao certo porque estávamos indo para Belo Horizonte e muito menos o que de fato acontecera. Mas sabia que era algo muito grave, e alguma coisa acontecera ao meu pai. Ele e minha mãe tinham combinado de que se o meu pai não voltasse de uma viagem em uma determinada época  é porque alguma coisa tinha ocorrido. E de fato ocorreu. Meu pai fora capturado em plena estação Paraíso, do Metrô – nome engraçado! – pelos militares, em dezembro de 1976.</p>
<p>Não me lembro desse dia com detalhes. Mas me recordo do desespero de minha mãe, levando-nos às pressas, eu e Andre, à casa de tio Bruno. Na viagem a Belo Horizonte fomos parados por um policial. Acho que o tio Bruno dirigia muito rápido e senti um nervosismo grande no ar. Chegamos à casa da minha avó. A casa era muito grande, tinha quase quarenta cômodos, e fomos acolhidos em clima de festa e com muito carinho pela família de minha mãe, uma família que, no entanto, eu nunca tinha visto (a única exceção era a querida Tia Tei, que nos acompanhou por diversas vezes na época da clandestinidade). Eu e Andre moramos por lá até minha mãe poder viver em liberdade. </p>
<p>Encontramo-nos, acho, somente um ano depois, na casa da tia Diva. Minha mãe estava magra, pálida, fruto da dieta forçada em macrobiótica que teve de passar quando ficou escondida na casa de conhecidos no Rio de Janeiro. Seu corpo enfraquecido me chamou a atenção naquela época. Uma imagem que eu jamais esquecerei.</p>
<p>Foi em Belo Horizonte que pude de fato me tornar Priscila Almeida Cunha Arantes.  Anos antes, meu pai, quando ainda morávamos na avenida Itaquera, tinha comentado comigo e meu irmão que nosso sobrenome não era Guimarães Silva. Naquela época, apesar da surpresa, o comentário não teve significado nenhum para mim. Eu continuava sendo Priscila Guimarães Silva, vivendo com meus pais na avenida Itaquera. </p>
<p>Também foi em Belo Horizonte que uma nova realidade se abriu para mim. Talvez hoje, mais madura, eu possa reconhecer o paradoxo daquela sensação. Por um lado pude descobrir que tinha um nome de fato real, outro, este sim verdadeiro, que trazia consigo uma família, uma história; uma  outra identidade. Era um mundo completamente novo que se abria para mim.</p>
<p>Mas ao mesmo tempo, e talvez este fosse o fator que mais me assustou, assumir a minha verdadeira identidade e meu nome  trouxe a perda da convivência com meus pais. E mais do que isto: a consciência de que eles estavam em uma situação de perigo iminente. É exatamente no momento que nossos nomes podiam ser utilizados, que meu pai foi preso e minha mãe ficou foragida.  </p>
<p>Obviamente este paradoxo de identidade se tornou mais acentuado em um momento de adolescência quando essas questões já são colocadas à mesa. Para além de uma mera crise de identidade era uma real crise de identidade: seria melhor continuar sendo Priscila Guimarães Silva e poder viver clandestina com meus pais em liberdade? Ou seria melhor ser Priscila Almeida Cunha Arantes e poder viver em liberdade com os meus pais presos? Pois, para mim, os dois estavam presos. Só depois soube que minha mãe estava escondida no Rio de Janeiro. Independentemente da minha opção na época, eu não tinha escolha real a fazer.</p>
<p>Essa sensação paradoxal veio acompanhada por outra experiência que foi muito marcante na minha adolescência. Estávamos em Belo Horizonte quando dois ou três homens entraram na casa da vovó Isa dizendo que eram amigos de meus pais. Não me lembro exatamente quem foi me avisar das supostas visitas. Olhei à espreita por uma das portas da sala e tendo a nítida sensação de que aquela visita vinha carregada de alguma ameaça, me escondi debaixo de uma das mesas redondas que havia na sala de minha avó. Foi exatamente em volta dessa mesma mesa que minha avó, minha tia e os dois visitantes sentaram-se para conversar. Fiquei ali um bom tempo a escutar a conversa que não vou esquecer nunca mais: a conversa, em tom de ameaça – pois o que eles queriam saber era onde a mamãe estava – descrevia com minúcias e detalhes a tortura recebida pelo meu pai: espancamento, pau de arara, corpo inchado&#8230; quase morte. Anos depois vim saber que esses visitantes faziam parte da equipe de torturadores de meu pai.</p>
<p>Nessa época fui acometida por uma série de desmaios, pequenos lapsos de consciência, talvez um desejo real de esquecer, por um pequeno espaço de tempo, algo que me incomodava em profundidade. </p>
<p>Meu grande refúgio, no entanto, eram as aulas de pintura. Certa vez fomos à casa da tia Leda. Em uma das salas de sua casa, vislumbrei uma tela em branco presa num cavalete. Ao seu lado, um pequeno livro que continha, na sua capa, a imagem do carteiro de Van Gogh. Não tive dúvida: peguei um carvão e desenhei na tela em branco a imagem do pintor impressionista. A partir desse dia Tia Leda me matriculou em um curso de pintura. Esse contato com o mundo das artes, nessa época, talvez tenha sido uma das molas propulsoras de minha profissão atual e de meu interesse pelo mundo das artes. </p>
<p>Assim que voltamos de Belo Horizonte fomos morar na Bela Cintra. Nessa época eu, minha mãe e meu irmão íamos, com frequência, visitar o meu pai no presídio Barro Branco.  Lembro-me da ambrosia, dos desenhos em pirogravura, das conversas com o Ariston, das pinturas do Guerra, da revista da polícia, da greve de fome vivida pelo meu pai. </p>
<p>Mas, talvez, um dos dias mais marcantes de minha vida, foi o dia em que meu pai foi solto, o mesmo da aprovação da Lei da Anistia. Ele descia a rampa do presídio, com uma pequena mala na mão. Estávamos ali, novamente, a família reunida, fora do espaço confinado das quatro paredes da prisão.</p>
<p>Hoje, tenho 47 anos e com muito orgulho me chamo Priscila Almeida Cunha Arantes, filha do Aldo e da Dodora, irmã de Andre, casada com Wagner e mãe de Tiago e Carolina. </p>
<p>Para muitos, o nome é um bem. A continuidade do nome como referente da pessoa pode, em alguns casos, não se interromper com sua morte necessariamente. Alguns nomes permanecem vivos na memória de outros homens, principalmente quando se referem a nomes que contribuíram para a construção de uma história coletiva.</p>
<p>Trago comigo esta história marcada por um duplo nome: um nome clandestino e um nome verdadeiro. Sinto orgulho dos meus pais: pessoas, nomes, que lutaram e contribuíram para a construção de um mundo melhor e que possibilitaram a mim, Priscila Almeida Cunha Arantes, desfrutar da vida em liberdade! </p>
<p>Priscila Guimarães Silva: presente!  </p>
<div style="background-color:#a7b965; padding: 30px; color:#fff;">Priscila Arantes, formada em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é pós-doutora em Arte Contemporânea pela Penn State University (EUA). É professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e diretora  e curadora do Paço das Artes, Museu da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Entre suas publicações destaca-se  Arte @ Mídia: perspectivas da Estética Digital, finalista do 48 prêmio Jabuti, Arte: História, Crítica e Curadoria (org.). e Re/escrituras da Arte Contemporânea: História, Arquivo e Mídia (prelo).</div>
<p></p>
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<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Aldo Silva Arantes</h4>
<p>Nasceu no dia 20 de dezembro de 1938, em Anápolis (GO). Iniciou suas atividades políticas no movimento estudantil secundarista.</p>
<p>Estudante de direito da Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em julho de 1961. </p>
<p>Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes. Após o golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente Goulart, exilou-se em Montevidéu. </p>
<p>De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandestinidade. Em 1968, quando realizava trabalho político junto aos camponeses no sertão de Alagoas, foi preso. Após cinco meses e meio fugiu da prisão. </p>
<p>Em 1972, juntamente com a maior parte dos militantes da AP, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cujo comitê central passou a integrar. </p>
<p>Em dezembro de 1976 foi novamente preso quando participava de uma Reunião do Comitê Central do PCdoB, no bairro da Lapa, em São Paulo, episódio conhecido como Chacina da Lapa. </p>
<p>Em julho de 1977, foi condenado a cinco anos de prisão. Permaneceu preso até agosto de 1979, quando foi beneficiado pela anistia aprovada pelo Congresso.</p>
<p>Em 1979, filiou-se ao partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Exerceu o mandato de deputado federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988. </p>
<p>Autor dos livros : História de Ação Popular – da JUC ao PCdoB, co-autor, com Haroldo Lima (1984) ; O FMI e a Nova Dependência (2002); Meio Ambiente e Desenvolvimento &#8211; em busca de um compromisso (2010); Alma em Fogo – memórias de um militante político (2013).</p>
<p>[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]</p>
<h4>Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, a Dodora</h4>
<p>Nasceu em 5 de novembro de 1940, em Belo Horizonte (MG). Foi uma das fundadoras da organização Ação Popular (AP), na década de 1960. Em 1968 foi presa em Alagoas junto  com seus filhos Priscila e Andre. Após sair da prisão seguiu com a militância clandestina de combate à ditadura militar. </p>
<p>Foi uma ativa e importante militante da luta pela anistia no Brasil. Participou da fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo (CBA/SP) e foi dirigente dos Movimentos Nacionais pela Anistia (1978-1982). </p>
<p>Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Foi coordenadora Geral de Combate à Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (2009-2010). Foi membro das Comissões de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e do Conselho Federal de Psicologia ( 2004-2008 e 2011-2013). </p>
<p>Autora dos livros: Pacto Re-Velado: Psicanálise e Clandestinidade Política (1994) e Tortura (2013).
</p></div>
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		<title>Filho do Zorro</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 21:41:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[lucaspretti]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Andre Almeida Cunha Arantes Era 1965, meus pais Aldo e Maria Auxiliadora estavam curtindo o frio do inverno Sul-Americano na praia de Punta Gorda, em Montevidéu. Não foi uma escolha voluntária, até porque a melhor época para aproveitar as praias uruguaias é no verão, entre os meses de janeiro e fevereiro. Por outro lado, [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>por Andre Almeida Cunha Arantes </p>
<p>Era 1965, meus pais Aldo e Maria Auxiliadora estavam curtindo o frio do inverno Sul-Americano na praia de Punta Gorda, em Montevidéu. Não foi uma escolha voluntária, até porque  a melhor época para aproveitar as praias uruguaias é no verão, entre os meses de janeiro e fevereiro. Por outro lado, o melhor mesmo seria ter ido para Punta del Este que é a praia mais bonita e mais procurada desse pequeno país. Mas o motivo não era passar férias e sim uma imposição do momento político no Brasil, que acabava de mergulhar em um período de ditadura militar que duraria aproximadamente duas décadas.</p>
<p>Em 13 de junho de 1965, durante esse período de férias forçadas, no Sanatório Americano, minha mãe ficaria feliz de me ver chorar pela primeira vez. Moramos no Uruguai quase um ano. Depois voltamos para o Brasil e fomos morar em São Paulo. Mais tarde, dentro da política de integração na produção, fomos morar no Nordeste. </p>
<p>Tinha 3 anos e  lá estávamos em mais uma situação estranha. Durante a noite, uns “amigos” de meus pais vieram nos buscar em nossa pequena casa que ficava no interior de Alagoas, mais precisamente em Pariconha, distrito de Água Branca no alto sertão. Nos levaram de jipe para um castelo (Policlínica da PM  de Alagoas), em Maceió. Lembro que achei aquilo estranho. Como era noite, o castelo  pareceu meio sombrio. Acreditei que quando acordasse de manhã perceberia que o castelo era legal. Quando despertei no outro dia, estava em um quarto pequeno e cinza, cheio de grades.</p>
<p>Mudamos algumas vezes de “endereço”. Depois do “castelo” fomos para Escola de Aprendizes de Marinheiro de Alagoas. Uma vez por dia descíamos para brincar em um pátio, cheio de lixo e ratos, que minha mãe apelidou carinhosamente de Jerry. O Jerry era o ratinho esperto de um desenho animado da época que vivia fugindo de seu algoz, o gato Tom. Como era pequeno, não percebi, mas o “Tom” tinha nos pegado. Estávamos detidos em uma prisão da marinha. Comia no restaurante dos oficiais até o dia em que um oficial pediu que a minha mãe me deixasse com  ele e a esposa, já que ela não tinha futuro pra me oferecer. O que o oficial não sabia é que o mundo dá voltas. Mais do que depressa, minha mãe me pegou pela mão e saiu dali. No dia seguinte, já estávamos comendo no restaurante dos soldados e dias mais tarde fomos transferidos para outra prisão.</p>
<p> Eu, minha mãe e minha irmã ficamos quatro meses presos. Meu pai, que foi preso dias depois, ficou seis meses na prisão. No final desse período meus pais foram levados a julgamento, em Recife. Durante a sessão, eu e minha irmã, que nessa época tinha 2 anos, ficamos correndo por toda sala e fazendo uma bagunça danada. Vendo essa confusão, um militar do Conselho de Sentença procurou saber o que estávamos fazendo ali. O escrivão que já estava sensibilizado com a nossa situação disse que estávamos presos com nossos pais. Durante o julgamento não se tocou em nossa presença. Todavia, o mesmo militar questionou um coronel da PM de Alagoas por que minha mãe estava presa. Ele respondeu que em Alagoas quando não encontravam o marido prendiam a mulher. Com isso nossa advogada pediu a libertação de nossa mãe. Acatado o pedido, fomos os três libertados. Meu pai ficou preso mais algum tempo e depois fugiu da prisão durante um jogo de futebol entre os dois principais times de Alagoas.</p>
<p> Depois dessa aventura ficamos algum tempo em Goiás, na casa de  meus avós paternos. Assim que as coisas esfriaram fomos para São Paulo, onde um novo capítulo começava. Durante esses anos de ditadura, o contato com nossa família foi muito pequeno. Era uma questão de segurança. Conhecia apenas alguns poucos tios e um casal de primos que moravam em São Paulo, sendo que o contato era esporádico. Sempre passávamos as festas – aniversários, Natal e Réveillon – sozinhos, sem contato com outros familiares. Mesmo assim, o Natal era uma grande festa cercada de expectativas.</p>
<p>Lembro que recebia muitos presentes, mas nunca sabíamos direito quem os havia dado. Eram dos tios e tias, vários que não fazia a menor ideia que existiam. Mas não parava para pensar nisso, só queria curtir os presentes, era um momento mágico.</p>
<p>O tempo foi passando, fui crescendo e percebia que a gente mudava bastante de casa. Basicamente, por vários bairros da periferia na Grande São Paulo. Aquilo parecia normal, tinha uma família, estava na escola, fazia natação em um clube da prefeitura de São Paulo&#8230;  Tudo fluía bem até que dois acontecimentos me chamaram atenção.</p>
<p>O primeiro foi quando meus pais resolveram que eu e minha irmã tínhamos que conhecer os nossos primos e tios de Belo Horizonte. Anualmente, todo esse pessoal ia de trem para uma casa em Angra dos Reis. Era muita gente. Só de primos de primeiro grau devia ter mais de quinze na casa. Durante uma brincadeira em que cada um tinha de fazer sua apresentação, ocorreu um problema. Cada primo reunido ali na sala levantava e dizia o nome e o que gostava de fazer.  Quando chegou a minha vez, falei meu nome “frio”. Na verdade, o nome era Andre mesmo, mas o sobrenome era “frio” e bem diferente do dos primos. Quando eu acabei, um dos primos levantou e disse que eu falara meu sobrenome errado, pois não guardava relação com sobrenome de nossa família. Como sempre, onde há muitas crianças juntas, a história acabou em briga, pois me senti ofendido pelo fato de alguém dizer que eu mentia com relação ao meu sobrenome. Já de volta a São Paulo, relatei o ocorrido em casa. Meus pais não falaram nada, mas também nunca mais pusemos os pés em Angra dos Reis.</p>
<p>Já tinha em torno de 8 anos. Não queria pressionar meus pais, pois tinha muito carinho por eles, mas a certeza de que aquilo que meus primos falaram em Angra dos Reis a respeito do nome da nossa família fosse verdade  foi aumentando.</p>
<p>Mais ou menos nesse período, tive uma conversa franca com meu pai. No caminho da escola, ele sempre ia contando histórias sobre os três irmãos coelhos:  Zico, Zeca e o Zoca. Eram três coelhinhos espertos e de muito bom caráter. Eram corajosos e nunca mentiam. Eu me sentia o próprio “Zico”. Esses coelhos eram meus heróis. Então, em um determinado dia, meu pai insistiu que eu não deveria contar aos primos onde morávamos. Aí eu disse: “Pai, você ensina para a gente que não é para mentir e agora está me pedindo para mentir”.Meu pai arregalou os olhos, pensou um pouco e disse: “Olha, filho, você vê o seriado do Zorro, não vê?  Você acha que o Zorro pode sair contando para todo mundo  qual é a identidade verdadeira dele?”.  E eu, “Lógico que não, pai, só o Mudinho sabe disso. Se o Sargento Garcia souber a identidade do Zorro, vai prender ele”. “Pois é, filho, esta é nossa situação”, disse meu pai. “Já entendi, pai, pode deixar que eu vou guardar segredo”, disse. Acompanhado desse diálogo, veio a seguinte explicação: existiam os barrigudões (tipo Sargento Garcia) e o povo. Havia uma briga entre estes dois grupos, assim como no filme do Zorro, nós estávamos lutando do lado do povo contra os barrigudões. Bom, para mim a explicação estava mais do que boa. Vi que tinha desvendado o segredo da família e ainda por cima descobri que era “filho do Zorro”.</p>
<p>O segundo momento “estranho” foi quando meu avô paterno faleceu. Eu tinha quase 10 anos. Foi enviado para meu pai a caneta do meu avô que tinha seu nome inscrito na lateral. Um dia no quarto/escritório do meu pai, achei a caneta e li o sobrenome do meu avô. Percebi que o sobrenome dele não era parecido com o nosso. Aí disse: “Descobri, descobri que o sobrenome do vovô Galileu é Arantes. O nome de nossa família é Arantes”. Diante disso, meus pais contaram a razão de nosso sobrenome trocado. Naquele dia, fiquei sabendo que o nome de meu pai era Aldo e o de minha mãe era Maria Auxiliadora. Virei para o meu pai e disse: “Você não tem cara de Aldo e sim de Roberto”. Este era o nome frio do meu pai.</p>
<p>Entre 6 e 11 anos, moramos na Zona Leste de São Paulo. Vila Formosa, rua Itaquera, Mooca, Vila Manchester eram os lugares que frequentávamos. Nesse período, fiz natação no Clube da Vila Manchester. Era um clube da prefeitura de São Paulo, bem equipado com pista de atletismo, campo de futebol, quadras cobertas sala de ginástica e a piscina. Passava a tarde nadando. Fiz muitos amigos, treinei bastante e, como todos, tinha um sonho : treinar natação no melhor clube da cidade, o Corinthians. Sonho que não durou muito&#8230; explico.</p>
<p>Com essa história de ser “filho do Zorro” e ter que manter a identidade secreta da família, eu “entendi” que não poderia aparecer. Isto significava que se ficasse bom e fosse para o Corinthians, ia acabar entregando minha família. Então desenvolvi um certo sentimento de ir me distanciando deste desejo de melhorar e ir nadar no Corinthians.</p>
<p>No final do ano de 1976, bem perto do Natal, meu pai foi preso em um episódio chamado “Chacina da Lapa”. Fomos acordados bem cedo pela minha mãe, pegamos algumas coisas, colocamos na mochila e nos mandamos de táxi para casa de meu tio em Santo Amaro, um bairro de São Paulo. Era um tio que eu já conhecia, irmão da minha mãe. Ele e minha tia Tei, também irmã de minha mãe, eram praticamente os únicos parentes que víamos de vez em quando. Minha mãe não contou nada para a gente a respeito do ocorrido com meu pai. Ficamos alguns dias nessa casa imaginando que já estávamos saindo de “férias”. Certa manhã, minha mãe me chamou com uma revista na mão e pediu que eu lesse a matéria. Era uma matéria que trazia fotos de meu pai e alguns amigos que foram presos na mesma reunião. Ele estava com o rosto tão machucado que nem o estava reconhecendo.</p>
<p>A partir daí, tudo foi devidamente esclarecido. Dias depois, eu e minha irmã fomos levados pelo meu tio para Belo Horizonte, onde moraríamos por um ano com minha avó materna, enquanto meu pai seguia sendo torturado e minha mãe foragida da repressão, em algum lugar que não sabíamos.</p>
<p>O período em Belo Horizonte foi um momento de “transição”. Sem meus pais, mas conhecendo uma infinidade de tios e primos, que eu nunca soubera que existiam. Estranhei um pouco, pois além de estar sem meus pais, era tudo muito diferente. </p>
<p>Depois de um ano, as coisas se acalmaram e voltamos a nos encontrar com minha mãe. Retornamos todos para São Paulo. Mas agora o endereço era outro, já estávamos na Bela Cintra, uma das boas ruas da capital paulistana.</p>
<p>A rotina era estudar, treinar no Paulistano ou Pinheiros, sair com os amigos e no final de semana visitar meu pai na prisão. Percebi que apesar de estar em clubes bons, não tinha muito desejo de competir e vencer. Aos poucos, fui percebendo que me sentia fazendo parte do time dos que estavam sendo oprimidos, que perdiam. Os opressores eram os vencedores, aqueles que tinham torturado meu pai, nos prendido, separado a família. Tinha este sentimento dentro de mim. O desejo de vencer estava cada vez mais longe, como algo proibido.</p>
<p>Em agosto de 1979, foi aprovada e sancionada a Lei da Anistia. No mesmo dia da sua publicação, meu pai foi libertado do presídio de presos políticos em São Paulo, o Barro Branco. A família se encontrou novamente e passou a viver junto. Esse foi um momento muito bom. Meu pai foi eleito deputado federal por Goiás em 1982 e fomos todos morar em Brasília. Tudo diferente. Uma situação bem diferente.</p>
<p>Estava com 18 anos e já tinha parado de treinar natação e outros esportes também. Como todo adolescente nesta idade, não sabia muito bem o que queria. Sentia que as coisas tinham mudado, mas ainda não tinha entendido o que havia dentro de mim. Entrei na faculdade, primeiro em Economia, depois em História, mas nada me agradava. Revolvi mudar para São Paulo. De São Paulo, fui de bicicleta para o Rio de Janeiro pela recém-inaugurada Rio-Santos. Nessa viagem, senti gostos que já tinha esquecido. O gosto da liberdade, do esforço físico, do contato com a natureza. Acabei ficando no Rio de Janeiro e fui trabalhar com cinema, que era uma das paixões que eu tinha. Fiquei um ano no Rio de Janeiro e acabei voltando para Brasília.</p>
<p>Estávamos em meados de 1986. Meu pai fora reeleito deputado federal e morávamos em uma quadra só para deputados federais na Asa Norte. Isso tudo deixou bem claro que a situação mudara e havia se consolidado. Nós já não éramos do time dos perdedores. Estava liberado para vencer. Essa foi a senha para voltar para o esporte e tentar vencer. Já não tinha mais amarras, já não precisava mais me esconder, eu queria agora era aparecer. Foi um momento de mudança radical em minha vida. Sentia-me integrado, em casa. Tinha descoberto o que eu queria.  Queria vencer.</p>
<p>Resolvi fazer triathlon (natação, ciclismo e corrida). Treinei muito, consegui ganhar provas em Brasília, Goiás e Espírito Santo. Participei de campeonatos brasileiros, fui selecionado para fazer parte da Seleção Brasileira em campeonatos Sul-Americanos, Pan-Americanos e Mundiais. Estive na Argentina, Estados Unidos, Canadá, República Dominicana, México, Cuba, Ilhas Virgens, Espanha e Austrália competindo e representado nosso país. Sabia que podia, sempre soube, mas tinha que ser no momento em que não pusesse minha família em “perigo”.</p>
<p>Acabei entrando no curso de Educação Física em 1988 (D. Bosco), fiz especialização em Treinamento Esportivo em 2001, na Universidade de Brasília, Mestrado em Educação Física pela Universidade Católica de Brasília, em 2005, e hoje em dia faço Doutorado em Ciências do Desporto na Universidade do Porto em Portugal. De 2000 a 2005 fiz parte do JGSPINNING, maior programa em ciclismo de academia no mundo, convidado pelo próprio fundador do programa Johnny Goldberg. Estive representando o programa em vários países da América do Sul e em duas conferências mundiais nos Estados Unidos. Em 2003 fui convidado, pelo então Ministro de Esporte do Governo Lula, Agnelo Queiroz, para ser Secretário Nacional de Esportes de Alto Rendimento. Nesta função, estive em missão oficial nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingos na República Dominicana e nas Olimpíadas de Athenas, Grécia. Como Diretor da SNEAR, participei dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007. Hoje, sou Diretor da Secretaria Nacional de  Esporte de Alto Rendimento do Ministério do Esporte e dou aulas de Educação Física no Centro Universitário UniCEUB.</p>
<p>Olhando para trás, vejo como esporte e política estiveram entrelaçados em minha vida. Quando criança, minha leitura das questões sempre passou pelo corpo: alguém falava em superar obstáculos  e eu me imaginava saltando barreiras em uma pista de atletismo. Diziam que era preciso ser forte, e eu me imaginava levantando um grande peso; que era necessário ser resistente, e eu me imaginava em uma maratona. Enfim, era um jeito muito particular de sentir as coisas, como foi também relacionar a vitória à opressão e o perdedor aos oprimidos. Decidir não “aparecer” por medo que minha família fosse descoberta. Enfim, cabeça de criança fantasia muito e estas coisas ecoam na adolescência. Esta foi a minha história, com cicatrizes geradas pela ditadura e com oportunidades criadas pela democracia.</p>
<p>Acredito que no peito da minha mãe, lá no fundinho, ela tem vontade de encontrar com aquele oficial da marinha que disse que ela não teria  futuro para me dar  e dizer : “Tá vendo, eu tinha certeza que o futuro do meu filho seria melhor  comigo&#8230;”</p>
<div style="background-color:#a7b965; padding: 30px; color: #fff;">Andre Almeida Cunha Arantes nasceu em 13 de junho de 1965. É filho de Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes e Aldo Arantes. Ex-triatleta, doutorando em ciências do desporto, professor universitário e diretor de Esporte de Alto Rendimento do Ministério do Esporte.</div>
<p></p>
<hr />
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Aldo Silva Arantes</h4>
<p>Nasceu no dia 20 de dezembro de 1938, em Anápolis (GO). Iniciou suas atividades políticas no movimento estudantil secundarista.</p>
<p>Estudante de direito da Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em julho de 1961. </p>
<p>Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes. Após o golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente Goulart, exilou-se em Montevidéu. </p>
<p>De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandestinidade. Em 1968, quando realizava trabalho político junto aos camponeses no sertão de Alagoas, foi preso. Após cinco meses e meio fugiu da prisão. </p>
<p>Em 1972, juntamente com a maior parte dos militantes da AP, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cujo comitê central passou a integrar. </p>
<p>Em dezembro de 1976 foi novamente preso quando participava de uma Reunião do Comitê Central do PCdoB, no bairro da Lapa, em São Paulo, episódio conhecido como Chacina da Lapa. </p>
<p>Em julho de 1977, foi condenado a cinco anos de prisão. Permaneceu preso até agosto de 1979, quando foi beneficiado pela anistia aprovada pelo Congresso.</p>
<p>Em 1979, filiou-se ao partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Exerceu o mandato de deputado federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988. </p>
<p>Autor dos livros : História de Ação Popular – da JUC ao PCdoB, co-autor, com Haroldo Lima (1984) ; O FMI e a Nova Dependência (2002); Meio Ambiente e Desenvolvimento &#8211; em busca de um compromisso (2010); Alma em Fogo – memórias de um militante político (2013).</p>
<p>[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]</p>
<h4>Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, a Dodora</h4>
<p>Nasceu em 5 de novembro de 1940, em Belo Horizonte (MG). Foi uma das fundadoras da organização Ação Popular (AP), na década de 1960. Em 1968 foi presa em Alagoas junto  com seus filhos Priscila e Andre. Após sair da prisão seguiu com a militância clandestina de combate à ditadura militar. </p>
<p>Foi uma ativa e importante militante da luta pela anistia no Brasil. Participou da fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo (CBA/SP) e foi dirigente dos Movimentos Nacionais pela Anistia (1978-1982). </p>
<p>Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Foi coordenadora Geral de Combate à Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (2009-2010). Foi membro das Comissões de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e do Conselho Federal de Psicologia ( 2004-2008 e 2011-2013). </p>
<p>Autora dos livros: Pacto Re-Velado: Psicanálise e Clandestinidade Política (1994) e Tortura (2013).
</p></div>
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		<title>&#8220;Por que você é tão tristinha?&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2015 21:22:27 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[por Marta Nehring Eu nasci em janeiro de 1964, o ano do Golpe. Minha mãe, à época, tinha 20 anos e estudava Ciências Sociais na USP, que nessa época ficava ainda na Maria Antônia. Meu pai, também jovem, trabalhava na Pfizer, como técnico industrial e fazia pós-graduação em Economia, na USP. Ambos eram de esquerda [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>por Marta Nehring</p>
<p>Eu nasci em janeiro de 1964, o ano do Golpe. Minha mãe, à época, tinha 20 anos e estudava Ciências Sociais na USP, que nessa época ficava ainda na Maria Antônia.  Meu pai, também jovem, trabalhava na Pfizer, como técnico industrial e fazia pós-graduação em Economia, na USP. Ambos eram de esquerda e militavam juntos, porém apenas o meu pai partiria para a luta armada.</p>
<p>Minha mãe teve uma criação liberal. Meu avô era um livre pensador, foi dono de livraria. E a minha avó, que tivera um pai repressor e violento, teve por princípio jamais levantar a mão para os filhos. Juntando os dois lados, resultou que eles cultivaram a irreverência como modo de ser. Tanto, que o meu tio João, irmão mais velho da minha mãe, também entraria para a guerrilha. Já na família do meu pai o espírito era outro. Minha avó vinha de uma história triste, perdera o marido cedo, quando meu pai tinha apenas 3 anos de idade – ele era o primogênito. Meu avô paterno morreu num desastre aéreo na Baía da Guanabara, deixando minha avó viúva e grávida do terceiro filho. Aliás, toda vez que eu pouso no aeroporto Santos Dumont, morro de medo. </p>
<p>Enfim, nasci e logo depois veio o Golpe. De forma que minha infância foi ligada à trajetória política dos meus pais e esta, por sua vez, à trajetória da ALN – Ação Libertadora Nacional. Inclusive, se eu tenho algum avô paterno, é o Toledo, Joaquim Câmara Ferreira, que estava sempre em casa e a quem reencontramos em 1969 em Havana, Cuba.</p>
<p>No que diz respeito à repressão política, não me lembro de nenhum evento especialmente traumático. Ainda assim, até hoje tenho pesadelos horríveis. Com frequência acordo – anteontem mesmo aconteceu – com a certeza de ter alguém no quarto. Depois fiquei sabendo que, numa das vezes em que a polícia esteve em casa, revirando tudo, entraram no quarto onde eu dormia, acho que devia ter uns 4 anos. E me lembro, na mesma época, de chegar na vila onde a gente morava, no Itaim, e as crianças virem correndo me contar que a polícia tinha estado na minha casa. Teria sido quando meu pai foi preso? Não sei se tem a ver, mas o fato é que até hoje acordo com essa sensação de ter alguém estranho no quarto. </p>
<p>No meu aniversário de 5 anos, meu pai conseguiu sair da prisão – ele foi liberado, por alguma razão. Tinha uma festinha na casa da minha avó e eu me lembro dela chamando “Marta, tem uma surpresa para você”. Ela me levou até o andar de cima e lá estava meu pai. Guardo a imagem dele ali, de camisa vermelha, sorrindo, pronto para me abraçar.</p>
<p>Depois só fui revê-lo em Cuba, para onde partiu ao fugir do Brasil. Ele fazia treinamento militar e minha mãe e eu fomos para lá, também. Mas mesmo em Cuba, nós demoramos para encontrá-lo, pois ele estava nas montanhas e nós em Havana. Lembro de uma ou outra cena com ele e de sua preocupação em me passar valores éticos: o que é certo, o que é errado; cuide de suas coisas; ajude a sua mãe; não dê trabalho; faça a sua ginástica; limpe os seus lápis de cor; não misture as cores da aquarela. Aliás, a aquarela eu guardo até hoje e os lápis de cor também. Acredite! Todos limpinhos. E assim o que mais lembro dele é essa tentativa – hoje entendo – de ser pai. No meio daquela correria toda, ele tentando me dar um norte.</p>
<p>E teve aquele episódio no Malecón – para quem não sabe, o passeio à beira-mar de Havana. Como estava programado que meu pai voltaria ao Brasil, para retomar a luta, ele deveria mudar de identidade: “Teu pai vai aparecer disfarçado”, me disseram. E toca minha mãe, eu e mais um cubano (cujo nome esqueci), esperando meu pai. E aí vinha vindo um negão de “dois metros e meio” e os adultos brincavam: “Ah, esse é o teu pai”. Detalhe: o meu pai era loiro de olho azul. Eles se divertindo à minha custa. Eu ficava olhando “Não. Não é o papai”. Aí vinha um anão, “Esse é o teu pai”. Não foi só tragédia. Pensando bem, até que podia ser muito engraçado. E, de repente, para minha surpresa, apareceu meu pai ali na calçada&#8230; A única diferença era o cabelo pintado de preto. </p>
<p>Finalmente ele viajou e mandou cartas dos países por onde passou antes de aportar no Brasil, Checoslováquia e depois Itália. A gente não sabe exatamente a data na qual ele desembarcou no Rio, mas sabemos que, na noite em que foi assassinado, eu tive uma febre muito grande e fui parar no hospital, ainda em Havana. E essas coincidências marcam. </p>
<p>A bem da verdade, ultimamente tenho pensado muito sobre quem era meu pai e o tamanho da dor de tê-lo perdido, sobre o que significou ter crescido sem pai. E apesar de ter negado essa dor a vida inteira, porque fui adestrada a não me fazer de coitadinha, a seguir adiante e olhar para frente, hoje me deparo com um rombo enorme. Talvez o mais terrível seja que nunca me permiti sequer imaginar o que teria sido nossa vida se meu pai não tivesse morrido. Esse é o legado mais estranho: perdi o espaço do sonho. É certo que a morte do meu pai é uma questão de Estado: foi morto porque combateu um regime ditatorial. Mas mesmo assim, sem ele&#8230; A vida ficou mais árida. </p>
<p>Tempos depois do meu pai voltar ao Brasil, clandestino, minha mãe e eu fomos para a França. Ele foi assassinado quando nós ainda estávamos em Cuba, conforme falei, mas não soubemos. Foi enterrado pela repressão no cemitério da Vila Formosa, com nome falso. A polícia só contou da sua morte meses depois, quando já estávamos na França, o reconhecimento foi feito por meio da arcada dentária, não permitiram autópsia. Lembro da minha mãe e da minha avó chorando e eu, na verdade, acho que estava confusa, não entendia direito, pois chorávamos um morto que já estava ausente há meses e sem um corpo do qual eu pudesse me despedir. </p>
<p>Aí começou o exílio e&#8230; Sei lá, eu tinha que me adaptar, ponto. Tempos depois o socialista Salvador Allende foi eleito presidente e lá fomos nós para o Chile, minha mãe, o segundo marido dela e eu. O Chile era pertinho do Brasil, a família poderia nos visitar e os telefonemas seriam bem mais baratos. Hoje parece ridículo, mas, na época, para fazer uma chamada internacional tinha que pedir para a telefonista e esperá-la completar a ligação, o que podia demorar horas. Enquanto isso, ficava todo mundo de plantão ao redor do telefone de bakelite. Quando finalmente o lado de lá atendia, tinha que falar rápido, porque era muito caro.  De forma que ligar para o Brasil era ao mesmo tempo uma glória e um tormento: só dava pra dizer “Vovó, tô com saudade” e tinha que desligar. Era um negócio de louco. Acho que o mais excruciante, durante o exílio, foi a saudade da família, que ficara no Brasil, e do meu pai. Foi horrível. Mas eu me adaptei e afinal fui feliz, aprendi várias línguas, fiz amigos nas escolas que frequentei. Então veio o Golpe de 1973 e tivemos que fugir do Chile. </p>
<p>E assim voltamos para a França. Era adaptação o tempo todo: língua, escola, colega, vizinhança. Mas eu também fui feliz nesse retorno à Europa. Primeiro, era ótima aluna e querida pelos meus colegas. Ademais, ser exilado político era bem-visto, eu não precisava mentir sobre minha identidade, podia dizer que meu pai era um guerrilheiro que morreu na luta contra os fascistas. Os pais dos meus coleguinhas achavam o máximo: “Oh, que legal! Ela é filha de guerrilheiro”. Mas eu acalentava o sonho de voltar para o Brasil. Tinha muita, muita saudade da minha família. E mesmo sendo bem quista, continuava sendo estrangeira. Cheguei a brigar na escola com uma menina xenófoba. Em suma, o exílio não era só glória, também havia aqueles que não iam com a sua cara porque você era brasileira e, pior ainda, filha de comunista.</p>
<p>Voltamos para o Brasil em 1975, ainda durante a ditadura. Para minha enorme decepção, foi quando a coisa realmente ficou horrível. A começar, não podia dizer quem eu era. Tinha que mentir que meu pai havia morrido num acidente de automóvel e que éramos uma família de diplomatas, daí morarmos no exterior. Se alguém perguntasse mais alguma coisa, mudava de assunto. </p>
<p>Pra completar, em 1974 teve a Revolução de Abril, em Portugal, que acabou com a ditadura do Salazar e libertou as colônias. Um momento histórico maravilhoso, sem dúvida, porém que redundou na vinda a São Paulo de levas de direitistas egressos tanto de Portugal quanto da África.  Ou seja, não só eu não podia contar quem eu era, como tinha que aguentar na minha classe angolanos, moçambicanos e portugueses brancos de extrema direita, que eram vistos como “os coitadinhos obrigados a abandonar suas casas por culpa dos comunistas”. E havia aquele clima opressivo de ditadura, que é tão difícil de explicar para quem não viveu.  Esse “não poder dizer quem se é” fica terrivelmente entranhado na gente.</p>
<p>Logo minha mãe passou a escrever no Movimento e no Em Tempo, que eram jornais de esquerda. A AAB (Aliança Anticomunista Brasileira) mandou para ela cartas ameaçando a mim, caso não parasse com a militância. Então ela achou por bem me botar numa escola de rico, acreditando que ali eu estaria protegida. E lá fui para o Nossa Senhora do Morumbi – antigo Des Oiseaux – um colégio de freiras onde o pesadelo bateu o auge, porque convivi com a juventude  do milagre brasileiro endinheirado, para quem a ditadura era uma glória. Enfim, eu era a pessoa errada no lugar errado.  </p>
<p>No primeiro colegial me transferi para o Colégio Palmares, que pelo menos era uma escola de esquerda, onde os professores sabiam mais ou menos quem eu era, o que facilitou muito minha vida. Lá eu estudava com os filhos da Dodora, o André e a Priscila Arantes. Mas a gente sequer se cumprimentou no intervalo ao longo dos dois anos em que estudei lá! Eram tão sérias as regras de segurança, era tanto o medo, que nunca trocamos uma palavra. Inclusive, eu evitava contato para não ser vista perto deles, e vice-versa, acho eu. Convém deixar claro, eu não me sentia perseguida. Eu me sinto, até hoje. </p>
<p>Mas as obrigações dessa quase clandestinidade não eram uma imposição. Era uma questão de sobrevivência. Em Cuba, por exemplo, eu tive nome falso, Sofia, e passava por portuguesa. De tal forma que – eu descrevo esse episódio no filme 15 Filhos – eu fui capaz de encontrar meu pai no elevador do hotel em que morávamos e fingir que não o conhecia. Eu tinha apenas 5 anos de idade. No hotel, quando as pessoas falavam comigo em português, eu respondia em espanhol. Na época, tudo isso me parecia muito natural.</p>
<p>Mas voltando ao Brasil, o fato é que sobrevivi. Mas é difícil avaliar o quanto isso custou&#8230; Eu era menos alegre que os meus colegas, não conseguia ter aquela coisa que brasileiro tem, de abraçar todo mundo. Sentia-me terrivelmente francesa. Primeiro, porque de fato tinha uma formação europeia, mais reservada fisicamente. Segundo, não entendia da onde vinha aquela alegria toda. Para mim era inconcebível como as pessoas podiam estar risonhas, felizes, tão abertas umas com as outras! E assim eu fui me sentindo ainda mais excluída, porque não dava conta de ser tão feliz quanto eram as pessoas ao meu redor. Eu era aquela que estava sempre de cara fechada. E isso me era cobrado: “Por que você é tão tristinha?”.</p>
<p> E assim fui tocando a vida até que engravidei da minha primeira filha, a Cleo, em 1991. Foi quando senti a urgência de recuperar a história do meu pai. Não foi a primeira vez que fizemos essa tentativa, claro. Por volta de 1977, estimulada pelo exemplo da família de Vladimir Herzog, que havia entrado com um processo contra o Estado, minha mãe procurou um advogado para provar que meu pai também fora assassinado. Mas este advogado nos disse que pelas vias da justiça criminal isso nunca seria possível, porque faltavam testemunhas. Ou seja, continuei com o atestado de óbito de um suicida, no qual constava que meu pai se enforcara com uma gravata fantasia no Hotel Pirajá. Continuei a carregar comigo a mentira oficial, literalmente. </p>
<p>Quando fiquei grávida da minha Cleo, surgiu desejo de recuperar a história da família. Cheguei a conhecer o malfadado Hotel Pirajá, que se tornara uma pensão. A pesquisa resultou num projeto de filme, no qual contaria a história do meu pai: Procura-se uma Testemunha era o título. Mostrei o roteiro para meu querido padrinho Juca Kfouri, que deu a dica: o mais interessante seria contar a história para os jovens, que ignoravam o que acontecera durante a ditadura militar. Engavetei o projeto, mas o roteiro acabou sendo útil como o primeiro passo para a realização do dossiê sobre meu pai, que anos depois encaminhamos para a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. </p>
<p>A criação dessa Comissão Especial, em 1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso, marcou uma nova etapa da recuperação da verdade: ganháramos um foro para avaliar os crimes cometidos pelo Estado, num regime de exceção. Logo depois de os integrantes serem nomeados, tornou-se necessária uma pressão pública para que sua atividade fosse efetivada. Aliás, como está acontecendo em relação à Comissão da Verdade, com as devidas diferenças: a sociedade pressionando o governo por resultados. </p>
<p>Assim foi que a minha mãe organizou um evento na UNICAMP, “A Revolução Possível”,  para acender o debate. Estavam lá organizações de direitos humanos, familiares dos mortos e desaparecidos, ex-guerrilheiros etc. Eu fiquei a cargo de montar uma mesa para debater a questão dos filhos. O que era um problemão, porque eu só dispunha das minhas memórias de infância. Quem tinha o que dizer eram nossos pais, que haviam optado pela luta e poderiam fazer um balanço da situação.</p>
<p>Foi aí que entrei em contato com a Maria Oliveira, filha de um casal de ex-presos políticos, Eleonora Menicucci e Ricardo Prata. Maria e eu éramos do mesmo grupo de amigos, a gente já tinha até passado férias na Bahia, na mesma pousada. Os amigos comentavam em baixa voz, para mim, que ela tinha uma história parecida com a minha.  E eu sabia, pela minha mãe, que era filha de presos políticos. Do lado da Maria, acho que foi a mesma coisa. Mas, entre nós, nunca tocamos no assunto.  O engraçado é que os amigos ficavam discretamente espiando quando a gente conversava, para ver se saía “aquele” assunto, e as duas mudas. Porque essas coisas de clandestinidade, de sigilo, elas colam. Não tem como sair falando.</p>
<p>Mas enfim, quando surgiu a necessidade de organizar a mesa para debater a questão dos filhos, fui procurar a Maria porque a gente “tinha aquela história em comum” e ela trabalhava efetivamente com cinema. Decidimos gravar depoimentos de vários “filhos” e depois editar para, quem sabe, juntando as memórias, que a gente conseguisse passar para as pessoas da plateia algo que resultasse no retrato de uma experiência comum – que nós mesmas não sabíamos qual era, pois cada uma vivera “aquele história” no mais absoluto isolamento. </p>
<p>Mas uma coisa era certa: todo mundo tinha as suas memória de infância. Contudo, a memória é uma coisa tortuosa e nem eu, nem a Maria, íamos sentar diante da plateia para falar das nossas pequenas lembranças. Era necessária uma síntese. O primeiro passo foi fazer uma autoanálise: o que, das nossas infâncias, tinha a ver com a opção política dos nossos pais?  Ou seja, nós tentamos descobrir o que era específico da nossa experiência sendo a Maria filha de ex-presos políticos e eu de um guerrilheiro assassinado, que vivera o exílio.</p>
<p>O pessoal da Comissão dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, sobretudo a Amelinha e a Crimeia, nos ajudou a contatar outros “filhos”. Gravamos com quem pôde ir nos dois dias  de estúdio que a Maria conseguiu emprestado.  Optamos por fundo neutro e exibir em preto e branco, para uniformizar ao máximo a imagem, aplainando as diferenças de tipo físico, cor da roupa, cenário de fundo etc. A proposta foi anular as diferenças para destacar as falas e, assim, constituir um corpo de depoimentos capaz de reproduzir uma experiência comum. E aí saiu o 15 Filhos, o filme que não era pra ser filme, que foi exibido em março de 1996 na UNICAMP, e depois percorreu o mundo e ganhou prêmios.</p>
<p>Eu comecei este depoimento falando sobre a dor, o trauma, o buraco. O 15 Filhos foi o momento no qual os “filhos” descobriram que tinham uma experiência coletiva. Faziam parte da mesma tribo. Para mim, foi o primeiro passo em busca da minha identidade, porque ficava sempre a dúvida: eu era “tristinha” porque nasci assim, ou como resultado da clandestinidade, exílio etc.? É muito difícil separar o que é da índole e o que é da vida. Tem gente que é tímida. Tem gente que é bom aluno. Você não é tímido e bom aluno porque o teu pai morreu na tortura, entendeu?  </p>
<p>Quer dizer, qual era a minha identidade? O que era meu e o que era da história?  Realizar o 15 Filhos ajudou muito. E acho que foi um passo importante para entender que a gente, apesar de não ser ativa na história – a gente era “filho” –, temos um legado difícil de administrar, exatamente porque ele independeu da nossa escolha.  Na verdade, o 15 Filhos foi um tremendo alívio. Pelo menos para mim, toda vez que assisto o filme fico alegre, é uma angustia a menos: “Ok, eu não estou mais sozinha. Eu faço parte desse grupo. Essa é a minha turma”. Não sou o único ET. Têm vários etezinhos espalhados por aí.</p>
<p>Mas é um processo. E se nem todo processo é lento, esse em todo caso o foi, e ainda está em curso. Após mais de trinta anos de terapia, descobri que carrego em mim dor e violência que não consigo processar. Tendo a crer que ter vivido uma infância assombrada por uma instância arbitrária a ponto de matar meu pai, me expôs a uma tremenda fragilidade e potencializou todos os medos.  E talvez a pior sequela dessa violência seja a própria violência que sinto em mim agora.  A verdade é que eu não aceitei o que foi feito à minha família. Se engoli, não digeri. </p>
<p>Hoje, leio minha dor e minha tristeza no olhar das minhas filhas, toda vez que entro em erupção. Tanto, que não precisou muito para convencê-las a participar comigo das Clínicas do Testemunho. E para mim é muito importante que elas ouçam os depoimentos de outras pessoas do grupo de terapia como forma delas me entenderem, da mesma forma como eu preciso do olhar delas para me entender. </p>
<p>Outro dia minha filha caçula, Sofia, me mostrou a biografia do advogado e poeta Luiz Gama, que estava lendo para a escola. Ali consta que a mãe do Luiz Gama mantivera a religião africana, recusando-se a ser batizada. Era uma revolucionária nata, aliou-se à Revolta dos Malês e à Sabinada. Quando Luiz Gama tinha cerca de 10 anos de idade, ela foi deportada para o Rio e, ao que parece, presa quando fazia um ritual de candomblé. Desde então desapareceu, junto com os demais participantes do ritual.  A verdade é que desaparecido político, nesse país, tem faz tempo. Mas Luiz Gama logrou superar a dor e foi ser advogado, mesmo sendo negro em tempos de escravidão. Se hoje não é fácil, imagina naquele tempo? </p>
<p>Mas porque estou falando da questão da violência nestes termos? Porque a violência, para nossa sociedade, não é um detalhe. A cada geração somam-se os “desaparecidos” da repressão gerada por um Estado que tem por prática perpetrar o terror, de uma polícia que tortura e some com as pessoas, e o pior é que muitas vezes o policial também é negro, também é bisneto de escravo e carrega dentro de si uma violência que ninguém, no fundo, consegue engolir, quem dirá digerir. E assim vamos, tentando ser felizes. Afinal, não é o samba filho da dor?</p>
<p>Essa é, acho eu, a natureza profunda da violência que está aí a nos assombrar. E é por este motivo que eu acredito que vale a pena falar disso para vocês. Porque se eu não visse em mim o horror&#8230; Talvez não conseguisse entender as suas raízes em nossa sociedade.  E acredito que é algo que merece ser olhado, a fundo, se pretendemos fazer do Brasil um país melhor para se viver.</p>
<div style="background-color:#f1edd1; padding: 30px;">Marta Nehring nasceu em São Paulo, em janeiro de 1964, filha de Norberto Nehring e Maria Lygia Quartim de Moraes. Estudou literatura e cinema, trabalha como roteirista de cinema e televisão.</div>
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<div style="background-color:#f1edd1; padding: 5px 30px 30px 30px;">
<h4>Norberto Nehring</h4>
<p>Nasceu em 20 de setembro de 1940, em São Paulo (SP). Era o filho mais velho de Walter Nehring e Nice Monteiro Carneiro Nehring. Morto em 24 de abril de 1970. Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN).<br />
Era economista e professor da Universidade de São Paulo. Maria Lygia Quartim de Moraes, sua esposa, escreveu uma pequena biografia a seu respeito:</p>
<p><em>Norberto ficou órfão de pai muito cedo, mal chegara aos 4 anos. Foi criado, assim como seus dois irmãos menores, pela mãe e pelos avós maternos (&#8230;)</p>
<p>Uma pessoa marcante na sua adolescência foi um vizinho, judeu-comunista e empresário, Simão, que lhe revelou as atrocidades nazistas e o despertou para a causa do socialismo. Norberto sempre foi interessado e aplicado. Estudou nas boas escolas públicas da época. Terminando o ginásio, optou por um curso técnico de química industrial no Mackenzie que lhe possibilitasse trabalhar enquanto seguiria os estudos universitários à noite.</p>
<p>Norberto foi meu primeiro namorado, aos 16 anos. Juntos começamos a participar da vida intelectual nos primeiros anos da década dos sessenta (&#8230;)</p>
<p>Em 1963, começa nossa vida adulta: Norberto já trabalhava, entramos ambos na USP (ele, Economia, e eu, Ciências Sociais) e nos casamos. Em janeiro de 1964 nasceu Marta (&#8230;)</p>
<p>Mas 1964 também trouxe tristezas: o golpe militar de 1º de abril. (&#8230; ) Tínhamos ingressado no PCB assim que entramos na faculdade.</p>
<p>Filiei-me primeiro, o que era fácil, na medida em que a esmagadora maioria dos meus colegas já pertenciam ao PCB. Na Faculdade de Economia as coisas eram bem mais complicadas: a esmagadora maioria do corpo docente era de direita. (&#8230;) Foi através do marido de uma colega minha, que por coincidência era colega de Norberto, que o contato com o PCB concretizou-se (&#8230;)</p>
<p>Norberto militou no PCB até a ruptura do grupo Marighella – passou, então, a fazer parte do grupo que trabalhava diretamente com Joaquim Câmara Ferreira, “Toledo” ou “Velho”, na coordenação da ALN em São Paulo.</p>
<p>(&#8230;) Especialmente dotado para matemática, Norberto se distinguiu na faculdade recebendo várias ofertas para ser instrutor (&#8230;)</p>
<p>Uma vez formado na USP (&#8230;), começou imediatamente a trabalhar em planejamento econômico, no Grupo de Planejamento Integrado – GPI, um dos primeiros do gênero, formado por economistas e arquitetos competentes (&#8230;)</p>
<p>Ao mesmo tempo, sua militância na ALN intensificava-se. Integrava o grupo da “casa de armas”, dado seus conhecimentos de química e a enorme confiança pessoal que nele depositava a coordenação da organização (&#8230;)</p>
<p>Na manhã do dia 7 de janeiro de 1969 uma cena insólita perturbou a tranquilidade da vila em que morávamos: nossa casa foi cercada por um grupo de policiais do DOPS, que levaram Norberto preso. Logo que foi solto, após mais de dez dias na carceragem do DOPS, Norberto “passou para a clandestinidade” sabendo que voltaria a ser preso e torturado como aconteceu com todos os acusados do mesmo caso.</p>
<p>Muitos dos acusados estavam sendo brutalmente torturados e houve uma tentativa de suicídio numa tarde em que fui visitá-lo. Além da equipe do DOPS, Norberto foi interrogado por um “polícia federal”, que já gozava de grande consideração entre os torturadores do DOPS, e que veio a se tornar muito conhecido no país: Romeu Tuma.</p>
<p>Em abril de 1969, Norberto saiu do país com destino a Cuba. Marta e eu fomos ao seu encontro alguns meses depois. Ele retornou ao Brasil em abril de 1970, depois de uma estada em Praga, desembarcando no aeroporto do Galeão. As circunstâncias exatas de sua morte nunca puderam ser estabelecidas (&#8230;)</p>
<p>Ficamos sabendo da morte de Norberto na França, através de mensagem que recebi de Toledo, segundo a qual, no dia 24 de abril, um caixão teria saído da OBAN carregando Norberto, morto na tortura, nas mãos da equipe do delegado Fleury. Um dos documentos encontrados nos arquivos do DOPS/SP é uma nota à imprensa, assinada por Romeu Tuma, confirmando a versão oficial de suicídio (&#8230;)</em></p>
<p>A versão oficial é de que se suicidou, enforcando-se com uma gravata no quarto que ocupava no hotel Pirajá, então conhecido bordel de policiais no centro de São Paulo. Não foram encontrados a perícia de local, o laudo necroscópico nem as fotos do corpo.</p>
<p>A versão de suicídio consta no inquérito feito pelo delegado Ary Casagrande, onde há um bilhete que Norberto fizera à família. Buscando esclarecer os fatos, seu sogro foi até o hotel e lá soube que ali ninguém se suicidara. O próprio inquérito contribui para desmentir a versão oficial. Na requisição de exame, consta que teria se afogado, e no laudo necroscópico ali citado, mas nunca localizado, consta a informação de que a morte se dera por asfixia. Norberto foi enterrado com nome falso no Cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, mas a família foi comunicada apenas três meses depois. Após a exumação do corpo, realizaram seu reconhecimento por meio da arcada dentária, comprovando sua identidade. Seus restos mortais foram transferidos, então, para o jazigo da família.</p>
<h4>Maria Lygia Quartim de Moraes</h4>
<p>Nasceu em São Paulo (SP), em 18 de maio de 1943. Aos 8 anos de idade conheceu Norberto Nehring que foi seu maior amigo e primeiro namorado. Em 1963 casaram-se e iniciaram suas vidas universitárias. Ela cursou Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) (1963-66) e ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) também em 1963. </p>
<p>Marta, única filha do casal, nasceu em janeiro de 1964, antes do golpe de Estado que viria a mudar radicalmente a vida do país e de seus pais. O casal integrava a Ação Libertadora Nacional (ALN) e, em janeiro de 1969, Norberto foi preso vindo posteriormente a fugir do país. Em julho do mesmo ano, Maria Lygia e Marta foram se encontrar com ele em Cuba onde permaneceram por quase uma ano. Norberto foi preso e morto ao regressar ao Brasil, em abril de 1970.</p>
<p>Marta e Maria Lygia viveram no Chile até o golpe de Estado que derrubou Salvador Allende e depois foram viver na França. Retornaram ao Brasil em julho de 1975. </p>
<p>A partir de então, Maria Lygia adotou o nome de Maria Moraes e ajudou a criar o jornal feminista<br />
Nós Mulheres. Também foi jornalista na publicação O Movimento e uma das fundadoras do jornal<br />
Em Tempo.</p>
<p>Doutorou-se em Ciência Política pela USP (1982) iniciando sua carreira como professora universitária na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi professora da UNESP-Ar e ingressou  na UNICAMP em 1993.<br />
Publicou livros, capítulos de livros e artigos no país e no exterior. A partir de setembro de 2013, preside a Comissão da Verdade e Memória Octavio Ianni da UNICAMP. </p></div>
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